Obras de Raquel de Queiroz

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  • OBRAS DE RAQUEL DE QUEIROZ

    O QUINZE

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    Personagens
    Conceição – é forte de espírito, culta, humana e com ideias um tanto avançadas sobre a condição feminina. O único homem que lhe despertou desejos é o primo Vicente. Conceição tem uma admiração antiga e especial pelo rapaz, talvez porque ele é real, sem as falsidades comuns dos moços bem-educados. Ao descobrir que ele não é tão puro, a admiração esfria, criando uma barreira intransponível para a realização plena do seu amor. Tinha vocação para solteirona: “Conceição tinha vinte e dois anos e não falava em casar. As suas poucas tentativas de namoro tinham-se ido embora com os dezoito anos e o tempo de normalista; dizia alegremente que nascera solteirona”. Conceição sente-se realizada ao criar Duquinha, o afilhado que lhe doaram Chico Bento e Cordulina. É uma realização íntima, preenchendo o vazio da decepção amorosa.

    Vicente – filho de fazendeiro rico, com condições de mandar os filhos para a escola, Vicente, desde menino, quis ser vaqueiro. No início, isso causava tristeza e desgosto à família, principalmente à mãe, Dona Idalina. Com o tempo, todos passaram a admirar o rapaz. Vicente é o vaqueiro não tradicional da região. Cuida do gado com um desvelo incomum, mas cuida do que é seu, ao contrário dos outros (Chico Bento é o exemplo) que cuidam de gado alheio. Tem boas condições financeiras, mas é humano em relação à família e aos empregados. Vicente tinha dentes brancos com um ponto de ouro. Na intimidade, quando se põe a pensar na vida e na felicidade, associa tais coisas à Conceição. Tem uma admiração superior por ela. Gradualmente, à medida que vai notando a maneira fria com que ela passa a tratá-lo, Vicente começa a descrer no amor e na possibilidade de casar e ser feliz.

    Chico Bento – é o protótipo do vaqueiro pobre, cuidando do rebanho dos outros. Ele é o vaqueiro de Dona Maroca, da fazenda das Aroeiras, na região de Quixadá. Ele e Vicente são compadres e vizinhos. Como é peculiar da pobreza brasileira e nordestina, Chico Bento tem a mulher (Cordulina) e cinco filhos, todos ainda pequenos. Pedro, o mais velho, tem doze anos. Expulso pela seca e pela dona da fazenda, Chico Bento e família empreendem uma caminhada desastrosa em direção a Fortaleza. Perde dois filhos no caminho: um morre envenenado (Josias), o outro desaparece (Pedro). Antes de embarcar para São Paulo, é obrigado a dar o mais novo (Duquinha) para a madrinha, Conceição. De Fortaleza, Chico Bento e parte da família vão, de navio, para São Paulo. É o exílio forçado, é a esperança de vida melhor e, quem sabe, de riqueza para quem só conheceu miséria no Ceará.

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    Cordulina – é a esposa de Chico Bento. Personifica a mulher submissa, analfabeta, sofredora, com o destino atrelado ao destino do marido. É o exemplo da miséria como consequência da falta de instrução.

    Josias – filho de Chico Bento e Cordulina, tem cerca de dez anos de idade. Comeu mandioca crua e morreu envenenado na estrada.

    Pedro – filho de Chico Bento e Cordulina, é o mais velho, tem doze anos de idade. Desapareceu quando o grupo ia chegando a Acarape.

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    Manuel (Duquinha) – é o filho caçula de Chico Bento e Cordulina; tem dois anos de idade. Foi doado à madrinha, Conceição.

    Paulo – irmão mais velho de Vicente, ele é o orgulho dos pais (pelo menos no início). Estudou, fez-se doutor (promotor) e casou-se na cidade com uma moça branca. Depois de casado, passou a dedicar o seu tempo à família, quase não se interessando mais pelos pais e pelos irmãos. Só então os pais deram valor a Vicente.

    Mocinha – irmã de Cordulina, ficou como empregada doméstica em Castro, na casa de sinhá Eugênia. Arranjou um filho sem pai e tudo indica que vai viver da prostituição.

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    Lourdinha – irmã mais velha de Vicente. Casou-se com Clóvis Garcia em Quixadá. No final, tem uma filha, símbolo da felicidade que as pessoas simples e descomplicadas conseguem conquistar.

