Obras de Jorge Amado

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  • JORGE AMADO

    Jubiabá  (1935)      

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    Jubiabá –  trata da trajetória da personagem Balduíno, de menino do Morro do Capa Negro a líder grevista em lutas trabalhistas na cidade da Bahia, Salvador.

    A intenção central da obra, além da visão romanesca da vida popular, é sugerir o lento amadurecimento do protagonista, rumo à consciência política. É um romance característico do “realismo socialista”, com alguns ingredientes sensuais e apimentados do cenário baiano.

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    Jubiabá é construído sob traços romanescos e épicos que o tornam obra expressiva aos moldes do romance de 30 no Brasil, romance que documenta um momento de lutas pelos direitos trabalhistas, na cidade da Bahia, Salvador, além de tratar dos tipos peculiares habitantes daquele lugar, sob uma ótica, ao mesmo tempo, realista e idealista.

    O romance se chama Jubiabá, nome do pai-de-santo e guia espiritual do povo, não levando o nome do protagonista Antônio Balduíno. O pai de santo representa toda a comunidade do morro do Capa Negro, e adjacências, sendo o herói épico e religioso que dá identidade ao povo durante toda a narrativa. No desenrolar do romance, o pai-de-santo é, insistentemente, a referência para o negro Balduíno, é modelo e orientação de vida. Balduíno somente se liberta de seu domínio a partir do momento em que Jubiabá não pode explicar o sentido da greve, sentido descoberto por Balduíno no final da narrativa, o que vai fazer dele um novo homem.

    A narrativa é composta de contos e lendas que fazem parte do imaginário do povo nordestino, além das histórias de marinheiros viajantes que levam uma vida de constantes perigos. Essas histórias educam a personagem Balduíno durante toda a primeira e segunda parte do romance.

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    O mundo ao qual Balduíno pertence é recheado de histórias de seu povo, tanto dos seus ascendentes quanto dos homens que viveram ali: saveireiros, jagunços, sertanejos, operários, que se dão ao seu conhecimento pelas vozes narrativas dessas pessoas mais velhas: pai Jubiabá, Zé Camarão, Mestre Manuel, tia Luísa.

    Narração

    Jubiabá tem um narrador em terceira pessoa, onisciente, que com grande clareza, conta as peripécias do protagonista e dá voz às personagens. Observam-se, nesse romance, dois tipos de discurso, sendo o primeiro o discurso narrativizado, ou contado, em que o narrador coloca-se por detrás, conduzindo a narrativa em seu próprio nome. Pode-se citar, como exemplo, as primeiras páginas do romance: Antonio Balduíno ficava em cima do morro vendo a fila de luzes que era a cidade em baixo. Sons de violão se arrastavam pelo morro mal a Lua aparecia. [Ele] vivia metido num camisolão sempre sujo de barro […]. A outra forma de discurso empregada pelo narrador é aquela denominada discurso mimético, na qual o narrador finge ceder literalmente a palavra à sua personagem, fazendo uso dos diálogos, presentificando as atitudes, gestos, sentimentos das personagens. Cita-se um trecho, a fim de exemplificação: – Deus lhe paga, seu comendador, essa caridade que o senhor está fazendo com o menino… Deus lhe paga dando saúde a todos desta casa… – Obrigada, Sinhá Augusta. Agora leva o menino lá pra dentro e diga a Amélia pra dar comida a ele.

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    O narrador, em Jubiabá, é, acima de tudo, um contador de histórias. É possível mesmo afirmar que a formação do protagonista, Balduíno, dá-se informalmente, através de relatos de histórias do povo, veiculados pelas vozes narrativas possibilitadas pela estratégia do narrador mimético. Quem fala é uma personagem responsável pela narração, um sujeito que relata, e eventualmente todos os que participam da atividade narrativa. O narrador que inaugura esse tipo mimético é a tia de Balduíno, Luísa, velha conversadeira e envolvente.

     

    Personagens

    As personagens, em Jubiabá, são criadas a partir de modelos típicos, capazes de atribuir à narrativa caráter fortemente idealista, ao mesmo tempo em que constroem o cenário realista em que se passa a ação.

    A maior parte das personagens do romance são típicas, retratam o povo pobre da Bahia: os operários das fábricas, os trabalhadores do cais, os padeiros, os marinheiros, personagens que fazem parte da massa que se uniu a Balduíno, no fim do romance, para lutar pelo reconhecimento dos operários como uma classe que participou da construção de uma nação.

    Jubiabá – personagem que dá nome ao romance, é o mentor do negrinho Balduíno. Jubiabá era conhecido pelo povo do morro do Capa Negro como feiticeiro. O pai-de-santo era respeitado no morro porque curava doenças, fazia rezas, afastava demônios, dizia conceitos, rezava em nagô. A presença do pai Jubiabá na vida de Antônio Balduíno foi de extrema importância para sua formação, já que o menino era órfão, vivia com a tia Luísa, e o teve como guia espiritual por toda a vida. Pode-se classificar também a personagem Jubiabá como personagem tipo  aquela que alcança o auge da peculiaridade sem atingir a deformação. O tempo todo, no romance, Jubiabá permanece o mesmo, não muda, sua função foi sempre a de guia, orientador, curador. Todas as características do pai-de-santo o aproximam do lendário, pois conheceu histórias do povo e as narrava para a comunidade onde vive. Também, com sua fé, Jubiabá era o refúgio do povo carente, que não tinha posse alguma, e encontrava no curandeiro a força divina para prosseguir na vida difícil que levava.

    Balduíno – personagem típico à medida que nele estão inscritos traços físicos e de caráter, concretos e abstratos, capazes de representar, de forma concisa e em um único indivíduo, o tipo do “negro” e do “malandro” criado no morro e formado nas ruas de Salvador. Na infância, […] já chefiava as quadrilhas de molecotes que vagabundavam pelo Morro do Capa Negro e morros adjacentes. Aos quinze anos, depois que fugiu da casa do comendador Pereira, foi o imperador da cidade negra da Bahia. Ser imperador da cidade, para o negro, era poder andar solto pelas suas ruas, dormir em portas de hotéis de luxo, comer as melhores comidas dos melhores restaurantes, chefiar o bando de moleques formado de meninos negros, brancos e mulatos. Assim viveu durante dois anos.

    Depois desse tempo na rua, o grupo se desfez, cada um seguiu um caminho. Balduíno voltou para o morro, vivendo uma vida de malandro: compôs sambas, foi à macumba no terreiro de pai Jubiabá, tocou violão. Um dia, um homem bem vestido apareceu no morro perguntando por Antônio Balduíno, quis saber se vendia os sambas que compunha; como o negro precisava de dinheiro, vendeu dois deles. Somente mais tarde o negro veio a saber que os sambas foram gravados e fizeram bastante sucesso.

    Em outro momento, nessa mesma época, Luigi convidou Balduíno para lutar boxe, pois ficara impressionado quando vira o negro dando um soco pesado no soldado Osório, que ficou estatelado no chão. Balduíno aceitou o convite, lutou, suas vitórias foram publicadas num jornal.

    A personagem seguiu, durante o avançar da narrativa, em direção à conscientização política, projetando o idealismo cultivado pelo autor, Jorge Amado, tanto em relação à “cor local” quanto em relação à classe operária em formação. Assim, pode-se afirmar que a trajetória do protagonista Balduíno foi conduzida por forças paralelas, que não se anulavam: o determinismo de origem étnica, histórica e social e a idealização do proletariado, classe que foi, por fim, redimir o antigo vagabundo Balduíno, inserindo-o em uma função social relevante.

    Balduíno teve, de fato, uma trajetória em ascensão. Nasceu pobre, no morro, mas era um menino diferente dos outros, o tempo todo ele procurava ser diferente dos outros, estava em busca de alguma coisa. Balduíno carregava uma revolta e uma negação da memória da escravidão, dizendo que não seria escravo. O romance propôs a liberdade do marginal como alternativa à escravidão das ocupações proletárias. Balduíno cresceu tomando ciência de uma memória familiar marcada pela tradição da rebeldia social e de uma memória comunitária que atualizava a tradição do cativeiro. Os meninos mais novos que Balduíno já sabiam do seu destino desde cedo: cresceriam e iriam para o cais onde ficariam curvos sob o peso dos sacos cheios de cacau, ou ganhariam a vida nas fábricas enormes. E não se revoltariam porque desde há muitos anos vinha sendo assim: os meninos das ruas bonitas e arborizadas iam ser médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, homens ricos. E eles iriam ser criados destes homens. Para isto é que existia o morro e os moradores do morro. Coisa que o negrinho Antônio Balduíno aprendeu desde cedo no exemplo diário dos maiores. Como nas casas ricas tinha a tradição do tio, pai ou avô, engenheiro célebre, discursador de sucesso, político sagaz, no morro onde morava tanto negro, tanto mulato, havia a tradição da escravidão ao senhor branco e rico. E essa era a única tradição.

