O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo

Publicidade
  • O Continente

    Em O Continente é a primeira uma obra que compõe a trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, e foi publicado em 1949. Transita entre o lírico e o épico; entre o intimista e o histórico, e abrange 150 anos da história (1745–1895), traçando a origem da sociedade rio-grandense, marcada pelo controle de uma elite latifundiária e pela violência das guerras fronteiriças e das revoluções fraticidas. Nesse período de 150 anos ocorrem grandes acontecimentos históricos que são internalizados no texto literário, tais como o Tratado de Madri, a Guerra da Cisplatina, a Independência do Brasil, a Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravatura, a proclamação da República e a Revolução Federalista de 1893.

    Publicidade

    A palavra “continente” significa no romance, em primeiro lugar, o território conquistado a ferro e fogo durante os séculos XVIII e XIX. A conquista dá-se simultaneamente por ação privada e por ação estatal. A primeira, iniciada nos Campos de Cima da Serra, e comandada por aventureiros sorocabanos e lagunenses, estende-se rumo ao oeste e ao sul da região, em busca de planícies férteis para o pastoreio. A segunda é mais litorânea, através da imigração açoriana e do estabelecimento de fortificações militares pelo Estado português. Ambas confluem e se unificam, no entanto, em um grande objetivo comum: a tomada da “terra de ninguém” e do gado alçado – vacum e eqüino – que vagava às centenas de milhares pelos campos da Serra e da Campanha. Em segundo lugar, o “continente” significa, no romance, o tempo histórico da conquista e da consolidação do poder dos estancieiros na região, associado à solidificação do núcleo familiar, originando os primeiros clãs dominantes. Aqui, “continente” significa aglutinação, coesão, esforço familiar num sentido comum. Bem diferente de “arquipélago”, que traz a idéia de desintegração, fim do clã, estilhaçamento, isolamento dos indivíduos.

    A obra está inserida no chamado Romance de 30, obras de cunha neo-realista que aliam a descrição denunciante do Realismo às investigações psicológicas das personagens e liberdades linguísticas do narrador, frutos do Modernismo. Assim como O continente, muitas dessas obras são de cunho regionalista.

    A visão global compõe-se de sucessivas visões parciais, ou limitadas no tempo e no espaço, de forma que a obra verdadeiramente é uma aglutinação de novelas, entremeadas de cantos de certo sabor poético, impregnados de elementos folclóricos e referências populares. A sua unidade resulta, primeiramente, do próprio desenrolar histórico dos fatos e situações, tendo a região de Santa Fé como ponto de convergência e irradiação. Esboçam-se, ao mesmo tempo, as origens e a formação da cidade do mesmo nome. Os fatos e situações, por sua vez, visam de maneira particular ao processo de enraizamento, de afirmação do poderio econômico e de mandonismo local, de determinadas famílias: os Amaral e os Terra e Cambará. No caso, o ponto de partida do desenvolvimento da intriga, paralelamente com as visões retrospectivas, é a luta entre federalistas e republicanos, de 1893. De um lado, estão os Amaral, de outro, os Terra e Cambará, cujas rivalidades de famílias encontram evasão nas lutas políticas.

    Publicidade

    Integram a primeira parte, além de outros, os capítulos O Sobrado, Ana Terra e Um Certo Capitão Rodrigo, onde aparecem inúmeras personagens, entre as quais: Pedro Missioneiro, Ana Terra, Pedro Terra, Bibiana, Capitão Rodrigo, Bolívar, Licurgo; vivendo a tragédia da conscientização de uma terra fixada às próprias raízes.

    Uma crônica de sangue pontuada por sucessivas guerras, eis o cenário onde brota a gênese da Província de São Pedro. Ao início de O continente, no episódio de Ana Terra, o espaço físico foi inteiramente destruído após um ataque de castelhanos que massacraram todos os homens válidos da fazenda de Maneco Terra. Sob a imensidão do campo, duas mulheres e duas crianças sepultam os seus mortos. Desses escombros surge a personagem de Ana Terra, armada de uma confiança absurda em si mesma, que se integra na caravana pioneira para fundar, muito distante, a vila de Santa Fé. Com ela segue o filho, que será o pai de Bibiana; e assim fica assegurada a continuidade da vida. A mesma intriga, distribuída por diferentes níveis de temporalidade, repete-se várias vezes na sucessão de gerações de Terras e Cambarás.

    Na personagem Ana Terra se reedita o primeiro dia da criação, a imagem primitiva da fecundação, enquanto antítese da morte. Diz Érico: “Penso nela como uma espécie de sinônimo de mãe, ventre, terra, raiz, verticalidade, permanência, paciência, espera, perseverança, coragem moral.”

    Publicidade

    Há um estranho paradoxo em O continente. Essa epopéia, cuja linha episódica foi traçada no encadeamento dos feitos guerreiros, parece ter sido escrita para reafirmar a insanidade da guerra. Enquanto a seqüência cronológica avança mediante lutas fratricidas entre Cambarás e Amarais, a visão de mundo do autor, sua crença nos valores permanentes da vida, está expressa na saga de Ana Terra e nos silêncios de Bibiana.

    A obra apresenta em sua estrutura textual elementos que não se enquadram nas características do romance histórico tradicional. Lembremos que uma das
    características era de que os romances históricos a exemplo dos procedimentos típicos da escrita da História, organizam-se em observância a uma temporalidade cronológica dos acontecimentos narrados. O continente, porém, rompe essa temporalidade cronológica. Para abranger esse longo período, o escritor lançou
    mão de dois tempos históricos: um que se passa em 3 dias de junho de 1895, durante o cerco ao sobrado dos Terra-Cambará na Revolução Federalista, e outro anterior, que remonta a 1745 e vai avançando cronologicamente até se aproximar de 1895.