    Alice – irmã mais nova de Vicente. Mora na fazenda com os pais e os irmãos.

    Dona Inácia – avó de Conceição, espécie de mãe, pois foi quem a criou depois que a mãe verdadeira morreu. É dona da fazenda Logradouro, na região de Quixadá. Não aprova as ideias liberais da neta, principalmente, no que diz respeito a ficar solteirona.

    Dona Idalina – prima de Dona Inácia. Idalina é a mãe de Vicente, Paulo, Alice e Lourdinha. Vive com o marido, Major, na fazenda perto de Quixadá.

    Major – fazendeiro rico na região de Quixadá. Entrega a administração da fazenda ao filho Vicente. Orgulha-se de ter um filho doutor: o Paulo, promotor em uma cidade do interior do Ceará.

    Dona Maroca – fazendeira, dona da fazenda Aroeiras na região de Quixadá. Na época da seca, mandou o vaqueiro, Chico Bento, soltar o gado e procurar, por conta própria, meios para sobreviver.

    Mariinha Garcia – moça bonita, de família rica, moradora de Quixadá. Com auxílio de Lourdinha e Alice, faz tudo para conquistar Vicente, mas as tentativas resultam inúteis.

    Luís Bezerra – compadre de Chico Bento e Cordulina. Trabalhara também nas Aroeiras sob o comando de Dona Maroca. Agora, é delegado em Acarape, povoado do interior do Ceará. Foi ele quem conseguiu passagens de trem para que a família do compadre chegasse a Fortaleza.

    Doninha – esposa de Luís Bezerra, madrinha do Josias, o filho de Chico Bento que morreu envenenado na estrada.
    Zefinha – filha do vaqueiro Zé Bernardo. Conceição, acreditando numa conversa que tivera com Chiquinha Boa, acha que Vicente tem um caso com Zefinha.

    Chiquinha Boa – trabalhava na fazenda de Vicente. Na época da seca, achando que o governo do Ceará estava ajudando os pobres que migravam para a capital, deixou a zona rural.

     

    Enredo

    A obra O Quinze aborda a seca de 1915, descreve alguns aspectos da vida do interior do Ceará durante um dos períodos mais dramáticos que o povo atravessou. O enredo é interessante, dramático, mostrando a realidade do Nordeste Brasileiro e se dá em dois planos.

    No primeiro plano enfoca o vaqueiro Chico Bento e sua família, no outro, a relação afetiva de Vicente, rude proprietário e criador de gado, e Conceição, sua prima culta e professora. Conceição é apresentada como uma moça que gosta de ler vários livros, inclusive de tendências feministas e socialistas, o que estranha a sua avó, Mãe Nácia, que é representante das velhas tradições. No período de férias, Conceição passava na fazenda da família, no Logradouro, perto do Quixadá. Apesar de ter 22 anos, não dizia pensar em casar, mas sempre se “engraçava” com o primo Vicente. Ele era o proprietário que cuidava do gado, era rude e até mesmo selvagem. Com o advento da seca, a família de Mãe Nácia decide ir para cidade e deixar Vicente cuidando de tudo, resistindo. Trabalhava incessantemente para manter os animais vivos. Conceição trabalhava agora no campo de concentração, onde ficavam alojados os retirantes, e descobre que seu primo estava “de caso” com “uma caboclinha qualquer”. Enquanto ela se revolta, Mãe Nácia a consola dizendo:“Minha filha, a vida é assim mesmo… Desde hoje que o mundo é mundo… Eu até acho os homens de hoje melhores.”

    Vicente se encontra com Conceição e sem perceber confessa as temerosidades dela. Ela começa a tratá-lo de modo indiferente. Vicente se ressente disso e não consegue entender a razão. As irmãs de Vicente armam um namoro entre ele e uma amiga, a Mariinha Garcia. Ele, porém, espanta-se ao “saber” que estava namorando, dizendo que apenas era solícito para com ela e não tinha a menor intenção de comprometimento. Conceição percebe a diferença de vida entre ela e seu primo e a quase impossibilidade de comunicação. A seca termina e eles voltam para o Logradouro.