    Para Balduíno, ser diferente era ter um ABC como os famosos que ele conhecia. Pode-se dizer que essa característica de Balduíno (querer ser conhecido por um ABC) é uma característica de personagem épico, isto é, o herói épico seria conhecido por meio de uma narrativa que contava suas glórias, conquistas, amores, aventuras, assim como as personagens das histórias contadas pelas pessoas do Morro do Capa Negro. Através do ABC, Balduíno não seria como as outras pessoas do morro, não ficaria na obscuridade como os trabalhadores que conhecia, estaria salvo do caos que os seus viviam.

    Outra característica de Balduíno era a curiosidade. Ao mesmo tempo que tinha medo de Jubiabá, tinha respeito pelo pai-de-santo, […] não sabia o que esperar de Jubiabá. Respeitava-o, mas com um respeito diferente do que tinha [pelos outros adultos] os homens o ouviam com respeito; recebia cumprimentos de todos […]. Na sua infância sadia e solta, Jubiabá era o mistério.

    Balduíno foi sempre um bom discípulo: Se no jogo da capoeira o negro Antônio Balduíno fora o melhor discípulo de Zé Camarão, no violão cedo bateu o mestre e se tornou tão célebre quanto ele. Outra característica que o diferia era seu talento musical, tanto que sobreviveu com a venda dos sambas que compôs. Também teve grande prestígio entre as mulheres.

    Depois de longo período de vida livre e descomprometida, Balduíno passou por algumas etapas de trabalho nos campos de colheita de fumo, mas a sua transformação de fato ocorreu somente quando reencontrou Lindinalva, seu primeiro amor e filha do branco que o teve como agregado. Lindinalva encontrava-se à beira da morte e legou a Balduíno seu filho.  Para criar o menino, o protagonista submeteu-se ao trabalho e tomou consciência da vida que devia seguir a partir de então.

    Foi dessa forma que a personagem Balduíno ascendeu, ao longo de sua trajetória, em direção à conscientização política e à atividade em prol do bem comum.

    Zé Camarão – mestre de capoeira do negrinho Balduíno e também tocador de violão, mulato alto e amarelado, eternamente gingando o corpo, que criara fama desde que desarmara dois marinheiros com alguns golpes de capoeira, personagem modelo para a educação do negro. Zé Camarão era valente e cantava ao violão histórias de cangaceiros célebres passava horas e horas ensinando aos garotos do morro o jogo da capoeira, tendo uma paciência infinita com os moleques, mostrava como se aplicava um rabo de arraia, como se arrancava o punhal da mão de um homem. Era amado pela garotada que o queria como a um ídolo. Antônio Balduíno gostava de andar com ele, de ouvir o desordeiro contar casos da sua vida.

    Balduíno o admirava pelo seu jeito desordeiro, pelo modo como contava uma história cheia de detalhes, para que ninguém duvidasse da sua veracidade; sempre dizia que era testemunha ocular de crimes que aconteciam ali e exagerava na exaltação da participação saliente que tivera em alguns deles. Tinha um modo especial de cantar as histórias com seu violão que prendia todo o povo na frente da casa da velha Luísa. Exerceu influência na formação de Balduíno assim como o pai Jubiabá, tanto que seu pupilo seria melhor que o mestre na capoeira: E como já era o melhor aluno de capoeira queria também aprender violão.

    As personagens Zé Camarão e pai Jubiabá mantiveram-se iguais do começo ao fim do romance, elas coincidiram com elas mesmas, não se modificaram.

    Luísa – tia que criava Balduíno, era mãe e pai do menino, mulher trabalhadeira e contadora de histórias, dona da casa onde o povo do morro se reunia para ouvir histórias e conversar. Era por ela que Balduíno sabia alguma coisa de seu pai, […] Valentim, que fora Jagunço de Antônio Conselheiro quando rapazola, que amava as negras que encontrava a cada passo, que bebia muito, bebia valentemente e que morreu debaixo de um bonde num dia de farra grossa. Como eram esparsas as histórias sobre seu pai, Balduíno o idealizava um grande guerreiro e dizia que queria ser igual a ele. Luísa sofria de dor de cabeça, quando vinham as crises, Jubiabá era chamado, fazia as rezas e ela melhorava. Mas as dores começaram a ser muito frequentes, foi preciso interná-la num sanatório até que não pôde mais e veio a morrer. Em decorrência dessa morte, a vida de Balduíno começou a mudar.

     

    Lindinalva – único amor da vida do negro Balduíno, era uma moça ingênua que viveu de sonhos, na casa dos pais, o Comendador Pereira e sua esposa. Lindinalva classifica-se entre as personagens do romance folhetim, jovem virtuosa e seduzida por um cínico sedutor. Lindinalva e Balduíno se conheceram quando este foi encaminhado à casa do Comendador porque perdera a tia e precisava frequentar escola a fim de ter um futuro melhor que aquele dos meninos do morro. A menina era sua companheira de toda hora nas brincadeiras. Depois que Balduíno fugiu da casa do Comendador, este perdeu a mulher, começou a perder dinheiro, Lindinalva ficou noiva do Dr. Gustavo Barreira. Devido à ausência do pai, que viveu em casas de prostitutas, vindo a morrer em uma delas, Lindinalva se envolveu intimamente com o noivo, engravidou, sendo abandonada por ele. Logo que o filho nasceu, tornou-se prostituta para poder sustentá-lo, morreu na ladeira do Taboão, lugar onde viviam as mulheres mais decadentes da Bahia. O enredo de sua vida assemelha-se ao enredo do romance de folhetim, recheado de histórias de amor, a espera do príncipe encantado, donzela que se entrega ao amor, a fuga do amado, tudo muito semelhante ao gosto do público.

    Gordo – negro, religioso, morava com uma velha a qual ele tinha muita estima e chamava-a de avó, sua alcunha se deve ao porte físico do personagem que era gordo. Amigo inseparável de Balduíno.

    Resumo

     

    O menino Antônio Balduíno cresceu ouvindo e vivenciando as mazelas do povo que vivia no morro. Outro elemento formador na educação de Balduíno foi o negro Zé Camarão, que ensinava capoeira e outras malandragens aos meninos do morro. O menino também gostava muito de ouvir suas histórias, seus sambas, cantigas saudosas, canções tristes e ABCs aventurosos.

    Dentre os contadores de histórias do morro, o mais importante deles era o curandeiro e guia espiritual Jubiabá, cuja função era educar e entreter todos os moradores do lugar. O pai-de-santo acompanhava o crescimento de Antonio Balduíno e tinha um carinho especial por ele.

    Um dia, no morro do Capa Negro, alguém saiu dizendo que vira um lobisomem. Jubiabá, como conhecedor que era de tudo, contou a Balduíno a história do lobisomem:

    […] Pois ele é senhor branco que era dono de uma fazenda. Isso foi nos tempos passados, nos tempos da escravidão de negro. A fazenda dele ficava bem aqui onde nos mora agora. Bem aqui. Ocês não sabe porque esse morro chama do Capa Negro? Ah! Ocês não sabe… pois é porque esse morro era fazenda desse senhor. E ele era homem malvado. Gostava que negro fizesse filho em negra para ele ganhar escravo. E quando negro não fazia filho ele mandava capar negro… Capou muito Negro… Branco ruim…. Por isso esse morro é do Capa Negro e tem lobisomem nele.O lobisomem é senhor branco. Ele não morreu. Era ruim demais e uma noite virou lobisomem e saiu pelo mundo assustando gente. Agora ele vive procurando o lugar da casa dele que era aqui no morro. Ele ainda quer capar negro…

     

    A narrativa aponta o negro escravo, habitante do morro onde moraram escravos que foram explorados pelo senhor, para indicar uma situação que muitos deles ainda viviam: pobres, explorados, marginalizados, negrinhos crescendo analfabetos, tendo como única educação as histórias contadas pelos negros antigos. Nesse contexto de ouvidor de histórias do povo, cresceu o negro Antônio Balduíno.

    Quando da morte de sua tia Luísa, Jubiabá o encaminhou para a casa do Comendador Pereira, um português, que viveu com sua esposa Dona Maria e a filha Lindinalva. Foi matriculado em uma escola, à qual não se integrou, mantendo-se fiel à sua educação informal, iniciada e completada nas ruas. Nessa fase de sua trajetória, conheceu, pelo seu guia espiritual Jubiabá, a história de Zumbi dos Palmares, “negro valente, muito sabido que, não aceitando a condição de escravo, opta pela morte”. A partir do momento em que conheceu essa história, Zumbi tornou-se seu herói. É também nesse período que Balduíno se apaixonou por Lindinalva, a filha do comendador, amor interdito pela diferença de cor e classe social. O menino ficava na casa do Comendador até o dia em que a cozinheira Amélia, que já alimentava um ciúme doentio pelo menino, devido aos cuidados do Comendador para com Balduíno, levantou uma calúnia contra o mesmo, dizendo que ele olhara para as coxas de Lindinalva. O menino não conseguiu se defender da injustiça porque todos acreditaram em Amélia, dessa forma ele resolveu fugir a fim de viver na rua como um malandro.

