Obras de Guimarães Rosa

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  • GUIMARÃES ROSA

    GRANDE SERTÃO, VEREDAS

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    Personagens

    Riobaldo: personagem-narrador que conta sua estória a um doutor que nunca aparece. Riobaldo sente dificuldades em narrar, seja por sua precariedade em organizar os fatos, seja por sua dificuldade em entendê-los. Relata sua infância, a breve carreira de professor (de Zé Bebelo), até sua entrada no cangaço (de jagunço Tatarana a chefe Urutu-Branco), estabelecendo-se às margens do São Francisco como um pacato fazendeiro.

    Diadorim: é o jagunço Reinaldo, integrante do bando de Joca Ramiro. Esconde sua identidade real (Maria Deodorina) travestindo-se de homem. Sua identidade é descoberta ao final do romance, com sua morte.
    Zé Bebelo: personalidade com anseios políticos que acaba por formar bando de jagunços para combater Joca Ramiro. sai perdedor, sendo exilado para Goiás e acaba por retornar com a morte do grande chefe para vingar o seu assassinato.

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    Joca Ramiro: é o maior chefe dos jagunços, mostrando um senso de justiça e ponderação no julgamento de Zé Bebelo, sendo bastante admirado.

    Medeiro Vaz: chefe de jagunços que se une aos homens de Joca Ramiro para combater contra Hermógenes e Ricardão por conta da morte do grande chefe.

    Hermógenes e Ricardão: são os traidores, sendo chamados de “judas”, que acabam por matar Joca Ramiro. Muitos jagunços acreditavam que Hermógenes havia feito o pacto com o Diabo.

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    Só Candelário: outro chefe que ajuda na vingança. Possuía grande temor de contrair lepra.

    Quelemém de Góis: compadre e confidente de Riobaldo, que o ajuda em suas dúvidas e inquietações sobre o Homem e o mundo.

    As três faces amorosas de Riobaldo:

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    Nhorinhá: prostituta, representa o amor físico. O seu caráter profano e sensual atrai Riobaldo, mas somente no aspecto carnal.

    Otacília: contrária a Nhorinhá, Riobaldo destina a ela o seu amor verdadeiro (sentimental). É constantemente evocada pelo narrador quando este se encontrava desolado e saudoso durante sua vida de jagunço. Recebe a pedra de topázio de “seô Habão”, simbolizando o noivado.

    Diadorim: representa o amor impossível, proibido. Ao mesmo tempo em que se mostra bastante sensível com uma bela paisagem, é capaz de matar a sangue frio. É ela que causa grande conflito em Riobaldo, sendo objeto de desejo e repulsa (por conta de sua pseudo identidade).

    Enredo

    A primeira parte do romance (até aproximadamente à página 80), Riobaldo faz um relato “caótico” e desconexo de vários fatos (aparentemente sem relações entre si), sempre expondo suas inquietações filosóficas (reflexões sobre a vida, a origem de tudo, Deus, Diabo, …) – Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se fôr jagunço, mas a matéria vertente.”

    O discurso ambivalente de Riobaldo (…) se abre a partir de uma necessidade, verbalizada de maneira interrogativa. No entanto, há uma grande dificuldade em narrar e organizar seus pensamentos: Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. É o compadre Quelemém de Góis que lhe socorre em suas dúvidas, mas não de forma satisfatória, daí a sua necessidade de narrar.

    A partir da página 80, Riobaldo começa a organizar suas memórias. Fala da mãe Brigi, que o obrigava à esmolação para a paga de uma promessa. É nessa ocasião, à beira do “Velho Chico”, que Riobaldo se encontra pela primeira vez com o garoto Reinaldo, fazendo juntos uma travessia pelo rio São Francisco. Riobaldo fica fascinado com a coragem de Reinaldo, pois como este afirma : “sou diferente (…) meu pai disse que eu careço de ser diferente (…).

    A mãe de Riobaldo vem a falecer, sendo ele levado à fazenda São Gregório, de seu padrinho Selorico Mendes. É lá que Riobaldo toma contato com o grande chefe Joca Ramiro, juntamente com os chefes Hermógenes e Ricardão. Selorico Mendes envia o seu afilhado ao Curralinho, a fim de que tivesse contato com os estudos. Posteriormente, assume a função de professor de Zé Bebelo (fazendeiro residente no Palhão com pretensões políticas. Zé Bebelo, querendo pôr fim aos jagunços que atuavam no sertão mineiro, convida Riobaldo a participar de seu bando. Riobaldo troca as letras pelas armas. É desse ponto que começa suas aventuras pelo norte de Minas, sul da Bahia e Goiás como jagunço e depois como chefe.

    O bando de Zé Bebelo faz combate com Hermógenes e seus jagunços, onde este acaba por fugir. Riobaldo deserta do bando de Zé Bebelo e acaba por encontrar Reinaldo (jagunço do bando de Joca Ramiro), ingressando no bando do “grande chefe”. A amizade entre Riobaldo e Reinaldo acaba por se tornar sólida, onde Reinaldo revela o seu nome – Diadorim – pedindo-lhe segredo. Juntamente com Hermógenes, Ricardão e outros jagunços, combate contra as tropas do governo e de Zé Bebelo.

    Depois de um conflito com o bando de Zé Bebelo, o bando liderado por Hermógenes fica acuado, acabando-se por se separar, reunindo-se posteriormente. O chefe Só Candelário acaba por integrar-se ao bando de Hermógenes, tornando-se líder do bando até o encontro com Joca Ramiro. Nessa ocasião, Joca Ramiro presenteia Riobaldo com um rifle, em reconhecimento à sua boa pontaria (a qual lhe faz valer apelidos como “Tatarana” e “Cerzidor”). O grupo de Joca Ramiro acaba por se dividir para enfrentar Zé Bebelo, conseguindo capturá-lo. Zé Bebelo é submetido a julgamento por Joca Ramiro e seus chefes – Hermógenes , Ricardão, Só Candeário, Titão Passos e João Goanhá – acabando a ser condenado ao exílio em Goiás.

    Depois do julgamento, o bando do grande chefe se dispersa, Riobaldo e Diadorim acabam por seguir o chefe Titão Passos. Posteriormente, o jagunço Gavião-Cujo vai ao encontro do grupo de Titão Passos para informar a morte de Joca Ramiro, que foi assassinado à traição por Hermógenes e Ricardão (“os judas”). Riobaldo fica impressionado com a reação de Diadorim diante da notícia. Os jagunços se reúnem para combaterem os judas.

    Por essa época, Riobaldo tem um caso com Nhorinhá (prostituta), filha de Ana Danúzia. Conhece Otacília na fazenda Santa Catarina, onde tem intenções verdadeiras de amor. Diadorim, em determinada ocasião, por ter raiva de Otacília, chega a ameaçar Riobaldo com um punhal.

    Medeiro Vaz junta-se ao bando para a vingança, assumindo a chefia. Inicia-se a travessia do Liso do Sussuarão. O bando não aguenta a travessia e acaba por retornar. Medeiro Vaz morre. Zé Bebelo retorna do exílio para ajudar na vingança contra os judas, tomando a chefia do bando.

    Por suas andanças, o bando de Zé Bebelo chega à fazenda dos Tucanos, onde são encurralados por Hermógenes. Momentos de grande tensão. Zé Bebelo envia dois homens para informarem a presença de jagunços naquele local. Riobaldo desconfia de uma possível traição com esse ato. O bando de Hermógenes fica acuado pelas tropas do governo e os dois lados se unem provisoriamente para escaparem dos soldados . Zé Bebelo e seus homens fogem à surdina da fazenda, deixando os de Hermógenes travando combate com os soldados. Riobaldo oferece a pedra de topázio a Diadorim, mas este recusa, até que a vingança tenha sido consumada.

    Os Bebelos chegam às Veredas-Mortas. É um dos pontos altos do romance, onde Riobaldo faz o pacto com o Diabo para vencerem os judas. Riobaldo acaba assumindo a chefia do bando com o nome de “Urutu-Branco”; Zé Bebelo sai do bando. Riobaldo dá a incumbência a “seô Habão” para entregar a pedra de topázio a Otacília, firmando o compromisso de casamento. O chefe Urutu-Branco acaba por reunir mais homens (inclusive o cego Borromeu e o menino pretinho Gurigó).

    À procura dos Hermógenes, fazem a penosa travessia do Liso do Sussuarão, onde Riobaldo sofre atentado por Treciano, que é morto pelo próprio chefe. Atravessado o Liso, Riobaldo chega em terras baianas, atacando a fazenda de Hermógenes e aprisionando sua mulher. Retornam aos sertões de Minas, à procura dos judas. Encurralam o bando de Ricardão nos Campos do Tamanduá-tão, onde o Urutu-Branco mata o traidor. Encontro dos Hermógenes no Paredão. Luta sangrenta. Diadorim enfrenta diretamente Hermógenes, ocasionando a morte de ambos. Riobaldo descobre então que Diadorim se chama Maria Deodorina da Fé Bittancourt Marins, filha de Joca Ramiro.

    Riobaldo acaba por adoecer (febre-tifo). Depois de se restabelecer, fica sabendo da morte de seu padrinho e herda duas fazendas suas. Vai ao encontro de Zé Bebelo, o qual o envia com um bilhete de apresentação a Quelemém de Góis:

    Compadre meu Quelemém me hospedou, deixou meu contar minha história inteira. Como vi que ele me olhava com aquela enorme paciência – calma de que minha dor passasse; e que podia esperar muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha, assaz .

    Mas , por fim , eu tomei coragem , e tudo perguntei:

    -“O senhor acha que a minha alma eu vendi , pactário?! “

    Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale me respondeu :

    -“Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais …”

    (…)

    Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. (…) Amável senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano , circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se fôr … Existe é homem humano. Travessia.

    SAGARANA

    O burrinho pedrês (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    Conto narrado em 3ª pessoa. A onisciência do narrador é propositalmente relativizada, dando voz própria e encantamento às narrativas e acentuando sua dimensão mítica e poética.

    Em O burrinho pedrês, primeiro dos nove contos, Guimarães procura mostrar, tendo como pano de fundo o mundo dos vaqueiros, que todos têm a sua hora e sua vez de ser útil. É o caso do burrinho Sete-de-Ouros: a gente segue a esperteza mansa do bicho, a sua finura de instinto e inteligência que o faz poupar-se, furtar-se a choques e maus pisos e, por fim, orientar-se e salvar-se numa cheia onde os cavalos afogam, carregando um bêbado às costas e ainda outro náufrago enclavinhado no rabo – ressalta Oscar Lopes.

    O burrinho pedrês é uma estória que metaforiza a experiência da velhice, um burrinho experiente sabe se orientar onde cavalos de boa montaria sucumbem.

    Neste conto, assim como em Conversa de bois, os animais se transformam em heróis, questionando o saber dos homens com o seu suposto não saber.

    A ironia do escritor vale-se do decadente burrinho para pôr a nu a onipotência presunçosa do homem, que julga controlar o próprio destino, ignorando as inesperadas surpresas que este lhe reserva. A perspectiva místico-religiosa, a luta entre o bem e o mal, os riscos morais que acompanham o homem no perigoso ofício de viver, são os temas preponderantes que alimentam a ficção.

    Em Sagarana renasce o anônimo “contador de estórias”, o homem-coletivo que se enraíza nas rapsódias gregas e nas canções de gesta medievais. Desde o início do conto (“Era um burrinho pedrês…”) esboça-se claramente a atitude ingênua e espontânea da “palavra lúdica”, que não aprisiona o falar nos limites rígidos do individualismo, mas se identifica com a palavra anônima e coletiva.

    Seja pela fórmula linguística caracterizadora da narrativa elementar, da fábula, da lenda (“Era um burrinho…”), tempo e modo verbais que, de imediato, tiram à narrativa o caráter de coisa datada, para projetarem na esfera intemporal do universo de ficção; seja pela mescla de precisão e imprecisão documental no registro do espaço (vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão); seja pela dimensão antropomórfica (forma humana) que é dada à personagem central, o “burrinho-gente”, e que situa a narrativa na fronteira entre o real e o mágico; seja pela funcionalidade das cantigas inseridas no fluxo narrativo, tudo isso e muito mais nos revela, no universo da palavra rosiana, a presença do “homo ludens” (homem lúdico), descompromissado com as estruturas convencionais do pensamento lógico.

    A trama desse conto, como nas demais narrativas de Guimarães Rosa, é relativamente simples. Publicado pela primeira vez em 1946, O burrinho pedrês é uma história sugerida por um acontecimento real, passado no interior de Minas Gerais, envolvendo um grupo de vaqueiros. É a história da condução de uma boiada em dia de fortes chuvas, em algum ponto indefinido do sertão, sob a tensão de uma maquinação ameaçadora de ciúme e crime. O seu desfecho, de todo surpreendente, só poderia ser ideado por um mestre da palavra e da criação literária. O foco da narrativa está centrado em um burrinho pedrês, que é testemunha de um trágico acidente. Em contraponto com a intriga que se desenvolve entre os boiadeiros, há episódios relacionados com o ciclo mítico do boi, onipresente na vida sertaneja. Pairando sobre tudo e todos, destaca-se a figura sábia e intensamente “humana” do burrinho pedrês, que aparece pouco na ação, mas, como citado, domina o universo da narrativa.

    O cenário é a Fazenda da Tampa, do Major Saulo, no interior de Minas Gerais.

    O burrinho Sete-de-Ouros, protagonista da história, simboliza o peso da vida quando “Carregado de algodão”, o trabalho do burrinho, e metaforiza a carga dos homens, o peso do mundo, como fardos de algodão. “Preguntei: p’ra donde ia?” – a forma arcaica do verbo perguntar sugere a indagação permanente dos homens, sábios e filósofos: para quê? Por quê? De onde? Para onde? “P’ra rodar o mutirão” alude ao esforço coletivo, ao dever de solidariedade que o burrinho cumprirá na sua hora e na sua vez.

    Desde esse primeiro conto, estão presentes os elementos fundamentais para compreendermos os contos de Sagarana. O nome do burrinho, Sete-de-Ouros, é recoberto pela magia de um número místico (sete) e pela força simbólica do ouro, indicador de superação e de transcendência paralquimistas. A travessia, a superação de obstáculos por ocultos caminhos é uma imagem frequente em Guimarães Rosa, como também a presença de forças mágicas, da natureza, atuando sobre o mundo e mostrando as possibilidades de os fracos se tornarem fortes, de se saber uma vida no resumo exemplar de apenas um dia.

    Personagens

    Sete-de-Ouros: animal miúdo e resignado, idoso, muito idoso, beiço inferior caído. Outros nomes que tivera ao longo de anos e anos: Brinquinho, Rolete, Chico-Chato e Capricho.

    Major Saulo: corpulento, quase obeso, olhos verdes. Só com o olhar mandava um boi bravo se ir de castigo. Estava sempre rindo. Riso grosso, quando irado; riso fino, quando alegre; riso mudo, de normal. Não sabia ler nem escrever, mas cada ano ia ganhando mais dinheiro, comprando mais gado e terras.

    João Manico: vaqueiro pequeno que montou o burrinho Sete-de-Ouros na ida. Na volta, trocou de montaria. Na hora de entrar na água, refugou, alegando resfriado, e escapou da morte.

    Francolim: espécie de secretário do Major Saulo, encarregado de pôr ordem nos vaqueiros. Obedece cegamente às ordens do Major. Foi salvo, na noite da enchente, pelo burrinho Sete-de-Ouros.

    Raymundão: vaqueiro de confiança do Major Saulo. Enquanto tocam a boiada, vai contando a história do zebu Calundu.

    Zé Grande: vai à frente da boiada, tocando o berrante.

    Silvino: vaqueiro; perdeu a namorada para Badu e planejava matar o rival na volta, depois de deixarem a boiada no arraial.

    Resumo:

    Na Fazenda da Tampa, do Major Saulo, os homens estão ultimando os últimos preparativos para sair pelo sertão, tocando uma boiada de bois de corte. O dia é de chuva, mas ela ainda não veio. Major Saulo ordena que os homens preparem os animais. Por zebra, o burrinho Sete-de-Ouros, presente ali na varanda da casa grande, também é escolhido para a viagem. Para montá-lo, o Major escolheu o vaqueiro João Manico.

    Raymundão conta a história do touro Calundu. Não batia em gente a pé, mas gostava de correr atrás de cavaleiro. Certa vez, na proteção de um grupo de vacas com seus bezerros novinhos, Calundu enfrentou uma onça preta, amedrontando a fera e pondo-a para correr. Certa feita, o touro Calundu matou Vadico, filho do fazendeiro Neco Borges. O pai, vendo filho ensanguentado no chão, puxou o revólver para matar o touro. Vadico, antes de morrer, pediu que o pai não matasse Calundu. Neco Borges mandou o touro para outra fazenda para ser vendido ou dado a alguém. Raymundão foi quem levou o bicho. O zebu ficou uma noite apenas no curral. No outro dia, estava morto.

    Depois da chuva grossa, a boiada chegou ao córrego da Fome. Estava cheio. A travessia era perigosa, e o Major Saulo pediu cautela. Ali já morrera muita gente. Mas a travessia é feita sem perda. Até o Sete-de-Ouros atravessou sem reclamar.

    Em determinado ponto do caminho, Major Saulo ordenou que Francolim trocasse de montaria com João Manico. A ordem foi obedecida. Francolim fez um pedido ao Major: que, na entrada do povoado, a troca fosse desfeita. Não ficava bem para ele, encarregado do Major, ser visto montado no burrinho Sete-de-Ouros.