    O segundo plano é, sem dúvida, a parte mais importante do livro. Apresenta a marcha trágica e penosa do vaqueiro Chico Bento com sua mulher e seus 5 filhos, representando os retirantes. Ele é forçado a abandonar a fazenda onde trabalhara. Junta algum dinheiro, compra mantimentos e uma burra para atravessar o sertão. Tinham o intuito de trabalhar no Norte, extraindo borracha. No percurso, em momento de grande fome, Josias, o filho mais novo, come mandioca crua, envenenando-se. Agonizou até a morte. O seu fim está bem descrito nessa passagem: “Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra das mesma cruz.”

     Uma cena marcante na vida do vaqueiro foi a de matar uma cabra e depois descobrir que tinha dono. Este o chamou de ladrão e levou o resto da cabra para sua casa, dando-lhes apenas as tripas para se saciarem. Léguas após, Chico Bento dá falta do seu filho mais velho, Pedro. Chegando ao Aracape, lugar onde supunha que ele pudesse ser encontrado, avista um compadre que era o delegado. Recebem alguns mantimentos, mas não é possível encontrar o filho. Ficam sabendo que o menino tinha fugido com comboeiros de cachaça. Notem: “Talvez fosse até para a felicidade do menino. Onde poderia estar em maior desgraça do que ficando com o pai?”

    Ao chegarem ao campo de concentração, são reconhecidos por Conceição, sua comadre. Ela arranja um emprego para Chico Bento e passa a criar  um de seus filhos, o Duquinha. Chico Bento e Cordulina conseguem também uma passagem de trem e viajam para São Paulo, desistindo de trabalhar com a borracha.

     

     

    Memorial de Maria Moura

     

    Ao decidir escrever Memorial de Maria Moura, – imenso painel sem retoque de relações sociais, culturais, morais e afetivas entre personagens sábia e comovidamente delineadas, Rachel de Queiroz adotou um estilo narrativo em que muitas sequências se encontram montadas à maneira de uma telenovela. Tanto é desta forma que a obra foi adaptada para a televisão para uma minissérie.

    O romance é uma das narrativas mais marcantes da escritora, também cronista do Estado, e a trama situa-se em meados de 1850, no sertão. Misturam-se na narrativa todas as forças e fraquezas, todas as virtudes e defeitos da condição humana, desde o amor ao ódio, desde o crime ao remorso.

    Na obra são retomados alguns dos temas básicos de Rachel de Queiroz: o Nordeste problemático, a preocupação social, a força da autora como criadora de figuras femininas singulares.

    Memorial de Maria Moura, publicado em 1992, é escrito em primeira pessoa. Assim, a estória é contada por quem a viveu, e o leitor se delicia com a mudança constante de ponto de vista: ora fala a personagem Marialva,  ora o Beato Romano, e, no mais das vezes, a própria Moura conversa com o leitor. É quase possível vê-la, sentada no batente da fazenda, dentro de suas calças de homem, contando os “causos” de sua vida.

    Inicialmente, o romance tem três núcleos de ação: o de Maria Moura, dos primos inimigos dela e o do Padre José Maria (Beato Romão). Posteriormente, surge o subnúcleo Marialva e Valentim (com seus parentes mãe, pai e tio, no “circo”). Os últimos capítulos são narrados por Moura e pelo Beato que se joga numa aventura suicida com ela.

    Essa dinâmica entre os três narradores torna a obra envolvente, e não se pode dizer que o livro traz uma estória apenas: são pelo menos três, uma contada pelo padre que pecou com uma paroquiana e virou beato, outra pela mulher do saltimbanco, outra pela moça que incendiou a casa e virou vaqueira. As três versões acabam se juntando e,  entrelaçadas, formam um painel de nordestinidade que a autora soube trabalhar muito bem.

    Em Memorial de Maria Moura, a autora utiliza-se do discurso polifônico (várias vozes). Como já citado, são vários narradores, porém, o que se pressente é que por trás deles esconde-se o pulso vigoroso da cearense e que os diversos narradores, dentre os quais Maria (cada capítulo carrega o nome de um deles) são como títeres da força reivindicativa de Rachel. Salientando: dentre os narradores estão o Padre José Maria, Irineu e Tonho (primos da Moura, o primeiro solteiro; o segundo, casado com uma megera chamada Firma) e Marialva (prima de Maria que fugiu e casou com um artista de circo, Valentim). A participação dos diversos narradores propõe certa ruptura com a linearidade.

