Os sinos da agonia, de Autran Dourado

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  • A história de Malvina e Gaspar, que se passa no fausto da Vila Rica do século XVIII, fez com que Os sinos da agonia, obra lançada em 1974, de Autran Durado, fosse considerada, por um lado, um romance histórico e, por outro, uma metáfora da situação política do Brasil sob a ditadura. Mas Autran Dourado estava, no entanto, menos preocupado com a recriação romanesca de uma época ou com o simbolismo social ao se dedicar, em um ano e meio de elaboração, a um exercício de estilo original que faz dialogar o universo barroco mineiro com a tragédia grega.

    Do primeiro, ele toma a ambientação histórico-social e, também, a caracterização dos personagens. Bela, pobre e ambiciosa numa sociedade próspera que já conhece seus primeiros momentos de decadência, a jovem Malvina vê no casamento uma saída para a vida sem horizontes na casa paterna. Porém, a união com o velho e poderoso João Diogo Galvão vai representar menos redenção do que danação a partir do momento em que ela se apaixona pelo enteado, Gaspar.

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    Da tragédia clássica vêm os arquétipos deste amor incestuoso: Malvina é, como afirma o próprio Autran, uma recriação de Fedra, personagem-título da tragédia de Eurípedes que também foi narrada por Racine. Prosseguindo neste paralelo, Gaspar é Hipólito e João Diogo, Teseu. “Os mitos da Antiguidade Clássica continuam existindo na medida em que, se você afasta um mito da sua vida, o lugar dele não é ocupado pela razão, mas sim substituído por outro mito”, afirmou Autran ao justificar sua opção estética.

    A narrativa é dividida em quatro “blocos” — “A farsa”, “Filha do sol, da luz”, “O destino do passado” e “A roda do tempo” — que correspondem aos atos do teatro grego. O desenvolvimento, marcado pela morte como fim inexorável, é pontuado pelo dobrar dos sinos — o que na Minas Gerais da época obedecia a todo um código, sendo possível interpretar os fatos a partir de seus toques.

    “Os sinos da agonia como título de uma obra simbólica é também simbólico”, afirma Autran, explicando, ainda, que o toque da agonia consistia em sete pancadas longas e pausadas, para que todos pudessem rezar pelo condenado em seus intervalos. Uma lenta aproximação com a morte que pode ser a de seus personagens e, também, de todo um intenso período da História do Brasil.

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    Através da temática de amores impossíveis, Autran Dourado, recria a Vila Rica no iminente declínio do ciclo do ouro, trazendo informações históricas sobre o peso e crueldade da escravidão, a estupidez da nobreza racista, a corrupção do Estado e ainda, alusões a Inconfidência Mineira.

    A mesma história é contada sobre três perspectivas diferentes, o que obviamente proporciona o prazeroso preenchimento dos espaços deixados, revelando a habilidade técnica do autor ao transformar uma cena já conhecida em algo novo e misterioso. Parece que através das palavras, somos galinhas guiadas através de grãos de milho a uma mesma armadilha, pelo mesmo terreiro, mas por caminhos diferentes.

    No primeiro momento, quando a história é construída sobre a perspectiva de Januário, através de vozes e recordações guardadas na sua memória, a narrativa exige cautela. Segue ligeira e por isso, muitas vezes precisei parar, pensar como que tinha chegado naquele assunto, e voltar algumas páginas com a curiosidade de descobrir o caminho traçado. É como tentar recompor um sonho, uma conversa com amigos que sai constantemente dos trilhos ou tentar relembrar o caminho de volta após caminhar por uma cidade desconhecida sobre o fascínio da descoberta. As mudanças de assunto são frequentes e repentinas, sem qualquer aviso, o tempo presente mistura-se com lembranças, com acontecimentos do passado, delírios, sonhos e previsões futuristas.

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    A partir do segundo capítulo a narrativa parece ser mais fácil. A história segue linear, existem subdivisões de capítulo que servem para o leitor respirar e já se sentir avisado quanto as possíveis mudanças na narrativa. Porém a técnica continua a mesma, só que desta vez, passa-se quase que imperceptível e não há o sentimento de estar perdido. No segundo capítulo, Autran nos dá uma importante pista quanto a sua técnica: “Passado e futuro eram uma só memória, pasto do tempo presente” (p. 171). No terceiro, existe um momento em que, aparentemente, a narrativa tem ares de incoerência, onde, utilizando-se de uma conversa com o mito de Tirésias, o dedo do autor fica explícito, na tentativa de aprofundar e explicar uma vontade de compreensão. Aparentemente.