    A primeira aventura de Balduíno na rua foi a mendicância, ele mesmo era contador de histórias a fim de convencer as pessoas do seu sofrimento e pobreza:

    Eu cheguei de fora, meu senhor… Vim me batendo por esse sertão de Deus que está seco, sem um pingo de chuva. Estou aqui sem trabalho… Mas estou procurando… Quero um níquel para tomar café… Tá se vendo que o senhor é um homem direto… […] vim debaixo de um solão de fazer medo…Se o senhor tem um trabalho eu peço… não tenho medo de trabalho… Mas desde ontem que não como… Estou aqui…caindo de fome.

    Na vida de malandragem que levou a partir daí, conheceu o Gordo, outro contador de histórias. Gordo era tão criativo que inventou uma história de vida para poder superar os problemas e sobreviver: acolheu uma senhora idosa e passou o dia tentando ganhar algum dinheiro para levar a ela, para, dessa forma, dizer que tinha alguém esperando por ele. Balduíno conheceu outros meninos que tinham, mais ou menos, o seu estilo de vida. As personagens são apresentadas ao leitor como gente carente e pobre, sem muitas expectativas. A narrativa é envolvente, as trapaças dos meninos delineiam o que faziam para sobreviver; na ingenuidade malandra, sobreviviam como podiam: comiam quando conseguiam o alimento, roubavam nas oportunidades que tinham, enganavam as pessoas.

    Antônio Balduíno, entretanto, sabia que queria ser diferente daqueles meninos pobres do morro. Quando cansou dessa vida mundana, saiu em busca de uma melhor condição de vida.
    Voltou para o Morro do Capa Negro onde começou a compor alguns sambas, ganhou algum dinheiro e quando tinha oportunidade cantava ao violão suas composições.

    Nesse meio tempo, foi incentivado a lutar boxe devido à força e à valentia que o levaram a uma carreira razoável. Na sequencia da narrativa, a personagem seguiu num percurso de viagens que iria fazer dele, até o final do livro, um homem diferente.

    Nessa nova fase de sua vida, saiu de viagem no saveiro de mestre Manuel. Também aqui se narram novas histórias que vão contribuir para a formação de Balduíno. O velho narrava histórias de pescadores que impressionaram o negro; enquanto isso, Balduíno invejava a vida dele com sua esposa. Ela era a música que comprava o mar. Estava de pé e seus cabelos esvoaçavam abandonados ao vento.

    Como se pôde observar, os vários pontos de vista que formaram e instruíram a personagem Balduíno são vozes sociais, vozes que influenciaram as decisões de vida da personagem.

    Balduíno desembarcou na cidade velha de Cachoeira, cidade produtora de charutos tipo exportação. Tomou conhecimento da vida que aquele povo levava para sobreviver. As fábricas empregavam mulheres que eram descritas muito realisticamente pelo narrador, sendo uma outra fonte de informações e formação para a personagem Balduíno.

    O narrador onisciente introduziu ainda um outro episódio marcante na vida do protagonista. Trata-se do velório de uma senhora, numa vila pobre. Balduíno presenciou olhares desejosos de seu amigo Zequinha sobre a filha da defunta, em pleno velório, o que provocou sua ira e a consequente luta entre os dois homens. Balduíno acabou por acertar uma facada em seu adversário e, desesperado, fugiu em disparada por uma mata fechada. A narrativa aqui mudou de tom, tornou-se quase poética, enquanto o protagonista sofreu e refletiu sobre seus atos numa narrativa envolvente de busca interior e autoconhecimento. A personagem sofreu no corpo o delito cometido: muitas dores, febres e alucinações. Socorrido por um ancião, que cuidou dele até que se recuperou, Balduíno partiu então em uma viagem de trem. Num vagão de indigentes, encontrou outros tipos que serviram de narradores miméticos: um velho, um soldado, uma mulher grávida. A vida de cada uma dessas personagens foi apresentada através de diálogos estabelecidos entre elas.

    Como se vê, a narrativa se construiu por meio de diálogos entre as personagens, assim, Balduíno pode ver como o povo sobrevivia.

    A próxima etapa da trajetória de Balduíno aconteceu num picadeiro de circo, novamente como lutador. Ali, conheceu Rosenda Rosedá com quem manteve uma relação amorosa, apesar de amar Lindinalva.

    Finalmente envolveu-se numa greve, tornando-se seu líder, como representante de uma coletividade. Lutou pelos direitos da classe dos proletariados, vencendo a batalha.

    CAPITÃES DA AREIA – 1937

    Personagens

    Pedro Bala: era um jovem loiro de 15 anos, que tinha um corte no rosto. Era o chefe dos Capitães da Areia, ágil, esperto, respeitador e sabia respeitar a todos. Saiu do grupo para comandar e organizar os Índios Maloqueiros em Aracaju, desejando com líder do grupo Barandão. Depois disso ficou muito conhecido por organizar várias greves, como perigoso inimigo da ordem estabelecida.

    Professor: era um garoto magro, inteligente, calmo e o único que sabia ler no grupo. O professor era quem planejava os roubos dos Capitães da Areia. Depois de muito tempo aceitou um convite e foi pintar no Rio de Janeiro.

    Gato: era o mais bonito e mais elegante da turma. Candidato a malandro do bando, tinha um caso com Dalva mulher das noites, que lhe dava dinheiro, por isso, muitas vezes, não dormia no trapiche. Só aparecia ao amanhecer, quando saía com os outros, para as aventuras do dia. Participava dos planos mais arriscados e era muito malandro e esperto. Tempos depois foi embora para  Ilheús tentar a sorte.

     

    Volta-Seca: imitador de pássaros e afilhado de Lampião, era mulato sertanejo de alpargatas.

    Sem Pernas: era um garoto pequeno para sua idade, coxo de uma perna, agressivo, individualista. Era quem penetrava nas casas de família fingindo ser um pobre órfão com o objetivo de descobrir os lugares da casa, onde ficavam os objetos de valor depois fugia e os  Capitães da Areia assaltavam a casa. Seu destino foi suicidar-se,  atirando-se do parapeito do elevador Lacerda, pelo ódio que nutria pela polícia baiana.

    João Grande: negro, mais alto e mais forte do bando. Cabelo crespo e baixo, músculos rígidos. Após a morte de seu pai, João Grande não voltou mais ao morro onde morava, pois estava atraído pela cidade da Bahia. Cidade essa que era negra, religiosa, quase tão misteriosa como o verde mar. Com nove anos entrou nos  Capitães da Areia. Época em que o Caboclo ainda era o chefe. Cedo, se fez um dos chefes do grupo e nunca deixou de ser convidado para as reuniões que os maiorais faziam para organizar os furtos. Ele não era chamado para as reuniões porque ele era inteligente e sabia planejar os furtos,  mas porque ele era temido, devido a sua força muscular. Se fosse para pensar, até lhe doía a cabeça e os olhos ardiam. Os olhos ardiam também quando viam alguém machucando menores.  Então seus músculos ficavam duros e ele estava disposto a qualquer briga.  Ele era uma pessoa boa e forte, por isso,  quando chegavam pequeninos cheios de receio para o grupo, ele era escolhido o protetor deles. O chefe dos Capitães da Areia era amigo de João Grande não por sua força, mas porque Pedro o achava muito bom, até melhor que eles. João Grande aprendeu capoeira com o Querido-de-Deus  junto com Pedro Bala e Gato. João Grande tinha um grande pé,  fumava e bebia cachaça. Não sabia ler. Era chamado de Grande pelo professor, admirava o professor. O professor achava João Grande um negro macho de verdade.

    Pirulito: era magro e muito alto, um cara seca, meio amarelado, olhos fundos, boca rasgada e pouco risonha. Era o único do grupo que tinha vocação religiosa apesar de pertencer  ao  Capitães da Areia.  Quando parou de roubar, para sobreviver vendia jornais, seu destino foi ajudar o padre José Pedro numa paróquia distante.

    Boa Vida: era mulato troncudo e feio, o mais malandro do grupo. Muito preguiçoso, era o único que não participava das atividades de roubo do grupo.  Às vezes,  roubava um relógio ou uma jóia qualquer, passando-a logo para o Bala, como forma de apoio ao grupo. Era um boa-vida, gostava de violão e de ficar fazendo nada, contemplando o mar e os barcos. Seu destino foi virar um verdadeiro malandro, que vivia a correr pelos morros compondo sambas.