    Badu está na fazenda há apenas dois meses e já tomou a namorada do Silvino. Por isso, os dois viraram inimigos, um querendo prejudicar o outro. Francolim já avisou o major sobre o perigo de um matar o outro. Raymundão acha que o caso não é para morte. A moça é meio caolha. O casamento com Badu já está marcado. Raymundão, em prosa com o Major, informou que Silvino vendeu umas quatro cabeças de gado por preço abaixo do normal. Outra informação que veio do Francolim: Silvino está com bagagem além do normal. O Major Saulo, antes da chegada ao povoado, determinou que Francolim, na volta, vigie Silvino o tempo todo. O Major está convencido de que Silvino já planejou a morte de Badu.

    A chegada ao povoado foi uma festa. O povo, mesmo com a meia-chuva, foi para o curral da estrada de ferro ver o embarque. Depois, os animais ficaram descansando enquanto os vaqueiros andavam um pouco pelo povoado.

    Na hora de ir embora, cada um pegou a sua montaria. Badu ficou por último: estava bêbado e tinha ido comprar um presente para sua morena. Por maldade, deixaram-lhe o burrinho Sete-de-Ouros. Na saída do povoado, alguém vaiou: Badu era por demais grande para o burrinho pedrês, os pés iam quase arrastando no chão. Já no fim do lugar, Francolim estava parado no meio da estrada, esperando Badu.

    Francolim deixou Badu para trás e foi juntar-se ao grupo. Queria mesmo era ficar de olho em Silvino. Os dois, Silvino e o irmão Tote, iam bem na frente dos dois. Tote tentava dissuadir o mano para não matar Badu. Mas Silvino estava determinado. Esperava apenas o momento certo para fazer o serviço e cair no mundo.

    João Manico, por insistência de todos, contou mais uma vez a história da boiada que estourou à noite, quando o Major Saulo, ainda novo, era tratado por Saulinho. No estouro, de madrugada, o gado passou por cima dos dois vaqueiros que estavam de vigia. Deles, só restou uma lama cor de sangue.

    Viajavam à noite. De repente, os cavalos empacaram, pressentindo o mar de água. O Córrego da Fome transbordara, inundando tudo bem alem das margens. Todos aprovaram a ideia de esperar Badu e o burrinho Sete-de-Ouros. Se o burro entrasse na água, todos o seguiriam. É que burro não entra em lugar de onde não pode sair.

    Sete-de-Ouros entrou levando Badu ás costas. Os cavalos seguiram-no. E foi uma tragédia: oito vaqueiros mortos naquela noite. Benevides, Silvino, Leofredo, Raymundão, Sinoca, Zé Grande, Tote e Sebastião. O burrinho Sete-de-Ouros, com Badu agarrado às crinas e Francolim agarrado à cauda, conseguiu atravessar o mar de águas em que se transformara o pequeno córrego. Já em terra firme, livrou-se de Francolim e seguiu ligeiro para a fazenda. Ali, livraram-no do vaqueiro, que dormia, e dos arreios.

    A volta do marido pródigo (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    Conto narrado em 3ª pessoa, sendo pois o narrador onisciente, não participa da história. Em A volta do marido pródigo, o autor descreve um ladino que vende a mulher para dedicar-se a aventuras na cidade grande, mas depois se arrepende, volta para sua região e, malandramente, reconquista sua posição e sua mulher.

    O conto é uma paródia da “parábola do filho pródigo”, e apresenta traços de humor, presentes, principalmente, na maneira pela qual a personagem protagonista é caracterizada como malandro folclórico. Essa questão também é amparada na concepção de mundo às avessas presente na narrativa.

    O que se percebe é que, no conto, não existe julgamento moral a respeito de nenhuma das atitudes de Lalino, que poderiam, segundo o senso comum, ser consideradas “más”. Também, as personagens do texto ditas respeitáveis são descritas como “não tão respeitáveis assim”. No entanto, em qualquer caso, a leveza e a ironia com que tais situações de desregramento moral são apresentadas amenizam a seriedade que o tratamento desses assuntos poderia assumir.

    Na releitura de Guimarães Rosa há uma visão bem diferente daquela encontrada no ensinamento moral que a parábola pretendeu passar. No conto, o que importa é retratar a personagem do malandro, do típico brasileiro que, para tudo, dá um “jeitinho”.

    Personagens

    Lalino Salãthiel – todos o chamam de Laio. Mulato vivo, malandro, contador de histórias.

    Maria Rita – mulher de Lalino; trata-o com especial carinho.

    Ramiro – espanhol que ficou com Ritinha, a mulher de Lalino.

    Major Anacleto – chefe político do distrito, homem de princípios austeros, intolerante e difícil de se deixar engambelar.

    Benigno – inimigo político do Major Anacleto.

    Estevão – capanga respeitado do Major Anacleto. Jamais ria. Tinha pontaria invejável: atirava no umbigo para que a bala varasse cinco vezes o intestino e seccionasse a medula, lá atrás.

    Lalino é um sujeito simpático, espertalhão e falante, avesso ao trabalho, sabe como poucos contar uma estória. A chave para entendê-lo melhor está em suas contínuas alusões a peças de teatro, quase sem ter visto nenhuma. Ele parece constantemente representar, em tudo o que faz ou fala. Assim, sai-se bem em tudo o que faz.

    Assemelha-se a Leonardo, de Memórias de um sargento de milícias, e a Macunaíma: os três heróis sem nenhum caráter.

    Essas são as aventuras de um herói picaresco, Eulálio Salãthiel (Lalino), que abandona a mulher após seis meses de casado e vai conquistar o mundo. Antes de viajar, consegue extorquir algum dinheiro de um espanhol interessado nela e que dela iria tomar conta. Sua esposa, Maria Rita, abandonada por ele, passa a morar com o espanhol Ramiro.

    Ao vender Ritinha, o protagonista abre mão do que lhe é mais caro, mas que ele ainda não é, naquele momento, capaz de perceber.

    Desiludido com o Rio de Janeiro retorna à sua terra e urde um plano para recuperar a mulher – Maria Rita – e o prestígio junto ao povo do lugar. Com paciência e astúcia, vence todos os obstáculos, recupera a mulher, expulsa os espanhóis do lugarejo e reconquista o prestígio junto ao coronel para cuja vitória nas eleições contribui.

    Após ter passado por tudo o que passou, o Lalino do final não é mais a mesma pessoa, que se engana no que decide fazer e apressa-se a reparar o erro, nem tampouco se utiliza de todos os seus atributos de astúcia e malandragem para recuperar o que havia perdido, mas sim, aprende a dar importância às coisas que realmente devem ter importância atribuída.

    Ele agora tem plena consciência de que deve cuidar de seu tesouro mais precioso, pois, do contrário, corre o risco de entregá-lo, mais uma vez, de mãos beijadas, a quem o estiver cobiçando.

    Por meio de ironia claramente perceptível, o autor mostra lendas populares da região dos Campos Gerais de Minas, assim como ditados que louvam a esperteza e a paciência.

    Sarapalha (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    Conto narrado em 3ª pessoa, sendo, pois, onisciente, não participa da história. O autor não faz nenhum mistério sobre o lugar da conversa dos dois primos que padeciam de alta febre por terem sido atacados pela malária: “é ali, na beira do Pará”. O lugar é o povoado de Pará de Vilelas, na estrada que liga a Rodovia Fernão Dias a Cláudio, (MG 260) único povoado do município de Itaguara, que margeia o citado rio.

    O lirismo dos temas do amor e da solidão transparece em Sarapalha. O contraponto de tempos verbais, passado e presente – o passado relacionado à impotência e à saudade da esposa de um dos protagonista, o presente ao momento da doença vivido pelos dois primos – contribui para reforçar a atmosfera de dor e isolamento, de claustrofobia, em que se encontram os personagens deste conto.

    A ação de Sarapalha se desenvolve sobre um monte de ruínas causadas pela maleita: Ela veio de longe (…) matando muita gente.

    E o resultado da calamidade foi a morte e tristeza dos moradores: os primeiros para o cemitério, os outros por aí afora, por este mundão de Deus.

    Numa fazenda em ruínas, “perto do vau da Sarapalha”, Primo Ribeiro, ora em diálogo, ora em monólogo, vai reconstituindo, alquebrado e decrépito pela maleita, a sua história ao Primo Argemiro, uma das poucas pessoas que lhe restaram. Trágica e triste história a do Primo Ribeiro: Luisa, a sua mulher, fugira com outro, deixando-o só com sua maleita: – P’ra que é que há-de haver mulher no mundo, meu Deus?… – pondera Primo Argemiro.

    Mas ao saber que o Primo Argemiro pretendia-lhe a mulher também, Primo Ribeiro enxota-o da sua presença, e Argemiro dos Anjos sai por aí, perambulando por entre maleitas e belezas, buscando um lugar para cair e morrer:

    – Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito p’ra gente deitar no chão e se acabar.

    Sarapalha é de linha trágica, o que contrasta com o conto A volta do marido pródigo. Mostra não só um mundo em ruínas, ainda fumegando os efeitos da Malária, como a infidelidade feminina com o conceito de honra do sertanejo. São dois mundos em ruínas: a população vitimada pela maleita e o primo Ribeiro sucumbido pela mulher infiel: “a maleita era uma mulher de muita lindeza”.

    Em Sarapalha o narrador assume a perspectiva de um dos personagens, como se estivesse também doente, cúmplice da angústia do lugar e da situação. A linguagem do conto “treme” com os personagens. É uma abordagem profunda da psicologia dos vencidos pela desolação.

    O cenário é a Fazenda do Primo Ribeiro, meio abandonada porque a febre o impossibilitava de trabalhar.

    Duelo (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    Conto narrado na terceira pessoa. O narrador em Duelo é onisciente, ou seja, sabe o que passa pela cabeça das personagens. Porém, com alguns diferenciais, como o toque de humor que Guimarães Rosa dá à narrativa, o estabelecimento de diálogos com o leitor, a mesclagem entre o que se narra e a fala de algumas das personagens, opiniões pessoais do narrador em determinadas situações, dentre outros recursos.

    Duelo pode ser lido como uma alegoria da fatalidade, de inexorabilidade do destino humano. Enquanto os homens se perdem na busca de seus objetivos, de um fim, algo superior dispõe o contrário, o imprevisto.

    Sobre o título do conto, não se pode interpretar a palavra “duelo” literalmente dentro da história. Pode-se observar, então, o duelo entre o forte o fraco, por exemplo: quando Turíbio chegou a casa e viu a mulher em adultério com Cassiano, Turíbio pensou antes de enfrentá-lo: Cassiano Gomes havia servido ao Exército, sabia manejar muito bem as armas e, por isso, poderia dar um fim à vida do marido traído ali mesmo. Percebendo que Cassiano era mais forte, Turíbio decidiu matá-lo em outra ocasião, covardemente, com um tiro pelas costas: porém, não obteve êxito, matando o irmão de Cassiano. Turíbio foge e assim começa a perseguição…

    Durante toda a caçada, Cassiano e Turíbio não se cruzam uma só vez. Cassiano para em um vilarejo chamado Mosquito devido a problemas de seu debilitado coração e conhece Timpim, um garoto franzino, frágil mesmo, a quem Cassiano decide apadrinhar – ele e seus três filhos. Nesse ínterim, Turíbio decide ir a São Paulo ganhar a vida. Cassiano vem a falecer, mas faz Timpim prometer que vai matar Turíbio Todo. Pois ocorre que, quando Turíbio volta de São Paulo, encontra com um “camarada meio quilo de gente” no caminho e começam a cavalgar juntos. E esse camarada magrelo era Timpim, que matou Turíbio Todo com um tiro de garrucha no rosto… mais uma vez, essa oposição aparece, já que o “fraco” (Timpim) acaba matando o “forte” (Turíbio).

    O cenário é o Arraial de Vista-Alegre, no interior de Minas Gerais.

    A linguagem especial de Guimarães Rosa aparece sob diferentes matizes em sua obra. Em Duelo não é diferente. A linguagem não é difícil ou rebuscada, mas sim recriações, invenções e resgates que levam o leitor a constantes redescobertas. Guimarães rosa era um “artesão” da língua, trabalhava as palavras como ninguém, a fim de transmitir profundamente a mensagem que desejava.

    O humor está presente em toda obra, em tom, muitas das vezes, satírico. O maior exemplo é a personagem Silivana, esposa adúltera de Turíbio Todo; primeiramente, o narrador a descreve como tendo “grandes olhos bonitos, de cabra tonta”; no decorrer do conto, o narrador volta a repetir essa mesma sentença, causando uma impressão humorística na estória: “(…) Turíbio Todo (…) estava com saudades da mulher, Dona Silivana – aquela mesma que tinha belos olhos grandes, de cabra tonta (…)”; “Mas (Turíbio) tinha de fazer ainda um dia a cavalo e estava com pressa, porque Silivana tinha os olhos bonitos, sempre grandes olhos, de cabra tonta”.

    A trama se desenrola de maneira linear durante todo o conto. Há ausência de flash-backs das personagens, visto que elas não se remetem ao passado para tentar buscar explicações de conflitos no momento atual. Com relação à duração da trama, não é possível afirmar quanto tempo ela dura exatamente; porém, o narrador diz em determinada parte do conto o seguinte: “E continuou o longo duelo, e com isso já durava cinco ou seis meses e meio a correria, monótona e sem desfecho.” Ou seja, um tempo impreciso demais para virmos a afirmar que o conto teve esta ou aquela duração (deve ser levado em consideração, também, que a estória ainda continua depois daquela colocação do narrador).

    Com relação à época em que se passa o conto, pode-se dizer que é bem condizente com a época em que foi escrito pelo autor: a década de 30, mais precisamente em 1937. Foi uma tentativa do autor em retratar uma sociedade que começava a ser esquecida, devido à acelerada urbanização a que vinham se submetendo os grandes centros na época.

    Minha gente (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    Narrado em primeira pessoa, tendo um narrador que participa da história com visão limitada dos fatos que narra, Minha gente é um dos contos mais bem tramados do livro, com a história principal emendada, alterada, recontada por pequenos detalhes e elementos dados pouco a pouco ao leitor.

    O foco narrativo ilumina os passos do protagonista, mas também revela certas sutilezas que servem para esclarecer o sentido mais profundo da história. Há uma partida de xadrez, narrada no início, que mostra como se deve entender o enredo em si: um xeque, dado pelo protagonista, acaba se virando contra ele próprio. Assim, a narração insinua ao leitor que as aparências dos fatos escondem, mais que revelam, sua verdadeira intenção.

    É um conto que fala mais do apego à vida, fauna, flora e costumes de Minas Gerais que de uma história plana com princípios, meio e fim. Os “causos” que se entrelaçam para compor a trama narrativa são meros pretextos para dar corpo a um sentimento de integração e encantamento com a terra natal. O lirismo dos temas do amor e da solidão transparece em Minha gente.

    Muitas temáticas são desenvolvidas no conto, por exemplo: a saga da política no interior (tio Emilio); a honra sertaneja (morte do Bento Porfírio); os caprichos do Destino (casamento de Armanda com o narrador).

    Aliás, esse último aspecto é desenvolvido também num conhecido poema de Drummond, Quadrilha:

    João amava Teresa que amava Raimundo

    que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

    que não amava ninguém.

    João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

    Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,

    Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

    que não tinha entrado na história.

    O cenário é a Fazenda Saco-do-Sumidouro (interior de Minas Gerais), do Tio Emílio, pai de Maria Irma.

    Personagens
    Narrador – Homem da cidade que estava a passeio pelas fazendas dos tios, no interior de Minas Gerais. Chamavam-no “Doutor”, gostava da prima Maria Irma, mas casou-se com Armanda, filha de uma fazendeira. É o protagonista do conto. Só sabemos que é um “Doutor” por intermédio da fala de José Malvino, logo no início da narrativa: “Se o senhor doutor está achando alguma boniteza…”, fora isso, nem mesmo seu nome é mencionado.

    Santana – Inspetor escolar intinerante. Bonachão e culto. Tem memória prodigiosa. É um tipo de servidor público facilmente encontrável. Companheiro nas andanças do narrador, tem mania de jogar xadrez, mesmo quando estão andando a cavalo.

    José Malvino – Roceiro que acompanha o protagonista na viagem para a fazenda do Tio Emílio. Conhece os caminhos e sabe interpretar os sinais que neles encontra. Atencioso, desconfiado, prestativo e supersticioso.

    Tio Emílio – Fazendeiro e chefe político, para ele é uma forma de afirmação pessoal. É a satisfação de vencer o jogo para tripudiar sobre o adversário. Tio do narrador; sofreu mudança radical depois que se meteu na política.

    Maria Irma – Prima do protagonista e primeiro objeto de seu amor. É inteligente, determinada. Elabora um plano de ação e não se afasta dele até atingir seus objetivos. Não abre seu coração para ninguém, mas sabe e faz o que quer. Uma das filhas de Tio Emílio; no passado, o narrador e ela foram namorados de brincadeira. Tem cintura fina, olhos grandes, pretíssimos. Passou alguns anos no internato.

    Armanda – Filha de fazendeiros; estudou no Rio de Janeiro. Terminou casada com o narrador.

    Bento Porfírio – Empregado da fazenda de Tio Emílio. Vaqueiro; gostava de pescar. Envolveu-se com uma prima casada (de Loudes) e terminou assassinado a foice pelo marido enciumado (Alexandre). É companheiro de pescaria do protagonista.

    Resumo do conto

    Caminham juntos, pelo sertão de Minas, a cavalo, o narrador, Santana e José Malvino. O narrador é um observador apaixonado das coisas do sertão: a paisagem, o céu, os pássaros, as árvores… Tudo para ele merece elogios e observações.

    A viagem chega ao fim: estão agora numa fazenda.