    Esse primeiro tempo histórico que se passa em poucos dias e que abre e fecha o romance como uma moldura é dividido em sete episódios intitulados O Sobrado. Esses episódios estão ligados aos episódios do outro tempo histórico, mas ao mesmo tempo são independentes, de forma que se o autor publicasse-os separados não haveria nenhum prejuízo em sua inteligibilidade. O continente utiliza-se de dois tempos históricos que se encontram no final da narrativa.

    Publicidade

    É interessante ainda lembrar a observação feita por Regina Zilberman sobre esse aspecto estrutural do romance: “importante também é a estrutura da obra: o romance abre e fecha com uma moldura, o cerco ao sobrado ao final de junho de 1895, com seu ritmo próprio e independência em relação ao conjunto do texto”(ZILBERMAN, 1998, p. 140). Esses episódios-molduras são estruturados como um diário dentro da obra.

    Observemos um deles:

    O SOBRADO – II
    25 de junho de 1895: Madrugada

    Um grito atravessa o sono de Rodrigo, que acorda sobressaltado. É a mamãe – pensa ele. O coração começa a bater-lhe acelerado. O medo aumenta-lhe a impressão de frio, e ele sente na boca do estômago medo e fome confundirem-se numa mesma sensação de vazio gelado e náusea. Não tem coragem para abrir os olhos porque sabe que o quarto está às escuras. Com o punhal nas mãos e as mãos apertadas entre as pernas , encolhido e meio trêmulo, ele escuta… Deve estar saindo o filho – imagina. Pobre da mamãe!

    Intercalados aos episódios do Sobrado que se passam cronologicamente de 25 a 27 de junho de 1895, estão os episódios A Fonte, Ana Terra, Um Certo Capitão Rodrigo, A Teiniaguá, A guerra eIsmália Caré. Estes episódios são responsáveis pela sequência cronológica do vasto período histórico abordado no romance, desde 1745, no período em que os Sete Povos das Missões ainda pertenciam aos espanhóis e o Brasil ainda ainda era colônia portuguesa até o início da década de 90, do século XIX, período que o Brasil já era republicano. Esses episódios estão ligados uns aos outros mas ao mesmo tempo também são indepedentes. Prova disso foi a publicação em edições separadas dos episódios Ana Terra e Um Certo Capitão Rodrigo. Desse modo, a sequência cronológica linear do tempo é rompida em O continente através da utilização dos dois tempos históricos.

    Enredo

    Em O continente, a saga da família Terra-Cambará inicia-se com a união de Pedro Missioneiro, um mestiço criado nas missões jesuíticas, filho de uma índia que é estuprada por um bandeirante, com Ana Terra, filha de colonos pobres de origem portuguesa que vieram do interior de São Paulo para o Rio Grande do Sul, naquela época uma terra ninguém, disputada por portugueses e espanhóis. O sangue dos Terras receberá, no terceiro capítulo do livro (seguindo em linha cronológica e não levando em conta os episódios de moldura do sobrado), o reforço dos Cambarás, através do casamento entre Bibiana Terra, filha de Pedro Terra (fruto da união de Pedro Missioneiro com Ana Terra), com Rodrigo Cambará, filho do aventureiro do Chico Rodrigues que, a partir da união com a açoriana Maria Rita passa-se a chamar Chico Cambará. Aí então está formado o clã Terra-Cambará, representado alegoricamente na árvore cambará que cria raízes na terra santafezense, quando Rodrigo Cambará casa-se com Bibiana e fixa residência em Santa Fé. A partir daí, mesmo sofrendo alguns reveses, o clã inicia um lento processo de prosperidade que vai culminar na condição de família latifundiária. O fim da narrativa apresentará Licurgo Terra Cambará como intendente de Santa Fé, dono da grande estância de terras do Angico e do imponente sobrado, símbolo do prestígio social e poder político local.

    Foco Narrativo

    O romance é narrado em terceira pessoa, numa linguagem tradicional. Há apenas um desvio na linearidade cronológica do texto. A ação do episódio O sobrado, apesar de ser temporalmente a última de O continente, é dividida em sete fragmentos. Estes, por seu turno, são espalhados pelo narrador dentro do volume, de maneira que o primeiro fragmento abra o livro e o último o encerre. Cria-se assim, na narração, um contraponto temporal.

    O outro desvio nasce da inserção no texto de “intermezzos”, isto é, de rápidos quadros – seis ao total – escritos em linguagem próxima à lírica, quase em versos, e no tempo verbal do presente. Funcionam como passagens intermediárias da narrativa central, e são verdadeiros poemas em prosa. A rigor, parecem desempenhar um tríplice papel no romance:

    1. Preencher vazios, tanto na construção de personagens secundários quanto em aspectos históricos riograndenses que não foram suficientemente elaborados nos episódios.
    2. Reforçar o caráter simultaneamente épico e brutal da conquista do território chamado continente de São Pedro.
    3. Apresentar um contraponto social, na figura dos Carés, gente sem eira nem beira, desvalidos, arranchados na fazenda do Angico, e que servem de “bucha-de-canhão” nas guerras locais e de amantes baratas para os fazendeiros.

    Capítulos

    A Fonte

    Primeira parte, assim chamada porque o que se segue é a história do personagem que se torna a fonte do qual surge toda a família. É a história do mameluco Pedro Missioneiro, que nasceu em 1745, morou nos Sete Povos das Missões e adquiriu de um padre (seu padrinho, que o batizou com o nome de um homem, que um dia quis matar pela amante antes de se tornar padre) uma adaga que passa pela família. Pedro tinha visões que se realizavam, dizia ser filho da Virgem Maria e sai da Missão três meses após a morte de Sepé Tiaraju.

    O que destacar em A fonte:

    1. A confluência da cultura mística católica e a consciência mágica dos índios na figura de Pedro, explicando a sua tendência a visões e premonições.
    2. A criação de uma origem mitológica para o estabelecimento da sociedade rio-grandense, na medida em que Pedro, mais tarde, fecundará Ana Terra, dando início – em termos simbólicos – a um tipo local, o gaúcho. É visível – neste romance de “fundação” de um mundo regional – a influência de Iracema, de José de Alencar.