    Dora:
    tinha treze para quatorze anos, era a única mulher do grupo e se adaptou bem a ele. Era uma menina muito simples, dócil, bonita, simpática e meiga. Conquistou facilmente o grupo com seus cabelos lisos. Seus pais haviam morrido de  alastrine  e ela ficou sozinha no mundo com seu irmão pequeno. Tentou arrumar emprego, mais ninguém queria empregar filha de bexiguento. Aí ela encontrou João Grande e professor que a chamaram para morar no Trapiche, e logo ela já era considerada por todos como uma mãe, irmã e para Bala uma noiva. Ela participava dos roubos com os outros meninos. Morreu queimando de febre.

    João-de-Adão: estivador, negro fortíssimo e antigo grevista, era igualmente temido e amado em toda a estiva. Através dele, Pedro Bala soube de seu pai. Ele tinha conhecido o loiro Raimundo, estivador que tinha morrido, baleado na greve, lutando em prol dos estivadores. Segundo ele, a mãe de Pedro falecera quando ele tinha seis meses; era uma mulher e tanto.

    Don’aninha: mãe de santo, sempre os socorria em caso de doença ou necessidade.

    Padre José Pedro: introduzido no grupo pelo Boa-Vida, conhecia o esconderijo dos capitães.

    Querido-de-Deus: pescador, juntamente com João- de- Adão tinham a confiança dos meninos, que, por sua vez, não mediam esforços para recompensar esse apoio.

    Enredo

    Tendo como cenário as ruas e as areias das praias de Salvador, Capitães da Areia trata da vida de crianças sem família que viviam em um velho armazém abandonado no cais do porto. Os motivos que as uniram eram os mais variados: ficaram órfãs, foram abandonadas, ou fugiram dos abusos e maus tratos recebidos em casa.  Aproximadamente quarenta meninos de todas as cores, entre nove e dezesseis anos, dormiam nas ruínas do velho trapiche. Tinham como líder Pedro Bala, rapaz de quinze anos, loiro, com uma cicatriz no rosto. Generoso e valente, há dez anos vagabundeava pelas ruas de Salvador, conhecendo cada palmo da cidade.

    Durante o dia, maltrapilhos, sujos e esfomeados, mostravam-se para a sociedade, perambulando pelas ruas, fumando pontas de cigarro, mendigando comida ou praticando pequenos furtos para poder comer. Esse contato precoce com a dura realidade da vida adulta fazia com que se tornassem agressivos e desbocados.

    Além desses pequenos expedientes, os Capitães da Areia praticavam roubos maiores, o que os tornou conhecidos, temidos e procurados pela polícia, que estava em busca do esconderijo e do chefe dos capitães. Esses meninos se pegos, seriam enviados para o Reformatório de Menores, visto pela sociedade como um estabelecimento modelar para a criança em processo de regeneração, com trabalho, comida ótima e direito a lazer. No entanto, esta não era a opinião dos menores infratores. Sabendo que lá estariam sujeitos a todos os tipos de castigo, preferiam as agruras das ruas e da areia à essa falsa instituição.

    Um dia, Salvador foi assolada pela epidemia de varíola. Como os pobres não tinham acesso à vacina, muitos morriam, isolados no lazareto. Almiro, o primeiro capitão a ser infectado, ali morreu. Já Boa-Vida teve outra sorte; saiu de lá, andando. Dora e o irmão, Zequinha, perderam os pais durante a epidemia. Ao saber que eram filhos de bexiguentos, o povo fechava-lhes a porta na cara. Não tendo onde ficar, os dois acabaram no trapiche, levados por João Grande e o Professor.

    A confusão, causada pela presença de Dora no armazém, foi contornada por Pedro. Os meninos aceitaram-na no grupo e, depois de algum tempo, vestida como um deles, participava de todas as atividades e roubos do bando. Pedro Bala considerava Dora mais que uma irmã;  era sua noiva.  Ele que não sabia o que era amor, viu-se apaixonado; o que sentia era diferente dos encontros amorosos com as negrinhas ou prostitutas no areal.

    Quando roubavam um palacete de um ricaço na ladeira de São Bento, foram presos. Parte do grupo conseguiu fugir da delegacia, graças à intervenção de Bala que acabou sendo levado para o Reformatório. Ali sofreu muito, mas conseguiu fugir. Em liberdade, preparou-se para libertar Dora. Um mês no Reformatório feminino foi o suficiente para acabar com a alegria e saúde da menina que, ardendo em febre, se encontrava na enfermaria.

    Após renderem a irmã, Pedro, Professor e Volta-Seca fugiram, levando Dora consigo. Infelizmente, não resistindo, ela morreu na manhã seguinte. Don’aninha embrulhou-a em uma toalha de renda branca e Querido-de-Deus levou-a em seu saveiro, jogando-a em alto mar. Pedro Bala, inconsolável e muito triste, chorou com todos  a ausência de Dora. Alguns anos se passaram e o destino de cada um do grupo foi tomando rumo. Graças ao apoio de um poeta, o Professor foi para o Rio, e já estava expondo seus quadros. Pirulito, que já não roubava mais, entrara para uma ordem religiosa. Sem-Pernas morreu, quando fugia da polícia. Volta-Seca estava fazendo o que sempre tinha sonhado; aliou-se ao bando de seu padrinho, Lampião, tornando-se um terrível matador de polícia. Gato, perfeito gigolô e vigarista, estava em Ilhéus, trapaceando coronéis. Boa-Vida, tocador de violão e armador de bagunças, pouco aparecia no trapiche. João Grande embarcou como marinheiro, num navio de carga do Lloyd.

    Após o auxílio na greve dos condutores de bonde, o bando Capitães da Areia de Pedro Bala, tornou-se uma “brigada de choque”, intervindo em comício, greves e em lutas de classes. Assim como Pirulito, Bala havia encontrado sua vocação. Passando a chefia do bando para Barandão, seguiu para Aracaju, onde iria organizar outra brigada. Anos depois, Pedro Bala, conhecido organizador de greves e perigoso inimigo da ordem estabelecida, é perseguido pela polícia de cinco estados.

    Os Capitães da Areia são heróicos, “Robin Hood”s que tiram dos ricos e guardam para si (os pobres). O Comunismo é mostrado como algo bom. No geral, as preocupações sociais dominam, mas os problemas existenciais dos garotos os transformam em personagens únicos e corajosos.

    Terras do Sem Fim  –  1943

     

    Enredo

     

    A exploração do cacau trouxe para a região de Ilhéus, no sul da Bahia, o desenvolvimento e com este os mais diversos tipos humanos que ali aportavam atraídos pelas histórias de terras férteis e dinheiro em abundância. Para todos, que chegavam, Ilhéus era a primeira ou a última esperança.

    Dentre as pessoas vindas de longe, iludidas por essa febre, encontravam-se, no mesmo navio, o lavrador Antônio Vítor que sonhava com uma roça de cacau só sua, o aventureiro João Magalhães, jogador de cartas trapaceiro e falso engenheiro militar, que se via ganhando muito dinheiro no carteado, graças ao “azar” dos velhos coronéis milionários, e a prostituta Margot que deixara Salvador para encontrar o amante, o advogado Dr.Virgílio que, na esperança de riqueza fácil, já se encontrava em Ilhéus, esperando colocar seu conhecimento de leis a serviço da ambição dos coronéis.

    Após o desembarque, encontraram em Ilhéus e vilarejos adjacentes: Ferradas e Taboca, sociedades em formação, conturbadas pela ganância dos poderosos, onde a lei era a dos mais fortes e corajosos, tornando-se por isso selvagens e violentas. Depararam-se com o conflito entre dois grandes latifundiários: o Coronel Horácio e a família Badaró que, em busca de expansão do patrimônio e força política, lutavam pela posse das matas do Sequeiro Grande, que ficavam entre as duas propriedades.

    Coronel Horácio, ex-tropeiro e empregado de uma roça no Rio-do-Braço, enriquecera plantando cacau. Como próspero fazendeiro, ajudara a construir a capela de Ferrada e a igreja de Taboca, mantendo assim sua força política no local. Viúvo, casara-se novamente com a bela e jovem Ester, que lhe deu um filho, seu orgulho. Tudo o que fazia era em nome de um futuro brilhante para esse menino. Seu grande amor era a esposa, mulher fina, inteligente e culta; falava o francês e adorava música. Era feliz pelo que ela representava. Ester, no entanto, não o amava. Para ela, a vida na fazenda era um tédio, um martírio; vivia apavorada com medo de insetos e cobras. Isso se refletia no frio relacionamento sexual com o marido, que tudo relevava, em nome da paixão.