    Dois dias na fazenda, e o narrador achava tudo mudado. Mas mudança de verdade notara no Tio Emílio: rejuvenescido, transfigurado. Logo, o narrador descobriu o porquê da mudança: Tio Emílio estava metido na política. Sempre atendendo aos pedidos do povo, a qualquer hora, mesmo à noite.

    A prima Maria Irma, em conversa com o narrador, fez questão de informar que estava quase noiva. O narrador quis saber de quem, mas ela fez mistério.

    Bento Porfírio, enquanto pesca com o narrador, vai-lhe contando uma história. Agripino, bom parente, convidou Bento para ir ao arraial. Queria apresentá-lo à sua filha de Lourdes: quem sabe os dois podiam casar. Mas Bento não foi. Preferiu uma pescaria misturada com farra, com mulher-da-vida e sanfona pelo meio. Tempos depois, “quando Bento Porfírio veio a conhecer a prima de Lourdes, ela já estava casada com o Alexandre”. Os primos foram-se vendo e gostando um do outro. Por pirraça e por falta do que fazer, Bento casou-se com Bilica.

    O narrador ficou na varanda até anoitecer. A prima Irma mudou de modos e, na hora do jantar, sorriu diferente para o narrador. Ele ficou desconfiado. “Mulher bonita, mesmo sendo prima, é uma ameaça”. E o narrador lembra bem o conselho de Tertuliano Tropeiro: “Seu doutor, a gente não deve de ficar adiante de boi, nem atrás de burro, nem perto de mulher! Nunca que dá certo…” Noite sem estrelas, noite de roça. O narrador foi dormir.

    O narrador foi novamente pescar no poço com Bento Porfírio. Depois de algum tempo, a história do adultério continuou. O marido da prima, o Alexandre, não sabe que está sendo enganado. De repente, o marido traído surgiu de trás de uma moita, foice na mão, e matou Bento com um só golpe. O corpo caiu no poço, e o narrador, apavorado, não sabia o que fazer. O assassino foi embora, o narrador correu para casa e contou ao Tio Emílio o ocorrido. As ordens foram dadas: tirar o morto do poço, avisar o subdelegado e ir atrás do assassino. Não para matá-lo, mas para protegê-lo das autoridades.

    Os dias vão passando, e o narrador começa a gostar da prima Maria Irma. Por que não namorá-la? Um rapaz da cidade veio visitá-la e trazer-lhe livros. Ela se enfeitou toda para recebê-lo. Por que não estava toda enfeitada na chegada do primo? À noite, o narrador fica sabendo que o rapaz se chama Ramiro e que é namorado da Armanda, uma amiga de Maria Irma, filha da fazendeira do Cedro.

    O narrador não se conteve e fez uma declaração de amor à prima. Ela ouviu e, depois, disse que não acreditava. Ele tentou convencê-la usando argumentos infantis. Em vão.

    Depois de uma conversa séria com a prima e de obter dele somente negativas, o narrador ameaçou ir embora. Ela insistiu que ele ficasse: queria apresentar-lhe Armanda, a namorada de Ramiro. Ele, teimoso, partiu no outro dia. Iria para Três Barras, onde mora o seu tio Luduvico.

    Em Três Barras, o narrador não conseguia esquecer Maria Irma. Depois das eleições, com vitória do partido de Tio Emílio, o narrador recebeu carta: ele, o tio, queria-o de volta. O narrador ficou muito alegre e nem esperou o outro dia para voltar.

    De volta, o narrador foi apresentado a Armanda. Foram passear a pé pelos pastos. Dali, do primeiro passeio, já nasceu o namoro. Em pouco tempo, o noivado e, no mês de maio, o casamento, ainda antes do matrimônio da prima Maria Irma com Ramiro Gouveia.

    São Marcos (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    O conto São Marcos, segundo o próprio autor “a peça mais trabalhada do livro Sagarana (Rosa, 1984, p.11). O narrador joga com o leitor de forma que, a princípio, desdobra-se em mais de um personagem. No início da narrativa, ele declara que entrava na mata para observar o seu “xará João-de-barro”, coincidindo o nome sugerido com o nome do próprio autor, o que causa no leitor certo desconforto ou surpresa, por imaginar-se, repentinamente, diante daquele, e como que traído na sua empreitada pelo mundo da ficção.

    Narrado em primeira pessoa, o foco narrativo ilumina os passos do protagonista, mas também revela certas sutilezas que servem para esclarecer o sentido mais profundo da história.

    São Marcos revela uma ambiguidade completa em relação ao seu narrador-personagem e às personagens secundárias que sustentam a narrativa e amarram a simbologia do conceito de crer ou não em feitiçarias, ou seja, no desconhecido, na lenda, no mito, no mágico e religioso, enfim, no poético.

    A história do narrador-personagem se dá com o início da narração. Percebemos uma dissociação entre narrador e personagem, afinal seu próprio nome é ambíguo: “(…) meu xará joão-de-barro”(p. 361) ou, se quiser, “(…) nesta história eu também me chamarei José”(p. 361). Instalada a primeira ambiguidade: qual o nome do narrador e qual o do personagem, de fato? Essa dicotomia sem solução também garante a universalidade do personagem, pois é como todo e qualquer João ou José (ou o nome que quiser). Um Severino, como um dos personagens de João Cabral. Como todo e qualquer ser humano.

    Quando lemos São Marcos pela primeira vez, temos a impressão que narrador e personagem são sujeitos autônomos, a ponto de o narrador isentar-se das culpas imputáveis ao personagem. Isso, porém, é uma ilusão discursiva que pode ser comprovada pela organização dos planos narrativos do texto. Afinal, os dois planos, o da estória e o do discurso, não seguem paralelamente no conto. Ora se fundem e confundem, ora se distanciam. É a interferência do narrador no discurso que dá o tom oblíquo e cria a ambiguidade sugerida em todo o texto.

    Há duas histórias neste conto. Uma delas, bem menor, é inserida no meio da outra, que conta a desavença entre o narrador e um feiticeiro. Por ter ridicularizado o negro Mangalô. José, o protagonista, torna-se alvo de uma bruxaria. Mangalô constrói um boneco-miniatura do inimigo, e coloca uma venda em seus olhos, o que faz José ficar cego, perdendo-se no meio do mato. Para conseguir achar o caminho de volta, mesmo sem enxergar, ele reza a oração de São Marcos, sacrílega e perigosa.

    – Em nome de São Marcos e de São Manços, e do Anjo Mau, seu e meu companheiro…

    – Ui! Aurísio Manquitola pulou para a beira da estrada, bem para longe de mim, se persignando, e gritou:

    – Pára, creio-em-Deus-padre” Isso é reza brava…

    Com o poder dado pela oração, mesmo cego, José encontra a casa de Mangalô, ataca o negro e o obriga a desfazer a feitiçaria.

    O cenário é Calango-Frito, arraial do interior de Minas Gerais. O conto tem sua espacialidade centrada no mato. Esse espaço físico é rico em vidas, sons e sensações. Faz parte do mundo encantado, mágico. É a voz de comando do personagem José que, à medida que desce no âmago do mato, também mergulha no seu próprio interior. Ou seja, enquanto José adentra o mato, João revive e reativa sua memória. E vice-versa, enquanto João narra cada detalhe lembrado, José aprofunda-se pelo desembrenhar mato adentro. Dentro do mato e dentro de si mesmo.

    Personagens

    José – Narrador, um admirador da natureza. Gostava de observar árvores, pássaros, rios, lagos e gente.

    João Mangolô – Mangolô era um preto velho. Morava no Calango-Frito e tinha fama de feiticeiro.

    Aurísio Manquitola – Sujeito experiente, contador de histórias; conhecia bem todas as pessoas de Calango-Frito.

    Tião Tranjão – Sujeito meio leso, vendedor de peixe-de-rio no arraial. Ficou indomável depois de aprender a oração de São Marcos.

    Resumo:

    Mangolô era um preto velho. Morava no Calango-Frito e tinha fama de feiticeiro. O narrador, saindo do povoado (ia caçar), passou pela casa de Mangolô e tirou brincadeira. Gritou para o preto velho: “primeiro: todo negro é cachaceiro; segundo: todo negro é vagabundo; terceiro: todo negro é feiticeiro”. Eram os mandamentos do negro. Mangolô não gostou da brincadeira. Fechou-se na casa e bateu a porta.

    Mais à frente, na mesma caminhada, o narrador alcança Aurísio Manquitola. O narrador, por brincadeira, começou a recitar a oração proibida de São Marcos. Aurísio enche-se de medo. É um perigo dizer as palavras dessa oração, mesmo por brincadeira.

    Aurísio conta ao narrador a história de Tião Tranjão, sujeito meio leso, vendedor de peixe-de-rio no arraial. Tião amigou-se com uma mulherzinha feia e sem graça. Pois o Cypriano, carapina já velho, começou a fazer o Tião de corno. Mais ainda: os dois, Cypriano e a mulher feia, inventaram que foi Tião quem tinha ofendido o Filipe Turco, que tinha levado umas porretadas no escuro sem saber da mão de quem… O Gestal da Gaita, querendo ajudar o Tião, quis ensinar a ele a reza de São Marcos. Tião trocava as palavras, tinha dificuldade para memorizar. Gestal teve que lhe encostar o chicote para fixar a reza. Aí sim, debaixo de peia, Tião Tranjão aprendeu direitinho a reza proibida, tintim por tintim.

    Depois da reza decorada, vieram uns soldados prender Tião. Ele desafiou: com ordem de quem? Os soldados explicaram: com ordem do subdelegado. Então, que fossem na frente. Ele iria depois. Com muito jeito, conseguiram levar Tião para a cadeia e lá, bateram nele. Depois da meia-noite, Tião rezou a oração de São Marcos e, misteriosamente, conseguiu fugir da cadeia, voltar para casa – quatro léguas. Não encontrando a mulher, foi direto para a casa do carapina. Aí, com ar de guerreiro, bateu na mulher, no carapina, quebrou tudo que havia por lá, acabou desmanchando a casa quase toda. Foram necessárias mais de dez pessoas para segurá-lo.

    O narrador vai descendo por trilhas conhecidas, reconhecendo árvores, identificando pássaros, até chegar finalmente à lagoa. Senta-se e põe-se a observar o movimento dos bichos em perfeita harmonia com a natureza. De repente, sem dor e sem explicação, ficou cego. O desespero não veio de imediato. Aos poucos, foi concluindo que estava distante, afastado de qualquer ser humano, impossibilitado de voltar para casa. Resolveu gritar. Gritou repetidas vezes e só teve o eco por resposta. Tentou, então, voltar tateando as árvores. Logo percebeu que estava perdido, numa escuridão desesperadora. Já ferido por espinhos invisíveis, machucado de quedas, chegou a chorar alto.

    Sem pensar, o narrador começou a bramir a reza-brava de São Marcos. E sem entender o porquê, dizendo blasfêmias que a reza continha, começou a correr dentro da mata, tangido por visões terríveis. De repente, estava na casa de João Mangolô, tangido por uma fúria incontrolável. E a voz do feiticeiro pedindo pelo amor de Deus que não o matasse. Os dois rolaram juntos para os fundos da casa. E de repente, luz, muita luz. A visão voltava esplêndida. E o negro velho tentando esconder alguma coisa atrás do jirau. Depois de levar alguns sopapos, Mangolô mostrou um boneco. Mais alguns socos e o feiticeiro explicou: não queria matar. Amarrara apenas uma tirinha de pano preto nas vistas do boneco para o narrador passar uns tempos sem enxergar. Tudo terminou em paz. Para garantir tranquilidade, o narrador deu um dinheiro a João Mangolô. Era a garantia de que, agora, eram amigos.

    Corpo fechado (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    Corpo Fechado é a antepenúltima das nove novelas que compõem Sagarana, romance inaugural da obra ficcional de Guimarães Rosa. Este é um dos contos no qual evidencia-se o universo primitivo e fantástico do autor.

    Narrado em primeira pessoa, com o narrador participando da história e tendo visão limitada dos fatos que narra. Quem narra a estória é um médico de um vilarejo do interior. Corpo Fechado começa propriamente no final, com Manuel Fulô contando outros casos para o doutor.

    A técnica narrativa do conto é em forma de entrevista. O “doutor”, no decorrer da história, vai entrevistando Manuel Fulô, um valentão manso e decorativo, como mantença da tradição e para glória do arraial.

    O cenário é Laginha, arraial monótono do interior de Minas Gerais e o espaço do conto é variado, deslocando-se a ação de um lugar para outro.

    Corpo Fechado continua a problemática apresentada em São Marcos: mundo de feitiçarias e bruxarias. Um curandeiro fecha o corpo e anulando a fragilidade do protagonista que, imantado pela fé, vence o vilão, brutal e valente, mas sem o amparo do sagrado.

    Além dessa temática, sobressai também a saga dos valentões das gerais, principalmente com o temível Targino, e a saga dos ciganos, muito frequente no interior.

    Personagens

    Médico – Narrador, mora num arraial do interior de Minas. Fez amizade com Manuel Fulô. Gostava de ouvir-lhe as conversas.

    Manuel Fulô – Sujeito pingadinho, quase menino, cara de bobo de fazenda, cabelo preto, corrido. Não trabalhava. Gostava de moça, cachaça e conversa fiada.

    Beija-Flor – Besta ruana, de cruz preta no dorso, lisa, lustrosa, sábia e mansa – mas só para o dono, Manuel Fulô.

    Das Dor – Noiva de Manuel Fulô; moça pobre, mas muito bonita.

    Targino – O valentão mais temido do lugar. Era magro, feio, de cara esverdeada. Dificilmente ria.

    Antônio das Pedras-Águas – Era pedreiro, curandeiro e feiticeiro.

    Resumo do conto

    A amizade do narrador com Manuel Fulô nasceu do nada. Solidificou-se quando o narrador descobriu que Manuel comia cogumelo com carne. Manuel Fulô gostava de moças, de cachaça e de conversa fiada.

    Beija-Flor era o orgulho de Manuel Fulô. Mais que isso: era uma espécie de complemento. Besta Ruana, de cruz preta no dorso, lisa, lustrosa, sábia e mansa – mas só para o dono. Quando Manuel Fulô ficava bêbado – e isso acontecia todos os domingos – atracava-se ao pescoço de Beija-Flor, e a mula levava-o com todo o cuidado. Sabia abrir porteiras.

    Manuel Fulô conta ao narrador que viveu uns tempos com uns ciganos só para aprender alguns truques. Os ciganos gostavam dele porque pensavam que ele era bobo de verdade. Com os ciganos, Manuel Fulô aprendeu tudo sobre cavalos. Sabia transformar animal ruim em bicho de valor em pouco tempo. Quando deixou os ciganos, passou a ganhar dinheiro negociando com animais.

    Manuel Fulô contou ao narrador como conseguiu, certa vez, enganar os ciganos. Arranjou dois cavalos imprestáveis, preparou-os, fez-lhe maquiagens para disfarçar defeitos e trocou-os por dois cavalos bem melhores. Com isso, perdeu a freguesia. Ninguém quis mais negociar com Manuel Fulô porque ele era capaz de enganar até ciganos.

    Uma noite, o narrador e Manuel Fulô estavam bebendo cerveja na venda. De repente, entrou Targino e caminhou na direção dos dois amigos. Pediu licença ao doutor: queria falar um particular a Manuel Fulô. Pura formalidade, pois Targino falou bem alto, na porta da venda, a três passos do narrador:

    – Escuta, Mané Fulô: a coisa é que eu gostei da das Dor, e venho visitar sua noiva, amanhã… Já mandei recado, avisando a ela… É um dia só, depois vocês podem se casar… Se você ficar quieto, não te faço nada… Se não… – E Targino, com o indicador da mão direita, deu um tiro mímico no meu pobre amigo, rindo, rindo, com a gelidez de um carrasco.
    Depois da ameaça, o doutor-narrador levou Manuel para a casa dele (do doutor). Que fazer? O próprio Manuel não via saída. Targino era valentão, ninguém podia com ele. No outro dia, enquanto Manuel ainda se recupera do porre, o doutor saiu à procura de ajuda. Primeiro, foi à casa do Coronel Melguério. O homem deu de ombros: se alguém tivesse coragem de enfrentar o Targino… Depois, foi a vez do vigário: prometeu rezar. De volta, o doutor encontrou a casa cheia: eram os parentes de Manuel Fulô. Pediam ao doutor que não fizesse nada. O correto era entregar para Deus. Maria das Dores estava sozinha com a mãe, chamando pelo noivo.

    Chamava-se Antonico das Pedras ou Antonico das Águas. Era pedreiro, curandeiro e feiticeiro. No meio da aflição, foi ter à casa do doutor. Ali, com ar de pressa, trancou-se no quarto com Manuel Fulô. Um tempo depois, a porta abriu-se, e Manuel anunciou com cara de defunto: entreguem a mula Beija-Flor para seu Antônio. O feiticeiro pediu um prato fundo, brasas, linha e cachaça. Os apetrechos apareceram, e os dois se trancaram no quarto.

    Enquanto isso, Targino saiu à rua deserta e caminhava em direção à casa onde estava a Maria das Dores, a noiva ameaçada.

    Manuel Fulô, depois de algum tempo trancado no quarto com Antônio feiticeiro, saiu teso, cara de mau, olhar fixo. E assim, caminhou para a rua: ia ao encontro de Targino. Todos ficaram assustados. Antônio Feiticeiro explicou: Manuel Fulô estava com o corpo fechado. Arma de fogo não tinha poder sobre ele. A mãe de Manuel pediu que segurassem o filho dela, pois seu Toniquinho pusera-o doido. “Mas ninguém transpôs a porta”. E lá estavam os dois, Targino e Manuel Fulô, frente a frente. Manuel falou primeiro, xingando a mãe do valentão. Mexeu na cintura e tirou dela uma faquinha quase canivete. Cresceu para cima de Targino. Foram cinco tiros, as balas zuniram. Manuel Fulô pulou sobre Targino e aplicou-lhe várias facadas pela altura do peito. O valentão capotou e morreu num átimo. Manuel Fulô ainda lhe deu mais facadas, sujando-se todo de sangue.