    Em Os sinos da agonia, Autran Dourado construiu uma perfeita rede de proteção que inspira confiança a qualquer trapezista, um impecável sistema de segurança em que as supostas falhas se transformam em qualidade. Usando o artifício da história ser contada através dos burburinhos e fofocas da cidade de Vila Rica, surge a liberdade para a democratização de informações que seriam restritas a apenas um personagem. Por mais de uma vez, Autran avisa “As paredes têm ouvido”.

    Para compreender as minúcias da trama é interessante questionar o título da obra. A forte presença dos sinos na obra, inclusive, no título do romance nos faz pensar sobre o que este símbolo pode representar dentro dela. Os sinos, de acordo com a simbologia, são comumente representativos de alegria e liberdade. O formato do sino está ligado à câmara do paraíso. O movimento do pêndulo do sino pode representar os extremos do bem e do mal, morte e imortalidade. Mas eles também integram os rituais de exorcismo e excomunhão, assim como o mecanismo para chamar à aglomeração. Seu som é símbolo de poder criativo, mas também pode ser um chamado às armas. É o símbolo de enunciação de um momento decisivo. Pode ser o sinal do inconsciente para lhe preparar para o que está
    acontecendo. Em todos os momentos decisivos da trama os sinos estão badalando:

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    De novo os sinos
    Uma, disse Malvina ao ouvir a primeira pancada do sino-mestre do Carmo
    Malditos sinos, que antes apenas a enervavam, enlouqueciam um cristão
    O sino batia longe, tão longe que (…)

    Eles estão prenunciando o momento derradeiro dos personagens. Os personagens estão sempre oscilando entre o bem e o mal, entre o moral e o imoral. Aliás, a expressão que aparece no título do livro “sinos da agonia” é explicada na própria narrativa, são as badaladas tradicionais do local quando uma pessoa está agonizando.

    Os sinos da agonia só param de badalar quando a pessoa morre:

    Reza, pediam reza. Alguém que ia morrer, não morria. Carecia de reza, muita reza. Não ela, alguém agonizando

    São as sete pancadas da agonia, disse ela

    Não podemos ignorar estes sinos como metáfora da agonia dos personagens da trama. Todos eles vivem uma agonia, algo de muito grave está para acontecer. No caso de Malvina, sua agonia a levará, de fato, à morte.

    Apesar de existirem muitos estudos sobre o caráter trágico da obra e suas relações com o mito, podemos levantar um caráter romântico no texto estudado. Se analisarmos os episódios envolvendo Malvina e seu amor, que acaba se tornando doentio e o fato de Malvina ter cometido o suicídio em razão das recusas de Gaspar, somos levados a associar à obra um caráter romântico. O romântico julga-se centro do universo e o ego representa seu grande pólo de interesse, a ponto de ver, na natureza e no universo, meras projeções de seu mundo interior:

    Vaidosa e interessada em si mesma

    O Romantismo, além de outras coisas, é um estado de espírito. E, nesse sentido, há resquícios românticos nas mais variadas obras em toda a Literatura Brasileira. Nossa Literatura sofreu forte influência deste movimento que pode ser percebido até os dias de hoje. No amor romântico o ser amado é parte de sua subjetividade, para que se possa viver deve-se preservar sua integridade, portanto se não é correspondido, o romântico está incompleto e prefere a morte. Quando Malvina percebe que apesar de suas armações não receberá o amor de Gaspar ela se mata:

    por que aquele primeiro encontro, o amor, que ela julgava uma dádiva de repente caída do céu, era um destino há muito traçado, do qual não podia fugir

    Siá Malvina se matou

    É a ideia romântica da morte como redenção, como liberdade para seus sofrimentos. A morte para os românticos não é um mal, torna-se salvação, uma maneira de libertar-se. Neste sentido Malvina se liberta de seu destino trágico em que ela buscou o amor e encontrou a desgraça.

    Porém, na obra há uma insistência nesta questão do destino que para românticos não tem relevância, está mais associada ao trágico, mas não podemos deixar de perceber que há uma ideia romântica na obra, apesar de não ser tão forte quanto a trágica, já amplamente discutida em trabalhos acadêmicos. Marisa Silva e Vicente de Oliveira entendem a obra como “romântica”, no sentido de corresponder à mistura de gêneros, em razão da liberdade que os românticos pregavam e por dar voz aos personagens mais humildes como Inácia e Isidoro.