    Os advogados eram bem vindos em Ilhéus, onde faziam fortunas. Os grandes latifundiários, quando queriam se apossar de um roçado vizinho, para, gananciosamente, aumentar seu patrimônio, solicitavam de um advogado um “caxixe”, documento falso de propriedade que expulsava o pequeno lavrador de seu roçado. Assim, de um dia para outro, este se via forçado a deixar sua lavoura, conquistada, na maioria das vezes, com muito sacrifício. Se, no entanto, punha resistência, era morto pelos jagunços do coronel que, em “tocaia”, esperavam-no passar por uma das estradas solitárias do sertão.

    Virgílio e Margot viviam em casas separadas para evitar comentários do preconceituoso povoado de Tabocas. Apesar disso, ele passava a maior parte do dia em companhia da amante. Pareciam felizes. Ao contratar os serviços de Virgílio para regularizar a medição e os documentos de posse das terras de Sequeiro Grande, o coronel Horácio convida-o para um jantar em sua casa. Durante esse evento, Virgílio conhece Maneca Dantas, compadre e amigo de Horácio, e Ester que, ao final, aceitara tocar piano para eles. Fica fascinado por ela que, por sua vez, encantara-se com a voz, a cabeleira loira, o olhar lânguido e as maneiras finas do jovem doutor. Nessa noite, Horácio se surpreendeu com a mudança da mulher na cama; mais calorosa e receptiva, entregava-se com paixão; achou que ela ainda o amava.

    Na madrugada dessa mesma noite, quando todos já dormiam, Firmo chegou à fazenda. Após ter acordado todos, contou-lhes sobre o atentado que havia sofrido. O negro Damião, o melhor matador dos Badaró, esperava-o em uma tocaia, mas felizmente errara o tiro. O pequeno sítio de Firmo localizava-se entre a mata e a propriedade dos Badaró, que já haviam proposto a sua compra. Ofereceram até mais do que a roça valia, mas Firmo, aconselhado por Horácio, não a vendeu.

    Para Horácio, aquela tentativa de assassinato comprovava que eles estavam decididos entrar na mata de qualquer jeito e que a luta pela posse de Sequeiro Grande iria começar. Pede a Damião e Maneca Dantas para percorrerem todos os pequenos sítios que ficavam entre as duas propriedades e explicitarem sua proposta: todos que o ajudassem, não só manteriam suas terras como também teriam uma porção de Sequeiro Grande. As terras na outra margem do rio, que cortava a mata, seriam divididas entre os que o ajudassem. Além disso, como a fazenda não seria um lugar seguro, aconselha Ester a passar com o filho uns tempos no palacete de Ilhéus. No caminho para Ilhéus, esperando Horácio resolver uns negócios, Ester passou quatro dias em Tabocas, onde conversou muito com Virgílio. Cada vez mais apaixonada, via no jovem advogado uma maneira de sair daquele lugar horrível, e este, por sua vez, não via a hora de poder se encontrar com ela a sós.

    Os Badarós eram uma das famílias mais ricas e poderosas da região. Don’Ana, filha de Sinhô Badaró, era conhecida em Ilhéus como moça séria e enraizada à terra; raramente deixava a fazenda e pouco ligava para as festas da igreja e conversas de comadres. Enquanto Sinhô Badaró era pela paz, matando somente em caso de extrema necessidade, Juca Badaró, seu irmão, resolvia tudo a tiro e morte. Juca era casado, sem filhos. Olga, sua esposa, passava, a maior parte do tempo, aos cochichos em Ilhéus e ele, por sua vez, nas lavouras de cacau, ou com as amantes. Quando ela vinha para a fazenda, era para reclamar da vida e do marido. Don’Ana tinha pouco tempo e motivo para se condoer com ela. Como Badaró, não era contra as aventuras extraconjugais dos homens da família. Cumpriam com sua obrigação e não deixavam faltar nada, assim fora seu pai e assim deveriam ser todos os homens. Para ela, Olga era uma estranha na família.

    Antônio Vítor, que, no navio, sonhava com sua volta para o Ceará, rico e bem vestido, abandonou essa ilusão, quando notou que jagunços e lavradores deixavam todo dinheiro ganho em contas no próprio armazém da fazenda e que, no final do mês, recebiam um saldo miserável, quando havia saldo. Contratado para a lavoura, tornou-se capanga de Juca Badaró, após ter-lhe salvo a vida. A sua coragem o promoveu: trocou a foice pela espingarda; acompanhava Juca a todos os lugares. A namorada, deixada em sua cidade, estava muito longe; não existia mais. Sonhava com Raimunda, mulata de nariz chato, irmã de leite de Don’Ana e afilhada do Sinhô Badaró; estava se apaixonando por ela.

    Após medição da mata, Virgílio registrou-a no cartório de Venâncio. A posse foi feita em nome de Horácio, Maneca Dantas, Braz, viúva Merenda, Firmo, Jarde e de Dr. Jessé Freitas. Os felizes proprietários não se regozijaram por muito tempo. Numa tarde, os homens de Badaró atearam fogo no cartório, perdendo-se, assim, todos os documentos.

    Juca Badaró agora tinha que medir a mata com urgência para dar entrada nos papéis de posse. Como seu engenheiro viajara, contratou João Magalhães para executar a tarefa. Este que não era militar e muito menos engenheiro e que, naquele fim de mundo, não estava em busca apenas do dinheiro que lhe deixavam as mesas de pôquer, achou a oferta de Juca irrecusável; não só fez o serviço, como também passou a se interessar por Don’Ana. O olhar afetuoso da moça sobre ele fez com que se colocasse à disposição dos Badaró, passando a discutir sobre as terras como um Badaró, sentia-se um parente.

    Como Virgílio estava apaixonadíssimo por Ester, acabou brigando com Margot que, em seguida, caiu nos braços de Juca Badaró. Este se interessou por ela, desde que a vira no navio para Ilhéus. Nessa cidade, a força dos coronéis era medida pelas casas que possuíam. Cada qual levantava uma melhor e, aos poucos, as famílias iam se acostumando e demorar mais tempo na cidade do que nas fazendas. O palacete de Horácio era maravilhoso e, ali, Ester recebia Virgílio; amavam-se e planejavam fugas às escondidas. Apesar disso, toda cidade já comentava o caso, rindo-se do coronel Horácio.

    As emboscadas continuaram acontecendo. Numa noite, o irmão Merenda com três cabras de Horácio, atacaram Sinhô Badaró no atalho. Nessa mesma noite, Juca e seus homens cometeram uma série de violências na região. Mataram os irmãos Merenda, entraram na roça de Firmo e queimaram tudo, não o mataram porque ele não se encontrava em casa naquele momento. Nas cidades distantes falavam-se das lutas em Sequeiro Grande. Diariamente chegavam jagunços de outras regiões que logo eram recrutados por alguém de um dos lados. O preço das armas e munições aumentavam; a luta exigia muito dinheiro.

    Uma noite, como Horácio estava na cidade, Virgílio, impossibilitado de se encontrar com Ester, convidou Maneca Dantas para saírem. No cabaré, encontrou Margot e com ela dançou uma valsa. Quando Juca, que estava na sala de carteado, soube, entrou no salão a tempo de impedir o bis. Ao passar por Virgílio, puxando a mulher, insultou-o. Maneca Dantas, prudentemente, impediu-o de reagir.

    Juca espalhou pela cidade que arrancara a mulher dos braços de Virgílio e que este nada fizera; era um cagão. Ao saber disso, Horácio explica a Virgílio que, diante daquela ofensa, se ele quisesse continuar advogando e ser respeitado na cidade, teria de mandar matar Juca. O coronel já decidira, iria mandar matá-lo de qualquer jeito, pois este já tinha ido longe demais, acabando com quatro de seus homens. Apenas queria que fosse Virgílio a dar a ordem ao jagunço. Depois de relutar muito, o advogado concordou. Horácio ficou muito feliz; sabia então que seu amigo entraria para o rol dos homens valentes de Ilhéus.

    A emboscada armada para Juca Badaró não foi bem sucedida. O homem na tocaia ficou morto em seu lugar e Antônio Vítor fora ferido para salvar o patrão. Outra infelicidade assolou a vida de Horácio; febre, que matara Sílvio, infectara-lhe também. Indiferentes aos comentários maldosos da cidade, Ester voltou para Tabocas em companhia de Virgílio. Ali, desdobrando-se em cuidados, ficou ao lado da cabeceira do marido os sete dias em que esteve entre a vida e a morte. Dr. Jessé fez o mesmo, parou tudo, para socorrer o patrão. Graças, talvez, ao corpo forte de homem sem vícios e enfermidades, coronel Horácio não morreu. Entretanto, logo em seguida, Ester caiu doente. Febre altíssima e delírios comeram-lhe toda a beleza. Como a febre não cedia, transportaram-na para Ilhéus, mas foi tudo em vão; Ester não aguentou, morreu.