    Manuel Fulô fez um mês inteiro de festa e até adiou o casamento, pois o padre teimou que não matrimoniava gente bêbeda. O narrador foi o padrinho.

    Conversa de bois (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    Conversa de Bois é um conto, no qual toda uma problemática da relação Homem – Natureza – Animal está presente, com a “filosofia animal” e o zoomorfismo humano trabalhadas conjuntamente.

    As reflexões sobre o poder e a fraqueza centralizam-se em Conversa de Bois, conto narrado em terceira pessoa, narrado por Manuel Timborna, que é entrevistado pelo autor, que pede para recriar a história:

    – Só se eu tiver licença de recontar diferente, enfeitado e acrescentado ponto e pouco…

    – Feito! Eu acho que assim até fica mais merecido, que não seja”

    Manuel Tiborna diz que sim, que inclusive poderia contar um caso de que sabia. O narrador diz que ouvirá a história, mas desde que possa contá-la depois modificando e acrescentando detalhes, com o que Tiborna concorda.

    E então Manuel Timborna começa a “contar um caso acontecido que se deu”, procurando demonstrar que “boi fala o tempo todo”. Ele fala de um tempo em que os animais conversavam entre si e imagina se isto até hoje acontece, se transformam em heróis, questionando o saber dos homens com o seu suposto não saber.

    O cenário do conto é uma estrada do interior de Minas Gerais.

    Conversa de Bois está inserido entre aqueles que compõem o primeiro livro do autor, Guimarães Rosa: é o penúltimo entre os nove contos que se encontram em Sagarana. A marca roseana de contador de “causos” aparece logo no primeiro parágrafo: Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e discutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas (…).

    Neste conto, os bois e os homens cruzam-se como num contraste que se prolonga até o fim. Guimarães Rosa apresenta alternadamente os diálogos dos homens e os “diálogos” dos bois, revelando-se aqui uma espécie de “filosofia bovina”, uma síntese do que “pensam” sobre a vida e sobre os homens. Neste conto, os bois são verdadeiros personagens, possuidores de capacidades intelectuais quase iguais às dos homens. Os bois não possuem humanidade, não agem, “pensam” e “falam” como os homens, à maneira das fábulas e histórias da carochinha, mas sim como nós podemos imaginar, com o recurso da intuição, que eles o fariam se realmente pudessem.

    O homem, no conto, tem seus problemas, suas revoltas contra ele próprio, em oposição ao boi, que carrega o jugo de e na sua vida e que, à noitinha, resmunga, discutindo sua vida, filosofando sobre o círculo nascimento-crescimento-morte.

    Em Conversa de bois, o boi não é apenas ícone da natureza, ele torna-se personagem ativo. E passa nesse momento, a formar com o menino Tiãozinho um só personagem, metade humano metade animal. A parte homem do ser antropomórfico e hibrido, o menino “humano”, não possui o dom da palavra. A palavra surge na consciência dos bois. Ao menino, cabe apenas o desejo de vingança e a vergonha imposta pela atitude pecaminosa da mãe.

    Personagens

    Tiãozinho – Menino-guia. Odiava o Agenor carreiro, pois o malvado vivia fazendo carinho na mãe de Tiãozinho, mesmo quando o pai do menino ainda estava vivo, entrevado em cima de um jirau.

    Agenor Soronho – Carreiro. Mandava em Tiãozinho como se fosse pai dele.

    Januário – Pai de Tiãozinho.

    Buscapé, Namorado, Capitão, Brabagato, Dansador, Brilhante, Realejo e Canindé – protagonistas bovinos da história, que vão na sua marcha lenta, carregando “o peso pesado” do carro-de-bois, carregado de rapaduras e um defunto.

    Resumo do conto

    O autor produz uma história valorizando quatro elementos importantes da paisagem do interior de Minas. O carro, puxado por bois, vai cortando o sertão, levando rapadura e um defunto – o pai de Tiãozinho (cego e entrevado, já de anos, no jirau) para o arraial. Os bois, enquanto arrastam o carro, vão conversando, emitindo opinião sobre muitas coisas, principalmente sobre os homens.

    Buscapé e Namorado são os bois da guia, os dois que vão bem à frente do carro. Capitão e Brabagato são os bois que vão mais atrás.

    O pai de Tiãozinho, Januário, vivia, há muitos anos, entrevado e cego em cima de um jirau. A mãe de Tião não tinha mais paciência de cuidar do enfermo. Guardava seus carinhos para Soronho carreiro. De noite, enquanto todos dormiam, Tiãozinho ouvia os soluços do pai, um choro doído, sem consolo.

    Tiãozinho odeia Agenor Soronho. Mesmo quando o pai estava vivo, o carreiro tinha autorização para xingar, bater de cabresto, de vara de marmelo, de pau… Que seria dele agora, com o pai morto? Tiãozinho tentava fazer tudo direito: capinava, tirava leite, buscava os bois no pasto, guiava-os no carro de boi. Quando crescer, quando ficar homem, vai ensinar ao seu Agenor Soronho… Ah, isso vai!… Há de tirar desforra boa, que Deus é grande!….

    O caminhar cadenciado e monótono levou Agenor Soronho ao sono. O perigo era iminente. Se caísse, as rodas do carro de boi passariam por cima dele. Na frente dos bois, Tiãozinho andava meio acordado, meio dormindo. Nesse quase estupor, o pensamento coincidia com a fala dos bois. Era como se o menino fosse boi também. Os bois entendiam o pensamento dele: falava em vingança, em morte do carreiro. De repente, meio inconsciente, Tiãozinho deu um grito, os bois saltaram, todos a um tempo, para frente, e Agenor Soronho caiu. Uma das rodas do carro passou por cima do pescoço dele, quase o degolando. Estava morto. Agora, com dois defuntos, a caminhada ficou mais alegre.

    A Hora e Vez de Augusto Matraga (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

    A Hora e Vez de Augusto Matraga faz parte de Sagarana que é uma coletânea de novelas e novelas, nove no total. Todos os textos apresentam a tendência de Guimarães Rosa à pesquisa permanente da linguagem regional, mantendo-se ligados ao instrumentalismo. Todos os novelas se passam , como pode ser comprovado pelo cenário, no interior de Minas, existindo farta nomeação de lugares e regiões. Essa verossimilhança serve de primeiro elemento catalisador das narrativas. Mas há outras formas de agruparmos as narrativas.

    Estilo
    Sagarana, na qual se encontra a novela A hora e vez de Augusto Matraga, não apenas está inserida nas perspectivas instrumentalistas (linguagem como instrumento constante de pesquisas), bem como é uma das obras iniciadoras da terceira fase. A hora e vez de Augusto Matraga aponta para a tendência criada por Guimarães Rosa do regionalismo universalizante, uma vez que sua leitura do mundo regional faz-se a partir da projeção para um prisma universal.

    Tempo e espaço

    O tempo da narrativa está mais voltado ao psicológico, ou seja, indeterminado. O espaço é Minas Gerais, mais especificamente o Norte de Minas, destacando-se nomes de vilarejos (Rala-Coco, Murici, Pindaíbas, Tombador) e lugares do sertão (rios, serras, etc.).

    Foco narrativo

    A novela é narrada em terceira pessoa. O narrador é onisciente, penetrando nos pensamentos de Augusto Matraga como se fosse sua consciência.

    O novela mostra a linguagem regional aliando ao mais puro poético para criar efeitos inusitados e da mas sublime perfeição. O casamento entre o regional e o erudito parece surpreender o leitor, maravilhado e chocado diante do sortilégio verbal que, ora prende, ora espanta, criando dificuldades de entendimentos para muitos.

    Problemática e principais temas

    A novela A Hora e Vez de Augusto Matraga ocupa um lugar de destaque dentro da antologia de Sagarana, uma vez que representa o fechamento em círculo da temática iniciada em O Burrinho Pedrês de que um único momento pode valer por toda uma existência. Sabemos que a força mística de Guimarães Rosa é também manifestada na presente obra, já que, simbolicamente, o protagonista da ação é alçado à condição de um Cristo. Nhô Augusto deixa o sítio montado num burrinho. Este é considerado até mesmo na obra como um elemento sagrado (“… porque mãe Quitéria lhe recordou ser o jumento um animalzínho assim meio sagrado, muito misturado às pas­sagens da vida de Jesus”), já que na Bíblia Cristo entrou em Jerusalém montado num desses animais. A caminhada do protagonista simboliza o homem em busca de seu destino. E qual seria o destino a ser cumprido? Claro que a salvação de Matraga só poderia surgir a partir da justiça divina com a negação de seu próprio ser físico em favor da justiça entre os homens.

    Ao salvar inocentes da sanha vingativa de Joãozinho Bem-Bem, Nhô Augusto encontra também a sua redenção final, obtida com seu trabalho, sua reza e a fé de que teria sua hora e vez. Matraga dá a vida, como Cristo, pelos seus semelhantes (“Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mór de salvar as famílias da gente!…”

    A força temática desse conto de que um momento pode valer por toda uma vida, encontra em Nhô Augusto o momento de êxtase dentro da obra de Guimarães Rosa. A persistência e fé do protagonista, verdadeiro herói mítico moderno, faz com que a purificação de sua alma seja completa e sua santificação plena.

    A trajetória heroica de Augusto Matraga que desce do espaço dos poderosos para o dos oprimidos e marginalizados, recorda-nos o fato de que realmente parece não haver mais espaço para as grandes epopeias clássicas, para os heróis míticos do passado, pois o homem moderno traz em si não apenas o herói, mas também o covarde, não só o bem, mas também o mal, está, como o protagonista comprova, mais próximo do homem barroco com suas dualidades e ambiguidades do que do clássico. As verdadeiras epopeias modernas, como podemos considerar A hora e vez de Augusto Matraga, são protagonizadas por homens comuns que se entregam à derrota ou lutam arduamente através de seus corpos e de suas almas à espera de que surja a sua hora e vez.

    Personagens

    Augusto Esteves Matraga – é o protagonista da obra. Muda de nome de acordo com as passagens significativas de sua vida, o que nos permite enxergar nele uma projeção dos heróis míticos. Matraga transforma-se num homem bom e abnegado, trabalhador e rezador, depois de ter sido mau, mulherengo e violento. Seu comportamento desregrado levou-o a perder a fortuna, a mulher e a filha, tendo quase perdido a vida. Depois de uma surra aplicada pelos capangas do Major Consilva, Matraga sentiu-se renascer como outro homem. Foi obrigado a esconder-se dos inimigos num sítio com um casal de pretos velhos que o salvou. Terminou sua trajetória matando o famoso chefe de jagunços Joãozinho Bem-Bem para salvar uma família inocente, e morrendo.

    Joãozinho Bem-Bem – famoso chefe de jagunços. Homem temido e destemido no sertão. Faz justiça com as próprias mãos ou armas, defendendo seus aliados e eliminando seus inimigos. Pressente em Nhô Augusto uma força oculta que os aproxima.
    Quim Recadeiro – era empregado de Nhô Augusto, tendo a função, como o próprio nome indica, de levar recados. Entretanto, quando o patrão é morto, vai à busca de justiça e acaba sendo assassinado pelos capangas do Major Consilva.

    Dona Dionóra: era mulher de Nhô Augusto. Acabou não aguentando mais as judiações do marido e seu descaso e fugiu com Ovídio.

    Mitinha: é filha de Nhô Augusto. Percebe, ainda menina, que o pai não gosta dela e da mãe. Acaba se tomando prostituta.

    Major Consilva – era inimigo de Nhô Augusto, tendo também sido inimigo do avô do protagonista. Homem mau e rico, tem todo o poder depois da suposta morte de Nhô Augusto.

    Tião da Thereza – conterrâneo de Nhô Augusto. Encontra-o no povoado do Tombador e coloca-o a par dos acontecimentos posteriores à sua suposta morte.

    Enredo

    A hora e vez de Augusto Matraga recria uma verdadeira saga do homem na travessia por este mundo. Matraga é, de um modo mais amplo, o homem no sentido universal. Sua trajetória recria a passagem evolutiva em busca do aprendizado do viver e da ascensão espiritual em plenitude. Seu objetivo será ter sua hora e vez de entrar no céu, “mesmo que seja a porrete”. É uma história de redenção e espiritualidade, uma história de conversão. Ao longo do seu enredo o protagonista, Augusto Matraga, passa do mal ao bem, da perdição à salvação.

    Augusto Matraga, foi criado por uma avó, que o queria padre. No entanto, de herança de pai covarde e tio criminoso, enveredou para o mal. A narrativa inicia-se em meio a uma festa de santo, em que, num leilão, Matraga arrebata por 50.000 réis uma prostituta, desagradando um sertanejo rude, grosseiro que estava interessado por ela. Matraga nem chega a usá-la, alegando que era muito feia. Ele, de fato era pessoa rude, não civilizada. Além de bandido e violento, tratava com pouco caso sua esposa, Dionóra, e sua filha, Mimita. Só queria saber de jogo, caçada e mulheres de vida fácil. No entanto, sua sorte mudou. Sua esposa o abandona, passando a viver, com a filha, em companhia de um homem chamado Ovídio. Matraga não pôde vingar a ofensa, pois recebeu a notícia de que seus capangas, com exceção de Quim Recadeiro, também o abandonaram, passando para o lado do Major Consilva. Augusto vai tomar satisfações pela afronta, sem perceber que o destino virou-se contra ele: não tem mais apoio político, está cheio de dívidas e suas terras estão hipotecadas. Como o próprio narrador comenta, não havia se tocado de que era momento de parar umas rodadas, deixar de jogar, pois o azar havia chegado.

    Ao chegar à fazenda do Major, é cercado pelos capangas do vilão, alguns ex-subordinados de Matraga. Então é espancado, marcado por ferro em brasa e, antes de sofrer o pior, atira-se de um altíssimo barranco. Para seus inimigos, estava morto.Mas é resgatado e cuidado. Ficou dias inconsciente. Voltou a si, e conhecendo sua situação, desejou a morte.

    Com o tempo, Matraga volta a ter paixão pela vida. Os meses que passa se recuperando das feridas e fraturas é o tempo suficiente para se arrependa dos pecados e abrace ao cristianismo. No seu jeito rude, fica até cômica a convicção em afirmar que vai para o Céu, nem que seja a porrete. Começa sua fase de penitências. Vai com os velhinhos a uma propriedade sua perdida e distante. Mostra-se trabalhador, misto de louco e santo no olhar do povo. Vive dessa forma por quase sete anos. Um dia, sofreu uma dura tentação. Um antigo conhecido passa por lá e surpreende-se ao descobrir Matraga, ainda mais, mudado. Traz notícias muito inconvenientes. Dionóra estava para se casar com Ovídio, crente de que estava viúva. Major Consilva apoderou-se das terras do protagonista. Quim, frouxo e atrapalhado, havia sido o único a se levantar em defesa do patrão, mas fora morto no momento em que, tomado de fúria, entrara nas terras do Major com a intenção de vingança. Mimita, sua filha, se tornara prostituta. É um momento cruel para Augusto. Deus o havia abandonado? Merecia mesmo o Céu? Mas, como o bíblico Jó, resiste bravamente à tentação de buscar vingança. Não percebe: já estava salvo. E que vem o período de chuvas, que, não
    por coincidência, é o momento em que Matraga acaba por sentir como se tivesse tirado um peso das costas. As águas, opondo-se ao pó de outras épocas, simbolizam o batismo, a sublimação, a elevação.

    É então que surge o bando de Joãozinho Bem-Bem, homem da mesma estirpe do antigo Augusto Matraga. Suas intenções provavelmente eram malévolas naquela região, mas o amor e a dedicação com que o protagonista o recebe o desarma. O bandido intui o poder bélico de Matraga, por isso o convida a fazer parte da empreitada. É uma forte tentação: o herói sente saudade do poder de desmando que possuía. Imagina até a possibilidade de vingar a morte de Quim. Mas resistiu a mais essa tentação. Estava evoluindo a passos largos. Joãozinho Bem-Bem parte, deixando Matraga, mas levando uma afeição enorme por ele.

    Dias depois, enquanto Augusto trabalhava, presenciou uma belíssima explosão de pássaros voando. Sua intuição lhe diz algo maravilhoso, que o faz pensar o dia inteiro. Até que toma uma resolução: decide partir. Faz sua viagem em um jumento, animal carregado de simbologia cristã, pois havia carregado Maria às vésperas do nascimento de Cristo. Carregara, pois, o salvador. Matraga viaja muitos dias, até chegar ao arraial do Rala-Coco, que estava em polvorosa. O bando de Joãozinho Bem-Bem lá estava, prestes a realizar um crime hediondo. Um dos capangas do facínora o havia abandonado, ação que fora considerada traição. Joãozinho resolve se vingar em cima da família deste, querendo assassiná-la. No momento em que Augusto havia chegado, o pai do fugitivo tinha aparecido e pedido clemência pela vida de inocentes. A fúria do criminoso parecia não ter limite, pois já estava prestes a se derramar sobre o idoso. É nesse instante que Augusto Matraga intercede. Mesmo havendo um enorme apreço entre Joãozinho e o herói, os dois começam a se desentender. O bandido está tomado de um maligno espírito vingativo. Matraga defende a bondade divina, sempre pedindo para seu opositor evitar uma tragédia injusta, sempre clamando pelo nome de Deus. O inevitável acontece. Há uma terrível luta. Tiros de todos os lados. Os dois saem feridos, mas Matraga, sempre invocando o nome do Senhor e pedindo para seu amigo se arrepender dos pecados, acaba vencendo, rasgando a barriga de Joãozinho, que morre segurando nas mãos suas entranhas. Augusto Matraga estava morrendo, mas contente.