    Outros personagens vão ganhando destaque na trama: Duarte, meio irmão dos primos de Maria Moura  e filho da ex-escrava Rubina, ajudou Marialva a fugir. Os capangas de Maria: João Rufo, antigo e fiel empregado do Limoeiro e “padrinho” da heroína, Zé Vicente, Juco e outros.

    No início, Maria confessou ao Padre José Maria que ia mandar assassinar seu padrasto por ter abusado dela. Após os crimes, Maria arrancha-se com Amaro e Libânia, na Lagoa do Socorro. A miséria era absoluta. Maria assaltou umas pessoas e as coisas foram melhorando. Comida e equipamentos vão fortalecendo Maria e seu bando. Com o estilo folhetinesco nos são apresentados os colonizadores do sertão nordestino. Os que resistem agem de maneira brusca, lembrando muitas vezes um comportamento instintivo, atávico, que o meio dita as regras. A Moura é o eixo, o ponto de convergência, símbolo do poder e da ambição. No final do livro, apenas ela e o Beato Romano narram. A narrativa em primeira pessoa vai impregnando o romance de subjetividade. Maria desafia o poder masculino.

    Na primeira parte da trama do livro, a autora não dá sinal de cansaço. Tudo é estimulante e vigoroso. Ao ódio que cerca Maria, seus primos e o padre, sobrepõe- se o romance de Marialva (a prima de Maria) e Valentim (o artista de circo com quem ela fugiu e casou).
    Enredo

    Maria Moura, órfã que, ainda jovem, meteu-se em brigas com seus primos, por uma questão de herança de terra. A personagem mostra-se arisca desde os primeiros momentos em que aparece. É no Brasil rural do século XIX que decorrem as empolgantes peripécias da vida dessa personagem, uma espécie de “José do Telhado” no feminino.

    Tinha ela apenas 17 anos de idade quando conheceu uma série de acontecimentos altamente dramáticos: encontrou a mãe morta, foi violada pelo padrasto e viu as suas terras cobiçadas por primos sem escrúpulos. Enfrenta a ganância dos primos Irineu, Tonho e sua mulher Firma, já que a prima Marialva está mais interessada em fugir com um artista de circo de olhos verdes iguais aos dela.

    Cercada pelos parentes, que pretendiam sequestrá-la e tomar suas posses, a moça incendeia sua casa no sítio Limoeiro, que ficava próximo da Vila Vargem da Cruz. Foge com um bando de homens, que lembram em tudo cangaceiros.

    Uma mulher vulgar sucumbiria a tantas adversidades, mas Maria Moura possuía outra têmpera: Minha primeira ação tinha de ser a resistência […] Vou procurar as terras da Serra dos Padres – e lá pode ser para mim outro começo de vida. Mas garantida com os meus cabras. Pra ninguém mais querer botar o pé no meu pescoço.

    A partir desses acontecimentos, ela se embrenha no mato, organiza roubo, constitui morada, planta, manda assassinar o padrasto que a assediava desde os tempos que a mãe dela era viva (a mãe se enforcou no armador de rede: Sonho com aquela cara de enforcada, a face roxa, os olhos estatelados, a ponta da língua saindo da boca, diz a sinhazinha, assim chamam Maria, cuja história se passa na época da escravidão no Brasil). A seguir, Maria trama a morte do assassino que ela mesma tinha seduzido para matar o padrasto.

    Após a fuga do Limoeiro, Maria e seu bando vagam pelas brenhas do sertão ao relento, sem tomar banho e comendo o que aparecesse e aparecia muito pouco. Tudo com muito respeito e dignidade: Maria é a “chefe” do bando e a maior parte dos jagunços são jovens, sem ambição e querendo “aventura”, como ela mesma sugere enquanto ia se enchendo do ouro que roubava, numa espécie de farra inconsequente, até a metade do livro. Tudo para ela vai dando certo. Arranchados com escravos fugidos, Maria se estabelece por algum tempo junto à Lagoa do Socorro. Ela e seu bando roubam e levam para lá. Junta-se ao bando o ex- padre José Maria, que recebe o nome de Beato Romão para fugir da culpa de um crime que cometeu em sua última paróquia: matou o marido de sua amante, Isabel. Rejeitada pelo marido e desejando um filho, ofereceu-se ao sacerdote, que resistiu um pouco,  mas terminou engravidando-a. O marido volta, esfaqueia-a e mata o bebê de seis meses no ventre da mãe. O padre, ao ver Isabel estraçalhada e o marido atacando-o com a mesma faca, quebra-lhe um banco na cabeça, matando-o.