    Ana Terra

    A família de Ana Terra vem de Sorocaba para o Rio Grande do Sul porque seu pai, Maneco Terra, tinha esperanças de melhorar sua vida através da terra. A reflexão sobre a divisão de terras e a injustiça social transparece através da figura de Maneco, homem trabalhador e honesto. O personagem indigna-se com o fato de muitas sesmarias serem dadas sempre para os mesmos homens:

    Maneco recordava sua última visita a Porto Alegre, onde fora comprar ferramentas, pouco antes de vir estabelecer-se ali na estância. Achara tudo uma porcaria. Lá só valia quem tinha título, um posto militar ou então quem vestia batina. Esses viviam a tripa forra. O resto, o povinho, andava mal de barriga, de roupa e de tudo. Era verdade que havia alguns açorianos que estavam enriquecendo com o trigo. Esses prosperavam, compravam escravos, pediam e conseguiam mais sesmarias e de pequenos lavradores iam se transformando em grandes estancieiros. Mas o governador não entregava as cartas de sesmaria assim sem mais aquela… Se um homem sem eira nem beira fosse ao paço pedir terras, botavam-no para fora com um pé no traseiro. Não senhor. Terra é para quem tem dinheiro, pra quem pode plantar, colher, ter escravos, povoar campos.

    Maneco ouvira muitas histórias. Pelo que contavam, todo o Continente ia sendo aos poucos dividido em sesmarias. Isso seria muito bom se houvesse justiça e decência. Mas não havia. Em vez de muitos homens ganharem sesmarias pequenas, poucos homens ganhavam campos demais, tanta terra que a vista nem alcançava. Tinham lhe explicado que o governo fazia tudo que os grandes estancieiros pediam porque precisava deles. Como não podia manter no Continente guarnições muito grandes de soldados profissionais, precisava contar com esses fazendeiros, aos quais apelava em caso de guerra. Assim, transformados em coronéis e generais, eles vinham com seus peões e escravos para engrossar o exército da Coroa, que até pouco tempo era ali no Continente constituído dum único regimento de dragões. E como recompensa de seus serviços, esses senhores de grandes sesmarias ganhavam às vezes títulos de nobreza, privilégios, terras e mais terras. Era claro que quando havia uma questão entre esses graúdos e um pobre diabo, era sempre o ricaço quem tinha razão.

    Enquanto Maneco representa o homem trabalhador cheio de princípios e moral, que luta para poder crescer e possuir mais terras, os personagens de Ana Terra e sua mãe Henriqueta são figuras essenciais na luta pela sobrevivência da família. Os afazeres femininos (dessa classe) aparecerem como sendo tão sacrificantes quanto os masculinos ou até mais. Além disso, as mulheres têm de servir aos homens e se submeter a eles. Por isso, quando Henriqueta morre, Ana não sofre, já que tem consciência da vida infeliz que levava a mãe:

    Ana não chorou. Seus olhos ficaram secos e ela estava até alegre, porque sabia que a mãe finalmente tinha deixado de ser escrava. Podia haver outra vida depois da morte, mas também podia não haver. Se houvesse, estava certa de que D. Henriqueta iria para o céu; se não houvesse, tudo ainda estava bem, porque sua mãe ia descansar para sempre. Não teria mais que cozinhar, ficar horas e horas pedalando na roca, em cima do estrado, fiando, suspirando e cantando as cantigas tristes de sua mocidade. Pensando nessas coisas, Ana olhava para o pai que se achava ao seu lado, de cabeça baixa, ombros encurvados, tossindo muito, os olhos riscados de sangue. Não sentia pena dele. Por que havia de ser fingida? Não sentia. Agora ele ia ver o quanto valia a mulher que Deus lhe dera. Agora teria de se apoiar na nora ou nela, Ana, pois precisava de quem lhe fizesse a comida, lavasse a roupa, cuidasse da casa. Precisava, enfim, de alguém a quem pudesse dar ordens, como a uma criada. Henriqueta Terra jazia imóvel sobre a mesa e seu rosto estava tranqüilo.

    Apesar de Ana pensar que sua mãe finalmente livrou-se da “vida de escrava”, Henriqueta volta em espírito e, à noite, continua a trabalhar na roca. Ana tem pena da mãe:

    Nem mesmo na morte a infeliz se livrara de sua sina de trabalhar, trabalhar, trabalhar…

    Ana Terra, em sua mocidade, é um personagem solitário e ao mesmo tempo inconformado, que tem desejos e esperanças. Mais tarde mostrará sua força e coragem. O Rio Grande é, para ela, um lugar em que nada existe além da solidão, do medo e do trabalho. Logo no início do capítulo o autor/narrador expressa os sentimentos que aquele lugar causava na moça:

    Tinha vinte e cinco anos e ainda esperava casar. Não que sentisse muita falta de homem, mas acontecia que casando poderia ao menos ter alguma esperança de sair daquele cafundó […]. Ali na estância a vida era triste e dura. Moravam num rancho de paredes de taquaraçu e barro, coberto de palha e com chão de terra batida. […] Passavam-se meses sem que nenhum cristão cruzasse aquelas paragens. Às vezes era até bom mesmo que eles vivessem isolados, porque quando aparecia alguém era pra trazer incômodo ou perigo.