    Aclamado como santo e salvador entre o povo que tenta socorrê-lo, ainda tem tempo para fazer com que respeitassem o cadáver de Joãozinho Bem-Bem, mandando que o enterrassem dignamente. Ainda teve tempo, além disso, de abençoar sua filha perdida. Morre, porque havia chegado a sua hora e a sua vez. Havia realizado sua missão, cumprido os planos de um misterioso desígnio divino. Estava salvo. Ia para o Céu.

    MANUELZÃO E MIGUILIM – NOVELA DE GUIMARÃES ROSA

    A narrativa de Manuelzão e Miguilim trata de seu mundo infantil visto ainda sem aquela sistematização rígida do universo adulto.

    Em contrapartida, a segunda história, Uma estória de amor, narra os preparativos para uma festa e a própria festa, idealizada por Manuelzão para consagrar uma capela por ele construída.

    No sumário, Guimarães Rosa anuncia as duas narrativas Campo Geral e Uma estória de amor, como poemas.

    Seus textos ambientam os grandes temas da humanidade, principalmente os existenciais e metafísicos, no sertão mineiro, tudo de forma simbólica, mítica e mística. São verdadeiras fábulas.

    Esse é o aspecto que se enxerga, por exemplo, em Campo Geral. É um conto / novela / poema da formação, da iniciação, do amadurecimento de Miguilim. Tanto que o foco narrativo, de terceira pessoa, onisciente, é filtrado por ele. Tudo gira ao seu redor, tudo é enxergado obedecendo ao seu ponto de vista, desde o emprego da linguagem até a absorção e compreensão da realidade. Prova desse aspecto é o retrato que ele dá a seu irmão, dizendo que é de uma santa. A reação dos adultos, que chegam a rasgá-lo, dizendo que era pecado, faz o leitor entender, e não a personagem, que se tratava de uma imagem de mulher pelada. Tal viés acaba tornando o texto muito mais poético, pois nos faz acompanhar o crescimento do protagonista como se fosse bastante íntima nossa.

    CAMPO GERAL (MIGUILIM)

    Narrativa profundamente lírica, pertencente à obra Manuelzão e Miguilim, Campo Geral traduz a habilidade de Guimarães Rosa para recriar o mundo captado pela perspectiva de uma criança. Se a infância aparece com frequência nos textos roseanos, sempre ligada à magia de um mundo em que a sensibilidade, a emoção e o poder das palavras compõem um universo próximo ao dos poetas e dos loucos, em Miguilim, nome com que passou a ser conhecida a novela, essa temática encontra um de seus momentos mais brilhantes e comoventes.

    É uma espécie de biografia de infância – que alguns críticos afirmam ter muito de autobiográfico -, centrada em Miguilim, um menino que morava com sua família no Mutum, um remoto lugarejo no sertão.

    Foco narrativo

    Narrado em terceira pessoa, narrador onisciente. Apesar de ser escrita em terceira pessoa, a história é filtrada unicamente pelo ponto de vista de Miguilim e, por essa razão, o mundo infantil é organizado a partir das vivências de um menino sensível, delicado, inteligente, empenhado em compreender as pessoas e as coisas. As outras personagens – a mãe, o pai, os irmãos, o tio, a avó e todos que vivem e passam pelo Mutum – aparecem misturadas às emoções e às reflexões do personagem central.

    Tempo

    Predomina o tempo psicológico, com o narrador captando o fluxo agitado dos pensamentos do menino Miguilim. Há um tempo que não passa, mas não há a preocupação de datá-lo com precisão como o faz, por exemplo, Eça de Queirós em A Cidade e as Serras. Mais importante que o tempo é o espaço e as pessoas, com seus sentimentos e relações problemáticas.

    Temática

    Os temas fundamentais são a infância, o amor e a amizade, a violência e a fé. A criança é revelada como a criatura em que a hipocrisia e a maldade ainda não deitaram raízes profundas, embora algumas delas já possam apresentar no seu desenvolvimento essas características negativas. Exemplo disso pode ser visto em Patori e Liovaldo. O par Miguilim / Dito pode ser visto como duas faces de uma mesma moeda, opostos e complementares, pois Miguilim é o que precisa aprender para saber, enquanto Dito sabe de modo imediato sem saber como. Dito é sábio e Miguilim é o aprendiz. Nesse sentido, a morte de Dito pode ser vista como uma necessidade existencial para levar Miguilim a crescer, a tornar-se maduro, independente.

    Personagens

    Miguilim: tem o cabelo preto como o do mãe, parece-se mais com ela. Dotado de grande sensibilidade, Miguilim demonstra ter alma de poeta. Parte de suas dificuldade revela-se mais tarde como causada por uma irritação visual.

    Dito: ruivo, parecia mais com o pai, era o mais novo, mas sabia ser responsável. Morreu de tétano.

    Nhô Bero (Bernardo Caz): pai de Miguilim, homem rude que parece ter implicância com Miguilim, mas de quem gosta, embora não saiba expressar isso com facilidade.

    Tio Terês: tio e amigo de Miguilim. Foi expulso de casa por Vó Izidra por causa da relação adúltera com Nhanina.

    Tomezinho (Tomé de Jesus Casseim Caz): ruivo como o pai, menino de quatro anos, tinha mania de esconder tudo o que encontrava.

    Nhanina: mãe de Miguilim, era muito bonita, não gostava do Mutum, sentia muita tristeza em ter que viver ali. Não dava muita importância para a fidelidade conjugal pois traiu o marido com o próprio irmão e depois com Luisaltino.

    Vovó Izidra: se zangava com todos, não gostava que batessem em Miguilim. Vestia-se sempre de preto.

    Chica: irmã de Miguilim, tinha os cabelos pretos como a mãe.

    Liovaldo: irmão mais velho de Miguilim, mas não morava com a família no Mutum.

    Mãitina: empregada da casa, preta velha, gostava de cachaça e cultuava rituais pagãos africanos.

    Drelina: apelido da irmã mais velha de Miguilim. Seu nome era Maria Adrelina Cessim Caz. Era bonita e tinha cabelos compridos.

    Patori: menino mal, filho de Deográcias, desperta a antipatia de Miguilim.

    Grivo: menino muito pobre que é defendido por Miguilim quando é agredido ou humilhado por Liovaldo.

    Luisaltino: último empregado contratado por Nhô Bero e por ele assassinado por ciúme, pois se tornou amante de Nhanina.

    Saluz: vaqueiro de Nhô Bero. Casado com Siarlinda que sabe contar histórias.

    : empregado, que foge com a empregada Maria Pretinha.

    Enredo de Campo Geral

    Miguilim, garoto sensível da região de Minas Gerais, começamos a vê-lo aos oito anos, com uma menção aos seus sete anos, quando esteve mergulhado numa preocupação em respeito ao local de sua residência, o Mutum (essa palavra constitui um palíndromo, ou seja, pode tanto ser lida da direita para a esquerda com da esquerda para a direita, sem alterar-se. E o mais interessante é que sua grafia, MUTUM, acaba concretizando o próprio local, já que este ficava junto a um covão (U), entre morro e morro (M e M). Durante uma viagem para ser crismado, ouvira alguém falar que aquele era um lugar muito bonito. Tão feliz fica com a novidade que se torna ansioso em contá-la para a mãe, Nhãnina, crendo que assim faria com que ela deixasse de ser triste por morar ali.

    Seu jeito estabanado, no entanto, faz com que corra desesperado em direção da mãe, passando direto pelo pai, Nhô Bero, irritando-o. É a primeira informação que o leitor recebe de que existe na narrativa uma transfiguração do complexo de Édipo, já que Miguilim tem uma forte identificação afetiva com a mãe e problemas graves de relacionamento com o pai, a ponto de, mais para frente, os dois se estranharem como se fossem inimigos.

    Há também outras pessoas com quem o protagonista mantém relação. Podem ser citados os irmãos Chica, Drelina e Tomezinho, os dois últimos de gênio difícil, até maligno. A Rosa, que trabalha em sua casa e com quem tem uma tranqüila relação, muitas vezes acompanhando-o em seus sentimentos e fantasias. Vó Izidra, na realidade tia-avó por parte de mãe dele. Era uma mulher dotada de uma moral extremamente rígida, baseada num catolicismo um tanto tradicional, apegado a santos e rezas. É a religiosidade oficial, bem diferente de Mãitina, velhíssima remanescente da escravidão, já sem juízo e com fama de feiticeira. Seu misticismo é muito mais primitivo, pois que baseado em magia (compare essas duas idosas. Ambas estão vinculadas ao misticismo, à religiosidade. A ligação com o aspecto oculto de nossa existência está até simbolizada no cômodo em que cada uma fica: ambos são escuros e isolados. Além disso, gostam de Miguilim. A diferença é que Vó Izidra é mais enrustida. Há também diferenças na qualidade da religiosidade de cada uma. Mãitina é mais primitiva enquanto a outra segue um padrão mais oficial).

    Mas duas personagens são as mais importantes no círculo de relacionamento de Miguilim. A primeira é o seu irmão Dito, que, apesar de mais novo, é mais sábio, na medida em que está mais preparado para o lado prático da vida. Torna-se a âncora do protagonista, já que este é extremamente aluado. Por isso é constantemente consultado pelo personagem principal.

    A outra figura importante é o Tio Terêz (dentro da elaboração poética de sua prosa, Guimarães estabelece uma ortografia própria, muitas vezes afastando-se do padrão gramatical. É o caso do “Terêz”, já que oxítonas terminadas em “z” não devem ser acentuadas). Irmão de Béro, é o amigo grande de Miguilim (há quem extrapole na interpretação e enxergue na relação entre Miguilim e Terêz, tendo também em vista o caso entre este e Nina, além dos conflitos entre o protagonista e seu pai, a possibilidade de que o menino seria filho não de Béro, mas de Terêz. Mas é um aspecto que de forma alguma deve ser colocado em uma prova, pois que baseado em suspeitas muito leves). E sabemos, pelo olhar lacunoso de uma criança, que mantém uma relação no mínimo perigosa com Nina. Intuímos isso pela briga que há entre pai e mãe em que esta quase apanha; só não sofreu porque Miguilim se interpôs no meio do casal, acabando por sofrer a fúria de Béro no lugar da mãe. Comenta-se a todo instante que o tio não ia poder mais aparecer no Mutum. Além disso, surge uma tempestade terrível, que é atribuída por Vó Izidra como castigo infligido às ações pecaminosas que andavam grassando.

    O temporal se vai, Tio Terêz some e o Mutum mergulha numa tranquilidade momentânea. É quando Miguilim põe na mente a ideia obsessiva de que iria morrer em dez dias. Passa a desenvolver um apego pela vida durante o decorrer desse período e principalmente após ele, ao descobrir que sobrevivera a ele.

    Nhô Bero, pouco depois, faz com que Miguilim lhe leve o almoço. É uma maneira que entende de arranjar utilidade para o garoto, que realiza sua tarefa com orgulho. No entanto, em uma das viagens, é surpreendido por Tio Terêz, que lhe entrega uma carta para ser entregue à Nina e diz que estaria esperando resposta no dia seguinte. Começa então um dilema na mente do menino. Adora o tio e, portanto, deve fazer o que este lhe pediu. No entanto, mesmo não tendo consciência do que acontecia, intui que o que era pedido era errado. Depois de muito tempo de conflito interior, decide não entregar a missiva, confessando, entre choros, ao tio, que facilmente entende. É um grande passo no crescimento da personagem.

    Introduzido por outra tempestade, chega mais um período de crise. É, como diz o narrador, o momento em que virou o tempo do ruim. Começa com o assassinato de Patori, garoto imbuído de malignidade e que maltratava muito Miguilim. Seguem-se outros fatos. O cachorro Julim foi mortalmente ferido por um tamanduá. Tomezinho sofre com a picada de um marimbondo. O touro Rio Negro machuca Miguilim, que acaba descontando a raiva em Dito. Luisaltino surge e começa a se engraçar com Nina (a mãe de Miguilim parece revelar um caráter no mínimo leviano, volúvel. Pode-se desconfiar de um certo determinismo, na medida em que sua personalidade seria um reflexo das atividades exercidas pela mãe dela, que fora prostituta). O ponto crítico ocorre quando Dito vai espiar o ninho de uma coruja. A ave acaba dizendo o nome dele, o que é visto por Miguilim como mau agouro (note que, para angústia de Miguilim, o papagaio não conseguia falar o nome de Dito, ao contrário da coruja. Drama temporário. No final, muito tempo depois, consegue-o).

    Tudo é preparação de clima para o grande desastre. Durante a perseguição que as crianças fazem a um mico que havia escapado, Dito acaba tendo o pé cortado por um caco que estava no terreiro. O machucado piora, colocando o menino de cama. Coincidência ou não, é época dos festejos de Natal, Vó Izidra até se dedicando a montar seu famoso presépio.

    Dito não resiste ao mal que lhe acometeu, vindo por falecer. É uma experiência extremamente dolorosa para Miguilim, mas que pode ser vista como um passo importante no seu amadurecimento. Se antes o protagonista era guiado pelo irmão, nos momentos de convalescença deste o jogo começa a se inverter. É Miguilim que conta ao acamado o que está ocorrendo no mundo ao redor deles. Passa a ser, pois, os olhos fraternos. Com a morte, a personagem principal passa um longo período curtindo a dor, o sofrimento, até que assume um movimento com que de introjeção do falecido, já que antes de tomar uma decisão sempre se pergunta o que seu irmão faria. Ao assumir a mesma atitude que presume ser de Dito, praticamente absorve-o em seu ser.

    Tanto essa evolução é verdade que Miguilim aguenta firme o sufoco a que seu pai o submete, fazendo-o trabalhar no roçado, debaixo de um sol desumano. Mas o mais importante é lembrar da sua participação no conflito que houve entre Liovaldo e Grivo.

    Grivo era um rapaz muito pobre, a ponto de os animais de criação, como galinhas, morarem na mesma casa dele. Certa vez aparecera no Mutum com dois patos para serem vendidos, parca fonte de sustento para si e para mãe. No entanto, Liovaldo, irmão de Miguilim que morava na cidade e que estava de visita, dominado por um espírito maléfico, começa a maltratar e até a machucar o pobre. Miguilim acha injusto e toma partido, batendo no agressor. Seu pai fica indignado pelo fato de o menino não respeitar o sangue familiar e, incoerentemente, dá uma surra nele que chega a espancamento. O protagonista, no entanto, não se sente mal, pelo contrário, tem raiva, pois sabe que está certo e que o pai está imensamente errado. Por isso pensa em vingança, imaginando até a morte do pai. É quando ri, em meio a surra, o que faz todos, até o agressor, pensarem que o menino endoidara, talvez até com os golpes.
    O conflito instaura a conquista, por Miguilim, de espaço e até respeito no ambiente familiar. Após três dias que passa na casa de um vaqueiro, para protegê-lo da fúria do pai, retorna, mas não se mostra submisso. Como provocação, Béro quebra os brinquedos e gaiolas do filho. Este solta os passarinhos que tinha presos e quebra os brinquedos que sobraram. É um sinal de que havia crescido e que, portanto, não precisava mais daquelas diversões.

    Delimitadas as fronteiras, Miguilim pouco depois cai doente e de forma tão grave que alterna momentos de inconsciência a de consciência (a doença e os mergulhos de desligamento que provoca podem ser entendidos como um momento de incubação, como se Miguilim, dentro de um casulo, estivesse em uma fase no final da qual se transformaria em outra pessoa). Nos instantes em que vem à tona percebe picotes de realidade, mas que nos faz entender vários acontecimentos. O primeiro é o desespero do pai, que se sente injustiçado pela providência divina, que parecia querer tomar mais um filho dele (Béro é, portanto, uma personagem complexa, pois, ao mesmo tempo em que maltrata seu filho, demonstra amor por ele. Sua agressividade pode ser fruto de uma vida de dificuldades financeiras, pois não é dono de suas próprias terras, cuidando do que era alheio. Nas entrelinhas fica o traçado de um caráter rico psicologicamente). Tenta ao máximo fazer suas vontades. Em vários outros despertares Miguilim toma conhecimento que Béro havia matado Luisaltino, provavelmente por causa de Nhãnina. Por ter caminhado pelas trilhas da criminalidade, acaba por se suicidar.
    Quando começa a melhorar, o protagonista toma conhecimento de que Tio Terêz tinha voltado e ia passar a morar no Mutum. Era a união, finalmente, dele com Nina. Por causa disso, Vó Izidra parte de lá, indignada.

    No final, a chegada de um certo Dr. José Lourenço traz uma revelação surpreendente. É essa figura nova que descobre que Miguilim era míope. Ao emprestar ao menino seus óculos, permite à criança uma descoberta. Seu velho mundinho acaba ganhando uma visão completamente nova, mais nítida. É a simbologia do crescimento, o que constitui um ritual de passagem. Enxergar mais nitidamente o mundo significa entrar para a fase adulta, sair da infância.

    Na companhia de tão importante mudança, Miguilim parte para a cidade. Sua viagem, somada à simbologia dos óculos, pode significar a entrada em um novo universo. Miguilim pode tanto ter abandonado a visão primitiva, pré-lógica, que o caracterizara, como continuar, em meio ao universo adulto, preservando seu lado infantil. É, pois, um final aberto, a permitir mais de interpretação.