    Maria Moura cria gado e faz todo o possível para se tornar uma fazendeira rica, poderosa e temida. “Não sei bem se sou capaz de ver sangue derramado. Nunca experimentei ver de perto o sangue dos outros; e pior será se for tirado pela minha mão.” Percebemos por esta fala de Maria Moura, que mais importante para ela, naquele ponto em que falou do sangue, era o ouro. Maria se acha superior aos índios e escravos, como vemos, por exemplo, na página 178: “…aquela negrinha …bem que eu gostaria de ter uma bichinha daquelas para mim… e até que poderia ter pegado ela junto com as joias.” O livro tem passagens curiosas, como por exemplo, quando o padre José Maria fala sobre as lembranças: “O homem feliz é o que não tem passado. O pior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. O passado te persegue como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro que resista aos assaltos da lembranças.”

    Já Maria busca construir seu mito de mulher forte, decidida, fria e calculista, que no final vai desafiar o perigo por não dar valor à vida (tudo que conquista, deixará para Alexandre, filho de Marialva e Valentim): “Minha ideia era meter na cabeça dos cabras e do povo em geral que ninguém pode avaliar do que Maria Moura é capaz”.

    Logo, Duarte, primo bastardo de Maria, junta-se ao bando com sua mãe, a ex-escrava Rubina (eles moravam com Irineu, Tonho e Firma). Maria começa a fabricar pólvora com a ajuda de Duarte, que também se torna seu amante. Chega então Cirino, cujo pai paga para que ele se esconda nas terras de Maria, a fim de fugir da perseguição por causa de um crime. Cirino é louro e conquistador. “Rouba” Maria de Duarte e depois a trai por ambição, ao que Maria vai responder mandando Valentim esfaqueá-lo no coração.

    Maria, ao saber que o Beato Romano (Padre José Maria) está evangelizando seus capangas, fica preocupada: “O senhor quando me procurou, não sabia qual era o nosso meio de vida? Não vá longe demais. Se minha cabocrina se converter? Virar tudo penitente e sair tocando matraca, o que é que eu faço?”  Maria acha que o “Não matarás” dos mandamentos sagrados é uma coisa relativa.

    Sozinha no seu quarto, Maria chora quando está longe de Cirino: “Te aquieta Maria Moura. Você não é mulher de chorar, nem mesmo escondida (…) cadê o cabecel desses homens todos, que comanda de garrucha na mão e punhal no cinto?”
    Ao descobrir que Cirino traiu a casa forte, Maria chora com tanta fúria que chega a rasgar o lençol com os dentes. Cirino traiu Maria porque “era ruim”, por dinheiro de Judas. Rachel intensifica o código de honra proposto pelo Romantismo: “O meu mal era aquela grande fraqueza por ele que eu sentia. Eu gostava de comigo chamar aquilo de amor. Mas não era amor, era pior. Não era cio(…) E eu me imaginando tão forte, tão braba. Era afronta – Era para acabar comigo(…) aquele coisinha ruim(…) solapar os alicerces do meu castelo! (…) por amor dos trinta dinheiro de Judas! E eu adorar um desgraçado desses, abri para ele o meu quarto, a minha cama, o meu corpo. Foi humilhação demais. Se ainda soubesse rezar, rezava, tão desesperada me sentia. (…) Como é que vou acabar com o Cirino, sem acabar comigo?(…) Como posso arrancar o coração para fora? Ninguém pode fazer isso e continuar vivo. E se me matasse com ele?(…) Não. Eu quero morrer na minha grandeza, lamenta-se Maria que, resgatando Cirino da cadeia, diz: Quem segura os presos ricos na cadeia (Cirino era rico) é o medo de serem mortos pelos inimigos, mal ponham um pé fora.

