Obras de Érico Veríssimo

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    A SONATA

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    A história que vou contar não tem a rigor um princípio, um meio e um fim. O Tempo é um rio sem nascentes a correr incessantemente para a eternidade, mas bem se pode dar que em inesperados trechos de seu curso o nosso barco se afaste da correnteza, derivando para algum braço morto feito de antigas águas ficadas, e só Deus sabe o que então nos poderá acontecer. No entanto, para facilitar a narrativa, vamos supor que tudo tenha começado naquela tarde de abril.

    Era o primeiro ano da Guerra e eu evitava ler os jornais ou dar ouvidos às pessoas que falavam em combates, bombardeios e movimentos de tropas.

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    “Os alemães romperão facilmente a linha Maginot” assegurou-me um dia o desconhecido que se sentara a meu lado num banco de praça. “Em poucas semanas estarão senhores de Paris.” Sacudi a cabeça e repliquei: “Impossível. Paris não é uma cidade do espaço, mas do tempo. É um estado de alma e como tal inacessível às Panzerdivisionen.” O homem lançou-me um olhar enviesado, misto de estranheza e alarma. Ora, estou habituado a ser olhado desse modo. Um lunático! É o que murmuram de mim os inquilinos da casa de cômodos onde tenho um quarto alugado, com direito à mesa parca e ao banheiro coletivo.

    E é natural que pensem assim. Sou um sujeito um tanto esquisito, um tímido, um solitário que às vezes passa horas inteiras a conversar consigo mesmo em voz alta. “Bicho-de-concha!” — já disseram de mim. Sim, mas a essa apagada ostra não resta nem o consolo de ter produzido em sua solidão alguma pérola rara, a não ser… Mas não devo antecipar nem julgar.

    Homem de necessidades modestas, o que ganho, dando lições de piano a domicílio, basta para o meu sustento e ainda me permite comprar discos de gramofone e ir de vez em quando a concertos. Quase todas as noites, depois de vaguear sozinho pelas ruas, recolho-me ao quarto, ponho a eletrola a funcionar e, estendido na cama, cerro os olhos e fico a escutar os últimos quartetos de Beethoven, tentando descobrir o que teria querido dizer o velho com esta ou aquela frase.

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    Tenho no quarto um piano no qual costumo tocar as minhas próprias composições, que nunca tive a coragem nem a necessidade de mostrar a ninguém. Disse um poeta que

    Entre a ideia
    E a realidade
    Entre o movimento
    E o ato
    Cai a Sombra.

    Pois entre essa Sombra e a mal entrevista claridade duma esperança vivia eu, aparentemente sem outra ambição que a de manter a paz e a solitude.

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    No Inverno, na Primavera e no Verão sinto-me como que exilado, só encontrando o meu clima nativo, o meu reino e o meu nicho no Outono — a estação que envolve as pessoas e as coisas numa surdina lilás. É como se Deus armasse e iluminasse o palco do mundo especialmente para seus mistérios prediletos, de modo que a qualquer minuto um milagre pode acontecer.

    Naquele dia de abril andava eu pelas ruas numa espécie de sonambulismo, com a impressão de que o Outono era uma opala dentro da qual estava embutida a minha cidade com as suas gentes, casas, ruas, parques e monumentos, bem como esses navios de vidrilhos coloridos que os presidiários constroem pacientemente, pedacinho a pedacinho, dentro de garrafas. Veio-me então o desejo de compor uma sonata para a tarde.

    Comecei com um andantino serenamente melancólico e brinquei com ele durante duas quadras, com a atenção dividida entre a música e o mundo. De súbito as mãos sardentas dum de meus alunos puseram-se a tocar escalas dentro de meu crânio com uma violência atroz, e lá se foi o andantino…

    Fiquei a pensar contrariado nas lições que tinha de dar no dia seguinte. Ah! A monotonia dos exercícios, a obtusidade da maioria dos discípulos, a incompreensão e a impertinência dos pais! Devo confessar que não gostava da minha profissão e que, se não a abandonava, era porque não saberia fazer outra coisa para ganhar a vida, pois repugnava-me a idéia de tocar músicas vulgares nessas casas públicas onde se dança, come e bebe à noite.

    Quando o andantino me voltou à mente, fiquei a seguir suas notas como quem observa crianças a brincarem de roda num jardim. De repente, um ruído medonho e rechinante trincou de cima a baixo o vidro de meu devaneio, ao mesmo tempo que alguém me puxava violentamente para trás. Ora, não tenho nenhum instinto de conservação. Dizem que Shelley também era assim. Talvez seja uma pretensão absurda estar eu aqui a comparar-me com o poeta. Mas a verdade é que não tenho.

    Levei um bom par de segundos para compreender que quase ficara debaixo das rodas dum ônibus, e que um transeunte desconhecido me salvara a vida. Balbuciei um agradecimento para o homem que ainda me segurava o braço, mas o que me impressionava mesmo no momento era a expressão de fúria do chofer que gritava: “Não enxerga, animal?”

    Como era possível alguém encolerizar-se e dizer grosserias numa tarde de Outono? O ônibus retomou a marcha. O meu salvador perdeu-se na multidão.

    Percebi então que estava à frente do edifício da Biblioteca Pública. O casarão pardo e severo tinha um ar tão convidativo e protetor que, sem saber exatamente por que, resolvi entrar. Atravessei o saguão de mármore, penetrei na sala de leitura e aproximei-me do funcionário a quem hoje chamo Confúcio por motivos que em breve ficarão suficientemente claros. Éramos já velhos conhecidos, pois eu costumava ir com alguma frequência à Biblioteca.

    O homem ergueu os olhos e perguntou: “Que deseja o amigo?” A minha indecisão tomou a forma dum sorriso. Podia pedir um livro de poemas ou algum ensaio sobre Mozart; no entanto, surpreendi-me a dizer:
    — Quero ver uns jornais velhos.
    — Que jornais?
    Mencionei o nome do mais antigo matutino da cidade.
    — E as datas?
    — 1912.
    Era o ano de meu nascimento.

    O funcionário afastou-se, tornou pouco depois com dois grandes volumes encadernados debaixo do braço e depô-los sobre a mesa junto da qual eu me sentara. Comecei a folhear distraidamente os jornais, achando um sabor nostálgico nos anúncios de cinema e teatro, nas notícias da coluna social e principalmente nas apagadas reproduções de fotografias em que homens e mulheres apareciam com as roupas da época. No exemplar cuja data correspondia exatamente à daquele dia de abril, encontrei na página dos “Precisa-se” um anúncio que me chamou a atenção:

    PROFESSOR DE PIANO. Precisa-se dum professor de piano, pessoa de bons costumes, para lecionar moça de família já com quatro anos de estudo. Tratar à Rua do Salgueiro n° 25 (é uma casa antiga, com um anjo triste no jardim).

    Não pude deixar de sorrir. O funcionário aproximou-se.
    — Que foi que o amigo descobriu de tão interessante? Mostrei-lhe o anúncio. Ele acavalou os óculos no nariz, inclinou-se sobre a mesa e leu.
    — Escute… — murmurei. — Há vinte e oito anos numa casa da Rua do Salgueiro uma mocinha esperava o seu professor de piano. Será que ele apareceu? Qual teria sido o destino dessa moça?
    O funcionário encolheu os ombros.
    — Decerto engordou, envelheceu, ficou avó… Ou morreu.
    — Não seja tão pessimista. Imagine outra coisa: o tempo não passou e a mocinha ainda lá está esperando…
    — Imagine então que eu nasci na China há muitos séculos e me chamo Confúcio.
    — E por que não?

    O funcionário soltou uma risada, mas em surdina, como convinha ao lugar e à hora. Apanhei o chapéu e saí. As frases do anúncio soavam-me na cabeça como a melodia pueril duma caixinha de música. Descobri que a Rua do Salgueiro, aonde cheguei ao cair da tarde, tinha agora o nome dum caudilho de três revoluções e ficava num desses distritos assolados pelo último plano de urbanização. As vivendas antigas haviam sido derrubadas para dar lugar a modernos prédios de apartamentos. Não avistei nenhum salgueiro nem nada que pudesse sequer sugerir a possibilidade da sobrevivência duma casa como a do anúncio.

    Saí a caminhar lentamente ao ritmo de meus pensamentos, de novo concentrado no andantino. A trovoada do tráfego havia-se amortecido de tal forma, que já agora não passava dum zumbido distante. Os lampiões estavam apagados ao longo das calçadas inexplicavelmente desertas. Eu não ouvia mais nem o ruído de meus próprios passos: era como se caminhasse pisando em paina.

    A rua estava tocada duma névoa leitosa de cambiantes arroxeados, que parecia deformar todas as imagens, e eu tinha a impressão de estar no fundo do oceano como um escafandrista desmemoriado que já não sabe mais por que desceu às profundezas.

    Quando dei acordo de mim, estava parado diante dum velho portão de ferro em cujo frontão se via uma placa com o número 25. Espiei por entre suas grades e avistei, no fundo dum jardim apertado entre duas enormes casas de apartamentos, uma vivenda colonial de fachada caiada e janelas azuis. A poucos passos da sua porta central, debaixo duma paineira florida, cismava um anjo de bronze, sentado numa pedra na atitude do Penseur de Rodin. O anjo triste!

    Veio-me então um contentamento indescritível, uma espécie de orgulho por verificar que ainda havia no mundo alguém que prezava o passado e resistia à tentação do lucro, recusando-se a vender aquela propriedade aos insaciáveis construtores de arranha-céus. Abri o portão, atravessei o jardim crepuscular, acariciei a cabeça azinhavrada do anjo, aproximei-me da porta e bati. Meu coração pulsava um pouco descompassado. Por que fazia eu aquilo? Com que direito? Com que propósito? Que dizer se alguém viesse abrir a porta?

    Tomado dum repentino temor, ia fazer meia volta e fugir quando a porta se abriu e na penumbra dum corredor divisei um vulto de mulher. Uma voz neutra chegou-me aos ouvidos:
    — Que é que o senhor deseja?
    A resposta que me ocorreu na confusão do momento pareceu-me então insensata, mas sei agora que era a mais certa, a mais natural, a única.
    — É aqui que estão precisando dum professor de piano ?
    Houve da parte da mulher uma breve hesitação.
    — É aqui mesmo. Tenha a bondade de entrar, que vou avisar a patroa.

    Fez-me passar para uma sala alumiada pela luz dum lampião em cuja esfera de vidro branco e fosco estava pintada uma borboleta amarela entre dois ramilhetes de flores. Olhei em torno: uma dessas salas de visitas muito em voga na última década no século passado, com sua mobília de jacarandá lavrado e estofo cor de vinho, o sofá e as cadeiras com rodinhas nos pés. Negrejava a um canto o piano, em cima do qual se alinhavam bibelôs sobre guardanapos de croché. Viam-se pelas paredes quadros com retratos de gente de antanho.

    Aquecia aquela atmosfera uma intimidade tão acolhedora, uma tal sugestão de aconchego humano, que pela primeira vez em toda a minha vida me senti completamente de acordo com um ambiente. Fiquei tão absorto na fruição daquele lugar e daquele momento, que nem dei pela entrada da dona da casa.
    — Boa noite — disse ela. — O senhor então é professor de piano?

    A sua voz, como a sua fisionomia, era uma curiosa combinação de doçura e determinação. Apertei a mão que me estendia. Ela me indicou uma cadeira. Sentei-me e só então notei que tinha diante de mim uma dama grisalha vestida exatamente como minha mãe naquele retrato, tirado em princípios de 1913, que lá está no meu álbum de família: blusa branca de gola alta e rendada, cintura muito fina, saia escura e afunilada, com a barra quase a tocar o soalho. O seu penteado lembrava-me o das figuras femininas do desenhista Gibson que apareciam nas ilustrações das revistas de minha infância.

    — Como se chama o senhor?
    Disse-lhe o meu nome.
    — Que idade tem?
    — Vinte e oito anos.
    — Só? Esperava um mestre mais idoso…
    — Se a senhora prefere que eu envelheça — sorri — posso ir embora e voltar daqui a vinte anos…

    Ela soltou uma sonora risada e eu temi que as suas vibrações quebrassem o sortilégio.
    Sim, porque eu sentia que algo de maravilhoso me estava acontecendo, eu não compreendia por que nem como. Só sabia que tinha encontrado um lar, um abrigo.

    O rosto da dona da casa de novo se fez sério.— Vou ser-lhe muito sincera, como é meu hábito. Sou viúva, vivo sozinha neste casarão com minha filha e estou em completo desacordo com certas liberdades da vida moderna. O senhor já leu a respeito dos despautérios dessas tais sufragistas?

    Sacudi a cabeça afirmativamente.
    — Pois para mim — prosseguiu ela — a mulher foi feita para o lar e não para votar e andar vestida como os homens. Minha filha é uma moça educada à maneira antiga. É por essa razão que procuro para ela um professor respeitável e respeitador. Por falar nisso, o senhor traz algum atestado ou carta de recomendação?
    — Aqui comigo, não. Mas se faz questão, posso trazer outro dia.
    — Traga. Agora vamos a outro assunto. Qual é o seu preço?
    — A senhora diga. . .
    — Pagávamos vinte por mês para o último professor. Vinha duas vezes por semana.
    — Pois vinte fica muito bem.
    — Quando pode começar?
    — Vamos ver… — murmurei, tirando do bolso a caneta e o caderno de notas.
    — Que dia é amanhã?
    — Vinte e nove.
    — De abril?
    — Claro.
    Senti o coração desfalecer quando perguntei:
    — De que ano?
    A dama franziu a testa.
    — Ora essa! Será que não sabe que já estamos em 1912?
    — Desculpe. Sou um pouco distraído.
    — Pois não aprecio nada as pessoas distraídas. E, se permite uma observação de caráter pessoal, não gosto do jeito extravagante como o senhor se traja. O caráter dum homem revela-se na maneira como ele anda vestido.