    A luta progredia, numa corrida para ver quem chegava primeiro. De um lado estavam os Badaró derrubando a mata e de outro os homens de Horácio, o barulho recomeçaria quando os dois grupos se encontrassem. Nesse período, uma festa de casamento agitou Ilhéus. Don’Ana casou com João Magalhães que se mostrara suficientemente corajoso e envolvido com a família para continuar o trabalho dos Badaró. Raimunda e Antônio Vítor se casaram também. Todavia, durante a lua de mel de Don’Ana, uma tragédia se abateu sobre os Badaró. Quando passava um fim de semana com Margot em Ilhéus, Juca foi assassinado. Eles sabiam quem tinha sido o mandante e sabiam também que um simples processo não resolveria a questão; Horácio deveria ser morto, mas também sabiam que isso não seria fácil.

    Com a intervenção do governo federal no estado da Bahia, o governador teve de renunciar e a oposição tomou o poder. Nessa esteira, em Ilhéus, o interventor demitiu o prefeito e nomeou o Dr. Jessé para o cargo; o juiz também foi transferido, viria outro em seu lugar. Naquele momento, Sinhô Badaró tornara-se oposição e Horácio, que era governo, já imaginava Virgílio como deputado federal. Nesse ínterim a luta pela mata continuava, com muitos mortos e roças de cacau em chamas. O cerco da casa Grande dos Badaró pelos homens de Horácio pôs fim na luta. Sinhô Badaró ainda resistiu por quatro dias e noites. Quando este caiu ferido, Don’Ana mandou-o para Ilhéus. Excetuando Don’Ana, Capitão Magalhães fez com que as outras mulheres, Olga e Raimunda, fossem também com o Sinhô. No final todos fugiram e o cerco culminou com o incêndio da casa grande.

    Meses depois, Horácio foi levado a julgamento e, por unanimidade de votos, foi considerado inocente. Alguns dias mais tarde, bastante acabrunhado, procurou o compadre Maneca Dantas para lhe dizer que mandaria matar Virgílio. Encontrara, entre os papéis de Ester, algumas cartas de Virgílio, que comprovavam que tinham sido amantes. Deu-se conta, atordoadamente, que toda mudança ocorrida no seu relacionamento com a esposa era por causa do advogado; os dois o haviam traído.

    No final daquele mesmo dia, Maneca Dantas encontrou-se com Virgílio que estava de partida para Ferradas. Sem sucesso, Maneca, que gostava muito do advogado, tentou convencê-lo a não viajar naquela noite. Diante de tanta teimosia, contou-lhe os planos do compadre. Virgílio agradeceu, mas confirmou que não voltaria atrás. Explicando-se, disse que ficara com Horácio, porque ali tudo ainda era Ester. Quando ela ainda vivia, tinha a esperança de ir embora, mas nada mais fazia sentido. Para ele, o triste era viver sem Ester; iria morrer corajosamente, segundo as leis do lugar. Despediu-se de Maneca e partiu. Naquela mesma noite foi morto em uma emboscada, a caminho de Ferradas.

    A nomeação de um bispo para Ilhéus também era sinal de progresso e dentre os que saíram às ruas para saudá-lo estavam Horácio, Maneca Dantas, Sinhô Badaró, que ainda coxeava um pouco, e Don’Ana e esposo. Após as eleições, Dr. Jésse foi levado à Câmara Federal como deputado do governo. Graças a ele, um decreto criou o município de Itabuna – ex-Tabocas -, desmembrando-o de Ilhéus. Horácio elegeu Maneca Dantas para prefeito de Ilhéus e o Sr. Azevedo para prefeito de Itabuna.

    TOCAIA GRANDE  –  1984

    Tocaia Grande é a história da fundação de uma cidade no sul da Bahia numa época em que as plantações de cacau eram adubadas com sangue. A história conta a disputa pela terra e pelo domínio político entre os coronéis Boaventura Amaral e Elias Daltro.

    Tudo começa quando Natário da Fonseca quer deixar de ser um simples jagunço para virar coronel. Natário se destaca comandando o grupo de Boaventura. Com esse destaque, ele ganha a patente de Capitão e, com isso, algumas terras. Natário começa a plantar cacau e incentiva a fundação de uma nova cidade cujo nome será Tocaia Grande, palco de conflitos com os coronéis de Itabuna que querem continuar dominando a região e não admitem a ascensão de Natário.

    No meio da disputa, surge a prostituta Júlia Saruê, que é perseguida pelos coronéis. Júlia tem quatro filhos, que abandonou quando estes eram pequenos. São eles, Sacramento, Ressurreição, Aurélio e Bernarda.

    Ressurreição, ou simplesmente Ressu, fora criada com o Padre Mariano em Itabuna. Apaixonada pelo cego Coronel Felipe Sampaio, a moça vive com ele o romance central da história. Bernarda é apaixonada por Natário, que, juntamente com sua esposa Zilda, foi quem a criou. Com a morte de sua esposa, Natário fica livre e cai nos braços de Bernarda. Sacramento é a alegria de Coronel Boaventura, que ao morrer pede a Natário que se encarregue da moça, encaminhando-a da melhor forma possível. Aurélio é vítima de sua própria revolta contra o poderio dos coronéis, que o leva a desgraça.

    A morte do Coronel Boaventura traz a Tocaia Grande o seu filho, Venturinha, que é obrigado a largar de sua boa vida na Europa, e assumir as finanças e a posição política deixadas pelo pai. Ao saber que o Capitão Natário não irá mais lhe assessorar, pois o seu compromisso era com o pai e com a morte dele cessou suas obrigações, Venturinha se revolta e vai á cata de vingança.

    No final da obra, Natário mira a cabeça de Venturinha, nunca havia errado um tiro na sua vida.

    “Natário firmou pontaria, visando a testa de Venturinha. Em mais de vinte anos, não errara um tiro. Com sua licença, Coronel.”

    Temas:

    • Jagunços e coronéis
    •  Misticismo e religiosidade
    •  Plantação de cacau
    •  Prostituição
    •  Incesto (era comum pai estuprar  a própria filha)
    •  Fatos históricos
    •  Instintos animalescos
    • Em Tocaia Grande quem se gosta se amasia, pois o lugar não tem igreja, não tem padre. É um porto livre dos tabus e moralidades da sociedade. As coisas acontecem de acordo com as conveniências e necessidades.

    O País do Carnaval  –  1931 

    Publicado em 1931 é o primeiro romance de Jorge Amado, escrito quando ele tinha apenas 19 anos. O País do Carnaval surpreendeu a crítica: um livro crítico e contestador sobre a ética – ou falta dela – dos intelectuais da época diante da situação social e política do Brasil às vésperas da revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas. Expressa o clima intelectual da época, marcado pela ideia de crise e incerteza. Jorge Amado surpreendeu a crítica e o público com sua aguçada crítica política.

    O País do Carnaval conta a história de Paulo Rigger, intelectual educado em Paris. Ele desembarca na Bahia com a francesinha Julie, sua amante, que acaba o traindo com Honório, um hercúleo trabalhador negro do campo. Desiludido, Rigger demite Honório e abandona sua amante num hotel de Salvador, seguindo de navio de volta à Europa e deixando para trás o Brasil em pleno Carnaval.

    O romance tem descrições de menos, diálogos inacabados, personagens que se perdem, discussões sobre o sentido da vida e a felicidade que não chegam a lugar nenhum. Jorge Amado fala, nesse livro, de uma juventude plena de inquietude, numa ansiosa e mesmo angustiada busca de verdades e caminhos. Trata-se, em suma, de um retrato geracional — tecido a partir das rondas de Paulo Rigger que regressa à Bahia acompanhado de uma prostituta de luxo francesa. Volta a conviver com seus velhos amigos, hoje jornalistas e juristas. Descobre que as vidas deles são tão inúteis quanto a sua, e que não ama o país em que vive.

    No final, insatisfeito e desencantado, marcado por uma renúncia preconceituosa à chegada do amor, Rigger embarca, no porto do Rio de Janeiro, com destino à Europa. Toma o navio rumo a Paris, rogando pragas ao “país do Carnaval”. Leva com ele as suas dores, deixando atrás de si uma cidade alucinada pelos ritmos e brilhos do carnaval.

    Na introdução, Amado confessa que gostaria de ter intitulado o livro “Os homens que eram infelizes sem saber por quê”.

    Personagens

    Paulo Rigger: filho de rico cacauicultor recém-falecido, de volta de Paris.
    Julie: a francesa, amante de Paulo que desembarca com ele no Rio.
    Pedro Ticiano: ateu, homem cético, o terror dos letrados.
    Ricardo Reis: piauiense, tentando a vida na Bahia. Poeta, funcionário público, estudante de direito.
    A. Gomes: jornalista, diretor de uma revista, sonha ficar rico.
    Jerônimo Soares: o mais apagado dos amigos. Mulato, ingênuo, sem vaidades.
    José Lopes: o mais estranho de todos. Batia de frente com Ticiano.
    Maria de Lourdes: jovem pobre, por quem Paulo Rigger se apaixonaria.