    Maria estava tão acostumada com a vida rude que aprendeu a comer e dormir enquanto cavalgava. Levando Cirino para o cubico (cômodo escondido na Casa Forte, cofre e esconderijo), depois de dias, fazem amor: “Foi um amor desesperado, furioso, que doía, machucava; amor de dois inimigos, se mordendo e se ferindo, como se quisessem que aquilo acabasse em morte (…) Quanto tempo durou? – nos separamos exaustos (…) entendia que no meio daquele desadoro, que eu tinha mesmo que matar Cirino. Entre nós dois não podia mais haver solução. Se ele escapasse vinha atrás de mim para me pegar. Não ia nunca me perdoar tinha que se vingar desta hora de humilhação. Era impossível ele esquecer. Agora era ele ou eu (Maria obrigava-o a ficar trancado num cubículo e ameaçava-o com uma arma). Fiquei atirada na cama, sem poder chorar, cega, surda, vazia por dentro(…) não era dor propriamente que eu sentia, era mais um estupor que me deixava dormente, numa espécie de meia morte(…) eu pensava às vezes que estava a bem dizer igual à situação de Marialva, quando servia de alvo ao marido (Valentim era atirador de facas, treinava, no circo). Só que o atirador de faca acertava sempre em mim, mas sem me ferir mortalmente, só me pegando pela pele me pregando na tábua, por toda a volta do meu corpo. Escorchada e sangrando, eu ficava morrendo de dor, sem contudo morrer nunca, lamenta-se após mandar executar seu amado.

    Ouro, pedras preciosas, propriedades, sim, mas dinheiro de papel, Maria não gosta. Quando aparece Francelino para negociar gado – o sul do país em guerra precisava da charque nordestina para alimentar soldados, Maria pretendia assaltar os negociantes – e lhe mostra uma cédula impressa em letras pretas Maria recorda: Era muito feio. Fiquei desapontada. Pensava que dinheiro em papel era de cor, com a cara do rei, assim como a figura de santo (…) eu virei na mão a tal cédula. É. Não tinha graça nenhuma. Ainda vai levar muito tempo para aquilo ser considerado. O mais certo é que não vá pegar nunca. Quem troca ouro ou prata ou até mesmo cobre por um pedaço de papel? Você quer é sentir a moeda pesando na tua mão.

    Para o último assalto, que Rachel deixa em suspenso e o leitor não saberá o que aconteceu com Maria, seu bando e o Beato Romano, na sua mais arriscada investida, quase como um suicídio coletivo – Maria não distribui riqueza com seus cabras (O povo é engraçado, cada pessoa acredita no que quer e passa adiante o que entende), guardou tudo para si, deixando para Alexandre, filho de Marialva, sua prima carnal, tudo em testamento. Já tinha arma ali que dava para fazer uma guerra (…) nos nossos entreveros, em caso de muita pressa, eu preferia antes deixar o dinheiro que as armas(…) arma de fogo não se compra em mão de mascate nem em barraca de feira, diz a Moura.

    Duarte vacila, falando da superioridade do inimigo, ao que Maria retruca: Se eles correm a gente atira nas pernas dos cavalos, os homens rolam no chão. E quando baterem em terra, já atordoados, já se está em cima deles. Eu calculei tudo na minha cabeça. Fecho os olhos e vejo tudo como é que vai se passar. E quando o ex-amante pergunta sobre o risco de vida, ela responde: E eu estou me importando em salvar esta desgraça de vida, Duarte?(…) Desça Deus do céu e me peça, que eu falto e faço que disse. Já os cabras, pressentindo algo de estranho naquela última batalha, pedem que o Beato Romano vá junto na campanha: Morrer não é nada, mas sempre se morria mais satisfeito tendo ele junto para abençoar. Pra dizer ‘Jesus seja contigo’, diz Zé Soldado, um dos principais jagunços de Maria. O padre e Maria concordam.

    Na partida da tropa, Duarte diz. Ainda está na hora de mudar de ideia, Sinhá. Vai ser uma luta muito dura, com esses homens traquejados para matar. Não é briga para mulher. E se lhe matam?  Maria responde olho no olho: Se tiver de morrer lá, eu morro e pronto. Mas ficando aqui eu morro muito mais.

    E, nas duas últimas linhas da narrativa (do romance), Maria arremata: Saí na frente, num trote largo. Só mais adiante segurei as rédeas, diminuí o passo do cavalo, para os homens poderem me acompanhar.