    Por alguns instantes os seus olhos escuros fitaram-me com uma intensidade não de todo destituída de simpatia.
    — Bem. A sua fisionomia inspira-me confiança. Depois, não se trata de casamento. Se eu achar que o senhor não serve, hei de dizer-lhe com franqueza. Mas vamos ver que horas e dias tem livres.
    Fiquei a examinar o meu horário, sem entretanto compreender o que ele dizia, pois os seus nomes, dias e horas falavam dum mundo e dum tempo que eu não amava e que já agora para mim estavam mortos e quase esquecidos. Como a indecisão se prolongasse, a dona da casa socorreu-me com uma sugestão. Não podia eu dar as lições às terças e quintas, das cinco às seis da tarde?

    — Perfeito! — exclamei automaticamente.

    Houve um curto silêncio ao cabo do qual ela gritou: “Adriana!”
    Adriana entrou na sala toda vestida de branco. Teria quando muito vinte anos e parecia-se — senti logo! — com a misteriosa imagem de mulher que costumava visitar os meus sonhos, e cujo rosto eu jamais conseguira ver com clareza.

    A presença dessa estranha aparição fazia-se sentir ora corporificada numa branca silhueta feminina, ora na forma duma melodia que em vão eu tentava capturar. Em mais dum sonho andei a perseguir aquele fantasma através de montanhas, prados, florestas e águas. Agora ele ali estava diante de mim, ao alcance de minha mão.

    A luz do lampião batia em cheio no rosto de Adriana. E quando ela me mirou com seus olhos dum verde úmido de alga, o escafandrista finalmente compreendeu por que havia descido às profundezas do mar.
    E a alegria do descobrimento transformou-se em música em meu espírito. Era uma frase larga, clara e impetuosa como um voo de pássaro ou como uma frecha de prata lançada contra a lua. Essa melodia acompanhou-me quando deixei a casa do anjo triste e atravessei o jardim murmurando: “O que aconteceu é impossível, portanto não preciso dar explicações a ninguém nem a mim mesmo. Basta que eu acredite. E eu acredito, ó meu Deus, como acredito!”

    Num doce estonteamento saí a caminhar pelas ruas. A noite havia caído por completo. Bondes passavam ribombando, automóveis com pupilas de fogo rodavam sobre o asfalto, vitrinas lançavam sobre as calçadas cheias de transeuntes sua lívida luz fluorescente, e eu caminhava por entre aquelas criaturas, ruídos e clarões carregando meu sonho com o trêmulo e assustado cuidado de quem leva nas mãos um cristal raro e frágil, que ao menor toque se pode partir. Apressei o passo e refugiei-me no quarto, para melhor proteger as minhas lembranças contra a brutalidade da noite metropolitana.

    Sentei-me ao piano e comecei a desenvolver o tema sugerido pela presença de Adriana. Esqueci o abismo, a sombra, o tempo e o mundo. O dia começava a clarear quando terminei de transportar para a pauta o primeiro movimento duma sonata.

    Atirei-me na cama tão extenuado, que dormi imediatamente. Quando despertei, o sol estava já no zênite. Vieram-me à mente os acontecimentos do dia anterior e eu disse para mim mesmo. “Foi tudo um sonho.”

    Mas não! Encontrei sobre o peito o papel pautado com o primeiro movimento da sonata. Saltei da cama e apanhei o caderno de notas, abri-o e li: “Terças e quintas, lições para Adriana, Rua do Salgueiro, 25. Das 5 às 6”. Hoje é terça! — descobri com alegria. Barbeei-me com uma pressa nervosa, vesti-me e saí.

    Na escada encontrei a senhoria, que me censurou: “Os outros inquilinos estão furiosos. O senhor passou a noite inteirinha batendo no piano. Isso não se faz”.

    “Isso não se faz”, repeti automaticamente. Quando cheguei à calçada, uma dúvida angustiava-me. E se eu não encontrasse mais a casa do anjo triste? O meu primeiro impulso foi o de correr para a Rua do Salgueiro. Contive-me: era melhor esperar a hora da primeira lição.

    Naquela tarde dei as outras lições com a atenção vaga. Pouco antes das cinco, sem a menor explicação deixei uma aluna em meio dum estudo de Chopin e encaminhei-me para a Rua do Salgueiro. Quando avistei os dois arranha-céus que flanqueavam o jardim da casa do anjo, afrouxei o passo. A rua estava deserta e as lâmpadas ainda apagadas. Uma bruma dourada algodoava o ar, amortecendo todos os sons. Abri o velho portão, entrei, atravessei o jardim, sorri para o anjo e bati à porta. A criada fez-me entrar. Um relógio no fundo da casa começou a dar as horas. Adriana esperava-me de pé junto ao piano.

    Notei que tinha os olhos brilhantes de lágrimas.

    — Andou chorando?

    Fez que sim com um aceno de cabeça e, sentando-se ao piano e batendo distraidamente numa tecla e noutra, balbuciou:

    — Estive lendo a história do naufrágio.
    — Que naufrágio?
    Fitou em mim o olhos surpresos.
    — Então não sabe, não leu? O do Titanic…
    — Ah!

    A catástrofe do Titanic, ocorrida no ano em que nasci, havia de me deixar profundamente emocionado quando, dez anos mais tarde, a vi descrita numa revista ilustrada com todos os seus pormenores dramáticos.
    — Bom… — murmurei. — Agora toque alguma coisa para que eu avalie o seu adiantamento.

    Adriana pôs-se a tocar uma sonatina de Scarlatti com algumas hesitações, mas com muito sentimento. Enquanto ela tocava, pude observar-lhe melhor as feições. Não me parece possível retratar com palavras um rosto de mulher. O que importa não é o seu formato, a cor dos olhos, o desenho da boca e do nariz ou o tom da pele. É, antes, uma certa qualidade interior que ilumina a face, animando-a e tornando-a distinta de todas as outras, e essa qualidade raramente ou nunca se deixa prender até mesmo pela câmara fotográfica.

    Existem artistas hábeis ou apenas afortunados que, ao pintarem um retrato de mulher, conseguem uma vez que outra fixar na tela essa luminosidade insituável que à primeira vista parece vir do olhar, mas que no entanto, continuará a dar lustro à face mesmo que lhe vendemos os olhos. Pois um resplendor como esse envolvia a pessoa inteira de Adriana. Sua presença era quente, fácil e amiga.

    — Muito bem — disse eu, quando ela terminou de tocar a sonatina. — Já vi que gosta de música. Tocou com alma.

    — O senhor acha mesmo? Que bom! Eu adoro a música. A mamãe até me prometeu comprar um gramofone desses de discos, o senhor sabe? Não os de cilindros…

    Contei-lhe que era compositor e estava escrevendo uma sonata.

    — Ah! Toque então para mim.
    — Ainda não está pronta. Só o primeiro movimento.
    Naquele instante, a mãe de Adriana surgiu à porta. Assumi um ar grave de professor e disse:
    — Bom. Vamos agora tocar umas escalas.

    Minha vida, então, mudou por completo. Eu passava as horas a esperar com ansiedade o momento de estar com Adriana naquela sala vespertina. Jamais contei a quem quer que fosse o meu segredo. A ostra agora fechava-se mais que nunca na concha, ciosa de sua pérola.

    Havia, entretanto, momentos em que eu temia não o mundo, mas o lógico que mora dentro de cada um de nós e que a qualquer minuto poderia pedir explicações sobre o que me estava acontecendo. E toda a vez que esse censor ameaçava fazer a temida pergunta, eu subornava-o: “Preciso acreditar naquilo, senão estarei perdido para sempre.”

    Madrugadas houve em que andei à-toa pelas ruas com um desejo quase insuportável de ir olhar a casa do anjo triste. Uma voz secreta, porém, aconselhava-me: “Não vás. Se fores, podes descobrir que tudo não passa duma ilusão.” E não ia. Mas nos dias de lição lá estava eu a cruzar alvoroçado o jardim antigo, a acariciar a cabeça do anjo, a bater na porta e a entrar na sala, no mundo e no tempo de Adriana.

    Uma doce intimidade se foi formando entre nós, um entendimento que não dependia de palavras nem de pontos de referência no tempo ou no espaço.

    Quando a mãe não estava presente, Adriana descrevia-me cenas e impressões de sua infância passada naquela mesma casa. Contou-me da noite em que entrara o Século e ela fora pela mão do pai ver a Grande Exposição. Ah! Nunca mais esquecera o carrossel, os palhaços, os jogos, a sala dos espelhos e acima de tudo os fogos de artifício, que romperam exatamente ao soar da última badalada da meia-noite, acompanhados do rebimbar dos sinos de todas as igrejas da cidade!

    Adriana quis saber onde estava eu naquela grande noite.

    — No mar — respondi, sem saber ao certo por quê. E ela sorriu, aparentemente satisfeita com a resposta.

    Às vezes quem falava mais era eu, surpreendido e encantado que estava por encontrar alguém que se interessasse pela minha pessoa e pela minha vida. Esvaziei assim o peito de muitos cuidados e segredos. Coisas que eu trazia fechadas a sete chaves no recesso de meu ser, vieram à tona e transformaram-se em palavras.

    Como as nossas conversas se prolongassem numa surdina suspeita, mais duma vez a mãe de Adriana apareceu à porta para perguntar por que o senhor professor havia interrompido a lição. Tivemos, então, de inventar um estratagema que muito nos divertia. Adriana tocava seus exercícios e nós conversávamos protegidos por essa cortina de música.

    Mas como eram vazias e tristes as horas que eu passava longe dela! A única coisa que possuía o dom de me devolver quase inteira a presença de Adriana era a sonata, a cujo desenvolvimento me entreguei com paixão durante todo aquele mês de maio em que fui perdendo um por um os alunos, graças às minhas impontualidades e distrações.

    O segundo movimento, um scherzo, veio-me fácil à imaginação e com a mesma espontaneidade levei-o para a pauta. Entrei depois no terceiro, um molto agitato, que compus num dia de fins de maio em que o Inverno mandara no vento o seu primeiro recado. Eu temia a chegada do frio, pois uma misteriosa intuição me dizia que os ventos de julho poderiam impelir meu barco para fora do braço morto, devolvendo-o à correnteza do Tempo e afastando-me para sempre da criatura que eu amava.

    Uma tardinha, mal entrei na casa do anjo, Adriana veio ao meu encontro sorrindo, com o jornal do dia nas mãos.

    — Veja! — exclamou. — Ontem nasceu uma criança com o seu nome.

    Mostrou-me a coluna social e eu senti um calafrio ao ler nela a participação de meu próprio nascimento.
    — Que destino terá essa criança? — perguntei.
    — Talvez chegue a Presidente da República.
    — Ou não passe jamais dum simples professor de piano…

    Adriana fitou-me com uma tão profunda expressão de ternura, que fiquei conturbado. E para esconder o meu embaraço, gaguejei:— Vamos tocar aquela sarabanda…

    Foi no último dia de maio que levei a sonata pronta à casa do anjo. Toquei-a para Adriana. O primeiro movimento traduzia a minha surpresa e a alegria de encontrá-la. Era, entretanto, um allegro ma non troppo, pois no fundo desse contentamento já se podia entrever o temor que eu tinha de um dia perdê-la. O scherzo pintava com cores vivas não só os momentos felizes que passáramos juntos naquela sala como também cenas da infância de Adriana. Lá estava a menininha de tranças compridas ora a brincar no quarto com suas bonecas, ora a correr no jardim tangendo um arco tricolor. Depois era Adriana a rir um riso assustado diante daquelas sete outras Adrianas deformadas que espelhos côncavos e convexos lhe deparavam na sala mágica da Grande Exposição. Vinha a seguir um molto agitato de curta duração que descrevia o desespero dum homem a caminhar desorientado pelas ruas vazias, em busca dum amor impossível perdido no Tempo. E a sonata terminava com um prolongado adagio repassado dessa tristeza resignada de quem se rende diante do irremediável, sem rancores para com a vida ou as outras criaturas — um movimento lento e nostálgico sugestivo dum rio a correr para o mar, levando consigo a saudade das coisas vistas em suas margens e a certeza de que suas águas jamais tornariam a refletir aquelas imagens queridas.

    Quando terminei de tocar, Adriana balbuciou:— Linda, muito linda.

    — Pois é sua.
    Tirei do bolso a caneta e por baixo do título — Sonata em Ré menor — escrevi: “Para Adriana. Maio de 1912.”
    Ela olhou-me com um jeito triste e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Desejei então ter a confirmação de que ela me amava, queria que ela me dissesse isso com palavras.

    Talvez eu não fosse digno do milagre que me acontecera, pois ansiava por tocar Adriana, tê-la para mim, trazê-la para o meu mundo, para o meu tempo. E se havia no meu desejo aquela urgência tão aflita era porque eu notara no ar lá fora sinais de Inverno: a cabeça do anjo estava gelada quando eu a acariciara aquela tarde ao chegar.