    UMA ESTÓRIA DE AMOR (MANUELZÃO)

    Pertencente à obra Manuelzão e Miguilim, a novela narra os preparativos para uma festa e a própria festa, idealizada por Manuelzão para consagrar uma capela por ele construída. A festa e seus preparativos são como uma coluna dorsal, ou um esqueleto, mas os músculos e nervos da narrativa são os pensamentos, sentimentos e lembranças de um velho vaqueiro que vê com preocupação o fim do caminho: “De todo não queria parar, não quereria suspeitar em sua natureza própria de um anúncio de desando, o desmancho, no ferro do corpo. Resistiu. Temia tudo na morte.”

    Foco narrativo

    Narrado em terceira pessoa, narrador onisciente, que não demonstra muito simpatia pelo protagonista.

    Tempo

    O tempo cronológico está bem registrado, são os três dias de festa, mas contaminado pelo tempo psicológico, pois os três dias parecem uma eternidade. Esse efeito é produzido pela inserção de três grupos de informações:

    – as narrativas encaixadas;

    – os pensamentos e sentimentos do protagonista;

    – as descrições de pessoas e de elementos da natureza.

    Temática

    Encontramos a velhice com toda sua problemática: os problemas de saúde (a doença do pé e a falta de ar), o temor da morte, as lembranças e o balanço da vida passada, a consolidação de valores e de crença (gosto pelo trabalho e desprezo pela farra ou pela folga, manter firme as decisões e compromissos assumidos) e um vago desejo de recomeçar algo, corrigindo o que se considera insatisfatório no viver passado. Pode-se tomar como exemplo disso a vontade que Manuelzão sente de casar-se e constituir uma família verdadeira. O amor também é um tema importante e perpassa toda a narrativa, mas não é tão intenso e mais solto como em Campo Geral. É um amor reprimido pelos valores sociais, como o que une Camilo e Joana Xavier ou o que Manuelzão não admite sentir por Leonísia.

    Personagens

    Manuelzão: protagonista, velho vaqueiro, solteirão, que já começava a sentir a idade avançada e a proximidade da morte. A personagem de ficção foi inspirada em uma pessoa real, histórica, o mineiro Manuel Nardi, de quem Guimarães Rosa ouviu muitas histórias que foram depois aproveitadas por ele.

    Adelço: filho bastardo ou natural de Manuelzão, tipo fechado que parece querer bem apenas aos filhos e à mulher.

    Leonísia: mulher de Adelço, sertaneja bonita, bondosa, trabalhadeira, que atrai a simpatia e o desejo de Manuelzão que se reprime toda vez que se manifesta.

    Promitivo: irmão de Leonísia. Sabe ser simpático, mas não quer nada com o trabalho.

    Camilo: agregado, velho mendigo que acabou se incorporando à família de Manuelzão.

    Senhor do Vilamão: visita considerada por ser rico e de prestígio. É um homem velho e antiquado.

    Federico Greyre: dono das terras de Samarra, patrão de Manuelzão. Não parece fisicamente, mas povoa os pensamentos de Manuelzão.

    João Urúgem: homem selvagem que vive como animal no meio do mato.

    Enredo de Uma estória de amor

    Parece que em Uma estória de amor vamos para o outro lado da existência, já que seu protagonista, Manuelzão, tem 60 anos. No estágio que atingiu, torna-se o responsável pela fazenda Samarra, pertencente a Federico Freyre, alguém que nunca aparece, sendo apenas mencionado (cuidar das terras de alguém que não aparece fisicamente, só na forma de uma carta, faz lembrar o próprio papel de Adão ou até mesmo do ser humano em relação a Deus).

    Estabelecido, depois de uma ampla vida de atribulações, resolve instalar sua mãe e pouco depois, sentindo falta, provavelmente, de um sentimento de família, busca um seu descendente, fruto de um relacionamento perdido no tempo. É o seu filho, Adelço de Tal, sujeito desamistoso, seco, casado com Leonísia, mulher linda a ponto de inspirar desejos perigosos em Manuelzão, o que provoca nele um conflito interior. O casal tem um filho, Promitivo, rapaz sem rumo certo na vida – um vagabundo.

    Com a morte de sua mãe, Manuelzão resolve erguer uma capela para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, atendendo, quase que inconscientemente, a um pedido da progenitora, quando ainda viva. Coincidência ou não, essa determinação ocorre logo após o riacho que cortava a fazenda ter misteriosamente secado no meio de uma noite. Terminada a construção da igrejinha, prepara-se para inaugurá-la, esperando a chegada de um padre.

    Surpreendentemente, vem chegando uma enorme quantidade de gente, de todas as partes, para participar desse evento religioso. É um festejo que já ocorre nas vésperas do que acaba se tornando o grande dia e do qual Manuelzão não tem mais controle, a não ser no que se refere à preocupação de garantir alimentação para uma população tão grande de convivas.

    Entre as pessoas de todo tipo que aparecem, destaque deve ser dado a algumas figuras. A primeira é João Urúgem, homem extremamente primitivo, às vezes tão colado à terra que é visto de quatro, e que chega a cheirar mal, animalescamente. O outro é o Senhor do Vilamão, outrora homem muito rico e poderoso, mas no presente caduco. Diminuída sua potência político-econômica, ainda tem posses e pose. Há também Joana Xaviel, grande contadora de história e que tivera um enlace amoroso (pelo menos no mínimo suficiente para espantar a solidão da velhice) com Camilo, homem de passado misterioso, não se sabe se até fora déspota e bandido, mas que tinha como que preservado um ar de prestígio. Havia até quem suspeitasse de um interesse emotivo entre ele e a mãe de Manuelzão.

    Inaugurada a capelinha, todos se entregam ao prazer de um caloroso almoço, participando depois da cantoria e do folguedo.

    Enquanto a festa acontece, lembranças e conversas nos dão conta das outras personagens envolvidas nesse acontecimento.

    A festa transcorre na mais perfeita ordem, apesar de correr muita bebida. Manuelzão a tudo supervisiona. Enquanto isso, Manuelzão está mergulhado em três problemas. O primeiro é a dor constante que sente em seu pé. O segundo é a necessidade de conduzir uma boiada.

    No final da noite é que todos esses problemas começam a ser sanados. Sem perceber, a dor havia sumido. E o quadro muda radicalmente de figura quando de maneira inesperada Camilo se propõe a contar uma história, a do Boi Bonito.

    Trata-se da narrativa que em alguns pontos se assemelha a um conto de fadas. Um fazendeiro muito rico possui um cavalo que ninguém consegue domar. Além disso, propõe-se a dar a mão de sua filha a quem conseguir caçar o famoso Boi Bonito, tão belo quanto perigoso. Vários vaqueiros tentaram, mas só encontraram a morte.

    A narrativa se encerra com o fim da festa e a perspectiva de saída da boiada.

    PRIMEIRAS ESTÓRIAS DE GUIMARÃES ROSAS

    ÀS MARGENS DA ALEGRIA – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    Narrado em terceira pessoa, esse primeiro conto de Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, é considerado, com o último, Os cimos, a moldura do livro, já que apresenta as mesmas personagens no mesmo ambiente.

    A principal personagem é o Menino e, assim como ele, as outras personagens são apenas identificadas pelo grau de parentesco.

    O conto é em tom lírico reflexivo, a primeira viagem de um menino, a descoberta do mundo: a crueldade representada pela morte do peru e a beleza e a alegria representadas pelo vagalume.

    O autor se identifica profundamente com o protagonista, como se ele espelhasse sua própria trajetória, sua infância, como se assim universalizasse, de certa forma, essa travessia. Ou seja, ele tenta perceber o que há de comum na infância de cada menino, nessas delicadas passagens, em seus estados de alma, nos dolorosos conflitos, nas fascinantes descobertas.

    Em As margens da alegria, Guimarães Rosa coloca-nos diante de um Menino que, na sua lenta descoberta do mundo, transforma tudo o que lhe passa diante dos olhos em experiência de dor e alegria, vida e morte. Essa aprendizagem se dá a partir da relação direta com a natureza em toda a sua dinâmica, para a qual o Menino volta um olhar sem reservas, cheio de admiração. Aqui a infância aparece como o lugar do crescimento, da descoberta, da aprendizagem. O Menino tem como primeira fonte de conhecimento o olhar: “espiar”, “avistar”, “ver” e “vislumbrar” são verbos que percorrem toda a narrativa. É, portanto, através do olhar atento e encantado que ele conhece e re-conhece todas as coisas que encontra. O menino agora vivia; (diz o narrador) sua alegria despedindo todos os raios. E continua: Ele queria poder ver ainda mais vívido – as novas tantas coisas – o que para os seus olhos se pronunciava.

    O protagonista, o menino, faz uma viagem de avião até a casa do tio numa cidade em construção, provavelmente Brasília. É do alto (do avião) que ele vai desbravando as paisagens externas. Das alturas ao chão ele mantém o encantamento, e mesmo na terra o que se oferece ao seu olhar não é maculado pela pequenez do chão, mas é fantasiado e revisto pelo lance final quando surge o vagalume.

    Esse passeio, como informa o narrador, é na máxima felicidade. Os adultos estão sempre o afagando. Tudo é belo e novo. E antes mesmo que tenha consciência das necessidades, já é satisfeito. Tais descrições conferem com a ideia que se faz do Paraíso. É onde a criança parece estar. Acompanhado pelos tios, que são puras expressões de amor e afeto, o protagonista vive um momento singular em sua vida. A viagem lhe é inédita e lhe causa sentimentos de fascínio e leveza. O processo de crescimento é aí apresentado no momento em que o narrador substitui “um menino” por “O Menino”.

    O clímax de tanta felicidade vai-se dar quando o menino encontra um peru majestoso. Mas dura pouco tempo, pois, depois de um passeio, o garoto fica sabendo que a ave havia sido morta para o aniversário do Tio. Sua tristeza é aumentada quando depois presencia a derrubada de uma árvore. É o contato com as imperfeições da vida: a morte e, consequentemente, a passagem do tempo. Cai do Paraíso.

    Tem um momento ilusório: é quando pensa ter visto de novo o tão amado peru. Na realidade, era outro, menor, menos pomposo. Há quem enxergue aqui o platonismo, na medida em que esse segundo pássaro seria sombra do primeiro, perfeito, já que pertencente ao mundo das ideias.

    O segundo bicho, que bica a cabeça decepada da antiga ave, proporcionará ao menino mais experiências difíceis ligadas ao campo da inveja e da malignidade. É o instante em que começa a escurecer, tanto denotativamente (fim do dia, chegada da noite), quanto conotativamente (contato com o lado escuro da existência).

    A angústia é aliviada quando surge, em meio à escuridão da floresta à sua frente, um vaga-lume. Sua luz em meio ao breu simboliza a esperança que se deve ter após a queda do Paraíso, após o mergulho nas imperfeições da condição humana. Por isso alguns associam esse brilho aos ideais religiosos, como o próprio Espírito Santo, a nos trazer de volta a felicidade do princípio de tudo.

    Percebe-se que a estória apresenta quatro momentos específicos: o da viagem, quando o Menino vive uma experiência aérea, paradisíaca, e outros três acontecimentos terrestres. Um deles é a aparição do peru no quintal da casa onde estava. O peru “completo, torneado, redondoso”, o “peru para sempre”, o peru transbordando de “calor, poder e flor” representa o auge da vitalidade do Menino. No entanto, a terrível sensação da efemeridade é experimentada no outro momento quando o protagonista, ao voltar do passeio, ávido de vê-lo, depara-se apenas com “umas penas, restos, no chão”. O brusco desaparecimento do peru representa o movimento oposto aos dois anteriores. Neste momento, o Menino vivencia a experiência da morte: O Menino recebia em si um miligrama de morte.

    Vimos o primeiro aprendizado do Menino é, sem dúvida, o da alegria.

    Em As margens da alegria o olhar do menino é um olhar que abarca as coisas vistas, porque o mundo é, pela primeira vez, descortinado a ele como um espetáculo, e porque a paisagem sobrevoada é nova, vista pela primeira vez. Tudo estava se inaugurando. Mesmo ao chegar à terra, são novas as significações que ele terá que criar com o seu olhar. Os elementos naturais vistos e abarcados agradam-lhe docemente aos olhos, mas também, ele o descobre mais tarde, podem feri-lo. Não se exclui nada nessa narrativa, nem mesmo a dor; tudo é abarcado, e experienciado pelo olhar.

    O olhar atravessado do menino também sabe prolongar o que consegue ver, o que deve ficar de afetos para a sua alma. Por isso, ele sabia, em algum canto do seu ser, que se tivesse olhado mais, e se demorado nesse olhar, ele manteria na memória a primeira experiência, a da alegria. Na iminência da perda, por que ele não se demorou mais no olhar?: Soubesse que ia acontecer assim, ao menos teria olhado mais o peru – aquele. O peru – seu desaparecer no espaço.

    A MENINA DE LÁ – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    A menina de lá , conto de Guimarães Rosa, da obra Primeiras estórias, é narrado em terceira pessoa.

    Em um momento do texto, o narrador também passa a ser personagem (“Conversávamos, agora”), em outros, funciona como um narrador testemunha dos fatos, ora mais próximo, ora distanciado. Sabe de todos os acontecimentos por presenciá-los e por ouvir falar deles, porém, não diz a revelação que Nininha fez para Tiantônia, quando apareceu o arco-íris. Isso só acontecerá depois da morte da menina.

    Semanticamente é possível perceber que a menina não pertence ao cá (terra), mas sim ao lá (céu), pela presença de palavras ligadas ao universo do mundo do lá: lua, estrelinhas, céu, alturas, aves, mortos, saudade, milagre, a mãe não tirava o terço da mão, e a menina mora no “Temor-de-Deus” e principalmente a palavra arco-íris, dentre outras. Arco-íris é a palavra-chave, pois remete ao imaginário coletivo de fazer um pedido ao arco-íris quando este aparece no céu. Pela metonímia “caixão colorido”, Nininha pede a morte e metaforicamente, o que ela deseja, acontece. Há, nesse momento, o clímax do conto, pois é o confronto entre os dois mundos: o cá (mundo terreno), de Tiantônia, em que a morte é vista como ruim, repreendendo a menina versus o lá, que para Ninhinha é a alegria , a libertação de um mundo que não é o seu, esperando cumprir o seu destino e realizar o seu desejo de ser “a menina de lá”. Desta forma, fecha-se o círculo do universo premonitório traçado pelo conto, calcado no destino fatídico de uma menina que não pertence ao mundo de cá, entretanto possui a magia de um outro mundo encantado: o mundo da criação artística.

    É uma menina “com seus nem quatro anos”, franzina, filha de um pai sitiante e de uma mulher que não tirava o terço das mãos para nada, mesmo quando dava bronca nos empregados.. Vivia em Temor-de-Deus, por trás da Serra do Mim. Seu nome era Maria, ou apenas Nininha.

    Era muito quieta, ficava sempre sentada em um canto (e ninguém entendia muito bem o que ela dizia).

    Nininha (seu nome, o sufixo diminutivo triplicado, reforça sua fragilidade), louca (provavelmente tem hidrocefalia), é sensitiva, dotada de contatos místicos, poderes paranormais: seus desejos, por mais estranhos que fossem sempre se realizavam.

    A menina começa a falar mais, e coisas estranhas começam a acontecer. Um dia, em meio à seca, ela diz que gostaria de ver um sapo em sua casa – momentos depois um sapo entra pulando pela porta; outro dia ela comenta que gostaria de comer “pamonhinha de goiaba” – nem meia hora depois chega uma senhora trazendo o doce. Quando sua mãe fica doente, pedem que a faça melhorar, mas a menina simplesmente diz que não pode. No entanto, abraça-a e, coincidência ou não, a cura chega.“O que ela queria, que falava, súbito acontecia.”

    A menina era marcada por inventar histórias absurdas e por se calar subitamente em diversos momentos: “Não se importava com os acontecimentos. Tranquila, mas viçosa em saúde. Ninguém tinha real poder sobre ela, não se sabiam suas preferências. Como puni-la? E, bater-lhe, não ousassem; nem havia motivo. (…) E Nininha gostava de mim.”

    Seus poderes começam a dar uma mostra de maior intensidade quando a menina cura a doença de sua mãe e também quando ela atende o pedido de seu pai e faz chover. “Pai e Mãe cochichavam, contentes: que, quando ela crescesse e tomasse juízo, ia poder ajudar muito a eles, conforme à Providência decerto prazia que fosse.”

    Pouco tempo depois deseja ver o arco-íris. A chuva chega e, junto, o arco. A visão dele no céu proporciona uma alegria que ela nunca tinha expressado em sua vida. Mas, fica quieta quando recebe uma bronca de Tiantônia, que xinga e repreende a menina, que, a partir daí, volta a ficar quieta. Nininha adoece e morre pouco tempo depois. Tiântonia explica, então, a razão para ter xingado a menina naquele dia em que ela fizera chover: “Nininha tinha falado despropositado desatino, por isso ela ralhara. O que fora: que queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes brilhantes.” Os pais discutem se deveriam ou não encomendar o caixão como a filha havia solicitado.

    Como explicar para o pessoal do arraial que quem tinha pedido o caixão assim tinha sido Nininha? No meio de uma discussão sobre isso, seus pais percebem que não seria preciso explicar nada para ninguém, pois Nininha queria daquele jeito (e daquele jeito seria). Mas a mãe percebe que “não era preciso encomendar, nem explicar, pois havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa com verdes funebrilhos, porque era, tinha de ser! – pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nininha.”

    Nota: O que de fato aconteceu: o arco-íris era o aviso de Deus de que Nininha voltaria ao seio d’Ele. E isso já vinha sendo anunciado nas entrelinhas desde o início do conto: o dedinho dela quase alcançava o céu, quando se falava de parentes mortos, ela dizia que ia visitá-los, sem mencionar o próprio título do texto, entre outros elementos. Esses aspectos místicos acabam transforma-a em mais uma milagreira, como tantas crianças que povoam o imaginário popular.