    Aliás, o caráter trágico citado acima é um fator relevante para a compreensão da obra, além de sua relação com o mito de Fedra. Sobre este tópico existem muitos estudos, dentre eles, o texto de Maria Lúcia Lepecki, consultado para a realização deste trabalho. Lepecki aponta as relações desse romance com o mito de Fedra (LEPECKI, 1976), em sua abordagem, aponta as relações de certos personagens com as Parcas, Tirésias, Fedra e Hipólito. Na verdade, segundo outros estudiosos da obra, Marisa Corrêa Silva e Vicente Soares de Oliveira, já referidos acima, todas as personagens pertencentes ao núcleo aristocrático, que corresponde à elite da época, da narrativa podem ser relacionados ao mito de Fedra e seus antecedentes. O autor Autran Dourado, em entrevistas e em seu livro sobre sua criação, explica que boa parte da trama do romance foi originada no mito de Fedra.

    Foco narrativo

    A narrativa é dividida em quatro blocos. Cada bloco possui um foco narrativo distinto, apesar de o narrador ser sempre o mesmo e contar a história em terceira pessoa. O foco da narrativa é, na primeira parte do texto, centrado na figura de Januário, mameluco e bastardo, filho de um rico fazendeiro com uma escrava. Esta bloco conta a paixão de Januário por Malvina e sua fuga após assassinar o marido da amada:

    Bugre, diziam quando queriam ofendê- lo. E ele saltava como uma onça pintada (…)

    Bugre e bastardo, filho das ervas, as duas chagas de sua alma

    Alguma coisa devia ter acontecido depois que ela lhe mandou a carta, pensava. Ela não pode foi avisar. Alguém o tinha visto, foi delatar. Como foi que souberam que ele ia voltar?

    Neste bloco fica clara a paixão de Januário por Malvina e seu sentimento de inferioridade em relação a ela e aos demais aristocratas, pelo fato de ele ser um mestiço, filho bastardo de um homem de posses. Aqui ficamos sabendo as fraquezas de Januário, e entenderemos como Malvina consegue manipulá-lo, apesar de o personagem ser apresentado como um homem rude, ele se deixa enredar por aquela que ele chama inicialmente de filha do sol.

    No segundo bloco, o foco é centrado inicialmente em João Diogo Galvão e em seu filho Gaspar; depois, e mais profundamente, em Malvina:

    Assim, apesar dos seus vinte anos, Malvina era paciente tecedeira, Mariana virava uma sombra perto dela

    Vendo os olhos da filha mais nova, dona Vicentina disse não é pra você, Malvina. É a vez de Mariana (…)

    Na passagem abaixo temos o primeiro encontro de Malvina e seu enteado, a partir de seu ponto de vista:

    Gaspar saiu do quarto. Malvina estava na sala, junto da janela, quando ele surgiu na porta do corredor. Não entrou logo, e os seus olhos percorreram atentos tudo ao redor (…) Rente à cortina, Malvina procurou se esconder, assim podia vê-lo sem ser vista. (…) Tão interessada em saber se ele aprovava a sua obra, não pode reparar como era mesmo o filho de seu marido, teria enorme tristeza se ele não aprovasse. (…) E mesmo trêmula e atônita conseguiu avançar para ele, lhe segurou o braço e imperiosa disse não!

    Nesta passagem percebemos que a vaidade de Malvina é que comanda seus atos, ela queria ser aprovada, podemos até supor que ela tentaria seduzi-lo apenas para alimentar seu ego. Este pequeno trecho já nos faz compreender um pouco mais acerca da personagem. O mesmo episódio será contado sob o ponto de vista de Gaspar na bloco seguinte. A segunda bloco narra ainda o casamento de Malvina com João Diogo realizado por interesse, principalmente da parte dela que queria sair da pobreza:

    Não ela não moraria por muito tempo naquela casa acachapada e terreira, sem comodidades, com a nudez dos pobres”, são narrados também os antecedentes das duas famílias; o amor de Malvina pelo enteado assim que o conhece; as armações da moça para persuadir Januário a cometer o crime. Aqui conhecemos a índole de Malvina, pois percebemos que ela planeja todos os passos que dá, tendo seduzido João Diogo intencionalmente a fim de “roubá-lo” da irmã, que era sua prometida inicialmente. Na página 76, o narrador se refere à Malvina como “paciente tecedeira”, o que de fato percebemos que ela é, pois cada atitude que toma, o faz com interesse.