    A certeza de não pertencer àquele lugar e àquela hora — pois eu não passava dum fantasma do futuro — deu-me uma audácia de que nunca antes eu havia sido capaz. Tomei a mão de Adriana nas minhas e exclamei: “Eu te amo, eu te amo, eu te amo!” Ela ergueu-se, puxou bruscamente a mão e voltou o rosto, murmurando: “Mas é impossível!” E com voz trêmula contou-me que estava comprometida e ia casar em julho. Não amava o noivo, isso não! Mas a mãe insistia no casamento e não lhe restava outra alternativa senão obedecer.

    Fiz então algo de insensato, pois devia saber que nenhum gesto meu, nenhuma palavra, nenhum desejo poderia alterar o que já havia acontecido.

    — Mas ninguém pode ser obrigado a casar com quem não ama! — gritei.

    Naquele instante a mãe de Adriana entrou na sala e com uma voz que me deixou gelado, disse:
    — O senhor está cometendo uma indignidade. Traiu a minha confiança e abusou de minha filha. Saia imediatamente desta casa!

    Fora encontrei o primeiro sopro de Inverno e um céu de cinza. As horas que se seguiram foram de desespero. Recolhi-me ao quarto, mas não encontrei consolo na música nem nos livros. Busquei, mas em vão, encontrar sinais palpáveis de que tudo aquilo não fora apenas uma alucinação ou um prolongado sonho. Nada encontrei além das minhas recordações. Deitei-me na cama e chorei como havia muito não chorava.

    No dia seguinte, quando saí a andar de novo pelas ruas, foi com a sensação de estar perdido numa cidade estranha e hostil. Meus passos acabaram conduzindo-me para a Rua do Salgueiro, e eu levava no coração um pressentimento cruel, que não tardei a ver confirmado. Bem no lugar onde estava a casa do anjo triste, erguia-se agora um edifício de apartamentos de vinte andares. Atravessei a rua e entrei num café. Fiz perguntas com ar indiferente ao criado que me serviu. Lembrava-se ele dos prédios primitivos daquela rua?

    — Não senhor — respondeu. — Sou novo aqui. Pergunte ao dono do café, que é um dos moradores mais antigos desta zona. Patrão, este moço quer perguntar-lhe uma coisa…

    O proprietário do café, um homem grisalho com um ar de bondade cansada ou desiludida, aproximou-se. Fiz um sinal na direção da rua.

    — Que fim levou a casa branca colonial que havia lá do outro lado, com um anjo de bronze no jardim?

    O homem lançou-me um olhar intrigado.

    — Quantos anos o senhor tem?

    Disse-lhe a minha idade e ele perguntou:

    — Como é que se pode lembrar dessa casa se ela foi derrubada faz mais de vinte e cinco anos?

    Sacudi os ombros. Uma estranha calma agora me adormentava o espírito. Tudo tinha acabado como devia. O meu barco deixava-se levar pela correnteza do rio e eu não sabia nem queria saber o que me esperava no Grande Oceano. Nada mais importava. Eu passara a viver o adágio da sonata.

    O proprietário do café, entretanto, esperava ainda a resposta.

    — O senhor acredita em milagres? — perguntei. Ele sacudiu negativamente a cabeça e respondeu:
    — Eu, não. E o senhor?

    A minha vida voltou a ser o que fora antes. Aquele Inverno foi longo e sombrio. A lembrança de Adriana vivia comigo e era nela que eu pensava quando compunha minhas peças. Recusava-me ainda a examinar aquele singular episódio de minha vida à luz da razão. Quando menino, li numa antologia o poema do poleá que dissecou de tal forma a mosca azul que acabou destruindo o seu mais belo sonho. Aprendi a lição. Isso, porém, não impediu que num dia de setembro eu tornasse a entrar na Biblioteca Pública, pedisse a Confúcio jornais antigos, de 1912 até 1920, e me pusesse a folheá-los com uma inquieta esperança.

    No número de julho de 1912, encontrei a notícia do casamento de Adriana. Passei os olhos por vários volumes que cobriam cinco anos, sem encontrar a menor referência quer a ela quer ao marido, que o cronista social afirmava ser “um esteio da nossa sociedade”.

    Mas num número de maio de 1917 dei com a participação do nascimento da filha do casal, que recebera em batismo o nome da mãe. E, ao abrir o volume correspondente a 1919, na primeira página do primeiro jornal de janeiro, vi um convite de enterro. Lá estava, entre duas tarjas negras, sob uma cruz, o nome da minha Adriana. Li o endereço da casa mortuária, que nada significava para mim, uma vez que Ela não estava mais lá, e fechei o volume, numa confusão de sentimentos, fiz um sinal amistoso para Confúcio, saí da Biblioteca e entrei num táxi. “Cemitério da Luz”, pedi.

    Eu imaginava para Adriana uma sepultura simples: uma lápide cercada de relva, e sobre a lápide, sentado numa pedra, o anjo triste. No entanto a imaginação burguesa do marido havia-lhe dado um mausoléu pretensioso de mármore esverdeado, com um pórtico grego e uma inscrição latina na base do frontão. Encostei o rosto no vidro da porta do jazigo e, depois que os meus olhos se habituaram à penumbra do interior, pude divisar, em cima dum aparador de mármore, um grande retrato de Adriana. Senti um arrepio. Quando eu andava pelas ruas da cidade naquela inesquecível tarde de abril — refleti — Adriana já estava morta e sepultada. No entanto…

    Não. O melhor era entesourar as doces lembranças e não procurar saber a razão de nada.
    Ouvi uma voz.

    —Alguma conhecida sua?

    Voltei-me e dei com uma mulher muito jovem que me mirava com curiosidade. Estava vestida de verde, trazia uma braçada de junquilhos e o vento agitava-lhe os cabelos bronzeados.
    É alguém que conheci há muito tempo — expliquei.

    Houve um curto silêncio em que fiquei de olhos baixos a fitar a sombra da desconhecida no pavimento de mosaicos da alameda.

    — Pergunto — esclareceu ela — porque esse é o túmulo de minha mãe. Não tive a menor surpresa. Antes de ela pronunciar aquelas palavras, eu já as havia pressentido. Ergui os olhos. A moça parecia-se com a mãe. Não era uma parecença de irmã gêmea, uma semelhança de traços, mas sim uma identidade de clima, de aura, de… Não sei por que estou sempre tentando definir o indefinível. Duma coisa, porém, estou certo: os olhos eram os mesmos no desenho e na cor. Só diferiam na expressão. Nos da Adriana morta havia paz. Nos da Adriana viva, algo que me inquietava.

    — Mas como podia ter conhecido a minha mãe? Ela morreu há quase vinte e dois anos. Nesse tempo o senhor devia ser uma criança…

    De novo baixei o olhar para a sombra.

    — Confesso que menti quando disse que era uma conhecida minha. O que aconteceu mesmo foi que eu ia passando e olhei para dentro do jazigo e…

    — Está bem. Não precisa explicar. Olhar não é nenhum pecado.

    Abriu a porta do mausoléu, voltou-se para mim e perguntou se eu queria entrar. Respondi que não. Ela entrou, depôs as flores sob o retrato, ajoelhou-se ao pé do altar e ficou a orar. Uma voz dizia-me: “Foge, foge enquanto é tempo.”

    No entanto eu permanecia onde estava, como que enfeitiçado. Adriana ergueu-se, saiu do jazigo, fechou a porta e ao voltar-se disse:

    — O senhor ainda está aí? Posso levá-lo para a cidade no meu carro. Vamos!

    Disse esse vamos com uma autoridade que não admitia contestação. Saímos a caminhar lado a lado pela alameda de ciprestes, e eu olhava para as nossas sombras sobre os mosaicos sem saber ao certo que pensar de tudo aquilo. O automóvel era um conversível bege, reluzente de metais cromados. Entrei, sentei-me ao lado de Adriana, e depois que o carro arrancou fiquei a examinar obliquamente o perfil da inesperada companheira.

    Eu estava embaraçado, sem saber que dizer. Não me foi, porém, necessário procurar assunto, pois Adriana não cessou de falar, lançando-me de quando em quando olhares rápidos e incisivos. Como era o meu nome? Onde morava? Que fazia? Músico, hein? Interessante.

    Contou-me que gostava de música, tocava um pouco de piano, tinha uma discoteca fabulosa. Perguntou-me que pensava eu de Stravinsky e de Béla Bartók. Respondi que preferia os primitivos italianos. —Ah! Mas o senhor não acha que os clássicos não satisfazem mais a nossa sensibilidade superexcitada de habitantes do caos?

    — Sou um tanto conservador…

    — Está-se vendo pelas suas roupas — replicou Adriana, soltando uma risada, o que aumentou o meu embaraço e a minha sensação de solitude.

    No entanto confesso que agora não desejava ver-me livre daquela criatura. Fosse como fosse, ela era um prolongamento da Outra.

    — Onde quer ficar? — perguntou, quando nos aproximávamos do centro da cidade.

    —Ah! Já sei. O senhor vai à minha casa. Tomaremos um drink e eu o apresentarei ao meu pai, que é um amor de velho. Quero que toque para mim uma das suas composições. As minhas amigas vão ficar loucas de inveja se eu descobrir um novo gênio musical…

    — Não se iluda. Sou um modesto professor de piano.

    — Quem vai decidir isso sou eu!

    Apeamos diante duma dessas casas modernas, brancos sepulcros cúbicos lisos e frios. Atravessamos um jardim riçado de cactos em meio do qual avistei um velho conhecido: o anjo triste.

    — Está vendo aquela coisa ali? — perguntou Adriana apontando para o anjo.

    — Não tem nada a ver com esta residência funcional. Estava no jardim da casa onde o papai noivou com mamãe. Ora, o velho, que é um sentimentalão, mandou trazer o monstrengo para cá…

    O interior da casa era claro, arejado, colorido e duma limpeza polida e impessoal, sem o menor traço de convívio humano. No canto do vasto living onde ficamos, havia um piano de cauda.
    — Que pena o velho ainda não ter chegado! — lamentou Adriana. — Mas ele não demora…Apontou para o piano:
    — Abanque-se e toque alguma coisa de sua autoria.

    Obedeci. Comecei a tocar a sonata que compusera para a outra Adriana.

    — Espere! — gritou a filha. — Eu conheço isso. Um momento… Saiu da sala e voltou pouco depois trazendo um papel de música amarelo no qual reconheci, comovido, a Sonata em Ré Menor. Lá estavam a dedicatória e a data, na minha própria letra.

    — Esta música foi escrita em 1912 por um admirador de minha mãe. Agora explique-se, seu plagiário!
    Encolhi os ombros.

    — Perdoe-me. Devo ter ouvido essa melodia há muito tempo… e esquecido. Depois ela me voltou à memória e eu pensei que… Bom, essas coisas acontecem…

    — Claro que acontecem.

    Deu-me uma palmadinha tranquilizadora no ombro e ofereceu-me depois um cigarro. Disse-lhe que não fumava. Ela acendeu o seu, tirou uma baforada, olhou-me bem nos olhos e murmurou:

    — Engraçado, quando vi você lá no cemitério tive a impressão de que já o conhecia. Só não me lembro de onde…
    — Pode ser.

    Adriana bateu numa tecla dum modo que me lembrou dolorosamente a Outra. A sua voz perdeu a agressividade e fez-se doce e amiga quando me perguntou:

    — Você acredita em pressentimentos?
    — Sempre.

    Adriana mirou-me com uma expressão enigmática. Depois, pousando a mão no meu braço, como se fosse uma velha amiga, disse:

    — Fique tocando essa sonata enquanto eu vou buscar alguma coisa para a gente beber. Comecei a tocar. Esperei que a primeira frase da sonata tivesse o poder de conjurar a presença da minha Adriana. No entanto, o que ela trazia à minha mente era a imagem duma mulher vestida de verde, com uma braçada de junquilhos, o vento da Primavera a revolver-lhe os cabelos.

    Senti então que agora, mais que nunca, eu corria o risco de perder para sempre o meu sonho. Veio-me um terror quase pânico do futuro.

    Ergui-me, apanhei o chapéu, e saí daquela casa para sempre.

     

     

    NOITE

    A novela “Noite” relata uma trama de mistério, na qual o autor apresenta de maneira detalhada, enriquecido com momentos, lembranças, perturbações psíquicas. Apresentando algumas articulações sobre a condição humana de ser no mundo com os outros e o desamparo constitutivo.

    Ao iniciar a leitura, percebe-se um distúrbio psíquico de uma das personagens, o homem de gris (assim o autor se refere à personagem), quando se vê perdido no anoitecer de verão, na principal rua de sua própria cidade. Cambaleando pela rua sente alguém lhe puxando o braço com violência e gritando se desejava morrer atropelado. Não respondeu ao homem que lhe puxara, somente olhou para o céu e pronunciou o nome de uma mulher que vinha repetindo mentalmente. Tenta lembrar desesperadamente. “Quem sou? Onde estou? Que aconteceu?” Preso a uma amnésia a personagem caminha pela rua.

    “Num gesto maquinal tirou do bolso o lenço e passou-o pelo rosto. Que perfume era aquele?” É um cheiro de perfume de mulher, mas quem será esta mulher? O desconhecido (assim também é citado na novela) não reconhece as próprias roupas e fica a refletir consigo mesmo. Onde teria encontrado-as? Em guarda-roupa ou de um alheio? E a carteira recheada de dinheiro, é sua? Será que ele é um ladrão? A personagem se vê cheio de perguntas que ele nem os transeuntes conseguiam responder.

    O que está acontecendo com ele? Um pesadelo, porém, ao pensar nisso lhe vem uma terrível dor de cabeça, que o traz para a realidade, e o deixa ainda pior com medo, aflição e tenebrosa sensação de estar sendo seguido. Saí andado desesperadamente até encontrar um café-restaurante onde entra sem mesmo saber motivo.