    A solidão se expressa em Ana principalmente através do seu erotismo, que fica acentuado com o aparecimento de Pedro – um índio sobrevivente da guerra missioneira que acaba ficando como agregado da família Terra. Como uma moça que vive naquele “fim-de-mundo” onde nada se vê além do campo e com ninguém se fala além de, vez que outra, tropeiros rudes, Ana sente em seu corpo o desejo pelo índio. Do ponto de vista historiográfico, os desejos de uma mulher no século XVIII não são tão palpáveis quanto a divisão de terras registradas em documentos. Porém, são perfeitamente imagináveis dentro dos limites do possível:

    Ana estava inquieta. No fundo ela bem sabia o que era, mas envergonhava-se dos seus sentimentos. Queria pensar noutra coisa, mas não conseguia. E o pior é que sentia os bicos dos seios (só o contato com o vestido dava-lhe arrepios) e o sexo como três focos ardentes. Sabia o que aquilo significava. Desde os seus quinze anos a vida não tinha mais segredos para ela. Muitas noites quando perdia o sono, ficava pensando em como seria a sensação de ser beijada, penetrada por um homem. Sabia que esses eram pensamentos indecentes que devia evitar. Mas sabia também que eles ficariam dentro de sua cabeça e de seu corpo, para sempre escondidos e secretos, pois nada nesse mundo a faria revelar a outra pessoa – nem à mãe, nem mesmo à imagem da Virgem ou a um padre no confessionário – as coisas que sentia e desejava. […] Pensava nas cadelas em cio e tinha nojo de si mesma.

    Ana não resiste e acaba entregando-se a Pedro. Mais tarde fica grávida dele. Ao descobrir o fato, Maneco Terra manda os irmãos, Antônio e Horácio, matarem Pedro longe da fazenda. Após o assassinato do índio, Ana demonstrará sua capacidade de resistência e suas estratégias de sobrevivência. Ela suporta o desprezo que os irmãos e o pai lhe têm, por ter perdido sua honra e carregar um filho sem pai, pois sabe que, na verdade, esses homens que lhe acusam carregam uma culpa muito mais grave do que a dela: a do assassinato. Assim, quando vê a oportunidade, joga na cara dos irmãos e do pai as palavras que durante muito tempo guardou:

    Assassinos! – repetiu Ana – Todos deviam estar mas era na cadeia com os outros bandidos! (Veríssimo, 2001: 113).

    A coragem de Ana Terra se expressa novamente quando sua casa é saqueada por castelhanos. Naquele período, a incessante disputa territorial entre portugueses e espanhóis havia gerado um espaço de violência, onde atrocidades, vandalismos, pilhagem, assassinatos e estupros eram comuns.

    Em Ana Terra, a família é avisada que um grupo de bandidos está chegando no local. Então, Maneco e Antônio – Horácio a esta altura mora na cidade – mandam Ana e Eulália (mulher de Antônio) esconderem-se no mato com as crianças (Pedrinho, filho de Ana, e a filha de Eulália). Mas Ana fica, mesmo sabendo o que vai lhe acontecer, para assim salvar as crianças e a cunhada:

    Se eu me escondo eles nos procuram no mato, porque logo vão ver pelas roupas do baú que tem mulher em casa. Se eu fico, eles pensam que sou a única e assim Eulália e as crianças se salvam.

    A casa é saqueada, Maneco Terra, Antônio e dois escravos que tinham são assassinados e ela é estuprada sucessivas vezes pelos bandidos. Depois de tudo que aconteceu, Ana – com a pouca ajuda da cunhada e das crianças – enterra o pai, o irmão e os dois escravos. Ainda assim tem forças para querer uma vida nova e pensa que deve lutar pelo que deseja:

    Ana sentia-se animada, com vontade de viver, sabia que por piores que fossem as coisas que estavam por vir, não podiam ser tão horríveis como as que já tinha sofrido. Esse pensamento dava-lhe uma grande coragem. E ali deitada no chão a olhar para as estrelas, ela se sentia agora tomada por uma resignação que chegava quase a ser indiferença. Tinha dentro de si uma espécie de vazio: sabia que nunca mais teria vontade de rir nem de chorar. Queria viver, isso queria, e em grande parte por causa de Pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido a ninguém para vir ao mundo. Mas queria viver também de raiva, de birra. A sorte andava sempre virada contra ela. Pois Ana estava agora decidida a contrariar o destino. Ficara louca de pesar no dia em que deixara Sorocaba para vir morar no Continente. Vezes sem conta tinha chorado de tristeza e de saudade naqueles cafundós. Vivia com o medo no coração, sem nenhuma esperança de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma negra, e passando frio e desconforto… Tudo isso por quê? Porque era a sua sina. Mas uma pessoa pode lutar contra a sorte que tem. Pode e deve. E agora ela tinha enterrado o pai e o irmão e ali estava, sem casa, sem amigos, sem ilusões, sem nada, mas teimando em viver. Sim, era pura teimosia. Chamava-se Ana Terra. Tinha herdado do pai o gênio de mula.

    Então, aproveitando que uma família passa pelo local, Ana, Eulália e as crianças viajam até Santa Fé, um povoado fundado por um estancieiro, o Cel. Amaral, que durante muitos anos será o senhor do local. Ana Terra começa uma nova vida ao lado de seu filho e transforma-se na parteira do local – ela simboliza a continuidade e o valor da vida.

    Mais tarde, Pedro, que está com vinte anos, é recrutado juntamente com outros homens do povoado para mais uma guerra de fronteira contra os castelhanos. Indignada com a imposição do Cel. Amaral de que todos os homens devam se alistar, Ana Terra vai até o coronel pedir para que livre o seu filho da guerra. Mas na casa do Cel. Amaral é humilhada por ele. Ana sabe que a guerra nada trará de benefícios para ela e para seu filho, sabe que a guerra serve somente para os grandes estancieiros e tem vontade de dizer tudo isso ao Cel. Amaral, mas não o faz:

    Ana Terra sentiu uma revolta crescer-lhe no peito. Teve ganas de dizer que não tinha criado o filho para morrer na guerra, nem para ficar aleijado brigando com os castelhanos. Guerra era bom para homens como o Cel. Amaral e outros figurões que ganhavam como recompensa de seus serviços medalhas e terras, ao passo que os pobres soldados às vezes nem o soldo recebiam. Quis gritar todas essas coisas mas não gritou. A presença do homem – aquelas botas pretas, grandes e horríveis!– a acovardava. Fez meia volta e se foi em silêncio. […]

    Dois ou três dias depois Ana Terra disse adeus ao filho. Apertou-o contra o peito, cobriu-lhe o rosto de beijos e a muito custo conteve as lágrimas. Outras mulheres despediam-se chorando de seus homens.