    No terceiro bloco o foco volta a se aproximar de Gaspar, recontando os meses passados enquanto João Diogo era vivo, o encantamento do enteado pela madrasta, sua recusa em agir contra seus princípios, seu conflito interior ao perceber que Malvina estava apaixonada por ele e sua decisão de se afastar da madrasta após a morte do pai. Na passagem abaixo temos o episódio em que Gaspar e Malvina se vêem pela primeira vez, contado na perspectiva dele:

    Uma cortina se moveu e ele disse é o vento, não viu ninguém. Assim sozinho podia ver a sala a vontade (…) Ela tinha gosto não podia nega r. (…) Súbito aquele grito. Ela disse não! e a mão lhe apertando o braço, segurando-o

    Neste bloco, temos mais detalhadamente o ponto de vista de Gaspar, conhecemos sua índole, e seu conflito ao perceber que está se apaixonando pela esposa de seu pai.

    No quarto bloco, o foco segue inicialmente em Malvina, em seu desespero, a paixão não correspondida que a leva à loucura; depois, Gaspar, acompanhando as últimas maquinações da madrasta, que comete suicídio e acusa a si própria e ao enteado pela morte do marido, remetendo uma carta de despedida ao Capitão-General; o foco passa por Isidoro, escravo de Januário, que acompanha seu senhor na volta a Vila Rica; e por fim o foco volta a fechar em Januário, em seus últimos momentos, morto num confronto com a polícia:

    Mesmo acordado, Januário continuava de olhos fechados (…) As coisas agora faziam sentido. As ligações, as raízes subterrâneas vinham à tona. Tudo aquilo que não pode, não quis ver. (…) Malvina é que tinha a ponta dos fios, a agulha, ele era um joguete nas mãos dela

    Só então neste momento é que Januário se dá conta de que fora usado por Malvina e a vê, não mais como filha do sol, e sim filha do demônio, ou seja, seu ponto de vista dos acontecimentos se modifica e ele percebe coisas que inicialmente não se dera por conta.

    Existem duas questões importantes a serem elencadas sobre o discurso de Autran Dourado, a primeira questão é o ponto de vista que se modifica ao longo do texto através do foco dado aos personagens, a segunda questão é o posicionamento do narrador. Em todas as blocos existe uma espécie de simbiose entre o narrador e o personagem, a ponto de em alguns momentos não podermos distingui- los. Apesar das marcas do discurso indireto, e da predominância da narração em terceira pessoa, o texto pode ser lido transposto para a primeira. Este recurso narrativo alternando os pontos de vista a partir de um narrador “colado” às personagens é ideal para o efeito que o autor quer criar, dando a sensação de que estamos vendo a história acontecer. A presença de um narrador discreto que por meio do contar e do mostrar equilibrados, dá a impressão de que a história se conta a si própria. Daí o desaparecimento estratégico do narrador, disfarçado numa terceira pessoa que se confunde com a primeira. Podemos dizer que em Os Sinos da Agonia há uma visão com, o narrador sabe apenas aquilo que a personagem sabe, vê e sente. Tal recurso é comumente utilizado em romances em que se quer criar um discurso de monólogo interior e fluxo de consciência. O que podemos dizer que ocorre na obra analisada. Os fatos não são contados de maneira objetiva, mas sim a partir da subjetividade do personagem, através de sua
    consciência, do seu íntimo, dos seus sentimentos. Daí uma maior intensidade dramática neste tipo de narração. Num romance com estas características, até mesmo o ambiente é modificado pela interioridade da personagem. Se seu íntimo está inquieto, o ambiente se mostra inquieto, se está alegre, nos parece alegre, afinal os fatos são contados a partir do seu ponto de vista, e o seu íntimo se relaciona com o mundo externo. Na obra em questão podemos observar essa influência do ambiente na disposição anímica das personagens em vários momentos.