    Sem saber o que pedir, pede água mineral ao garçom.

    Neste instante, alguém se aproxima, era um homúnculo corcunda de baixa estatura e de braços desproporcionalmente longos, mais se parecia com um chimpanzé do que com ser humano. O homúnculo se apresentou dizendo ser um artista. Pintou-o em um papel que cobrou uma fortuna. Aqui começa a estranha amizade desses dois personagens.

    Ao perceber que o Desconhecido tem uma carteira repleta de dinheiro, o Corcunda passou a interessar-se pelo estranho e lhe promete uma grande noite, mesmo sem o Desconhecido dizer-lhe uma palavra. Para essa grande noite, Corcunda chama para acompanhá-los um amigo a quem lhe chama de Mestre, que é um homem de muita inteligência e grande influência entre a alta sociedade, porém, não passa de mais um interessado no dinheiro do Desconhecido. Nesse trecho, percebe-se a amizade por interesse.

    Logo mais, podemos ler o momento que os dois interrogam o estranho sobre a sua identidade, mas ele somente diz não se lembrar de nada. Como não acreditam na hipótese de perda de memória, acham que ele é um criminoso que matou alguém e roubou aquelas roupas e dinheiro. Surgindo assim, a desconfiança.

    Apesar de tudo, a noite começa, sobre o comando do Mestre. Passam por ruas de prostitutas, animam um velório numa rua suburbana, por uma quermesse de uma igreja, até chegarem ao local do compromisso do Mestre, que nada mais é do que um prostíbulo muito discreto para pessoas da alta sociedade onde ele teria indicado para um comendador. Depois disso, passam pelo Pronto Socorro, onde confirmam que houve uma morte de uma mulher por esfaqueamento. Será o Desconhecido culpado pela notícia desse crime recente? Terá ele algum vínculo?

    Em meio a tudo isso, o Desconhecido continua a acompanhá-los mesmo sem dizer nada, e o Corcunda, sempre a pedir descaradamente dinheiro ao estranho que o dava sem perguntar o porquê.

    Após isso, seguem a um cabaré onde conhecem a Ruiva e a Passarinho, duas prostitutas. Corcunda se interessa pela Passarinho, e o Desconhecido fica com a Ruiva. Depois de muita bebida, o estranho desmaia, ao acordar, o cabaré está vazio. Eles saem e se encaminham para a casa das garotas. Ao chegarem, a Ruiva arrasta o Desconhecido para seu quarto, este fica sem ação, mas depois de algum tempo indeciso, mantém relação sexual com ela, com o vago pressentimento de que ela é uma pessoa conhecida.

    O grande momento da novela é quando o Desconhecido acorda e se levanta no outro dia e não se lembra o que aconteceu no dia anterior, mas está recuperado de seu lapso de memória, relembra o dia anterior em que chegou em casa e não encontrou a mulher. Rapidamente sai daquele domicílio e se dirige para a sua casa. Na rua, as pessoas já estão se levantando para se dirigem aos seus serviços.

    No caminho, recorda-se de sua infância, um tanto conturbada com a morte prematura de sua mãe, depois o seu casamento e a noite de lua de mel onde ele fica impotente e só consegue consumar os laços matrimonias com sua mulher depois de um longo tempo ao lado dela. Noites como essa se repetiram por várias vezes. Com isso, ele começa a desconfiar que sua esposa o trai, então, ele a trata violentamente e lhe diz palavras terríveis.

    Ao chegar na porta de sua casa, ele teme entrar, pois sabe que ela não voltou. Pois, como poderia voltar depois de ter sido tão humilhada? Quando ele, finalmente, entra na casa e ouve que alguém caminha no andar de cima, uma alegria o toma, sobe as escadas velozmente. Será que ela voltou?

    A novela “Noite” nos deixa uma grande dúvida neste final. Será que a esposa dele morreu e ele está ouvindo passos? Será que ele a matou e não quer assumir para si mesmo ou ela fugiu e ele não quer aceitar a realidade?

    O romance nos leva a pensar que o Desconhecido inconscientemente utiliza a perda da memória como fuga. Refúgio para algo que ele possa ter feito, mas prefere não se lembrar. Como, por exemplo, assassinado a esposa, ou não aceitar a perda da esposa pela hipótese de que fora traído.

    Esta novela nos deixa várias questões. Tais como, amizades por interesse, a descrença pelo que se desconhece, fuga para não aceitar a realidade. Mas uma coisa pode-se ter certeza, que o autor nos mostra, os fracassados são aqueles que não conseguem assumir seus próprios atos, levando os outros a tirarem conclusões precipitadas.

     

    INCIDENTE EM ANTARES

    Primeira parte: Antares

    A bem dizer, Antares é uma cidadezinha perdida no mapa do Rio Grande do Sul, às margens do rio Uruguai, “na fronteira do Brasil com a Argentina”. Essa cidadezinha será palco, em 1963, numa sexta-feira, de “um drama talvez inédito nos anais da espécie humana” (p. 3).

    A origem de Antares remonta há muitos anos, conforme reza um relato do naturalista francês Gaston Gontran, em seu livro Voyage Pittoresque au Sud du Brésil (1830-1831). Deslumbrado com a beleza do lugar, o naturalista mostra a seu hospedeiro, Francisco Vacariano a estrela Antares. “É um bonito nome para um povoado” (p. 6). E em 1853, quando o povoado é elevado à categoria de vila, Antares substituirá o nome primitivo “Povinho da Caveira”. Para muitos, entretanto, Antares significava “lugar das antas” (p.9).

    Senhor absoluto da cidadezinha até então, Chico Vacariano é ameaçado no seu reinado por Anacleto Campolargo, “criador de gado e homem de posses” (p.10), que passa a disputar com o pioneiro (Chico Vacariano) o domínio daquele feudo. Há lutas de mortes e o ódio se estabelece entre os dois clãs por gerações sucessivas, com atos de violência e atrocidades inimagináveis. A rivalidade entre as duas dinastias durou “quase sete decênios, com períodos de maior ou menos intensidade” (p. 11).

    A década de 20 trouxe para Antares muito progresso, tanto na ordem material como intelectual” (p. 29), e a cidade “até então um município exclusivamente agropastoril, começava auspiciosamente a industrializar-se. O telégrafo, o cinema, os jornais e revistas que vinham de fora, a estrada de ferro e, depois de 1925, o rádio – contribuíram decisivamente para aproximar o mundo de Antares ou vice-versa (p. 29).

     

    A rivalidade, contudo, entre os dois clãs (Vacariano X Campolargo) domina a cidade a política local. Após um período de turbulência e atrocidades engendradas por Xisto Vacariano e Benjamin Campolargo, chega à cidade de Antares, com a missão de estabelecer a paz entre as duas famílias beligerantes, “um membro da prestigiosa família Vargas, de São Borja” (p. 33): era Getúlio Vargas, a essa época, deputado federal. Usando de artimanhas, Getúlio consegue aproximar os dois chefes políticos, ponderando: “Os amigos hão de concordar em que os tempos estão mudando. O mundo se encontra diante da porteira duma nova Era. Essas rivalidades entre maragatos e republicanos serão um dia coisas do passado. Precisamos pacificar definitivamente o Rio Grande para podermos enfrentar, unidos, o que vem por aí…” (p. 35).

    Os dois velhos próceres, agora, apaziguados, serão substituídos por Zózimo Campolargo, casado com D. Quitéria (D. Quita) e Tibério Vacariano, casado com D. Briolanja (D. Lanja). De boa paz e meio indolente, Zózimo “era um homem sem nenhuma vocação para liderança” (p. 38). Dessa forma, a chefia política da cidade acaba sendo assumida por Tibério e D. Quita, “criatura enérgica e inteligente, senhora de razoáveis leituras, e até duma certa astúcia política” (p. 38). D. Quita, pois, diante da indolência do marido, acaba-se tornando a “eminência parda, o poder por trás do trono”. Com o “tratado de paz” entre as duas famílias, engendrado por Getúlio, uma grande amizade é cultivava entre os dois casais.

    Com a ascensão política de Getúlio Vargas, que inaugura o Estado Novo no Brasil, Tibério se estabelece no Rio de Janeiro e vai-se enriquecendo através de negociatas e atividades escusas. “Além de advocacia administrativa, ganhava dinheiro em transações imobiliárias e ocasionalmente no câmbio negro. A Segunda Guerra Mundial proporcionou-lhe oportunidades para bons negócios, uns lícitos, outros ilícitos. Habituara-se a viver à sócios, e para si mesmo. E, como tantos de seus pares, já possuía, num banco de Zurique, uma conta corrente numerada, cada vez mais gorda em dólares” (p. 48).

    Com o fim do Estado Novo e a que da de Getúlio Vargas, incompatibiliza-se com ele e volta para Antares, onde vai consolidando o seu império: atrai para a região uma empresa de óleos comestíveis de Mr. Chang Ling, a qual se alimentava da soja de sua produção: era a “Cia. De Óleos Sol do Pampa, da qual Tibério Vacariano possuía 500 ações que não lhe aviam custado um vintém” (p. 65). Por outro lado, dando vazão aos seus instintos de garanhão constitui outra família, envolvendo-se com a exuberante Cleo, que passa a ser sua “teúda e manteúda”.

    Após as marchas e contramarchas da política nacional, em que tem lugar o governo do Presidente Dutra, Getúlio Vargas retorna triunfante, em 1951, agora “nos braços do povo”. É um período de turbulência política, em que a UDN de Carlos Lacerda combate tenazmente “o pai dos pobres”. O atentado a Lacerda, em 1954, ao que tudo indica comandado por Gregório Fortunato (escudeiro do Presidente) precipita a queda de Getúlio, que tenta resistir: “Daqui só saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte” (p. 80).

    O suicídio, a forma honrosa encontrada pelo Presidente para “sair da vida e entrar na História”, desperta no país profunda comoção popular. Pressionado e abandonado, ao morrer, Getúlio escreveu: “À sanha de meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que desejava”. A sua carta-testamento, redigida em estilo grandiloquente, confere grandeza à sua morte: “Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo na caminhada da eternidade e saio da vida para entrar na História” (p. 90).

    Os acontecimentos políticos são acompanhadas com atenção em Antares: cada vez que a sirena de “A Verdade” (o jornal da cidade, de Lucas Faia) tocava, lá vinha notícia urgente e em primeira mão. Assim é que o povo de Antares vai acompanhando e discutindo (sobretudo a turma da Farmácia Imaculada Conceição) os acontecimentos políticos do cenário nacional: a eleição de JK e a posse tumultuada, o seu governo de prosperidade e progresso (cinquenta anos em cinco), a construção de Brasília, a industrialização do país. É por essa ocasião que morre Zózimo, no Rio, onde fora transportado em busca de cura.

    Candidato da UDN e a parte do PSD dissidente, Jânio Quadros, o candidato de Tibério Vacariano, vence as eleições e renuncia poucos meses depois, levado por “forças terríveis”. Uma decepção para Tibério. A renúncia de Jânio mergulhou o país no caos e na incerteza, pois o Jango, o vice-presidente, de tendência socialista, não era bem visto pelos militares e as forças conservadoras. Tudo foi contornado com o artifício do parlamentarismo, que teria, contudo, vida curta.

    Mergulhado na incerteza, com greves e agitações, com Brizola, fazendo barulho, o governo de João Goulart era um convite ao golpe, – o que não demorou a acontecer: era março de 1964.

    Enquanto isso, Antares era objeto de uma radiografia: o Prof. Martim Francisco Terra e sua equipe escolheram exatamente Antares para realizar a sua “anatomia duma cidade gaúcha de fronteira”. O objetivo da pesquisa como expõe o professor, era “saber que tipo de cidade é Antares, como vive a sul população, qual seu nível econômico, cultural e social, os seus hábitos, gostos, opiniões políticas, crenças religiosas” etc. (p. 128). Publicado em livro, o resultado da pesquisa revelou-se desastroso para a imagem da cidade, que esperava exatamente o contrário: Antares era uma cidade prosaica, com gente desconfiada e preconceituosa, com vícios de alimentação e um enorme problema social ao seu redor – a favela Babilônia, “um arraial de miséria e desesperança” (p. 138)

    Incompatibilizando com a cidade, taxado de comunista, o Prof. Martim passa a ser “personna non grata” na cidade. Mais tarde, será perseguido pela Revolução de 1964 e tem que se exilar do país.

    Ao lado da “anatomia” de Antares, realizada pelos pesquisadores do Prof. Martim (inclusive Xisto, neto do coronel Tibério), as personagens do livro são apresentadas por meio do diário do professor: o coronel Tibério, dono da cidade; D. Quitéria, matriarca dos Campolargos; Vivaldino Brazão, prefeito da cidade; Dr. Quintiliano do Vale, o meritíssimo juiz, o delegado truculento Inocêncio Pigarço; os médicos Dr. Lázaro (da família Vacariano) e Dr. Falkenburg (dos Campolargos); o jornalista Lucas Faia, de “A Verdade”, com o cronista social Scorpio; Pe. Gerôncio, de linha tradicional, e o Pe. Pedro-Paulo, moderno, de linha socialista, taxado de comunista; o promotor Dr. Mirabeau; o fotógrafo de origem checa Yaroslav; o paranóico teuto-brasileiro Egon Sturm, neonazista; o maestro solitário Menandro de Olinda; o Prof. Libindo Olivares, com a sua fama de grande latinista, helenista, matemático e filósofo.