    Havia um ar de desastre e luto em todas as caras.

    Ana põe-se a esperar seu filho, sozinha (pois Eulália casou-se novamente), cuidando da casa e do pequeno rancho que possuem. Quando chegam notícias que a guerra está para terminar, Ana reflete mais uma vez sobre o significado da guerra, para quê e para quem elas servem:

    Agora todos esses campos até o Uruguai são nossos!

    Ana Terra sacudiu a cabeça, mas sem compreender. Para que tanto campo? Para que tanta guerra? Os homens se matavam e os campos ficavam desertos. Os meninos cresciam, faziam-se homens e iam para outras guerras. Os estancieiros aumentavam suas estâncias. As mulheres continuavam esperando. Os soldados morriam ou ficavam aleijados. Voltou a cabeça na direção dos Sete Povos, e seu olhar perdeu-se vago sobre as coxilhas.

    Pedro volta dessa guerra com vida e mais tarde será recrutado novamente: portugueses e espanhóis ainda não resolveram a questão. O capítulo conclui-se e Ana está mais uma vez esperando, trabalhando e escutando o vento.

    Um certo capitão Rodrigo

    Substrato histórico: A emergência e apogeu dos gaudérios. A Revolução Farroupilha. A chegada dos primeiros imigrantes alemães. Duração: 1828 a 1836. Este é dos capítulos que merecem destaque, seja pelo apuro estilístico do autor, seja pela temática desenvolvida. Um Certo Capitão Rodrigo, presente em O Continente, merece essa atenção especial. O capítulo tem o mérito de retratar, ou recriar, a imagem do homem gaúcho forte, bravo, destemido, na figura do personagem principal: capitão Rodrigo Cambará.

    A cena da chegada do capitão Rodrigo à cidade de Santa Fé já é suficiente para passar essa idéia do homem gaúcho, tanto pelas vestimentas como pela personalidade:

    Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal.

    Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:
    – Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!
    – Pois dê

    A descrição do valente e imponente capitão entrando no pacato vilarejo, seguida do desaforado cumprimento da chegada, antecipa o incômodo que essa figura produzirá em tal espaço. O dono da resposta curta e grossa que aceita o confronto, porém, não se tornará seu antagonista na história. Será seu futuro cunhado, Juvenal Terra.

    A importância desse capítulo está no fato de que – além de apresentar a figura típica do gaúcho encarnada pelo capitão Rodrigo – mostra a união dos dois grandes sobrenomes que marcarão, na obra, a formação do estado do Rio Grande do Sul: os Terras e os Cambarás.

    Apaixonando-se perdidamente por Bibiana Terra, o capitão a conquista após minar sua resistência e a de sua família, além de ter vencido em um duelo o pretendente rico de Bibiana: Bento Amaral, filho do coronel Ricardo Amaral. Essa união representa, estruturalmente, o eixo das duas famílias que irão protagonizar toda a trilogia.

    O carisma de Rodrigo Cambará acaba por conquistar, de fato, não apenas Bibiana Terra, mas vários moradores de Santa Fé, como o padre Lara e Juvenal Terra, com quem monta um negócio. A figura do capitão, no entanto, distancia-se em todos os momentos do perfil do bom moço. Mesmo depois de casado com Bibiana, Rodrigo Cambará mantém o gosto pelo carteado, pela bebida e, principalmente, por outras mulheres.

    O antagonista de Rodrigo Cambará é Bento Amaral, com o qual trava uma luta atrás do muro do cemitério, após um desentendimento em uma festa de casamento. Nesse confronto, o filho do coronel, desonrando a batalha, utiliza uma arma de fogo contra o capitão.

    Antes de dar o tiro à traição, Amaral quase recebe a marca do capitão Rodrigo: um “R” na testa. Surpreendido pelo disparo, no entanto, o capitão só tem a possibilidade de talhar um “P”. Falta-lhe tempo para completar a letra “R”. A cena final desse capítulo é a invasão do casarão da família Amaral. Nesse episódio, morre o capitão Rodrigo Cambará, deixando órfão o filho Bolívar:

    O tiroteio começou. A princípio ralo, depois mais cerrado. O padre olhava para seu velho relógio: uma da madrugada. Apagou a vela e ficou escutando. Havia momentos de trégua, depois de novo recomeçavam os tiros.
    E assim o combate continuou madrugada adentro. Finalmente se fez um longo silêncio. As pálpebras do padre caíram e ele ficou num estado de madorna, que foi mais uma escura agonia do que repouso e esquecimento. O dia raiava quando lhe vieram bater à porta. Foi abrir. Era um oficial dos farrapos cuja barba negra contrastava com a palidez esverdinhada do rosto. Tinha os olhos no fundo e foi com a voz cansada que ele disse:
    – Padre, tomamos o casarão.
    Mas mataram o capitão Rodrigo – acrescentou, chorando como uma criança.
    – Mataram?
    O vigário sentiu como que um soco em pleno peito e uma súbita vertigem. Ficou olhando para aquele homem que nunca vira e que agora ali estava, à luz da madrugada, a fitá-lo como se esperasse dele, sacerdote, um milagre que fizesse ressuscitar Rodrigo.
    – Tomamos o casarão de assalto. O capitão foi dos primeiros a pular a janela. – Calou-se, como se lhe faltasse fôlego.
    – Uma bala no peito…

    O espaço de Santa Fé – Em Um Certo Capitão Rodrigo, o espaço marca de forma muito evidente uma rígida separação, de acordo com a classe social dos personagens.