    DORA DORALINA

     

    A narração pela personagem-protagonista, Dora Doralina, como gostava de ser chamada, afinal era assim que seu pai a jogava para o alto e dizia carinhosamente, são reminiscências de sua infância na cidade do interior do Ceará, Aroeiras, na fazenda Soledade. Com a morte do pai, sua mãe – tratada por Senhora – era quem a tudo e a todos dominava. Uma mãe-mulher que adultera com seu genro, Laurindo, um homem sem valores, um agrimensor que casara por interesse. Só não se sabe se o caso com a mãe já existia antes do casamento.

    A primeira parte “O Livro da Senhora” se dedica mais ao caso de Senhora e Belmiro, um fugitivo que encontrou em Doralina uma santa a lhe salvar a vida, quando em Soledade apareceu todo ferido e foi curado e hospedado. Tudo indica que foi Belmiro quem matou Laurindo para lavar a honra de Doralina. Aliás, crime que nunca foi desvendado e nem mesmo vinte anos depois, quando Belmiro foi encontrado em decomposição, numa cabana em que vivia como um ermitão.

    A segunda parte é “O Livro da Companhia”, acontece quando Doralina vai morar na pensão de D. Loura, onde trabalha administrando a pensão, depois conhece o senhor Brandini, dono da Cia Comédias e Burletas Brandici Júnior, e passa a transcrever os textos das apresentações e, depois, quando uma das atrizes vai para São Paulo, Doralina ocupa seu lugar nos espetáculos. Com apoio sempre de dona Loura, que mais parecia sua mãe, inicia sua vida como Nely Sorel. Faz inúmeras viagens, até que conhece o Comandante de um navio e se apaixona por ele. E larga a Cia, mas continua sempre amiga de Estrela e Brandini.

    A terceira parte “O Livro do Comandante ou do Cadete Lucas”, é sua história ao lado de Asmodeu – nome bíblico e demoníaco – um homem com quem se fez feliz sempre, mesmo entre tantos desconfortos e apertos, pois apesar da profissão de professor de tiro, era mesmo contrabandista de objetos menores, viviam assim, desses trabalhos ilegais. A cumplicidade é a marca da fidelidade entre os dois, que passam a vida lutando pela sobrevivência, até que um dia, mais uma vez, a febre de Asmodeu chega e não vai embora, ele morre.

    Com a morte do comandante, Doralina volta para a fazenda no tempo certo, tempo de tudo recomeçar com a mesma força e pertinácia de Senhora (Doralina passa a ser a Senhora, antigo lugar da mãe),  acordar seus empregados e dar vida a um mundo de pessoas que não sabem viver sem um senhor. Até onde a escravidão condena um homem em não saber mais quem é e o que pode fazer por si mesmo, passando por um processo de morte quando livre de seu dono.

    Enfim, Doralina, é obrigada a tomar a frente e continuar vivendo, mesmo que nada mais tenha motivo de alegria.  Sua vida toda foi um lutar por estar viva…Como dizia capitão no início do livro, quando ainda não o conhecíamos, e que Doralina já falava dele com tanto amor: ” Doer, dói sempre. Só não dói depois de morto, porque a vida toda é um doer.”

     

    Exercício:

    O Quinze

    1. Compare a família de Chico Bento (O Quinze) com a família de Fabiano (Vidas Secas).
    2. Explique a temática opressor X oprimido na obra.
    3. De que forma se destaca a força feminina?
    4. Explique a temática amor X razão.
    5. Explique a temática tradicional X moderno.
    6. Defenda a ideia desta obra ser um romance social.

     

    MEMORIAL DE MARIA MOURA

    1. De que forma destaca-se a temática força X fraqueza?
    2. De que forma destaca-se a temática virtude  X defeito da condição humana?
    3. Explique a construção de feudo na obra.
    4. O que é a mulher em Raquel de Queiroz?
    5. Explique o comportamento instintivo em Maria Moura.
    6. Explique a temática amor X razão.
    7. Explique os acontecimentos nas três vozes narrativa (Maria Moura, beato Romano e Marialva).

     

    DORA DORALINA

     

    1. Explique o ciclo que há na obra Dora Doralina.
    2. Explique a temática opressor X oprimido na obra.
    3. Analise a personagem Doralina.
    4. Explique a construção de feudo.

     
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