     

    Segunda Parte: o incidente

    Comandada por Geminiano Ramos, uma greve geral paralisa todas as atividades em Antares: reivindicando melhoria salarial, cruzam os braços os operários do Frigorífico Pan-Americano (de Mr. Jefferson Monroe III), da Cia. Franco Brasileira de Lãs (de M. Jean François Duplessis), da Cia. De Óleos Comestíveis Sol do Pampa (de Mr. Chang Ling) e também os encarregados da Usina Termo-elétrica Municipal, deixando a cidade às escuras. Era o dia 11 de dezembro de 1963, uma quarta-feira.

    Nesse mesmo dia, vem a falecer a veneranda matriarca D. Quitéria (enfarte do miocárdio) e mais seis outras pessoas: Dr Cícero Branco (derrame cerebral), advogado das falcatruas do Cel. Tibério e do Prefeito Vivaldino; o anarco-sindicalista José Ruiz, vulgo Barcelona; o “subversivo” João Paz, torturado pelo delegado Inocêncio; o maestro Menandro, que suicidou, cortando os punhos; o bêbado Pudim de Cachaça, envenenado pela mulher; e a prostituta Erotildes, que morreu vitimada pela tuberculose, na ala dos indigentes do Hospital “Salvator Mundi”, do Dr. Lázaro.

    Irredutíveis na sua greve, os operários, com a solidariedade dos coveiros, interditam o cemitério e impedem o enterro, ficando insepultos os sete defuntos. E é aí que acontece o fantástico: os defuntos se erguem dos seus caixões e, após as apresentações, comandados pelo Dr. Cícero, arquitetam um plano, exigindo das autoridades o sepultamento a que tinham direito: “ou nos enterram dentro do prazo máximo de vinte e quatro horas ou nós ficaremos apodrecendo no coreto, o que será para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higiênico, estético… e moral, naturalmente” (p. 250).

    Dispostos em ordem hierárquica, os defuntos descem até o centro da cidade, provocando pânico e horror por onde passavam, e estabelecem o caos em Antares. Como ficara combinado, cada um poderia dispor do tempo como quisesse até ao meio-dia em ponto-horário do ultimato ao Prefeito.

    D. Quitéria, numa visita aos genros e filhas, já exalando o mau cheiro do corpo em decomposição, assiste à discussão e brigas pelo seu espólio; o Dr. Cícero surpreende a esposa em flagrante adultério com um rapazinho louro, e depois dirige-se à casa do prefeito; Barcelona afugenta os policiais e dá uma lição no delegado Inocêncio Pigarço; Menandro toca enfim a “Apassionata” de Beethoven; Erotildes visita a amiga Rosinha que a recebe, na sua humilde, sem nenhum medo (certamente porque não tinha nada a temer…); Pudim de Cachaça vai ao encontro do velho amigo de bebida Alambique, que o recebe também sem medo (é comovente o amor que demonstra pela esposa que o envenenara); Joãozinho Paz inicialmente conversa com o Pe. Pedro-Paulo, na praça, e depois tem um encontro comovente com a esposa grávida (Ritinha).

    Num outro momento, reunido com seus pares, o prefeito busca uma solução para o problema. Até mesmo o Pe. Pedro-Paulo é ouvido na reunião; depois se retira. Após muitas falações, em que o “sábio Prof Libindo tenta explicar o fenômeno como um caso de ‘alucinação coletiva’, as opiniões se divergem: o delegado Inocêncio e o Cel. Tibério propõem uma solução violenta, pela força; os outros tendem para a parlamentação com os mortos – proposta que sai vitoriosa.

    O encontro entre vivos e mortos se dá exatamente ao meio-dia, com a praça apinhada de gente, sob um sol escaldante. Tem lugar, então, um autêntico julgamento dos vivos, em que os mortos, por meio do seu advogado constituído, expõem os podres sobretudo das pessoas gradas da cidade: as falcatruas do Cel. Tibério e do Prefeito; a truculência do delegado Inocêncio; a pederastia e vaidade do Prof. Libindo; a caridade falsa do Dr. Lázaro; a magnanimidade hipócrita do Dr. Quintiliano. AO expor essas mazelas da fina sociedade antarense, o Dr. Cícero arrancava aplausos, sobretudo, dos estudantes que estavam pendurados nas árvores. Tomando a palavra, Barcelona, sem papas na língua, revela casos de adultério de damas insuspeitas e honradas de Antares. O mau cheiro (dos cadáveres em decomposição e, sobretudo, daquela sociedade podre) atrai urubus e, depois, Antares é invadida por ratos que empestam ainda mais a cidade.

    Esse “fenômeno” provoca em Antares uma verdadeira revolução: Dr. Lázaro procura o Pe. Pedro-Paulo para fazer confidências; o Maj. Vivaldino tem que dar explicação à mulher; Dr. Mirabeau se preocupa por ter sido chamado de “fresco” e quer provar o contrário (por sinal, não consegue…); Dr. Quintiliano não consegue dominar mais Valentina, sua esposa, que se revela “pantera acoimada”; o delegado Inocêncio briga com o filho (Mauro), que se manda da cidade; Pe. Gerôncio balança a cabeça, perplexo. Enfim, a cidade de Antares foi sacudida nas suas entranhas com a presença mortos que apodreciam no coreto.

    Conforme prometera a Joãozinho, o Pe. Pedro-Paulo transporta Ritinha para o outro lado do rio Uruguai (Argentina), onde estaria a salvo da truculência do delegado. É nessa oportunidade que fica sabendo do amor do Mendes, secretário subserviente do Prefeito, pela mulher de Joãozinho

    Atacados a pedradas e garrafadas pelos “embuçados da alvorada” (bando de Tranqüilino Almeida), os defuntos se rendem e voltam para os seus esquifes. Por outro lado, comandada por Germiniano, uma assembleia encerra a greve e os mortos são, enfim, enterrados.

    Sepultados os mortos, um vento forte sobra sobre Antares e carrega o mau cheiro que empestava a cidade: aos poucos tudo vai voltado à normalidade e as pessoas vão retomando as suas máscaras. Dessa forma, quando o pessoal da imprensa de Porto Alegre chega a Antares para documentar o fenômeno, o prefeito nega tudo e inventa outra estória: tudo fora um artifício para promover a cidade. Em vão os jornalistas tentam entrevistar outras pessoas. Procurado, o Pe. Pedro-Paulo mostra-lhes a favela miserável da Babilônia.

    Numa reunião convocada pelo Prefeito, o Prof Libindo propõe a “operação borracha”, para desespero do Lucas Faia que escrevera um artigo brilhante sobre o “fenômeno”. Coroada de êxito, a “operação borracha” se encerra com um grande banquete em que a sociedade antarense, apaziguada pelo tempo, repõe as suas velhas máscaras.

    Retornando à cidade com Xisto, o Prof. Martim Francisco é ameaçado e aconselhado pelo velho Cel. Tibério e pelo Prefeito a sair da cidade. Na despedida, acompanhado pelos seus amigos Xisto e Pe. Pedro-Paulo, ele antevê a chegada da revolução de 64 que está na iminência de acontecer.

    Enfim chega março de 1964 e a revolução se instala para ficar e reafirmar os valores da sociedade capitalista, empurrando para longe os anseios socialistas. Cada um vai seguindo o seu destino ou o destino que lhe foi imposto; uns morrem (Cel. Tibério, Pe. Gerôncio); alguns são promovidos (Delegado Inocêncio, o juiz Dr. Quintiliano); o Prefeito Maj. Vivaldino Brazão “entrou num período de hibernação política” e foi cuidar de suas orquídeas; outros foram perseguidos, pelo novo governo (Geminiano, Pe. Pedro-Paulo, Prof. Martim).

    Em suma, a julgar pelas aparências, “Antares é hoje em dia uma comunidade próspera e feliz” (p. 484). Entretanto, uma criança que estava começando a aprender a ler, soletra uma palavra perigosa, pichada no muro: “LIBER— Não terminou: em pânico, o pai arrasta-o e silencia-o com um safanão”.

    O TEMPO E O VENTO

     

    O Tempo e O Vento é a maior obra do escritor Érico Veríssimo. Ela conta a história da família Terra Cambará durante dois séculos, começando nas Missões e seguindo pelo século XX. Sob o ponto de vista desta família passa a história do Rio Grande do Sul e o drama de seu povo, na cidade fictícia de Santa Fé.

     

    O CONTINENTE I

    Intercalada pela história do sítio ao sobrado, na qual morre Florêncio Terra e a filha recém-nascida de Licurgo, durante uma revolta em 1895, que aparecem também os jovens Rodrigo e Toríbio Terra Cambará. Conta-se 150 anos da história do RS até aquele ponto pela vida da família Terra Cambará.

    A primeira parte é A Fonte, já que o que se segue é a história do personagem que se torna a fonte do qual surge toda a família. É a história do mameluco Pedro Missionerio, que nasceu em 1745, morou nos Sete Povos das Missões e adquiriu de um padre (seu padrinho, que o batizou com o nome de um homem que um dia quis matar pela amante antes de se tornar padre) uma adaga que passa pela família. Pedro tinha visões que se realizavam, dizia ser filho da Virgem Maria e sai da Missão três meses após a morte de Sepé Tiaraju .

    A segunda parte é Ana Terra. Ana é a jovem filha de Maneco Terra que ajuda Pedro Missioneiro a se curar após cair ferido, já homem, em seu rancho. Ana Terra se apaixona por Pedro e dele engravida, passando assim a ser desprezada pelo pai e os irmãos, que matam Pedro. Quando o rancho é atacado, seu pai, seu irmão (o outro se mudara e abrira uma venda) e dois escravos são mortos e ela é estuprada, mas sua cunhada e as crianças se salvam disto tudo escondidos. Após enterrar os cadáveres, ela segue para as terras do Coronel Amaral para ajudar na fundação de um povoado chamado Santa Fé. Lá se torna a parteira.

    Um Certo Capitão Rodrigo conta a história de Rodrigo Cambará, um anti-herói que chega ao povoado de Santa Fé e se apaixona por Bibiana, neta de Ana Terra e filha de seu único filho Pedro. Bibiana era disputada pelo jovem Bento Amaral, o que leva Rodrigo e ele a duelarem de arma branca. Rodrigo entalha um P na cara do outro, mas leva um tiro traiçoeiro antes de por a perninha do R. Quando o padre lhe visita para dar a extrema-unção, Rodrigo lhe dá uma figa e começa a melhorar. Rodrigo mais tarde se casa com Bibiana, também apaixonada, apesar de contrariada pelo pai Pedro Terra. Rodrigo abre um negócio com Juvenal Terra, primo de Bibiana e começa a se degenerar, traindo Bibiana, bebendo e jogando. Quando uma das filhas do casal, Anita, morre, Rodrigo está jogando e é avisado do estado da menina, mas demora a ir para casa. Quando o faz, revolta-se em negação, mas finalmente sucumbe ao choro. Redime-se e torna-se melhor que antes, bebendo após isso tudo um único gole, quando nasce sua nova filha, Leonor, que passa a ser companhia de seu primeiro filho Bolívar. Rodrigo vai então para a Guerra dos Farrapos e, ainda durante a guerra, volta para Santa Fé atacar a residência dos Amarais. Ele ama Bibiana mais uma vez e promete voltar, mas cai com um tiro no peito durante um ataque.

     

     

     

    O CONTINENTE II

    A Teiniaguá conta sobre Luzia, Florêncio e Bolívar. Florêncio é o folho de Juvenal e melhor amigo de Bolívar durante a infância. Luzia é a neta de um agiota que se estabelece em Santa Fé. Doente mental, Luzia é sádica, como a teiniaguá, uma lenda gaúcha que conta de uma princesa moura transformada em cobra com cabeça de diamante que gosta de ver outros sofrerem, mas sua beleza atrai todos os homens, incluindo Florêncio e Bolívar. Ela se casa com Bolívar depois que este volta da guerra, muito perturbado. Lentamente eles começam a se afastar dos amigos. Por fim (quase tudo isto observado pelo ponto de vista do médico da cidade, Carl Winter ela demonstra todo sadismo ao continuar em Porto Alegre durante uma visita mesmo estando uma epidemia do cólera acontecendo. Ao voltarem, ambos se trancam no quarto após uma violenta discussão de Luzia com Bibiana. Luzia se sente presa a Santa Fé. Bibiana, que estimulara a união para passar a viver no Sobrado, construído no terreno da casa de seu pai e tomado pelo agiota, sabe como Luzia é má. O doutor, finalmente, fala com Bolívar e este revela que tudo que queria era fugir para uma guerra. Como eles estão de quarentena no Sobrado, obra de vingança do Coronel Bento Amaral por ser Bolívar filho do homem que lhe talhou o rosto, Rodrigo sai atirando do Sobrado contra os homens que lhe prendiam humilhantemente em casa e cai morto, enviuvando Luzia e deixando órfão de pai seu filho Licurgo.

    A Guerra conta a história dos anos finais de Luzia e sua disputa com Bibiana pelo amor de Licurgo enquanto este cresce. Luzia está na época com um tumor no estômago, e a preocupação principal de Bibiana é permanecer no Sobrado. Luzia, ao final, perde a guerra não declarada, pois o que queria era um filho cosmopolita, e Licurgo continua em Santa Fé.