    FAMIGERADO – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    Narrado em primeira pessoa, Famigerado, conto que faz parte da obra Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, constitui-se num episódio cômico.

    Nesse conto, podemos opor o poder da força, Damásio, ao poder da instrução, do conhecimento médico. Caso o médico tivesse revelado o sentido dicionarizado do termo “famigerado”, estaria, por certo, infligindo uma sentença de morte ao moço.

    Em Famigerado, Guimarães Rosa tematiza a importância da linguagem. Seu conhecimento ou não determina as posições sociais.

    Enredo

    Um médico do interior [narrador da história] recebe a visita de quatro cavaleiros rudes do sertão. Seu líder, Damásio, conhecido assassino da região, quer que o doutor, pessoa letrada do lugar, o esclareça a respeito do significado da palavra “famigerado”, pois ouviu esta palavra de um moço do governo.

    A pergunta é feita por Damásio, da seguinte maneira:

    -Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: famisgerado… faz-me-gerado… falmisgeraldo… famílias-gerado? O conto encaminha-se para um anticlímax: o médico (narrador) depara-se com uma situação de tensão: um bandido feroz, Damásio Siqueiras, visita-o com a intenção de saber o significado da palavra “famigerado”. O facínora queria saber, portanto, se aquela palavra seria motivo para a desgraça ou para a paz. Temeroso de revelar a verdadeira intenção do homem do governo, o médico mente, pois teme a violência de Damásio contra o “moço do Governo” que assim o havia chamado.

    O médico, ineficientemente (ou por insegurança), informa que o termo significa “inóxio”, “douto”. A verdade não fica clara. Damásio pede para que seja usada “fala de pobre”, de “em dia de semana”. Um pedido humilde. O narrador, pois, já detém poder da situação. Expõe-lhe toda a verdade. Informa que não é nome de ofensa. Ele explica então que “famigerado” quer dizer “célebre”, “notório”, “notável”.

    O assassino, depois de tranquilizado com a resposta do médico, agradece e vai embora. Antes, porém, considera que: Não há como as grandezas machas de uma pessoa instruída.

    O interessante é notar que há uma constante preocupação em descobrir o que existe por trás das palavras. Damásio quer ter posse desse conhecimento, pois suas ações dependem disso. O narrador quer saber por que essa curiosidade, com medo de que tenham feito intriga contra ele.

    Uma leitura desatenta indicaria que o narrador censurou a verdade. De fato, “famigerado” quer dizer “famoso, importante, que merece respeito”. Mas boa parte das pessoas usa esse termo com o sentido de “maldito, desgraçado”. Há uma forte possibilidade de que essa tinha sido a intenção do moço do governo. E a fala final do narrador deixou nas entrelinhas, como uma parábola, uma estória, este último significado. Quando Damásio lhe pede para confirmar se não se constituiu ofensa, o interlocutor diz: Olhe: eu, com o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado – bem famigerado, o mais que pudesse!… De fato, mesmo proprietário, estabelecido, culto, formado, naquela hora em que se sentia encurralado pelo medo de perder a vida, o que mais queria era ser tão desgraçado, tão maldito quanto Damásio.

    Mas o bandido não estava preparado para essa verdade. Estava diante dele, mas não a enxergou. Estava ainda mergulhado nas trevas. Não pôde perceber o brilho do vaga-lume. É por isso que sai desmanchando-se de felicidade e alívio.

    SORÔRO, SUA MÃE E SUA FILHA – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    Conto narrado em terceira pessoa, mas com a participação ambígua do narrador como personagem. Isto se dá pelo fato do narrador ser um observador dos fatos, mas também fazer parte do povo: “A gente se esfriou (…)” “A gente estava levando agora o Sorôco (…)” Ou seja, “a gente “, no conto, pode ser a gente, o povo da estação, como também o marcador oral “a gente” enquanto nós.

    O conto tem uma temática triste, trabalha com o sentido circular de passar a angústia do personagem Sorôco com sua solidão e desespero ao ter que deixar ir para longe as únicas pessoas que tem no mundo, ficando mais solitário ainda. Tudo gira em torno da separação, da perda, da ausência e da distância.

    A grande temática do conto é a solidariedade. Há a compaixão do povo para com Sorôco e sua dor. O povo se solidariza com Sorôco. A irracionalidade entoada na cantiga da mãe e da filha loucas realiza o elo entre as dores de todos os homens. É uma cantiga compreendida só por aqueles que possuem sentimento, a razão de ser do humano. Esta cantiga metaforiza a união entre os homens por meio da solidariedade.

    É possível imaginar o sofrimento de Soroco, o vazio dolorido sentido e a profunda solidão na alma. A solidão só não é absoluta, porque existe a solidariedade do povo acalentando seu coração.

    Pode-se observar também as sugestões sonoras oferecidas pelo nome do personagem: Sorôco – só louco; Sorôco – socorro, como compreensão do forte sentido do contexto do texto. Por outro lado, é interessante perceber a gradação do título, sugerindo a união da família como vagões que se engatam no trem da existência e se desengatam no destino. Cada vagão carrega sua própria solidão e dor, mas forma o trem da solidão e da dor coletivas, na metáfora de uma cantiga.

    Sorôco é comparado a Jó, personagem da Bíblia, por causa de seu sofrimento. Passado e futuro, ele, no meio. Ele, a terceira margem. A eternidade. E as proporções gigantescas dele lembram as personagens grotescas que são castigadas, eliminadas em outros contos. O padecimento a que foi submetido ao cuidar das duas, no entanto, redimiu-o.

    Enredo

    O conto inicia com a descrição de um vagão diferente, gradeado, que seria levado pelo “trem do sertão”. A população sabia que ele levaria “duas mulheres, para longe, para sempre”: a mãe e a filha de Sorôco. “A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo.” Homem simples e rude, vivia com sua mãe e sua filha:

    A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.

    Mãe e filha eram loucas. Sorôco tentou ficar com as duas ao seu lado, mas não foi possível. Tomou a decisão mais difícil de sua existência: interná-las. O governo mandaria o trem para levá-las para Barbacena, longe. “Para o pobre, os lugares são mais longe.” Sorôco deveria encaminhá-las à estação, pois “o trem do sertão passava às 12h45m.”

    Sorôco seguiu para a estação acompanhando as duas, uma de cada lado, “parecia entrada em igreja, num casório.” O povo esperava, protegendo-se do sol. “As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam (…) Sempre chegava mais povo – o movimento.” Alguém avisa que Sorôco aponta da Rua de Baixo, onde mora. Ele vestia a sua melhor roupa para a despedida, que a população acompanhava com pesar – “Todos diziam a ele seus respeitos, de dó.” Diziam palavras que tentavam consolá-lo e ele muito humilde respondia: – “Deus vos pague essa despesa…” Todos compreendiam a atitude de Sorôco, pois não havia outro jeito.Porém todos pensavam que a partida delas seria bom para ele, visto não haver cura para a doença e também pelo fato de elas terem piorado nos últimos 2 anos, a ponto de Sorôco pedir ajuda médica para elas.

    Em frente ao trem, a filha de Sorôco começa a cantar uma cantiga que ninguém entende. A mãe de Sorôco começa a cantar também a cantiga entoada pela moça, antes de serem alojadas dentro do trem. Principia o embarque das duas. E o canto ecoa longe. Sorôco não espera o trem desaparecer de vez, nem olha, fica de chapéu na mão calado. “De repente, todos gostavam demais de Sorôco.”

    O trem partiu e “Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo – o que nele mais espantava.” Todos os presentes ficaram condoídos com o sofrimento do homem. Entretanto, Sorôco pára e “num rompido – ele começou a cantar. Alteado, forte, mas sozinho para si – e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.” E eis que “todos, de uma vez, de dó de Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com vozes tão altas! (…) A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.”

    OS IRMÃOS DAGOBÉ – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    Os irmãos Dagobé, conto de Primeiras estórias, obra de Guimarães Rosa, tem narração em primeira pessoa (alguém do arraial, presente no velório e no enterro, que registra suas impressões sobre os irmãos Dagobé e possíveis acontecimentos futuros).

    Não há marcação de tempo e espaço (velório e o enterro) e traz a violência como tema.

    Seus personagens são: Damastor (morto), Derval (caçula), Dismundo, Doricão e Liojorge.

    Em sua linguagem o autor usa aliterações (repetição da letra D nos nomes dos irmãos Dagobé); frases incompletas: “Aquilo era quando as onças.” e aglutinação de palavras: “perguntidade”.

    Este conto confirma a ideia popular de que Deus escreve certo por linhas tortas. Damastor Dagobé, bandido extremamente feroz, foi surpreendentemente assassinado por um sujeito aparentemente fraco, Liojorge, pressionado por legítima defesa. É em meio ao velório que o narrador se coloca, para captar mais vivamente a reação das pessoas presentes, todos com inúmeras conjecturas sobre como será a vingança dos irmãos Dagobé.

    O mais surpreendente é que chega o recado de Liojorge, querendo deixar claro que havia matado com respeito e que queria estar na presença dos irmãos, para mostrar sua boa vontade. Se isso já deixou todos sobressaltados, muito mais quando se fica sabendo que o bom moço queria ajudar a carregar o caixão de Damastor. Parecia que o medo havia feito do rapaz um maluco.

    Surpreendentemente os irmãos Dagobé concordam, mas impõem uma condição: só depois do caixão ser fechado. Os presentes imaginam algum plano malévolo e traiçoeiro dos bandidos. No entanto, a narrativa apresenta frustração após frustração. Liojorge chega e não é assassinado. Conduz o caixão. No caminho, tropeça e quase derruba o féretro. Para os espectadores é um prenúncio de desgraça. E comentam que os irmãos Dagobé estão na realidade realizando o pior dos planos: usar o homem como carregador e no cemitério dar cabo dele.

    No entanto, este é outro conto a lidar com anticlímax. Enterrado Damastor, seus irmãos agradecem a atenção dos acompanhantes, mostram compreensão em relação a Liojorge e reconhecem que o falecido, em vida, era mesmo muito ruim. Comunicam que estão de mudança para a cidade, o que indica evolução.

    O conto é uma alusão irônica: “Viviam em estreita desunião…” É a imaginação popular versus o real: Liojorge vai sofrer a vingança dos três irmãos mais novos. Todos acreditam nisso. Vitória da justiça: matara em legítima defesa. Damastor que era mau e perverso. Merecia morrer. “Damastor, o grande pior.” Alegria dos três irmãos remanescentes, em fim livres do grande pior.

    Enredo

    O conto inicia com durante o velório de “Damastor Dagobé, o mais velho dos quatro irmãos, absolutamente facínoras. (…) Todos preferiam ficar perto do defunto, todos temiam mais ou menos os três vivos. Demos, os Dagobés, gente que não prestava.” Damastor era tido como o “grande pior, o cabeça, ferrabrás e mestre, que botara na obrigação da ruim fama os mais moços – ‘os meninos’, segundo seu rude dizer.” Os outros irmãos eram Derval, Doricão e Dismundo.

    Damastor fora morto em legítima defesa por Liojorge, homem pacato e honesto, que fora ameaçado pelo Dagobé. Após o fato, tudo indicava, e todos acreditavam, que os irmãos vivos buscariam imediatamente a vingança. Entretanto, eles iniciam os preparativos para o enterro do irmão. O narrador acentua este sentimento: “Sangue por sangue; mas, por uma noite, umas horas, enquanto honravam o falecido, podiam suspender as armas, no falso fiar. Depois do cemitério, sim, pegavam o Liojorge, com ele terminavam.”

    Durante o velório, os irmãos confabulavam em voz baixa. Neste momento chega a informação de que Liojorge gostaria de ir até o velório para provar que seu ato não fora desleal. O narrador expõe a surpresa da notícia: “Viesse: pular da frigideira para as brasas. E em fato até de arrepios – o quanto se sabia – que, presente o matador, torna a botar sangue o matado.” Os irmãos não se opõem a esta ideia.

    Após o velório, Liojorge chega e se propõe a carregar o caixão. O narrador nos estimula a idéia de que os irmãos acabariam por se vingar: “E, agora, já se sabia: baixado o caixão na cova, à queima-bucha o matavam.” Damastor é enterrado. Entretanto, Doricão fala a Liojorge: “Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso irmão é que era um diabo de danado…” Ele ainda agradece a presença de todos antes de dizer o que a família faria: “A gente, vamos’embora, morar em cidade grande…

    O CAVALO QUE BEBIA CERVEJA – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    Narrado em primeira pessoa Reivalino, um homem do meio rural e tem como tema o mistério, a não aceitação daquilo que é diferente.

    Com esse conto, Guimarães Rosa enfoca os horrores e a desagregação trazidos pela guerra, mostrando que o sertão se torna também lugar de homens refugiados, perseguidos e sós.

    Reivalino Belarmino conta a história do esquisito italiano Giovânio, ex-combatente de guerra, que vivia isolado numa chácara com seus cães, entre os quais se destaca Mussolino.

    O narrador, seu empregado, sente aversão por este homem de estranhos hábitos. Além de não tomar banho, vive fungando e sempre pede cerveja “para o cavalo”. Mesmo quando a mãe adoece, e o patrão lhe dá dinheiro para as despesas, inclusive para o funeral, Reivalino, o narrador, não supera a repugnância que sente.

    Um dia, uns estrangeiros chegam à cidade buscando informações sobre o homem. O narrador é chamado pelo subdelegado, Seu Priscílio, para contar o que sabe sobre ele. Nesse ínterim, o patrão chama-o para conhecer sua casa: não há móveis, cheira a local fechado; Reivalino pressente “bafo de presença”. Em seguida surgem comentários de um “cavaleiro saído da porteira de uma chácara”.

    De novo interrogado pelos estrangeiros, inclusive um do Consulado, Reivalino, sentindo-se enganado, conta-lhes tudo. O subdelegado vai até a chácara investigar. Quer saber que histórias seriam aquelas de um cavalo beber cerveja? Giovânio enche a gamela com a bebida. O animal bebe tudo. Seu Priscilo retira-se. Informado por nova suspeita de Reivelino, que assegura-lhe: Alguma outra razão devia de haver, nos quartos da casa, seu Priscilio retorna à chácara. Lá, não encontra nada fora do normal, apenas um cavalo empalhado dentro de um quarto trancado.

    Reivelino deixa de ser informante e começa a se sensibilizar com a condição do patrão. Giovânio chama o rapaz para comunicar-lhe a morte do irmão, mutilado de guerra. Após o enterro, Reivalino, comovido e envergonhado, despede-se do patrão, pois partirá da cidade. Giovânio convida-o para beberem cerveja juntos. Bebem na companhia de Mussolino e do cavalo.

    Ao morrer, Giovânio deixa a chácara para Reivalino, que ajeita a propriedade a e vende. Antes, bebe todas as cervejas que restam, em memória do amigo.

    FATALIDADE – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    Conto narrado em primeira pessoa (testemunha), cujos personagens são: Meu Amigo, delegado filósofo, que já foi de tudo na vida, e Zé Centeralfe, caboclo perseguido por um valentão que lhe quer roubar a esposa.

    Os recursos de linguagem utilizados são barbarismos e elipses (“adonde” barbarismo popular).

    O conto contrapõe o poder da autoridade ao poder do homem comum, submetido às leis e tematiza, em última instância, a violência arbitrária existente no sertão. Esta, por sua vez, justifica o título, pois assume um caráter de fatalidade. Portanto, a fatalidade (a morte) é o tema do conto, sem associação com o cômico, mas com o místico.

    Trata-se da história de Zé Centeralfe, que vive acochado, pois sua esposa desonrosamente está sendo cortejada por um facínora, Herculinão. O casal, para evitar problemas, mudou-se do Pai-do-Padre para Amparo. Mas o bandido segue-os. Mudam-se então para a cidade, onde deveria haver lei, ordem, segurança, mas continuam sendo seguidos. É por isso que o pobre homem vai pedir ajuda ao delegado, chamado pelo narrador de Meu Amigo, figura que cita intensamente os filósofos gregos. A intenção é obter o apoio da justiça dos homens. No entanto, Zé Centeralfe é induzido a outro tipo de moral. Aparentemente, é a justiça pelas próprias mãos, pois o delegado convence Centeralfe, apenas com o olhar, a pegar as armas. Assim que saem, encontram Herculinão, que é assassinado com um tiro no peito (coração) e outro na cabeça (mente).

    Em Fatalidade, aprende-se a viver, não debaixo da lei do determinismo de um destino alheio e estranho aos reclamos do coração, mas sob a graça da liberdade de transformar a inexorabilidade de uma sentença fatal na maleabilidade de uma disposição vital capaz de não desperdiçar a ocasião oportuna de reespiritar-se.

    DARANDINHA – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    Darandina é narrado em primeira pessoa, por uma testemunha do episódio, um plantonista de um hospício.

    É um conto que se situa entre o anedótico e o satírico. Seu título não é explicado pelo autor. Os dicionários passaram a incluir “darandina” em suas edições mais recentes – talvez devido exatamente ao emprego desse termo por Guimarães Rosa – com o sentido de atrapalhação, confusão.

    Darandina é um dos 21 contos, narrativas curtas, integrantes da obra Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, onde a estória coloca, como O Alienista, de Machado de Assis, a questão das fronteiras entre a normalidade e a loucura: ou estão todos loucos, caso em que ninguém é louco?