    Tenda dos Milagres  –   1969

    Em Tenda dos Milagres, segundo romance de Jorge Amado, publicado em 1969, o autor apresenta a violência dos brancos diante de rituais de origem africana, e oferece o ingresso para um outro mundo, onde a mistura não é só de raças, mas também de religiões. É um grito contra o preconceito racial e religioso. E na ânsia de nos apresentar a figura de um certo Pedro Archanjo em sua inteireza, o autor encheu-se de ambição, quis abarcar o mundo com as pernas, misturou tempos e espaços romanescos.

    Tenda dos Milagres é uma obra em que o diálogo com as teorias da identidade nacional é explorado em sua máxima potência. Seu personagem principal, Pedro Archanjo, transita entre teorias populares e eruditas, torna-se autor (sem jamais ser inserido formalmente na academia, entrando pela porta de trás) e debate com personagens que podem ser reconhecidos em teóricos como Nina Rodriques e Manoel Querino.

    O candomblé, a capoeira e as festas populares da Bahia fazem parte do universo de Pedro Archanjo, escritor, sábio, malandro e personagem central da obra. Os tipos folclóricos das ladeiras de Salvador estão presentes também em Tenda dos Milagres. É um dos maiores e mais perfeitos personagens da literatura universal. Ele é descrito como Ojuobá (ou “olhos de Xangô”). Mulato e capoeirista, mestre Archanjo, como também era conhecido, tocava viola, era bom de cachaça e pai de muitas crianças com as mais lindas negras, mulatas e brancas.

    No romance, é ele quem percorre as ladeiras de Salvador e recolhe dados sobre o conhecimento dos negros africanos sua cultura. Pedro é um mulato sociólogo que combate os preconceitos da Salvador do começo do século e que continua frequentando os terreiros, mesmo depois que deixa de acreditar nos orixás. Tudo para não deixar esmorecer o ânimo dos perseguidos e evitar o triunfo da polícia e da elite racista.

    Romance sociológico, esta obra segue a linha típica dos romances de Jorge Amado, que tem, como já citado, a cidade de Salvador como cenário e é, basicamente, a narrativa das proezas e dos amores de Pedro Archanjo, bedel da Faculdade de Medicina da Bahia, que se converte em estudioso apaixonado de sua gente, publicando livros sobre a mestiçagem genética e os sincretismos simbólicos do povo baiano. Mostra sua luta pela afirmação da cultura popular.

    Em Tenda dos Milagres a vida do povo baiano é apresentada em um enredo fascinante e pleno de personagens os mais variados e interessantes, que vão dos mestres da capoeira à gente do candomblé, professores, doutores e boêmios.

    E muitas são as mulheres que encheram de encanto a narrativa do escritor: Rosa de Oxalá, Doroteia, Rosenda, Risoleta, Sabina dos Anjos, Dedé, a maioria mulatas baianas, e a nórdica Kirsil. Mas dentre tantos tipos que povoam a história, se sobressai, sem dúvida, a figura de Pedro Archanjo.

    DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS – 1966

    A história é dividida em 5 partes (cada uma aberta por uma lição de culinária de Flor, que é professora desta arte, com exceção da quarta parte, aberta por um programa para o concerto de Teodoro) e um intervalo. A primeira começa com a morte de Vadinho em pleno Domingo de Carnaval. Vestido de baiana, Vadinho cai enquanto dançava e seu funeral é MUITO concorrido. Nele voltam as lembranças de todos sobre o falecido: os amigos de farra, as possíveis (prováveis) amantes, os conhecidos e principalmente da esposa, Flor. Flor lembra do marido infiel, cheio de lábia, espertalhão, jogador e malicioso que era Vadinho, mas ainda assim extremamente adorável. Na definição de um dos presentes no funeral, Vadinho “Era um porreta”. O anteriormente referido intervalo se trata da discussão que ocorreu na cidade sobre a autoria da elegia a Vadinho, poesia anônima picante. A segunda parte passasse-se durante o período de luto de Flor.

    Inconsolável com a morte de Vadinho, sua mãe volta para a cidade e a situação piora. Dona Rozilda é o mais perfeito modelo de sogra: odeia o genro, é chata, controladora, exibida e pretende sempre escalar na vida social. Passa a fazer intriga sobre o falecido (“era morte para festa”) com várias beatas, enquanto algumas poucas defendem Vadinho (não seus atos) por ele ser uma pessoa excepcional (no sentido de incomum, não o de maravilhoso ou com deficiência mental). Assim em flashback é mais detalhado o passado do casal. A mãe de Flor queria que as filhas se casassem com homens ricos, e Vadinho apareceu. Eles se conheceram numa festa chique (Vadinho entrou de penetra, com a ajuda do tio) e começaram o namoro com a benção de Dona Rozilda, até que ela descobriu quem era o genro. Mais tarde Flor sai de casa e se casa (de azul, porque não teve coragem de por o branco) e começa o casamento. Vadinho é um marido ausente, sempre gastando o dinheiro (dos outros) no jogo e nas mulheres. Certa vez Flor quase adotou um menino que ela achava ser filho de Vadinho (Flor é estéril; o filho era do “xará”).

    E assim são mostrados os vários acontecimentos, em flashback, da vida matrimonial com aquele adorável cafajeste, generoso gastador, infiel e amantíssimo marido que era Vadinho. O capítulo acaba com Flor pondo flores sobre o túmulo do falecido, superando melhor o passamento dele. A terceira parte é passada nos meses seguintes. Flor está mais alegre, apesar de manter ainda a fachada de viúva. Todas as beatas competem para achar-lhe um bom pretendente e quem aparece é Eduardo, o Príncipe, calhorda que enganava viúvas para roubar-lhes as economias. Descoberto, Flor passa a se retrair. Seu sono torna-se mais agitado, seu desejo cresce na medida em que ela deixa os homens fora de sua vida pessoal. Mas então o farmacêutico Teodoro Madureira, respeitado solteirão (ele ficara solteiro para cuidar da mãe paralítica, que morreu pouco antes), ele propõe casamento a Dona Flor e eles têm o mais casto dos noivados, nunca ficando juntos sozinhos.

    O capítulo acaba com o casamento de Flor, desta vez aprovado por sua mãe (que havia saído da cidade no começo do capítulo; nem as outras beatas aguentavam Dona Rozilda). A quarta parte começa com a lua-de-mel de Dona Flor. Teodoro é diferente do falecido em tudo. Fiel (não compreende mesmo quando uma cliente da farmácia levanta o vestido BEM alto para tentá-lo), regular (sexo às quartas e sábados, bis aos sábados e facultativo às quartas) e inteligente, Teodoro trás a paz de volta à vida de Dona Flor. Teodoro toca fagote numa orquestra de amadores e o maestro compõem uma linda música para ela que Teodoro toca solo (o convite abre o capítulo) e no dia do aniversário de casamento, após os convidados partirem Flor vê Vadinho, nu como o viu na cama no dia de sua morte, a puxá-la e tentá-la.

    Ela se recusa naquele momento, fiel ao marido. Teodoro vai dormir e Vadinho sai logo depois, quando Flor ia procurá-lo. Começa aqui a parte do livro que o deixou famoso: Flor, Teodoro e Vadinho, vivendo em matrimônio ao mesmo tempo, Vadinho nu, invisível a todos menos Flor. A quinta parte, que tornou famoso livro, filme, seriado e tantas quanto foram as adaptações desta obra, começa com o Vadinho vindo de volta dos mortos, tentando Flor. Flor sente-se dividida entre o esposo atual e Vadinho, mas este diz-lhe que não há por que o estar: são colegas, casados frente ao juiz e ao padre. Flor vai aos poucos perdendo a resistência e chega a encomendar um trabalho para mandar Vadinho de volta para onde estava. Enquanto isso se passa Vadinho vai manipulando as mesas de jogo, favorecendo velhos amigos, levando Pellanchi Moulas, rei do jogo em Salvador, ao desespero e a todos os “místicos” da Bahia para se livrar do azar. Vadinho só para quando seus amigos cansam (Mirandão, companheiro seu quando era vivo, para de jogar definitivamente, assustado com o repetir de vezes que caía no 17, número de sorte de Vadinho). Por fim Dona Flor sucumbe a Vadinho e passam a viver harmoniosamente os três uma vida conjugal (mesmo que Teodoro não o saiba).