    Ismália conta a história de Licurgo já mais velho trabalhando em Santa Fé com seu melhor amigo, o jornalista Toríbio, pela proclamação da República, tudo enquanto envolvido com o casamento com a prima Alice, filha de Florêncio Terra e a amásia, Ismália . Ismália é uma china (palavra usada até hoje em partes do Rio Grande do Sul que designa uma “mulher da vida”) submissa a Licurgo do qual este gosta e permanece assim pelos anos que seguem e engravida dele. A luta pela República enfim tem sucesso e a rivalidade dos Terra Cambará com os Amaral continua com Alvarino e Licurgo, como antes fora com Bento e Rodrigo.

     

    O RETRATO Dividido em quatro partes, conta a história da família Terra Cambará até 1945, completando junto com o Arquipélago mais 50 anos da história do RS.

    ROSA-DOS-VENTOS conta da chegada de Rodrigo Cambará do RJ logo após a deposição de Getúlio Vargas em 1945, visto apenas sob o ponto de vista dos habitantes da cidade fofocando sobre seu passado e sobre sua atual situação de saúde, política e família, com opiniões variadíssimas. Aparece aqui a explicação para o título do livro: o retrato é uma pintura feita por um pintor de Rodrigo com vinte e quatro anos em que a própria personalidade de Rodrigo, junto com seu passado presente e futuro, parece transpirar.

    Chantecler mostra o jovem Doutor Rodrigo Terra Cambará chegando a Santa Fé em fins de 1909, idealista, pensando em revolucionar a cidade. Sua primeira empreitada é a campanha civilista pelo candidato Rui Barbosa para presidente, pela qual ele funda o jornal A Farpa. Usando “A Farpa” Rodrigo e seus amigos, especialmente o pintor espanhol anarquista Pepe Garcia, que como o Doutor Winter se sente preso misteriosamente à Santa Fé. Pepe trabalha como tipógrafo n’ A Farpa e Rodrigo escreve artigos em favor de Barbosa. Mas Hermes da Fonseca vence a eleição e Rodrigo se desilude com a política. Rodrigo também age com um desprendimento total em relação a dinheiro, presenteando e ajudando muitos, como o jovem Marco a quem ele dá dinheiro para começar uma fábrica, e os vários pobres das favelas de Santa Fé aos quais ele atende gratuitamente, distribuindo comida e alimentos no inverno, apesar da reprovação do anarquista Pepe e de seu positivista amigo, o Tenente Rubim . No plano romântico Rodrigo se enamora de Flora e corteja-a do modo tradicional, muito a contragosto. Sua carne é fraca, no entanto, e ele acaba por se deitar algumas vezes com uma jovem Caré tal qual o pai e outras jovens. Mas ainda assim continua pensando em sua Flora, filha de um arruinado estancieiro, Aderbal Quadros. Também deve se destacar que Santa Fé está toda preocupada com a passagem do cometa Halley, já que diziam que este destruiria a Terra ou envenenaria a todos com sua cauda. O título deste segmento, Chantecler, deve-se ao personagem de uma peça de Rostand que estréia em Paris durante esta época, no qual o personagem principal é um galo imponente que se ilude achando que o sol não nasce sem o seu cantar, tal qual Rodrigo se vê como uma figura capaz de corrigir todos os males de Santa Fé.

    A SOMBRA DO ANJO conta a história de Rodrigo já casado e com dois filhos em 1914-15, numa Santa Fé sem Pepe e com adversários inertes. Rodrigo continua fazendo clínica e morando na cidade, enquanto o pai e o irmão passam a maior parte do tempo no Angico, a fazenda da família. O que move a história é, no plano político, a candidatura ao Senado do Marechal Hermes da Fonseca, seu desafeto, e no plano pessoal a paixão que Rodrigo sente por Toni Weber. A família Weber é uma família de músicos austríacos que chegam a Santa Fé, com quem Rodrigo primeiro não simpatiza por serem da pátria aliada a Alemanha a quem odeia em tempos de guerra. Mas após ouvi-la passa a simpatizar com ela e se apaixona por Toni . Quando estes são roubados por seu empresário, Rodrigo arranja que possam permanecer na cidade, trabalhando no cinema à custa de Rodrigo. Numa das visitas ao Sobrado ele finalmente conquista Toni, que também o ama. Eles passam a se encontrar pouco, mas intensamente na casa dela. Um dia ela vai ao hospital de Rodrigo (ele clinicava lá e o doutor Carbone operava) e conta a ele que está grávida. Rodrigo pensa em aborto, em casa-la, em tudo. Mas nada adianta, pois quando ela está para se casar com um colono, ela se mata. Rodrigo confessa ao irmão e ao padre, que cuidam dele. Quando ele vai para o Angico, tenta disfarçar, mas acaba contando ao pai, que se desaponta com ele. Rodrigo fica então em sua cama, quase enlouquecido, pensando, delirando, com o mal que fizera àquela que ama.

    UMA VELA PARA O NEGRINHO conta já em 1945 sobre os filhos de Rodrigo Cambará reagindo a conjuntura político-familiar do momento. Floriano está a visitar o cemitério e vê a tumba de Toni Weber sem conhecer a história por trás da moça, pensando numa história para escrever. Fala com Pepe no bar, que diz que Rodrigo o traiu e traiu o Retrato. Depois começa a inventariar a família e a pensar no irmão mais novo, o comunista Eduardo. Eduardo está enquanto isto a fazer um discurso comunista na praça a frente do Sobrado enquanto Rodrigo convalesce. Após o discurso Floriano e Eduardo discutem e Rodrigo chama Eduardo para conversar. Floriano vai até o pátio com Maria Valéria, que acende uma vela para o Negrinho do Pastoreio (reza a tradição que ele acha o que foi perdido) para que os Terra Cambará encontrem o que perderam.

     

    O ARQUIPÉLAGO continua coma história da família Terra Cambará com o Dr. Rodrigo. Entrelaçada por Reunião de Família, a história da família se reunindo após a queda de Vargas, com Rodrigo a beira da morte em 1945 continua a história de Rodrigo e Toríbio. Depois de dois infartos e sofrendo de edema pulmonar, Rodrigo passa ao tempo todo acamado, com a amante num hotel da cidade (ela veio do Rio de Janeiro por conta própria), e os filhos desentendidos. Floriano, o intelectual passivo está apaixonado por Sílvia, mulher de seu irmão Jango, um homem simples. Eduardo milita o comunismo e ataca o pai até em praça pública, enquanto Bibi simplesmente se sente deslocada em Santa Fé, com o segundo marido.

    Maria Valéria está cega e Flora mantém um casamento apenas de fachada com Rodrigo. A maioria do tempo vêem-se discussões políticas entre Rodrigo, Tio Bicho (amigo da família e confessor de Floriano), Irmão Zeca (filho bastardo de Toríbio que se tornou irmão marista ), Terêncio Prates (sociólogo formado pela Sorbonne e estancieiro), acabando sempre na figura de Getúlio Vargas que Rodrigo tanto defende. Rodrigo enquanto isto também desobedece às ordens de Dante Camerino, seu médico (ele chegou a ter um encontro com a amante) e Floriano confessa a Tio Bicho o que sente por Rodrigo.

    As anotações (Caderno de Pauta Simples) de seu filho mais velho, o escritor Floriano, também intercalam a história. Elas são um preenchimento de lacunas sobre acontecimentos menores da história; reminiscências de infância e adolescência, onde se lembra como se sentia por Rodrigo, o colégio interno onde era um dos amantes da mulher do diretor (eram ambos pederastas); impressões sobre o dia-a-dia daquela reunião; memórias de quando era professor universitário de Literatura Brasileira em São Francisco, onde reencontra Mandy Patterson, a americana que namorara no RJ e o afastou de Sílvia. E aparece também um germe para o romance que pretende escrever, fechando duzentos anos de história, que é na verdade a história da própria família Terra Cambará, dando caráter autobiográfico ao personagem (ele vai afinal, escrever o livro que agora lemos), começando pela história de Pedro Missioneiro, uma que ele não chegou a conhecer já que Ana Terra nunca revelou.

    Essas duas últimas citações dão caráter autobiográfico a Floriano, já que o autor foi professor de Literatura Brasileira e, bem, escreveu esta história. A primeira parte é O deputado, que conta sobre Rodrigo em 1922, deputado estadual chimango. Mas a desilusão com o partido, que ele e seu pai passam a sofrer, leva-o a renunciar ao cargo com um discurso inflamado na assembléia municipal. Passa então mais uma noitada no Rio e volta para Santa Fé e discute política com os amigos e se prepara psicologicamente com o irmão para a revolução que eles temem que virá. Lenço encarnado conta sobre a revolução de 23 e a participação dos Cambarás. Por causa das fraudes nas eleições estaduais, começas uma luta entre os borgistas (chimangos, situação, inimigos dos Cambarás) e assisistas (maragatos, oposição, derrotados pela fraude, ironicamente com a participação dos ex – inimigos jurados dos Cambarás) A revolução começa em janeiro e as tropas dos maragatos se reúnem, mas só partem com o consentimento e sob o comando de Licurgo quando Alvarino Amaral decide lutar separado. É um sinal das cicatrizes que ficaram da revolução de 95, quando a filha de Licurgo, seu sogro e um agregado morreram.

    A coluna dos Cambará leva Miguel Ruas, o promotor que nem sequer gaúcho era; Liroca, quixotesco; a Cacique Fagundes e Juquinha Macedo, dois chefes tradicionais (o primeiro morre); caboclos pegos no meio do caminho (vários dos quais morrem); Rodrigo, Toríbio e Licurgo. Eles marcham pelo estado, andando mais que lutando, e por estas batalhas caem uns e tomam-se munição e outras coisas. Ruas morre na tomada de Santa Fé e Licurgo numa das últimas batalhas, com Rodrigo ao seu lado gritando por um médico, esquecido que ele mesmo era um. Por todo este tempo as mulheres e crianças ficam no Sobrado, Flora desesperada (este capítulo revela que Flora conhece as escapadas do marido, a de Toni Weber em especial) e Maria Valéria cuidando de tudo. A revolução acaba em outubro, com vários mortos e uma paz que manda que o governador reeleito Borges de Medeiros não o seja mais e outras concessões. Um certo Major Toríbio é a parte que relata sobre os três anos seguintes, as revoltas contra Artur Bernardes , presidente na maioria do tempo em que isto se passa (Washington Luís toma posse mais para o fim).

    Toríbio se junta, contra a vontade de Rodrigo, a Coluna Prestes. Mas ele só é visto mais ao final da história, que se passa a volta de Rodrigo, chocado pela morte da filha (ele leva um ano para se recuperar, ainda assim nem muito) e ainda perturbado com a do pai. Mostra também a partida do quieto Floriano, já com jeito para letras, para estudar em Porto Alegre. Quando finalmente recebe notícias de seu irmão, vindas do já tenente-coronel Rubim, Rodrigo parte para o Rio e Toríbio é liberto da prisão. Chegando ao Sobrado, Toríbio conta de sua experiência com a Coluna Prestes aos mais chegados e como só se salvara de morrer porque um militar cuja vida Rodrigo salvou era o responsável pela execução. Mas foi preso ainda assim. É importante dizer também que, desiludido com a medicina após a morte de Alicinha, Rodrigo vende a farmácia e a Casa de Saúde aos médicos que o ajudavam, Dante Camerino e Carlo Carbone, fecha o consultório e entrega a administração do Angico ao sogro.

    O cavalo e o obelisco é a história da Revolução de 1930, mostrada desde poucos meses antes até poucos dias depois. A medida que a tensão cresce vai mostrando-se a confusão de sentimentos sobre o Getúlio Vargas que Rodrigo desgosta e vem a admirar tanto mais tarde. Como o pai, Rodrigo é obrigado a se aliar com os antigos inimigos (Laco Madruga dessa vez) relutantemente. Floriano, já mais velho, parasitando de modo ainda mais relutante em Rodrigo e sentindo-se mal por isso é obrigado pelo pai. Homem de paz, quando durante a tomada da guarnição federal de Santa Fé o pai é ameaçado de morte por um homem que era amigo, Floriano não o mata em defesa do pai, mesmo depois que este já havia sido alvejado pelo Tenente no ombro. Floriano foge então sendo chamado de covarde pelo pai. O homem, Tenente Bernardo Quaresma, estava acuado no escritório, não tendo sentido a explosão das granadas por estar acompanhado de um cachorro, que depois assombrou Santa Fé. Rodrigo acaba por dar o primeiro dos tiros que mata este Tenente, que era apaixonado pela mulher com quem Rodrigo estava traindo Flora na época, uma poetisa. Rodrigo passa a se atormentar pela morte de Quaresma a partir daquele dia. Depois ele se encontra com Getúlio Vargas na estação, faz um discurso dramático e parte para o Rio de Janeiro.

    Noite de Ano-Bom mostra um único dia: 31/12/1937. Começando com o enterro da mãe de Arão Stein, que se encontra na Guerra Civil na Espanha, financiado por Rodrigo. Eduardo, influenciado por Stein, já principia a militar o comunismo. Floriano se sente um covarde por não ter revelado à Sílvia seus sentimentos, que agora percebe o quanto eram profundos ao vê-la, no dia de seu noivado com Jango. Então se lembra do relacionamento com a americana no RJ que o afastou de Sílvia.