    Este é um dos poucos contos urbanos da obra. Claramente, sua temática é a loucura: uma pessoa comum que, por isso, consegue realizar uma façanha que espanta a todos os viventes e espectadores de um dia comum: escala, sem dificuldade alguma, uma palmeira e se instala no seu topo, resistindo a todas as tentativas que se fizeram para arrancá-la de lá. As consequências desse fato inusitado são as mais diversas, mas o principal é que se chega à conclusão de que faltam conceitos para explicá-lo.

    Sua maluca subida, além de fazer lembrar Ismália, do simbolista Alphonsus de Guimarães, mostra uma confusão que a personagem faz entre plano denotativo (sair do chão, ao pé da letra) e plano conotativo (sair do chão no sentido de buscar a transcendência).

    Em meio ao impasse produzido pela cena nova e deslumbrante (o homem no topo da palmeira brilha e fere como o sol ao meio-dia), o narrador expõe suas dúvidas, desconfiando que o mundo se deixa abalar não tanto por conteúdos renovados, mas pela maneira como estes conteúdos se estruturam na sua apresentação.

    Outro aspecto interessante é o que acontece no chão. Além do absurdo que é os especialistas discutirem a rotulação da insanidade do sujeito, sem solucionarem o problema, chama também a atenção a cidade inteira acompanhar o espetáculo do rapaz. Tudo isso autoriza o seguinte questionamento: quem é louco?

    O incrível é que o louco consegue um equilíbrio espantoso no alto da palmeira (outra diferença entre os planos denotativo e conotativo), tornando-se, portanto, um excesso humano. Isso é que explica a profundidade de sentido de suas frases, como “Viver é impossível!”.

    Infelizmente, recobra de súbito a sanidade e passa a ter medo da queda. De fato, chegar tão longe do comum do chão assusta – é o mesmo medo que sentiu o narrador de A Terceira Margem do Rio e Sionésio, de Substância. É conduzido para baixo pelos bombeiros. A população fica irritada com o fim do espetáculo. O ex-louco, talvez por segurança, tem (ou simula) outro surto, devolvendo alegria à cidade, que volta, alimentada, para o seu cotidiano.

    A ação desenvolve-se em região urbana não especificada: uma praça vizinha de hospício. Não é cidade muito pequena, pois nela há Secretário de Finanças e um Corpo de Bombeiros equipado com maiores recursos.

    Como ocorre nos demais contos, há um acontecimento-núcleo, do qual se originam os desdobramentos relacionados. No caso, como já citado, um doido com boa aparência abriga-se no alto de uma palmeira, fugindo da perseguição após pequeno furto que ele praticou. Em torno desse fato, comentários, providências, discussões, discursos… tendo a loucura como pano de fundo. O leitor se vê diante de um protagonista doente mental que profere frases desconexas, aparentemente filosóficas e proféticas, capazes de levar a multidão de ouvintes ao delírio triunfante, a ponto de tratar o insano como herói. O que parecia trágico termina cômico. É o tragicômico.

    Enredo

    A manhã era clara. O narrador, já em horário de serviço, estava junto ao portão do prédio de uma instituição destinada a tratar de doenças mentais, onde trabalhava, provavelmente como médico. De repente, alguém gritou e o narrador, embora de relance, percebeu que um senhor distinto que passava por ali furtou a caneta-tinteiro da lapela do paletó de outro transeunte e saiu correndo, perseguido. Apesar de vestido socialmente, não tirou os sapatos para se refugiar no alto de uma palmeira da praça, na qual havia subido com rapidez.

    Sem demora, formou-se, em volta da árvore, uma pequena multidão de curiosos que faziam comentários ou ameças. O narrador julgou tratar-se de um camelô importuno que queria vender canetas. Adalgiso, colega de serviço – a dupla estava de plantão – puxou-o pelo braço e lá se foram os dois, passando no meio do ajuntamento formado ao pé da árvore. As pessoas supunham que o tal homem fosse um doido que fugira e, por isso, facilitavam a passagem dos dois plantonistas, identificados assim pelo avental que usavam. Adalgiso comentou baixo que o fugitivo não devia ser um louco, pois tinha aparência de normal.

    Lá de cima o homem discursava. Afirmava que não era demente, mas percebia que estava quase sendo tomado pela insanidade ao ver a humanidade enlouquecida. Por isso, resolveu internar-se num hospício, no qual estaria protegido quando a humanidade piorasse.
    O narrador viu no tal homem a confirmação da teoria do professor Dartanhã: 40% das pessoas são loucos reconhecidos e grande parte das demais poderia receber o mesmo diagnóstico.

    Adalgiso cochichou que o colega deles, Sandoval, reconheceu o homem da palmeira: era o Secretário das Finanças Públicas. Ia chamar as autoridades para decidirem o que fazer.

    Enquanto não aparecia ninguém que tomasse providências, o tal falso louco se equilibrava muito bem e falava como um doido de verdade, que ele não era gente, que ele era uma ilusão.

    Chegou o diretor do hospício, acompanhado de policiais, de médicos, do Sandoval, do capelão, de enfermeiros e padioleiros, trazendo camisa-de-força. O diretor e o professor Dartanhã não se davam. Então, começaram a discutir: o primeiro acreditava na normalidade do homem da palmeira, dizendo que se tratava do Secretário; o outro aplicava-lhe um diagnóstico de paciente mental.

    De novo o tal homem bradou e a multidão o ouviu em silêncio: “Viver é impossível.” O narrador teve simpatia intelectual por ele. Veio do diretor a idéia de chamar os bombeiros. Enquanto nada se fazia, as vaias dirigidas ao homem da palmeira se fizeram ouvir, quando espalharam sua identidade de pessoa importante. Achavam que não passava de um demagogo. Nesse instante, ele deixou cair um dos sapatos. Dr. Bilôlo exclamou que o homem era um gênio. O povo começou a aplaudi-lo. O outro sapato também foi largado. Mais aplausos.

    Vieram os bombeiros e começaram a armar uma escada. Lá do alto da palmeira ouviu-se: O feio está ficando coisa… Nada de cavalo-de-pau! Querem comer-me ainda verde? Pára!… Só morto me arriam, me apeiam! Se vierem, me vou, eu… Eu me vomito daqui!… Diante do murmúrio das pessoas lá de baixo, replicou: Cão que ladra, não é mudo… Prendeu-se à árvore só pelos joelhos e deu a impressão de que ia cair. A multidão pediu: Não! Os bombeiros interromperam as manobras com a escada. O homem parou de balançar-se.
    Apareceram o Chefe-de-Polícia e o Chefe-de-Gabinete do Secretário. Este olhou para o alto da palmeira com binóculo e disse que não estava reconhecendo o Secretário. O diretor, ansioso por popularidade, tomou o alto-falante dos bombeiros e tentou resolver a situação. Disse: Excelência… Excelência… Mas a multidão o vaiou. Então, passou o megafone para o narrador e foi ditando o que ele deveria falar, palavas que convencessem o homem a se entregar, mas ele resistiu, não aceitou.

    Um impasse estava criado. Parecia não haver solução. Naquele momento, para surpresa geral, apareceu o verdadeiro Secretário das Finanças. De cima do carro dos bombeiros, dirigiu-se ao público e manifestou sua indignação ante o que ele suspeitava ser calúnia, jogo de adversários para destruí-lo. O outro gritou: Vi a Quimera! e começou a tirar a roupa. Jogava peça por peça sobre a multidão, até ficar nu, mostrando um corpo muito branco em contraste com a folhagem verde da palmeira, em pleno meio-dia de sol e calor. Escândalo e algazarra no meio do povo, raiva por parte das autoridades.

    Os bombeiros foram novamente acionados. O pessoal da imprensa, fotógrafos e filmadores documentavam tudo. Como reação, para não ser capturado, o homem subiu até o ponto mais alto da árvore e gritou: Minha natureza não pode dar saltos? Achou-se que iria saltar ou cair. A escada avançava, recuava, ajustava-se ao salvamento.

    A essa altura, surgiu um grupo de estudantes barulhentos com a intenção de resgatar aquele que eles supunham ser colega deles. No meio da balbúrdia, o Secretário tentou contê-los. Teve relativo sucesso, mas acabou indo para a casa de mansinho, sem ninguém perceber.

    O professor Dartanhã, reconciliado com o diretor, explicava para os que lhe estavam ao redor que o infeliz era doente mental. Dr. Bilôlo o considerava um primitivo, no nível dos índios.

    O diretor resolveu tentar convencer o desastrado fugitivo de perto. Para tanto, acompanhado do narrador, os dois foram subindo pela escada dos bombeiros. O outro os ouvia, mas gritou: Socorro! Os espectadores lá de baixo estavam enfurecidos com o pobre coitado. O narrador notou que ele merecia piedade porque, de repente, veio-lhe a lucidez. Saiu do delírio em que estivera, entrou em pânico, tomado pela aerofobia e pelo medo da multidão que queria linchá-lo. Conseguiu alcançar a escada manobrada pelos bombeiros. Então, voltando-se para o povo, exclamou, talvez novamente enlouquecido: Viva a luta! Viva a liberdade! As pessoas aglomeradas, em vez de vaiá-lo como vinham fazendo, passavam a aplaudi-lo. Receberam-no festivamente e o carregaram vitorioso.

    Os médicos e funcionários do hospício comentavam que tinham acabado de assistir a um caso inédito e sem explicação. Só Adalgiso muito sério, nada falou foi para a cidade comer camarões.

    A TERCEIRA MARGEM DO RIO – CONTO DE PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    A terceira margem do rio, da obra Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, é narrado em primeira pessoa e é o mais famoso e o mais aberto conto do autor. Existe no conto uma intertextualidade bíblica com Noé.

    Tempo

    Neste conto o tempo cronológico é de um longo período, toda a vida do narrador. Mas a intensidade com que as impressões e o amadurecimento do narrador são trabalhados dão enfoque ao tempo psicológico.

    Espaço

    O espaço é delimitado pela presença concreta do rio, caracterizando a paisagem rural de sempre. Desse espaço, como foi comentado anteriormente, emanam magia e transcendentalismo aos olhos do leitor, no ir e vir do rio e da vida.

    Personagens

    Os personagens são: filho (narrador-personagem), pai (“virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia”), mãe, irmã, irmão, tio (irmão da mãe), mestre, Padre, dois soldados e jornalistas.

    Esses personagens, sem nomes, acabam se caracterizando como tipos sociais, por suas funções na história. A observação desse aspecto já mostra, no pai, a tendência ao isolamento. Sempre fora a mãe a responsável pelo comando prático da família. O pai, sempre quieto. O filho e narrador não foi aceito na infância para companheiro do pai no seu desafio. Na maturidade, quando tem a oportunidade, acha não estar preparado para ir rumo ao desconhecido, ao “inominável”.

    Recursos de estilo

    • Toda essa estranha história vem vazada no já comentado estilo típico de Guimarães Rosa. A oralidade é reproduzida na fala do narrador: Do que eu mesmo em alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem ralhava no diário com a gente.

    • As frases, curtas e coordenadas, independentes, garantem um ritmo lento e pausado à leitura: Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá concordando.

    • A sintaxe é recriada de maneira inusitada, provocando estranhezas durante a leitura: “não fez a alguma recomendação“, “nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele“.

    • A repetição também é um recurso expressivo comum ao autor, como no caso: e o rio-rio-rio, o rio sempre fazendo perpétuo.

    • Neologismos também estão presentes (“diluso”, talvez variante de diluto, diluído; ou “bubuiasse”) ao lado de termos regionais como “trouxa”, no sentido de comida e roupas, típico no falar dos boiadeiros; além de outras palavras pouco comuns: encalcou, entestou etc.

    • As figuras de linguagem reforçam o lado poético do conto como exemplificam a gradação “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”, a antítese “perto e longe de sua família dele”, além do próprio caráter metafórico do rio.

    Sem dúvida, todos esses recursos geram dificuldade ao leitor que desafia a obra rosiana. Mas, uma vez enfrentados, eles permitem o acesso ao mundo do “encantatório”, ao mundo do desconhecido, da terceira margem, que só poderia ser recriado por uma linguagem também recriada e nova, capaz de refletir todo o deslumbramento desse universo.

    A temática deste conto é a loucura.

    Desde o título, o leitor já depara com o insólito da obra rosiana: o que vem a ser a terceira margem do rio? A expressão provoca o entendimento a fim de despertá-lo para o mundo do inconsciente, do abstrato. A terceira margem é aquilo que não se vê, que não se toca, que não se conhece.

    O pai, ao ir à procura da terceira margem do rio, busca o desconhecido dentro de si mesmo; o isolamento é a única maneira encontrada para procurar entender os mistérios da alma, o incompreensível da vida. A estranha história do homem que abandona sua família para viver em uma canoa e nunca mais sair dela é o argumento exemplar usado pelo autor para discorrer sobre o medo do desconhecido.

    O rio sempre teve destaque na imaginação do autor:

    […] amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: a eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar a eternidade. (Guimarães Rosa)

    Um aspecto interessante a ser notado é que o narrador, quando criança, queria embarcar com o pai. Este o impediu. Adulto, intui o porquê da busca do pai e, chegando-se à margem do rio, diz que quer substituí-lo. É o único momento em que o velho se manifesta, indo em direção à margem. No entanto, o narrador fica com medo da imagem do pai, que parecia vir do outro mundo. Foge. Por isso, torna-se a única personagem fracassada, pois não foi capaz de transcender, de realizar seu salto.

    Resumo do conto

    A terceira margem do rio conta a história de um homem que evade de toda e qualquer convivência com a família e com a sociedade, preferindo a completa solidão do rio, lugar em que, dentro de uma canoa, rema “rio abaixo, rio a fora, rio a dentro”.

    Por contradizer os padrões normais de comportamento, ele é tido como um desequilibrado.

    O narrador-personagem é seu filho e relata todas as tentativa da família, parentes, vizinhos e conhecidos de estabelecer algum tipo de comunicação com o solitário remador. Contudo o pai recusa qualquer contato.

    A família, inicialmente aturdida com a atitude inusitada do pai, vai-se acostumando com seu abandono. Com o tempo, mudam-se da fazenda onde residiam; a irmã casa-se e vai embora, levando a mãe; o irmão também se muda para outra cidade. Somente o narrador permanece.

    Sua vida torna-se reclusa e sem sentido, a não ser pelo desejo obstinado de entender os motivos da ausência do pai: “Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio-pondo perpétuo.”

    Um dia, dirige-se ao rio, grita pelo pai e propõe tomar o seu lugar na canoa. Mediante a concordância dele, o filho foge, apavorado, desistindo da ideia: “E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão. (…) Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado.”

    O narrador-personagem nos dá a conhecer um ser humano cujos ideais de vida divergem dos padrões aceitos como normais. Trata-se do pai do narrador, o qual com sua atitude obstinada, ao mesmo tempo, afronta e perturba seus familiares e conhecidos, que se veem obrigados a questionar as razões de seu isolamento e alienação.

    O único a persistir na busca de entendimento da opção do pai é o narrador, que não descuida dele e chega a desejar substituí-lo. A escolha do isolamento no rio instiga permanentemente o filho. Este é levado a questionar o próprio existir humano.

    QUESTIONÁRIO

    GRANDE SERRÃO, VEREDAS

    1. Explique a epifania (revelação súbita) em Grande Sertão, Veredas.
    2. O que é o sertão?
    3. Há um conflito hamletiano (em Riobaldo), explique.
    4. Explique a linguagem em Guimarães Rosa.
    5. Explique o amor em Riobaldo (por Otacília, Diadorim e Nhorinhá).
    6. Riobaldo fez um pacto com o diabo?
    7. Por que o tempo passado na obra tem poder corrosivo?
    8. Há três planos em Grande Sertão, Veredas, estes aparecem na personagem Riobaldo, quais são?
    9. Qual a traição na obra?
    10. Explique a guerra entre jagunços e a Lei.

    SAGARANA

    1. Qual a metáfora do burrinho pedrês?
    2. Relate os contos em que os animais se transformam em heróis e questionam o saber humano.
    3. Guimarães é místicos, destaque essa características nos seus contos. (Observe os contos que apresentam feitiçaria, superstição e outros)
    4. Todo mundo tem a sua hora e vez de ser importante, de ser alguém, de que forma isso ocorre no conto Burrinho Pedrês e a Hora e a Vez de Augusto Matraga?
    5. Em Burrinho Pedrês o que significa Sete-de-ouros?
    6. Como Badu e Francolim se Salvaram?
    7. No conto A Volta do Marido Pródigo não há julgamento moral para os atos de Lalino, por quê?
    8. Em Sarapalha, a malária é comparada a mulher infiel, por quê?
    9. Quais as temáticas de Sarapalha?
    10. Relate os contos que aparece a temática do valentão, explique como ocorre.
    11. Explique como é apresentada a temática sobre o destino nos contos Duelo e Minha Gente.
    12. Quais as temáticas do conto Minha Gente?
    13. Explique a reza de São Marcos.
    14. Em São Marcos, de que forma o narrador joga com o leitor?
    15. Explique as temáticas do conto conversa de bois.
    16. Explique as temáticas do conto A Hora e a Vez de Augusto Matraga.

    MANUELZÃO E MIGUILIM

    1. Explique as temáticas da obra Miguilim (Campo Geral).
    2. De que forma ocorre o crescimento em Miguilim?
    3. O que significa a doença de Miguilim?
    4. Explique a traição da mãe de Miguilim.
    5. Comente o relacionamento entre Miguilim e o seu pai.
    6. O que significa a miopia de Miguilim?
    7. Explique as temáticas da obra Manuelzão (Uma Estória de Amor).
    8. Compare Manuelzão com Bentinho (Dom Casmurro) de Machado de Assis).

    PRIMEIRAS ESTÓRIAS

    1. Destaque e explique as temáticas dos contos de Primeiras Estórias.

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