    Destacamos um em que Januário observa a cidade de Vila Rica do alto da Serra do Ouro Preto, enquanto reflete sobre seu destino, suas atitudes. A lembrança de Malvina influencia o modo como Januário vê o ambiente ao seu redor:

    (…) Mesmo assim instintivamente se encolheu na sombra mais densa da gameleira que um vento manso e frio começava a farfalhar. O farfalhar seco e gasturoso das sedas e tafetás, quando ela se despia, de dentro deles saltava, que mesmo de longe, afogado no tempo, ele podia ainda sentir nas narinas, nas pontas dos dedos

    Quem fala em Os Sinos da Agonia é a própria personagem, ou seja, é uma terceira pessoa que pode ser lida como primeira, como se narrador e personagens estivessem enredados. O narrador não faz inferências, apenas mostra o que o personagem está sentindo, como ele está reagindo aos fatos em seu redor e por que esta agindo de tal forma: um narrador discreto. Mas em Os Sinos da Agonia, o narrador não é apenas discreto, ele está colado à personagem, refletindo suas ideias. Na obra, o recurso da falsa terceira pessoa é fundamental para a variação do ponto de vista e para esta estrutura composicional da obra que o autor conseguiu criar, pois cada ponto de vista vai conduzindo de maneira diferente o leitor ao desfecho. Ou seja, Dourado opta por utilizar este tipo de narrador ou visão, a fim de conseguir este efeito de história que conta a si mesma, de personagens que se apresentam a si próprios. O personagem conduz a trama através de sua perspectiva no “labirinto” do enredo que vai se construindo no desenrolar dos fatos.

    É como se o narrador se retirasse da cena e deixasse que cada personagem apresentasse seu próprio ponto de vista, sem que jamais uma interpretação fosse dominante sobre as outras. É nesse jogo de vozes que surge a polifonia do texto. Apesar de alguns episódios serem recontados de acordo com o ponto de vista de cada personagem, a história não se torna repetitiva, pois a cada bloco e, portanto, ponto de vista diferente, novas informações são acrescentadas e o leitor vai “juntando as peças” e montando o “quebracabeça”.

    As vozes das personagens não formam uma unidade, mas, ao fornecerem diversas maneiras de enxergar o conflito, formam a construção estrutural de maneira composicional, o que nos leva a comparar a estrutura da obra a um jogo de quebra-cabeças, ou então a um labirinto. O jogo das vozes que compõem a narrativa forma um feixe de perspectivas através da polifonia, de modo que não há verdades, apenas versões, ou seja, temos diversas perspectivas da mesma trama, diferentes verdades de acordo com o ponto de vista que acompanhamos. Cada versão é uma nova história, uma nova realidade ficcional.

    No quarto bloco são apresentadas simultaneamente os três pontos de vistas principais, Januário, Gaspar e Malvina, ou perspectivas, formando o que o autor chama de “roda do tempo”. Podemos dizer, então, que são três interpretações dos mesmos fatos, ou três aspectos distintos sobre a trama que se revelam no decurso da narrativa, através da condução das personagens. E é através deste narrador colado à personagem, praticamente alojado na consciência do personagem fazendo o papel de refletor de suas ideias, que o leitor de Dourado vai juntando os fatos e construindo a narrativa. O narrador não emite opiniões, deixa que as personagens falem por si. E é isso que nos faz compreender os motivos, interesses, a ação interna de cada personagem.

    Em Os Sinos da Agonia os eventos deixam de ser narrados e passam a ser refletidos na consciência da personagem, de modo que o leitor visualiza a realidade ficcional do ponto de vista de um personagem do romance, e não do narrador, assim podemos dizer que o narrador de Dourado usou recursos com a intenção de mostrar. O narrador ultrapassa a neutralidade e se confunde com a personagem. Por isso, é que ao ler os fatos ocorridos no passado percebemo-los como se fossem presente na nossa imaginação, pois são “mostrados” por aqueles que melhor podem representar o ponto de vista de quem vivencia a experiência, ou seja, o próprio personagem. Os desejos secretos, os pensamentos íntimos da personagem nos são revelados pelo estilo indireto livre, criado por Flaubert, que entendia que o narrador na obra deveria estar presente, mas ser invisível. Neste caso, é a própria personagem que apresenta seu pensamento, mas a referência de terceira pessoa é mantida, em uma fusão de vozes entre narrador e personagem, que é o que acontece na obra analisada. Muitas vezes esquecemos o narrador e lemos como se fosse o personagem vivendo sua história, mas se olharmos atentamente o narrador está lá.