    Vadinho chega a fazer o milagre de expulsar a sogra quando ela chega de mala e cuia para ficar. Vadinho começa então a desaparecer e Flor se dá conta de que era por causa do feitiço por ela encomendado. Há uma batalha entre vários deuses contra Exu (identificado por alguns como sendo o diabo católico), que protege Vadinho. Quando Exu estava perdendo, o amor e a volúpia de Vadinho ganham a batalha. A obra acaba com Flor andando feliz com Teodoro e Vadinho (nu, como sempre) ao seu lado, pelas ruas de Salvador. Esta parte acentua duas características gerais da obra: a religiosidade que mistura ao mesmo tempo o catolicismo e o candomblé, pondo todas as figuras míticas das duas religiões junto e eficientemente simultâneas (algo como é a religiosidade baiana, já que Salvador tem mais igrejas que qualquer outra cidade do Brasil e ainda assim é centro das religiões de origem africana). A outra característica vem a ser o fato de que Vadinho e Teodoro são metáforas para o id e o superego, respectivamente. Vadinho é rebelde, impulsivo, espontâneo e dado ao caos (no seu caso, o jogo); Teodoro é metódico e controlado (“Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar” é seu lema, pendurado na farmácia). Assim, a imagem de Flor pacificamente com os dois, totalmente feliz, invoca o ideal de equilíbrio entre os dois.

    GABRIELA CRAVO E CANELA – 1958

    Modernismo de segunda fase, Gabriela Cravo e Canela é dividido em duas partes, que são em si divididas em outras duas. A história começa em 1925, na cidade de Ilhéus. A primeira parte é Um Brasileiro das Arábias e sua primeira divisão é O langor de Ofenísia. Vai centrando-se a história nesta parte em dois personagens: Mundinho Falcão e Nacib. Mundinho é um jovem carioca que emigrou para Ilhéus e lá enriqueceu como exportador e planeja acelerar o desenvolvimento da cidade, melhorar os portos e derrubar Bastos, o inepto governante. Nacib é um sírio (“turco é a mãe!”) dono do bar Vesúvio, que se vê em meio a uma grande tragédia pessoal: a cozinheira de seu bar partiu para ir morar com o filho e ele precisa entregar um jantar para 30 pessoas em comemoração a inauguração de uma linha automotiva regular para a cidade de Itabuna.

    Ele encomenda com um par de gêmeas careiras, mas passa toda a parte procurando por uma nova cozinheira. No final desta pequena parte, aparece Gabriela, uma retirante que planeja estabelecer-se em Ilhéus como cozinheira ou doméstica, apesar dos pedidos do amante que planeja ganhar dinheiro plantando cacau. A segunda parte desta primeira parte é A solidão de Glória e passa-se apenas em um dia. O dia começa com o amanhecer de dois corpos na praia, frutos de um crime passional (todo mundo dá razão ao marido traído/assassino), segue com as preparações do jantar e a contratação de Gabriela por Nacib. No jantar acirram-se as diferenças políticas e, na prática, declara-se a guerra pelo poder em Ilhéus entre Mundinho Falcão (oposição) e os Bastos (governo). Quando o jantar acaba (em paz), Nacib volta para casa e, quando ia deixar um presente para Gabriela, silenciosa, mas não inocentemente, tem com ela a primeira noite de amor/luxúria.

    A segunda parte chama-se propriamente Gabriela Cravo e Canela e sua primeira parte, o capítulo terceiro, chama-se O segredo de Malvina, terceiro capítulo, passa-se cerca de três meses após o fim do outro capítulo, e três problemas existem: o caso Malvina-Josué-Glória-Rômulo, as complicações políticas e o ciúmes de Nacib. Vamos pela ordem. Josué era admirador de Malvina, filha de um coronel com espírito livre. Esta começa a namorar Rômulo, um engenheiro chamado por Mundinho Falcão para estudar o caso da barra (que impedia que navios grandes atracassem no porto de Ilhéus). Josué se desaponta e se interessa por Glória, amante de outro coronel. Rômulo foge após um escândalo feito pelo machista (tão machista quanto o resto da sociedade ilheense) pai de Malvina, Malvina faz planos de se libertar e Josué que começa um caso em segredo com Glória. Na política, acirra-se a disputa por votos ao ponto do coronel Bastos mandar queimar toda uma tiragem do jornal de Mundinho.

    Mas Mundinho ganha terreno com a chegada do engenheiro. E perde quando esse foge covarde. E ganha com a promessa da chegada de dragas a Ilhéus. Nacib enquanto isso desenvolveu um caso com Gabriela. Mas está sendo atacado pelos ciúmes (todos querem Gabriela, perfume de cravo, cor de canela). Aos poucos ele percebe que é amor e acaba propondo casamento a Gabriela após a última investida do juiz (alarme falso, ele já havia desistido). Mas foi a tempo, já que até roças do poderoso cacau de Ilhéus já haviam sido oferecidas a Gabriela.

    O capítulo acaba durante a festa de casamento de Nacib e Gabriela (no civil, já que Nacib é muçulmano não-praticante), quando chegam as dragas no porto de Ilhéus. A quarta e última parte chama-se O luar de Gabriela. Nesta resolvem-se todos os casos. Pela ordem: Josué e Glória oficializam a relação e Glória é expulsa de sua casa por seu coronel. Na parte da política, após o coronel Ramiro Bastos perder o apoio de Itabuna (e mandar matar, sem sucesso, seu ex-aliado; o quase assassino foge com a ajuda de Gabriela, que o conhecia), ele morre placidamente em seu sono, seus aliados reconhecem que estavam errados (a lealdade era com o homem, não suas ideias) e a guerra política acaba com Mundinho e seus candidatos vencedores. Quanto a Nacib e Gabriela… Gabriela não se adapta de jeito nenhum à vida de “senhora Saad”, para desespero de Nacib.

    Nacib acaba anulando o casamento ao pegá-la na cama com Tonico Bastos, seu padrinho de casamento. Mas ninguém ri de Nacib; pelo contrário, Tonico é humilhado e sai da cidade, o casamento é anulado sem complicações (os papéis de Gabriela eram falsos) e Gabriela sai de casa. Nacib fica amargurado e vai se recuperando. As obras na barra se completam com sucesso e Nacib e Mundinho abrem um restaurante juntos. O cozinheiro chamado pelos dois é… convidado a se retirar da cidade por admiradores de Gabriela, que acaba sendo recontratada por Nacib. Semanas depois, Nacib e ela reiniciam seu caso, tão ardente como era no começo e deixara e ser após o casamento. Num epílogo, o coronel, assassino dos dois amantes da primeira parte, é condenado à prisão. Cheio de uma crítica à sociedade ilheense, a própria linguagem do autor muda quando foca-se a atenção em Gabriela. Torna-se mais cantada, mais típica da região (como é a fala de todos), deixando a leitura cada vez mais saborosa.

    TIETA DO AGRESTE – 1977

    Na década de 1970, Sant´Ana do Agreste, pequena vila do interior da Bahia, viveu dias de grande expectativa enquanto se prepara para receber Tieta, filha que retornou depois de 26 anos de ausência.

    Aos 17 anos, Tieta vivera aventuras amorosas que escandalizaram a população. Denunciada pela irmã mais velha, Perpétua, Tieta foi expulsa de casa. Desde a sua partida, o único contato de Tieta com a família era por meio de cartas que tinham como remetente uma caixa postal em São Paulo.

    Além da correspondência, controlada por Carmô, funcionária dos Correios e a solteirona mais alegre da cidade, Tieta também enviava ajuda financeira para a família.

    O retorno de Tieta abalou a rotina da pacata cidade. Tieta retorna rica e poderosa, viúva de um industrial paulista. Ela chega acompanhada de Leonora, moça bela e triste, que apresenta como sua enteada. Tieta é recebida com toda a pompa pela família, habitantes e políticos da cidade perdida no mapa e no tempo.

    Ascânio, o jovem e progressista secretário da Prefeitura, tem como maior ambição fazer a luz elétrica chegar à cidade ainda iluminada por luz de gerador.

    A presença de Tieta e Leonora transforma a vida do pacato vilarejo e de seus tipos folclóricos: o prefeito enlouquecido Mauritônio Dantas, o poeta de plantão Barbosinha, o comandante Dário de preocupações ecológicas, o trio de amigos que controla a cidade da mesa de sinuca, entre outros.

    Leonora e Ascânio se envolvem em um casto romance, enquanto Tieta tem uma tórrida relação com Cardo, o sobrinho seminarista filho da austera Perpétua, que depois também se envolve com Imaculada. Por sua generosidade Tieta se transforma na grande benfeitora de Sant Ana do Agreste. A tranquilidade do vilarejo sofre mais um baque com a chegada de representantes da Embratânio S.A., disposta a implantar uma fábrica de dióxido de titânio, altamente poluidora, na cidade.

    Entre tumultos pessoais e políticos, o segredo da vida de Tieta é revelado – ela obrigada a partir mais uma vez, em circunstâncias totalmente inesperadas. Mas Sant Ana do Agreste e seus habitantes nunca mais serão os mesmos, e nunca se esquecerão dela.

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