    O espaço nessa narrativa funciona como índice social, que divide os personagens do capítulo. O casarão representa o poder local, enquanto a venda do Nicolau e o terreiro da casa de Joca Rodrigues, entre outros pontos, representam o espaço das classes mais pobres.

    Essa repartição fica clara quando se nota que os dois confrontos da narrativa – o primeiro entre Bento Amaral e Rodrigo Cambará; o segundo, na tomada do casarão – se desenvolvem com a invasão, indevida, desses espaços.

    No confronto entre Rodrigo e Amaral, este último estava em um ambiente popular, o que era impróprio, segundo os valores vigentes. Esse fato favoreceu o encontro com seu oponente. Já a invasão ao casarão da família Amaral acabou por representar o conflito final.

    A teiniaguá

    Substrato histórico: A consolidação da vida urbana no RS. Duração: 1850 – 1855.

    Em 1850 Santa Fé já possui sessenta e oito casas e trinta ranchos. Chama atenção o magnífico sobrado construído por um nortista de origem misteriosa, Aguinaldo Silva. Dele também é a melhor fazenda da região, a do Angico. Porém a sua principal atividade econômica é a agiotagem e muitas terras, inclusive a pequena propriedade de Pedro Terra tinham passado para suas mãos.

    Aguinaldo tem uma neta adotiva, Luzia, de esplêndida beleza e “modos de cidade”: veste-se bem, é culta e toca cítara. Desperta paixões, especialmente entre os dois primos, Bolívar e Florêncio (filho de Juvenal Terra) que a disputam. Luzia termina optando por Bolívar, filho do Capitão e de Bibiana, herói juvenil na guerra contra o tirano argentino, Rosas.

    Bolívar está completamente enfeitiçado por Luzia. Atendendo uma determinação da própria jovem (que tem dezenove anos), marca-se o noivado para a mesma hora em que um escravo, suspeito de crime hediondo, vai ser enforcado. Os sinais de estranha doença começam a aparecer na moça que veio do Norte.

    Também surge neste episódio um dos protagonistas mais importantes de O continente, o Dr. Carl Winter, médico alemão, culto, solitário, extremamente observador e um pouco bizarro, e que havia fugido da Alemanha por razões sentimentais e políticas. Ele será uma espécie de “comentarista” da vida cotidiana e dos costumes, tanto de Santa Fé quanto da província de São Pedro. Não é errado considerá-lo como um “alter-ego” (um “outro eu”) de E. V. Fascinado por Luzia (uma mescla de curiosidade e desejo), ele a compara à lenda local da teiniaguá, a princesa moura transformada pelo diabo numa lagartixa, cuja cabeça consiste numa pedra preciosa de brilho ofuscante que atrai e cega os homens.

    É o Dr. Winter o primeiro a perceber a doença da alma que corrói a bela Luzia: a moça tem prazer com o sofrimento alheio. Na hora do enforcamento do escravo, ela corre para a janela a fim de se deliciar com o espetáculo:

    Primeiro o rosto dela se contorceu num puxão nervoso, como se tivesse sentido uma súbita dor aguda. Depois se fixou numa expressão de profundo interesse que aos poucos foi se transformando numa máscara de gozo que pareceu chegar ao orgasmo.

    Por isso, casando-se com Bolívar, uma mente singela, ela se aproveitará para atormentá-lo. No entanto, contraditoriamente, Luzia tem momentos de ternura e alegria para com o marido, estraçalhando-se, pouco a pouco, os seus nervos de homem enfeitiçado. Essa alternância de loucura e fascinação, revela uma Luzia não apenas sádica, mas também masoquista, porque há passagens em que ela parece se comprazer com o próprio sofrimento. Bibiana, a sogra, também percebe o que o Dr. Winter já enxergara e passa a odiar a nora.

    Em 1853, Aguinaldo Silva cai do cavalo e fratura o crânio, sobrevivendo ainda três dias. A neta acompanha-o, minuto após minuto, comprazendo-se com o sofrimento do avô. Seu sado-masoquismo é visível. O nascimento de Licurgo Cambará, o filho do casal, atenua brevemente a situação. Em seguida, deixando o nenê nas mãos de Bibiana, Bolívar e Luzia partem, numa viagem recreativa para Porto Alegre.

    Na capital da província uma epidemia de cólera dizima a população. Em vez de retornar, o casal permanece no centro da grande epidemia. E. V. não narra os acontecimentos na capital, mas meses depois, quando os dois voltam, Bolívar está tão destruído psicologicamente que o Dr. Winter e Bibiana intuem o que havia ocorrido: a euforia e o gozo de Luzia, vendo o terror de todos diante da peste, deliciando-se com o desespero das pessoas que caíam nas ruas, agonizantes.

    Ao tentar rever o filho, Licurgo, a teiniaguá é impedida por Bibiana e tem um ataque de fúria, chamando a sogra de “cadela”. Bolívar então espanca a esposa e sai da sala, cada vez mais arrasado interiormente.

    O coronel Bento Amaral aproveita-se do contexto para vingar-se dos Cambarás, decretando a quarentena do sobrado. Isto é, durante quarenta dias, ninguém, a não ser o dr. Winter, poderia entrar ou sair do casarão. Capangas dos Amarais cercam, então, o local para que a ordem do caudilho fosse cumprida. Bolívar “caído de borco, no meio da rua, com a cara metida numa poça de sangue.”

    A Guerra

    Substrato histórico: A Guerra do Paraguai. Duração: 1869 – 1870.

    Conta a história dos anos finais da Luzia e sua disputa com Bibiana pelo amor de Licurgo enquanto este cresce. Luzia está na época com um tumor no estômago, e a preocupação principal de Bibiana é permanecer no sobrado. Luzia, ao final, perde a guerra não-declarada, pois o que queria era um filho cosmopolita, e Licurgo continua em Santa Fé.