    Percebemos que Dourado se utiliza de diversas correntes sobre o papel do narrador e foco narrativo, que se convergem conseguindo criar a tensão necessária para contar esta história. Pois, existem diferentes maneiras de se contar uma história, e Dourado, como vimos, escolheu utilizar recursos para que sua história se contasse por si só, através dos seus personagens, conforme já falamos no decorrer deste texto. Além disso, podemos classificar a obra analisada como um romance de cunho introspectivo, pois com os recursos utilizados há uma preocupação com a subjetividade, a interioridade de cada personagem, acompanhamos
    muitas vezes o fluxo de consciência da personagem.

    Convergência do tempo e memória

    Como já citado, o romance Os Sinos da Agonia, é estruturado em quatro blocos, ou capítulos, nos quais o narrador ausenta-se para dar voz às personagens, que narram cada qual por sua vez, suas lembranças, sua visão e suas expectativas em relação ao mesmo fato, à mesma história: a morte de João Diogo Galvão, rico proprietário de terras, nas Minas Gerais do século XVIII. Malvina, esposa de João Diogo, trama o assassinato do marido para que se tornem reais suas possibilidades de romance com o enteado Gaspar. Para tanto, irá seduzir Januário, que iludido aceita colocar o plano em prática. Os três primeiros blocos são destinados às versões de Januário, Malvina e Gaspar, respectivamente. O quarto bloco, denominado “A roda do tempo”, é destinado a apresentar simultaneamente as percepções dos três personagens, e nele temos o encontro de cada um com seu destino: a morte. É necessário acrescentar que durante toda a obra há o badalar do sino, marca temporal do presente da história, que não deixa os personagens esquecerem de suas dores pela constante repetição das sete pancadas da agonia.

    A primeira narrativa é inaugurada por Januário, que se encontra escondido, próximo à cidade, fugido da polícia e à espera de Malvina. Já na primeira página da obra, o autor nos revela sua intenção de mesclar os tempos, refletidos e revelados pelas consciências das personagens; as ações presentes na memória e o badalar do sino, lembrando o personagem de sua agonia:

    […] ainda doía bulindo dentro dele, como ondas, ecos redondos de volta das serras e quebradas, redobrando, de um sino-mestre tocado a uma distância
    infinita. Dentro dele na memória, agora, ainda, sempre.
    Não agora de noite, antes: nos dias claros que a memória guardava. Não agora que as batidas ritmadas, o tambor dos sapos e o retinir dos grilos
    enchiam os seus ouvidos. Muito antes, quando esticava os ouvidos, alargavaos, buscando adivinhar, reconhecer, ouvir o que aqueles sinos diziam.

    Januário revela-nos fatos, lembranças de sua infância, os acontecimentos que envolvem a morte de João Diogo Galvão e sua situação atual, “preso àquela cidade, àquela rua, àquela casa, àquela mulher de fogo que o seu coração guardava, sufocando-o” e sabendo-se condenado à morte, “como um destino de que ele não podia se afastar, de uma sina de que ele não podia fugir.”

    Isso mistura-se em sua consciência e ele perde a noção real das coisas, tudo é confuso para ele, pois fatos passados, acontecimentos futuros e sensações físicas do presente fundem-se.

    Autran Dourado trabalha os tempos de forma maleável, convergente, sem limites entre passado, presente e futuro.

    Januário, atormentado pela confusão temporal e pelo futuro incerto, revela-nos uma visão limitada, fragmentária dos acontecimentos, é necessário conhecer as outras versões.

    Malvina inaugura o segundo bloco, intitulado “Filha do sol, da luz”, revelando-nos que possuía uma “memória do futuro”. Desde que se descobre apaixonada por Gaspar, procura passar a maior parte do tempo ao lado dele, para depois reviver esses momentos, que são consolos para sua alma atormentada:

    Mais tarde, sozinha na solidão do seu quarto, repassou mil vezes aquele instante. Para gravar bem e depois se lembrar e sonhar. No sonho avançava e prolongava no futuro, inventava o que deixou de acontecer. Depois se lembrava do que inventou, era feito tivesse acontecido. Não queria esquecer nunca os mínimos instantes, gestos e ruídos. 

    Malvina não se conforma apenas em relembrar breves instantes vividos, sonhados ou desejados, ela quer realizá-los, vivê-los no momento presente; por isso trama a morte do marido, acreditando que dessa forma Gaspar se renderia à paixão e ela teria suas expectativas realizadas. Assim, projeta em uma memória futura todos os seus desejos; vivencia um futuro que ela julga deter. Assim Malvina traz para seu presente aquilo que passou e aquilo que ainda virá, fundindo-os e transferindo-os para o leitor, que acompanha sua lenta agonia da espera.