    Já aqui a história se foca mais em Floriano que Rodrigo e mostra o quão corrompida foi a família desde 1930. O noivado realiza-se sob um clima pesado com Rodrigo defendendo, apesar de ainda não ter digerido, o Estado Novo de todos, inclusive seu irmão Toríbio. Escala também o nazi-fascismo em Santa Fé. Corre tudo relativamente bem, exceto pelo desentendimento entre Toríbio e Rodrigo, até que alguém propõem um brinde à Getúlio Vargas e ao Estado Novo. Toríbio se revolta, faz um pequeno escândalo e sai com Floriano para um baile numa das favelas de Santa Fé. Tentando seduzir uma jovem mulata, mete-se numa briga com o outro pretendente. Floriano ainda ataca um de seus inimigos com uma garrafada (gesto que não pode realizar em prol do pai), mas muita tarde. Toríbio é ferido na virilha e se esvai em sangue, chegando morto ao hospital, suas últimas palavras sendo “Um piazinho de merda..”. Do diário de Sílvia vem o preenchimento dos anos seguintes à tragédia, com impressões sobre seus sentimentos em relação a Floriano, quase idênticos aos que este sentia; o casamento infeliz e sem amor com Jango; as dúvidas quanto a sua religiosidade; a correspondência com Floriano; as confidências com e de Arão Stein (de volta da Espanha. Mais tarde expulso do PC, começa a enlouquecer) e Zeca (já usando o nome de Irmão Toríbio). Lembra-se também da infância infeliz e como idolatrava a “gente do Sobrado”, sentindo-se em incesto quando dorme com Jango. E registra as reações em relação à guerra, a volta de Pepe Garcia e o que Floriano lhe escreve dos EUA.

    Encruzilhada, a última parte, tem um título que define a situação em que a família, p país se encontra naquele final de 1945: estão numa encruzilhada da vida. Começa a história com Arão Stein, enlouquecido pela expulsão do PC se matando, enforcado na figueira na praça central de Santa Fé. Em seguida passa-se seu funeral e enterro (Rodrigo não fica sabendo), onde Rodrigo, Zeca e Roque Bandeira discutem mais uma vez. Stein é enterrado sem ter a alma encomendada, como todo suicida. No Sobrado, Floriano se cruza com Sílvia, abraça-a e beija-a, mas ambos se separam e ela foge. Depois ele e Sílvia tem uma conversa séria e ela lhe entrega para ler seu diário. Antes de lê-lo, Floriano tem a conversa definitiva no qual desabafa tudo o que pensava e sentia sobre sua relação com o pai, cortando definitivamente o cordão umbilical que os prendia, reconciliando-se com ele e consigo mesmo. Rodrigo, já liberado por Dante para voltar ao Rio, manda Sônia, sua amante de volta antes e planeja romper com ela.

    Floriano sobe até seu refúgio no sótão e lê o diário de Sílvia, sente-se afinado, inveja Zeca por ter com ela uma intimidade que ele nunca terá e finalmente lê a última frase onde ela revela estar grávida. Rodrigo e Flora ouvem isto e ficam felizes. Rodrigo prepara-se então para voltar ao RJ, mas morre antes. Seu funeral se processa como era de se esperar. Na noite de Ano – Bom acontece a festa tradicional, morre Laco Madruga, vê-se todos os personagens por uma última vez e muito é revelado. Floriano planeja construir as pontes que ligarão sua ilha a este Arquipélago de pessoas. E ao final, enquanto o neto de Alvarino Amaral, admirador do escritor e conterrâneo Floriano Cambará, compõem seu primeiro poema e pensa em se aconselhar com ele, Floriano escreve as primeiras linhas de seu romance que contará a história de sua família: as primeiras palavras de O Tempo e O Vento.

    CLARISSA

     

    Personagens

    Clarissa – adolescente que morava numa fazenda e foi estudar na cidade grande.

    Ondina – a infiel, casada com Barata.

    Amaro – um músico que cortejava Clarissa.

    Tonico – garoto que perdera as duas pernas num acidente, era muito frágil e acaba morrendo.

    Vasco – primo de Clarissa que vive em Jacarecanga.

     

    Enredo

    Clarissa é uma jovem de 13 anos que mora na pensão da tia, enquanto estuda em Porto Alegre. Ela é uma jovem curiosa, descobrindo o mundo, a adolescência e a vida. Não gosta muito de escola, sente saudades da fazenda em sua cidade natal, Jacarecanga e observa as pessoas que moram na pensão da tia e na vizinhança: Ondina, a infiel esposa de Barata; Amaro, o músico triste e contemplativo; o distraído major; a conservadora tia e seu desempregado marido; a família rica que mora ao lado e a viúva com o filho mutilado. Este último, Tonico, perdeu as duas pernas num acidente de bonde e sonha em marchar com exércitos. Frágil, acaba morrendo. Quanto a Amaro, este sempre contempla Clarissa, sua juventude, sua inocência, sua beleza aflorando da menina que vai se tornando moça. Clarissa faz 14 anos (e ganha permissão para usar salto alto) e passa na escola. O livro acaba com Clarissa voltando para Jacarecanga (e encontrar o primo Vasco) enquanto Amaro fica triste na pensão a pensar nela. O primeiro romance de Érico Verissimo, Clarissa apresenta um panorama da vida de uma jovem na Porto Alegre de 1932 e começa a história que se estenderá por seus romances da primeira fase.

     

     

    MÚSICA AO LONGE

    É uma continuação do romance Clarissa. Clarissa tem medo da velhice diante da vida que passa e o seu mistério. As pessoas também vão passando, isto é morrendo. O casarão passa de mãos em mãos, apresenta a história dos Albuquerques, uma família tradicional. Clarissa é professora e quer segurar a sua juventude enquanto pensa também em seus alunos, que amanhã serão homens feitos. Nada é definitivo.
    Os senhores de Jacarecanga, são substituídos, política e socialmente, por um grupo de imigrantes sem passado e sem tradição. O romance narra a decadência lenta e definitiva do antigo patriarcado social rio-grandense, a própria família de Clarissa entra em decadência.

    A vida de Clarissa em Jacarecanga é monótona. Em casa com os seus, as conversas são corriqueiras, falam do dia a dia e sobre até as pessoas que já morreram sem que Clarissa saiba exatamente por que, seus olhos ao menor ruído se erguem de repente e se fixam na porta, como se estivessem esperando a entrada de alguém, talvez Vasco, sua secreta paixão.

    O serão se prolonga. Nada de interessante ou diferente acontece. Clarissa olha para as páginas da revista que tem nas mãos, olha, mas não enxerga. Só folheia à toa. Um ruído… E seus olhos se erguem para a porta. Fecha a revista, levanta-se, pede bênção aos pais, dá boa-noite aos outros e sobe para o quarto, calada, com medo até de pensar.

    No quarto há um luar fresco de setembro, com perfume de madressilva e de junquilhos. Clarissa fecha a porta e vai até a janela, percebe a lua-cheia sobre Jacarecanga. A rua quieta. Uma corneta tocando longe, num quartel. A presença silenciosa das estrelas. Cachorros uivando.Galos cantando. Os pensamento de Clarissa voam, são como músicas ao longe.

     

    UM LUGAR AO SOL

     

    PERSONAGENS

    Vasco Bruno: personagem principal; filho de Zuzu com o italiano Álvaro Bruno, mas criado por João de Deus; rapaz moreno, alto, bonito, com habilidades para o desenho.

    Álvaro Bruno: pai de Vasco, pintor italiano, abandona a família em Jacarecanga e viaja pelo mundo, reaparecendo mais tarde em Porto Alegre.

    Clarissa: moça delicada, tímida, inocente; professora em Jacarecanga e depois em Canoas; filha de João de Deus; apaixonada pelo primo Vasco.

    Fernanda: esposa de Noel e mãe de Anabela; mulher forte, corajosa, otimista, sempre pronta a ajudar os vizinhos; também professora.

    Amaro Terra: bancário desempregado, professor de piano, hóspede da pensão de D. Zina e mais tarde, de D. Docelina [ com quem passa a viver maritalmente]; apaixonado por Clarissa.

    Casanova: cachorro vira-lata adotado por Vasco.

    Delicardense: negrinho recolhido das ruas por Vasco.
    COMENTÁRIOS:

    Em Um Lugar ao Sol, o autor nos leva a vislumbrar a própria dinâmica da existência, além do panorama social ao qual pertence a maioria dos seres humanos.

    Seus personagens são seres complexos que, não obstante o embate diário diante das inúmeras dificuldades encontradas na luta pela sobrevivência, conseguem manter a solidariedade uns com os outros, a paixão pela vida, a ânsia pela liberdade.

    Da maneira magistral, dá-nos a compreender como sentimentos, muitas vezes inconciliáveis, coexistem simultaneamente em cada um de nós. E apesar da condições adversas e até de um certo desespero resultante, a esperança por dias melhores, além de grande amor à vida, parece-nos a única forma de reverter todo um quadro aparentemente já tão cristalizado.

    Além das referências às cidades gaúchas de Jacarecanga, Canoas, Santa Clara e Porto Alegre, outra característica pode ajudar a diferenciar o texto de Um Lugar ao Sol são as repetições exageradas de palavras e expressões.

     

    ENREDO

    Passado em Jacarecanga, interior do RS, e em Porto Alegre, o romance inicia com o velório de João de Deus Albuquerque. Presentes, entre muitos amigos e familiares, um velho calvo e um capitão, além do primo terceiro do falecido. Os três homens discorrem sobre o bárbaro crime. O velho calvo diz ao capitão ter presenciado quando Zé Cabeludo, capanga do prefeito da cidade, atirara em João de Deus naquela mesma tarde, no pátio da Prefeitura. Havia duas testemunhas.

    João de Deus era um homem rude. Filho de Olivério Albuquerque, fazendeiro que no passado tivera muito dinheiro e prestígio, quando o pai faleceu assumiu a fazenda.

    Gostava de domar potros, lidar com os animais e com a terra. Mas fracassou como fazendeiro. Endividou-se. Com a crise da pecuária, João Deus teve enormes prejuízos.

    Todos os bens da família estavam sendo hipotecados. Entrou na política como uma válvula de escape. Tinha inimizade como o prefeito, então, aliou-se ao partido de oposição. Tiveram rixas, ele e o prefeito, até acontecer o trágico crime.

    Quando jovem, João de Deus amara Zuzu, sua prima, mas fora recusado por ela, Zuzu veio casar-se com Álvaro, um italiano.

    Olivério era um bom homem e acolheu o estrangeiro, que aparecera doente na fazenda. Doutor Penaforte, o médico da família, tratou-o. O moço recuperou-se e acabou ficando no casarão. Viera para o Brasil com uma opereta. Era artista, boêmio e aventureiro. Cantava, contava suas aventuras, pintava telas a óleo. Viajara o mundo. Zuzu apaixonou-se por Álvaro. Decidiram-se casar-se. A família foi contra. João de Deus indignou-se, sentiu-se humilhado. Zuzu voltou para a fazenda e pouco depois suicidou-se com cianureto.

    João de Deus odiava Vasco. O menino lembrava os pais e João de Deus não conseguia controlar sua aversão, mesmo sabendo que o garoto não tinha culpa de nada.

    Quando pequeno chamavam-no, a Vasco, de Gato-do-Mato, porque era orgulhoso, selvagem e solitário. Vasco amava a liberdade e odiava as coisas convencionais.

    Odiava ter de voltar para casa, para a cerimônia do velório. Fora criado por João de Deus, que o maltratara muito. Dizia-lhe que quando crescesse seria bêbado como o pai e que a mãe não tinha juízo. João de Deus dava-lhe surras quando criança. Dona Clemência, esposa do falecido, era seca, e embora lhe desse doces às escondidas, nunca lhe fazia carinho. Vasco, então, deitava-se no campo, sozinho, olhava o céu, ouvia o vento… Aprendeu a amar a solidão. Várias vezes tentou fugir. Passava dias sumido. Aos treze anos, tomado de profunda tristeza, tentou suicidar-se. Tomou bicarbonato pensando ser cianureto.

    Vasco sempre sentira desejo de fugir de Jacarecanga; parecia-lhe que ali se afogava na lama. Desejo de fugir para terras que não conhecia: Xangai, Honolulu, Nápoles…
    Agora, caminhava de volta ao casarão. Vasco não sentia rancor por João de Deus.

    Recordava a tragédia: haviam ido jantar em casa de Cleonice, recém-casada, irmã de Dona Clemência. João de Deus, desempregado, endividado e com rixas políticas, Dona Clemência se matando em cima da máquina de costura para sustentar a casa, e Clarisse, com seu salário de professora, também ajudava nas despesas. Jovino, irmão de João de Deus, chegando sempre bêbado.

    Após o jantar, Vasco fora caminhar e, refletindo sobre a situação, perguntava-se se não havia uma saída ao menos para ele e Clarissa, que eram os mais moços. De repente ouviu um tiro. Correu até o local do crime. Encontrou João de Deus já morto.

    A partir daí não atinava em mais nada. Depois veio o velório e a angústia dilacerante.
    Vasco deseja morar em Porto Alegre com a tia e Clarissa. Sonha com um futuro melhor, em sair de Jacarecanga, tão primitiva e monótona. É publicada uma matéria na Gazeta [órgão oficial do partido da situação]. Na entrevista, o prefeito conta ao repórter que João de Deus tinha uma rixa com Zé Cabeludo por causa de uma mulher de vida fácil, estava bêbado e provocara a briga. Vasco, ao ler a notícia mentirosa, quer vingar-se. Vai ao encontro do prefeito para dar-lhe um soco no olho. Ao avistá-lo, golpeia-o, movido por uma raiva cega. Em seguida Vasco é atingido na cabeça com a coronha do revólver do ordenança. Xexé, amigo de Vasco, que estava escondido, vendo-o ferido, dispara contra o prefeito, atingindo-o no braço. A ordenança atira em Xexé, que cai morto.