    Ismália conta a história de Licurgo já mais velho, trabalhando em Santa Fé com seu melhor amigo, o jornalista Toríbio, pela proclamação da República, tudo enquanto envolvido com o casamento com a prima Alice, filha de Florêncio Terra e a amásia, Ismália. Ismália é uma china (palavra usada até hoje em partes do Rio Grande do Sul, que designa uma “mulher da vida”) submissa a Licurgo do qual este gosta e permanece assim pelos anos que seguem e engravida dele. A luta pela República enfim tem sucesso e a rivalidade dos Terra Cambará com os Amaral continua com Alvarino e Licurgo, como antes fora com Bento e Rodrigo.

    Semi-inválido, Florêncio retorna da guerra quase em seu final. Através do Dr. Winter sabe do confronto entre Bibiana e Luzia, dentro do Sobrado. Sabe também que Luzia tem um tumor maligno no estômago e que cada mulher espera a morte da outra.

    Enquanto isso, na fazenda do Angico, o adolescente Licurgo Cambará efetiva sua educação à maneira rio-grandense, guiado por Fandango. Típico gaúcho fanfarrão, exímio contador de histórias, conhecedor de casos e lendas, expressando-se por ditados, tendo apurada memória por quadras, trovas e modinhas, dono, por fim, de grande sabedoria campeira, Fandango é o professor do seu futuro patrão. A partir dessas experiências gratificantes, – e tendo como contraponto, na cidade, a sombria doença da mãe – Licurgo só se sentirá à vontade no campo, desenvolvendo uma primitiva identificação com as lides pastoris e as coxilhas.

    No Sobrado, Bibiana consegue afastar os pretendentes de Luzia, revelando-lhes pormenores da “loucura” da nora. Seu objetivo é impedir um novo casamento da jovem viúva porque assim Licurgo herdará sozinho todas as propriedades da mãe. O Dr. Winter acompanha a luta entre as duas, mas não toma partido de nenhuma, embora sua maior intimidade seja com Bibiana. O episódio encerra-se sem que a vitoriosa seja conhecida.

    Ismália Caré

    Substrato histórico: O surgimento da oposição republicana e abolicionista. (PRR – Partido Republicano Rio-grandense). Duração: 1884.

    Em 1884, Santa Fé é elevada à categoria de cidade. O Coronel Bento Amaral ainda domina politicamente, mas Licurgo Cambará representa a oposição republicana que já não aceita a hegemonia da oligarquia monarquista. O ódio entre as duas “casas” fica latente numa cavalhada festiva, em que se enfrentam “mouros” e “cristãos”, e o que deveria ser encenação quase vira um confronto sangrento.

    No plano pessoal, Licurgo vai se casar com sua prima Alice Terra (filha de Florêncio). A irmã dessa, Maria Valéria Terra também o ama, mas sufoca seu afeto proibido. Independentemente dos amores que desperta, o Cambará sente-se preso sexualmente a Ismália Caré, filha de um agregado pobre que vive num rancho, numa fazenda do Angico.

    Sob a influência de um bacharel baiano que vive em Santa Fé, Toríbio Rezende, Licurgo torna-se republicano e abolicionista fanático, libertando seus próprios escravos. Na noite da libertação, ele vem a saber que Ismália Caré está grávida e decide que a amante “vai botar o filho fora”, isto é, precisa abortar.

    Além disso, há referências neste episódio a respeito da morte de Luzia. Surge também um personagem interessante, o sacerdote Atílio Romano, italiano de nascimento e formação, brasileiro de coração, magnífico orador e intransigente defensor da miscigenação étnica e da paz entre os grupos que se hostilizam na província.

    O que destacar em Ismália Caré:

    1. O quadro vivo da contenda política entre as frações dirigentes (Amaral versus Cambará), cujos rancores e ódios já estão latentes antes da República e do triunfo do castilhismo.
    2. A ambigüidade moral de Licurgo perante a sua futura esposa, Alice, pois não pretende se livrar (nem se livrará) da amante, Ismália Caré.
    3. A sua ambigüidade ética no caso da libertação dos escravos. Apesar da grandeza de seu gesto, subjetivamente ele sente raiva e irritação com “aqueles negros” que pisam na sala do Sobrado, alguns aturdidos e outros, arrogantes.
    4. O surgimento de Maria Valéria Terra, cunhada de Licurgo, de grande importância em episódios seguintes.

    O Sobrado

    Substrato histórico: Toda a ação transcorre em três dias de junho de 1895, nos estertores da Guerra Civil entre republicanos (“chimangos”) e federalistas (“maragatos”).

    Vencendo seu medo, o maragato José Lírio chega na torre da igreja de onde se domina o quintal do Sobrado e, conseqüentemente, o poço de água que garante a sobrevivência dos Cambarás e de seus homens. No entanto, ao pensar nas mulheres e nas crianças que estão na casa fortificada, José Lírio acaba errando intencionalmente o tiro no chimango que, em desespero, tentava buscar água no poço para matar a sede dos sitiados.

    Esta capacidade de tolerância e de compreensão “daqueles que estão no outro lado” não são compartilhadas por Licurgo Cambará, que se recusa a pedir trégua aos maragatos, tanto para cuidar dos feridos e sepultar os mortos, quanto para atender sua esposa, Alice Terra, que está em trabalho de parto, e necessita de urgentes cuidados médicos. Inflexível e autoritário, Licurgo não aceita os olhares recriminatórios do sogro, Florêncio Terra e da cunhada, Maria Valéria, mesmo que a esposa e a criança corram perigo de vida. Para ele seria um ultraje à honra solicitar a complacência dos inimigos.

    O resultado de sua intolerância é que a menina nasce morta e é enterrada no porão da casa, cheio de ratos. Também o sogro, Florêncio, provavelmente enfraquecido – durante o cerco não havia mais nada a comer senão laranjas – termina morrendo no final do episódio, logo após o fim do cerco do Sobrado, com o abandono da cidade pelas forças maragatas.