    O seu real é pura transformação, tempo transcorrendo, mas submetido a uma duração interior. Seus desejos não se realizam porque Gaspar, ao contrário dela, possuía um “Destino do Passado”, está preso às lembranças da mãe, recusa-se a viver no mundo que avança para o futuro. Ele também se sente atormentado, lembranças, sensações e medos mesclam-se em sua consciência, pois percebe o que lhe poderia acontecer.

    No quarto bloco, “A Roda do Tempo”, tem-se uma espécie de recorte de cada bloco anterior com o desfecho da história, já anunciado no enredo: Malvina, inconformada com o resultado fracassado de seus planos, encontra na morte a solução para sua agonia:

    Agora era o engenho em disparada, o engenho que ela não soube mais como parar. O engenho enlouquecido de um relógio. O relógio puxava os sinos, trazia as coisas. As coisas aconteciam sem parar. Tudo lhe escapava entre os dedos.

    Gaspar, arrastado pela sucessão de acontecimentos, certo de um erro que não cometeu, aceita seu destino, que também é a morte:

    “Tinha pensado todas as saídas, tudo que aconteceu e ainda podia acontecer. Como sempre esperava, sempre esperou as coisas acontecerem. Mas desta vez era diferente, sabia: não esperava passivamente, tinha feito o que competia, decidido sobre o que não ia fazer.”

    Januário, que de certa forma já se sentia morto, entrega-se também ao seu destino:

    “Faz tempo que ele estava morto”.

    Resumo

    O romance conta a história de uma família de proprietários de terras, os Galvão, na Minas Gerais do século XVIII. A história não é contada em ordem cronológica, mas para facilitar o entendimento, faremos um breve relato do enredo na ordem em que os fatos acontecem. Valentim, pai de João Diogo, morre do coração ao receber a notícia equivocada da morte do filho, que assim herda seus bens. João Diogo se casa e tem um único filho, Gaspar, que é descrito como um rapaz diferente por ser casto e gostar da solidão, isolando-se constantemente. Viúvo de Ana Jacinta, João Diogo resolve se casar de novo e passa a cortejar Mariana, filha de uma família de Taubaté, gente vinda da “nobreza”, porém falida e, portanto, o casamento seria conveniente. Os pais da prometida, Dom João Quebedo Dias Bueno e D.

    Vicentina, têm mais dois filhos; Donguinho, insano, caracterizado por seu comportamento animalesco, fruto de uma relação extraconjugal da mãe, vive preso num quarto; e Malvina, a caçula, linda, porém sem escrúpulos. Malvina que é uma moça muito ambiciosa resolve seduzir João Diogo e obtém sucesso em seu plano, em detrimento da irmã mais velha, que vai para o convento. Inicialmente o casamento é bem sucedido, João Diogo faz as vontades da jovem esposa e ela cumpre suas obrigações matrimoniais. Mas, quando Gaspar volta de uma de suas caçadas, os dois acabam se apaixonando. Porém, em função do caráter idôneo de Gaspar, Malvina sabe que precisará tirar João Diogo do caminho, pois o filho jamais trairia o pai. Então formula o plano que levará Diogo à morte. Engana e seduz o mameluco Januário e o convence a matar o marido. Sua fiel mucama Inácia, que é também sua confidente, facilita o adultério com Januário.

    Com a morte de João Diogo, Januário tem a fuga facilitada pelo pai, que lhe dá o escravo Isidoro para que o acompanhe. Januário é enforcado em efígie, o que corresponde, simbolicamente, à sua morte oficial. Assim, Malvina se vê livre de Januário e João Diogo com o mesmo golpe, e revela seu amor ao enteado, que a afasta, ficando noivo de Ana, que assim como Gaspar é apresentada como casta e de hábitos irrepreensíveis. Levada à loucura em função de sua paixão, Malvina se suicida ao perceber que o enteado não cederá aos seus encantos, mas antes escreve à polícia, acusando Gaspar e a si própria pela morte de João Diogo. Januário, que é inocentado pela carta de Malvina, é morto num confronto com a polícia, pois devido a sua morte em efígie, já estava condenado pela sociedade. Além disso, o Capitão-General sugere que Januário estaria envolvido em conspirações contra El-Rei, refletindo o clima que precedia a Conjuração Mineira.
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