    Certo dia, D. Clemência recebe uma carta de Vittorio Gamba, comunicando que o prazo para o pagamento da hipoteca da casa havia vencido e teria de entregá-la.

    Decidem partir para Porto Alegre. Partiram Vasco, D. Clemência e Clarissa, que levava uma carta de recomendação do Dr. Penaforte ao Secretário de Educação. Justino não foi.

    Em Porto Alegre hospedaram-se na pensão de Dona Zina, irmã de Dona Clemência. Clarissa havia morado lá , quando fizera o curso normal.

    Amaro, hóspede há cinco anos na pensão, quando soube que Clarissa estava para chegar, relembrou a época em que a menina morava na pensão da tia. Apaixonara-se pela garota naquela época. Contemplava-a de longe. Acabara de completar quarenta anos e sentia-se ainda perturbado com o fato de reencontrá-la. Amaro era um homem demasiadamente tímido. Sonhara ser um grande compositor. Era um amante da música. Mas acabava tornando-se bancário. Estava desempregado. Quando criança, o pai deixava-o com uma tia solteirona e religiosa que odiava sexo e também o mundo. A tia via pecado, sujeira e imoralidade em tudo. Tentou libertar-se da influência da tia mas não conseguiu. Quase não tinha mulheres. Quando saía com uma prostituta, sentia-se culpado.

    Amaro estava com quarenta anos e Clarissa tinha só dezessete. Aos trinta e sete anos corava e gaguejava na presença da menina. Reencontraram-se. Amaro perturbou-se igualmente. Não demorou a sentir ciúmes de Vasco. Vasco torna-se amigo de Oskar, conde austríaco, hóspede da pensão.

    O conde levara uma vida aristocrática, até suas finanças chegarem ao fim. Começou então a dar aulas de línguas. Não se hospedava mais em bons hotéis. Morava agora na modesta pensão de D. Zina. Vasco admira a distinção do amigo e a forma de colocar-se filosoficamente e com certo cinismo nas longas conversas que têm.

    Por meio do conde, Vasco conhece uma linda alemãzinha de olhos azuis e que não fala o português: Anneliese, com a qual mantém um romance. Vasco vai à casa de Anneliese e sente-se inferiorizado diante de tanto luxo; sente-se um brutamontes. Mas os momentos que passam juntos são de intensa felicidade para o rapaz. Está apaixonado. Vasco divide o quarto com Veiga, estudante de medicina e com ideias revolucionárias.

    Certo dia, na hora do almoço, Vasco irrita-se com um dos rapazes, hóspedes na pensão. O rapaz dirigia uma pergunta galante a Clarissa. Inicia-se uma briga. Veiga toma partido de Vasco. Clarissa e D. Clemência levam a carta de recomendação do Dr. Penaforte à Secretaria de Educação. Conhecem Fernanda, também professora e que está grávida. Fernanda cativa-as de imediato. Fernanda casara-se com Noel, rapaz de família rica. Ao casar-se, Noel mudou drasticamente de vida, pois com seu salário de jornalista e o dela de professora, viviam uma vida apertada. Além do que, era obrigado a aturar a sogra: D. Eudóxia, com suas eternas lamúrias, e Pedrinho, o cunhado, garoto pernóstico e ignorante. Morava todos juntos.

    Veiga é procurado pela polícia por incitar uma greve. Surge inesperadamente após um período de ausência. Está em apuros. A polícia procura-o , pegaram-no distribuindo boletins. A greve falhou, está marcado. No quarto, pega um revólver e grita com Vasco: ‘- que é está fazendo que não me ajuda? Tem medo de se comprometer?’ Os dois brigam, agridem-se fisicamente. Vasco larga Veiga, que sai do quarto. À noite, ao retornar à pensão, Veiga é assassinado por dois investigadores. Vasco se sente angustiado pela morte do infeliz amigo.

    Vasco vai ao baile do Cassino encontrar-se com Anneliese. Junta-se a ela, ao conde e sua amiga Inge Merkel. Reencontra um amigo de infância: Olívio, que fora para Porto Alegre estudar e acabara entregando-se ao jogo e à bebida.

    Chegara o mês de abril, Anneliese voltara para a Europa. Vasco sentia-se terrivelmente vazio com sua partida. Agora estava novamente diante da dura realidade. Precisava arranjar um emprego, mas a tendência a vaguear pelas ruas, na tentativa de aplacar o autodesprezo, persistia. E ele saía em busca de alívio, de esquecimento.

    Clarissa consegue sua transferência para Canoas. Vasco, D. Clemência e Clarissa mudaram-se para o andar superior de casa de Fernanda. Vasco estava decidido a encontrar trabalho. Não era justo ser sustentado pelas mulheres. Fernanda, apesar de também ter seus problemas, enchia de otimismo a vida de Clarissa, que a adorava, e de D. Clemência. Noel achava a esposa admirável por sua força, sua coragem, compreensão e bondade. Amava-a muito. Era filho único de pais ricos, mas Fernanda não consentia que os pais dele ajudassem nas despesas, impedindo-o de crescer. Homem sensível em demasia, acostumado a viver num mundo de fantasias que os bons livros e a boa música sempre lhe proporcionaram, não era capaz de adaptar-se à dura realidade em que vivia. Em Fernanda encontrava todo o apoio de que necessitava.

    Vasco andava todos os dias atrás de emprego. Fernanda era solicitada também pelos vizinhos. Dona Magnólia a chamava sempre que tinha problemas com a filha Lu ou quando o marido, Orozimbo, tomado pelo câncer, era acometido por crises de dor. Lu era arrogante e voluntariosa. Namorava Olívio contra a vontade da família. Orozimbo observava-a. Fora parecido com ela quando moço. Vivia na farra. Agora sentia o desprezo da filha e sofria. A doença afastara-o definitivamente daquela vida de bebedeiras e mulheres.

    Amaro mudara-se para uma pensão mais barata. Ainda não conseguira emprego. D. Docelina, uma negra gorda com ar protetor, alugava-lhe o quarto. Tinha um filho pequeno e efeminado que Amaro detestava. Amaro seguia Clarissa às escondidas quando ela pegava o ônibus para Canoas. Nutria por ela um amor platônico.

    Vasco, por intermédio de Noel, consegue vender três desenhos para ‘A Tarde’, onde Noel trabalha. Vai ao Cassino tentar a sorte. Encontra-se com Olívio, que está obcecado, com os olhos fixos na roleta. Ganha uma rodada. Vasco também. Continuam jogando. Ganham novamente. Vasco desiste das apostas e Olívio, dominado pelo jogo, continua, até perder tudo. Vasco, percebendo o grau de dependência do amigo, arrasta-o dali.

    Fernanda vai para a maternidade. Precavida, fizera economias para quando chegasse o momento do parto. Estas não foram suficientes para dar entrada no quarto. Vasco empresta o dinheiro que ganhara no jogo. Nasce Anabela. Vasco e Clarissa são os padrinhos. A pequena Anabela traz felicidade a todos. Noel encontra na filha uma alegria contagiante.

    Certo dia Amaro foi assediado por D. Doce. Ela entrou em seu quarto e agarrou-o. O pobre homem, impotente diante da enorme mulher, acabou cedendo às suas investidas voluptuosas. D. Doce saiu do quarto radiante de felicidade. E Amaro, enojado, só pensava em mudar-se para outro lugar.

    Vasco já não conseguia mais suportar a vergonha que sentia ao encarar D. Clemência e, principalmente, Clarissa, por não conseguir emprego. Arranjara algum dinheiro, que rapidamente se acabara, pintando uns cartazes para a vitrina de uma loja. Evitava a prima o quanto podia. Esquivava-se sempre, tal o constrangimento que sentia.

    Clarissa, n o entanto, sentia-a cada vez mais afeiçoado por Vasco. Um dia escreveu em seu diário que o amava. Fernanda percebeu que a moça estava apaixonada e apoio-a totalmente. Vasco reencontrou casualmente o conde, que se mudara para um bom hotel. Tinha agora uma quantidade razoável de alunos e podia novamente usufruir da vida com todo o requinte. Vasco e Oskar passaram a ver-se todas as noites, durante duas semanas. Iam a restaurantes, bares… O conde sempre filosofando sobre a vida, com seu habitual cinismo. Vasco mais escutava-o do que falava. Certo dia, misteriosamente, o Conde sumiu.

    Amaro, sem mais dinheiro e desempregado, sujeita-se aos apelos amorosos de D. Doce, pois a mulher não lhe cobra mais o aluguel e ainda proporciona-lhe esplêndidas refeições. Sentindo-se corrompido e abjeto [desprezível], assim mesmo continua espionando Clarissa, mas agora sente-a cada vez mais inatingível.

    O inverno chegara e com ele muitos acontecimentos inusitados. Vasco agora tinha um cachorro vira-lata. Chamava-se Casanova e o seguia por toda parte. Por piedade, Vasco também levara para casa um garoto negro que dormia num banco de praça.

    Delicardense, o garoto, passou a morar com a família. Álvaro, pai de Vasco, surpreendeu a todos com sua chegada inesperada. No princípio, D. Clemência se opôs a que permanecesse residindo na casa, mas Fernanda persuadiu-a a deixá-lo ficar.

    Vasco também relutou quanto à permanência de Álvaro na casa, pois a presença do pai desmitificava o pai idealizado. Mas em pouco tempo tornaram-se muito amigos. Passeavam, conversavam e riam muito, juntos.

    Certo dia, apareceu um homem na casa de Fernanda querendo falar com o pai de Pedrinho. D. Eudóxia e Fernanda receberam-no. Modesto Braga, o tal homem, exigia que se efetuasse o casamento entre sua filha Ernestides e Pedrinho, pois o rapaz havia abusado da menina. As duas mulheres ficaram desnorteadas. Sabiam do namoro. Ouviram falar que a moça era da cidade baixa e que o menino frequentava a casa dela. D. Eudóxia alertara o filho sobre o perigo disso, pareceria noivado. Fernanda decidiu que, se fosse verdade, Pedrinho casava.

    Muito cedo, desde que o pai morrera, Fernanda assumira a responsabilidade sobre a família. Sentia-se ‘mãe de todos’, mesmo após casar-se com Noel. Com relação à família, costumava dizer a si mesma que tinha quatro filhos: D. Eudóxia, Pedrinho, Noel e Anabela. Era ela quem tomava todas as decisões.

    Pedrinho e Ernestides acabam casando e vão morar na casa de Fernanda, para infelicidade de Noel e D. Eudóxia. Os pais da rapariga visitam a família, cheios de falsa intimidade. Fernanda compreendeu que o casamento de Pedrinho fora induzido pelos pais da moça. Mas não se deixou abater; ganhara mais uma filha, Ernestides, além dos outros quatro: D. Eudóxia, Pedrinho, Noel e Anabela.

    Seu Honorato Madeira, pai de Noel, foi visitá-los para conhecer a neta. Honorato era um bom homem, mas dominado por uma esposa fria e fútil, que não nascera para a maternidade. O homem apareceu sozinho, disse a Noel que a mãe mandara lembranças e deixou um cheque de 500 mil réis, que Fernanda guardou para a filha.

    Amaro já estava acostumado com a nova condição de amante/marido de Doce, apesar de ainda sentir repugnância pela mulher. Mas o conforto que ela lhe proporcionava: cama quente, pijamas novos, refeições completas… um piano, inclusive, acabaram por prendê-lo. Também já não ia mais ver Clarissa pegar o ônibus.

    Agora tinha plena consciência de que habituara com Doce e a vida que ela lhe oferecia, tal qual um pássaro se habitua à gaiola.

    Noel escrevia um livro sem muito brilho à custa da colaboração da esposa que, não só o estimulava, como praticamente criava todas as situações, personagens, enfim, a própria narrativa. O livro concluído, Fernanda pede a Vasco que desenhe a capa e sugira um título. Vasco desenha a capa do livro de Noel e sugere o título: ‘Um Lugar ao Sol’. Fernanda e Noel estão encantados. O livro é publicado e Vasco consegue emprego na editora. A alegria é geral. Vasco passa a assumir as despesas da casa. Leva a prima todos os dias ao ponto de ônibus, e toma conhecimento por Fernanda, do amor de Clarissa.

    Uma noite, vendo o pai chegar bêbado a casa, Vasco começou a pensar no rumo que sua vida tinha tomado. Lembrou-se de João de Deus, que dizia: ‘Bêbado como o pai.’ E novamente Vasco sentiu desejo de fugir, correr mundo. Delicardense decepcionou a todos, especialmente Vasco, ao fugir de casa depois de ter roubado as economias de Clarissa e objetos da varanda.

    D. Zina, irmã de Dona Clemência, dona da pensão em moraram, e o marido, Seu Couto, em visita à família, contaram que o Conde tentara suicidar-se havia cinco dias.

    Vasco saiu imediatamente rumo ao hospital onde Oskar estava internado. Chegando lá, quis saber do amigo o porquê daquilo. O Conde mostrou-se cínico como sempre. Vasco percebeu sua falsidade, percebeu que jamais conheceria aquele homem misterioso. Foi embora desiludido e triste. Certo dia, Álvaro vai embora, deixando apenas uma frase escrita na parede: ADDIO SON UN VELHO PAZZO [MALUCO].

    Uma noite, estando Vasco e Clarissa a sós, ele se aproxima da prima e eles se entregam a um abraço terno, interrompido pelo olhar de Casanova, que os observa.

    Em seguida, Vasco sai à rua, sem rumo. Sente uma fúria invadindo-o. Lembra-se do pai. Vasco segue ao acaso, com suas lembranças e com Casanova, fiel amigo de todas as horas.

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