    Na última página, Bibiana Terra já catacega e meio caduca, pede silêncio a Fandango, que ia lhe levar a notícia da morte de seu sobrinho, e apontando para janela onde o vento uiva, diz: “Está ouvindo?”

    Há o brilhante jogo entre a vida e morte, representado pelo parto, de um lado, e pela guerra, de outro. Torna-se evidente o pacifismo do autor, pois o machismo, o sentido de honra e a inflexibilidade ideológica de Licurgo Cambará são completamente impugnados no andamento do episódio.

    A covardia de José Lírio que, na verdade, obriga-o a superá-la através da legítima coragem, produzida pela vitória sobre o medo. Além disso, o referido protagonista rompe com a intolerância e com o radicalismo políticos, mostrando-os como repugnantes à consciência humanista.

    Não por acaso, o começo de O continente (O Sobrado I) se dá com ele, José Lírio, ou seja, um indivíduo que coloca respeito à condição humana acima das ideologias e interesses que arrastam os homens para a guerra. Este livro sobre a guerra começa, na verdade, com um libelo a favor da paz.

    O aparecimento – ainda que de modo periférico – dos dois irmãos, Toríbio e Rodrigo tendo este último papel decisivo nos livros subseqüentes. A presença, agora mais intensa, de Maria Valéria Terra com idêntica função de Ana Terra e de sua tia-avó, Bibiana. A mesma força interior, a mesma resistência silenciosa, o mesmo desprezo pela violência guerreira dos homens.

    A particularização – através do cerco do Sobrado – da mais sangrenta e cruel de todas as lutas rio-grandenses, a Guerra Civil (1893 – 1895) com seu terrível rosário de crueldades, degolas, estupros e terrorismo de Estado, este desenvolvido pelos autodenominados “progressistas” da época: Júlio de Castilhos e sua horda republicana.

    Observações Gerais:

    Além da imagem da casa – o sobrado – o autor utiliza-se de referências da natureza – sobretudo da alusão ao vento – com o fito de integrar as personagens e as ações a âmbitos cada vez mais amplos da trama e da História. Esse procedimento de integração permite uma mistura entre espaço doméstico e palco de guerra, do mesmo modo que justifica a referência ao vento como marca de tempo – numa perspectiva que conduz do particular para o geral, da parte para o conjunto, da definição de detalhes às imagenssíntese, nas quais se incluem os títulos das partes e do todo.

    Para além do círculo de casa – e ainda no espectro romanesco – os cruzamentos se ampliam, chamando para o diálogo a memória de Ana Terra, Capitão Rodrigo, Luzia – os antepassados de Licurgo e de outros ocupantes da casa. Esses são flagrados em distintas épocas, tanto pelos recuos do tempo da narrativa como pela sobrevivência de personagens que, ao modo da velha Bibiana, avó de Licurgo, são remanescentes de outras épocas. Desse modo, novas imagens vão se formando na teia de relações aberta pelos trechos que preenchem os espaços entre as diferentes focalizações sobre o sobrado.

    Além de funcionarem como referências ficcionais, essas imagens vão colocando em diálogo recortes históricos diversos. De 93, retrocede-se a episódios do
    povoamento do solo sulino, à época das missões jesuíticas e à revolução farroupilha, para citar três declinações expressivas.

    Os diferentes níveis de representação, tal como estão dispostos em O Continente – e, de resto, ao longo de todo O tempo e o vento – exigem que o leitor vá montando a história, como se juntasse as peças de um quebra-cabeça. O procedimento, que é próprio dos grandes romances, fica reforçado pela utilização que Verissimo faz do contraponto, no qual aprofunda o uso da composição fracionada da história, cujos pontos, disseminados pelo todo, são ampliados passo-a-passo. A essa altura podemos afirmar que o cruzamento entre entrecho ficcional e eventos históricos interfere mesmo na estrutura da obra em questão, posto que é decisivo para as dotações de tempo, espaço e seqüenciação dessas narrativas.

    Da perspectiva do arranjo ficcional, a escolha da revolução federalista como tópico de partida de O continente – e, de resto, da própria trilogia, considerando-se que se trata do volume inaugural – reveste-se de particular significado. Na história do Rio Grande do Sul esse é um conflito essencial, pois significa a passagem da antiga ordem institucional, arranjada com os acordos imperiais que puseram fim à revolução farroupilha, à ordem republicana, assentada no ideal positivista de Júlio de Castilhos.

    O Retrato

    Dividido em quatro partes, O Retrato conta a história da família Terra Cambará até 1945, completando junto com O Arquipélago mais 50 anos da história do RS.

    Rosa-dos-ventos conta da chegada de Rodrigo Cambará do RJ logo após a deposição de Getúlio Vargas em 1945, visto apenas sob o ponto de vista dos habitantes da cidade fofocando sobre seu passado e sobre sua atual situação de saúde, política e família, com opiniões variadíssimas. Aparece aqui a explicação para o título do livro: o retrato é uma pintura feita por um pintor de Rodrigo com vinte e quatro anos em que a própria personalidade de Rodrigo, junto com seu passado presente e futuro, parece transpirar. Chantecler mostra o jovem Doutor Rodrigo Terra Cambará chegando a Santa Fé em fins de 1909, idealista, pensando em revolucionar a cidade. Sua primeira empreitada é a campanha civilista pelo candidato Rui Barbosa para presidente, pela qual ele funda o jornal A Farpa. Usando “A Farpa” Rodrigo e seus amigos, especialmente o pintor espanhol anarquista Don Pepe Garcia, que como o Doutor Winter se sente preso misteriosamente a Santa Fé. Pepe trabalha como tipógrafo n’A Farpa e Rodrigo escreve artigos em favor de Barbosa. Mas Hermes da Fonseca vence a eleição e Rodrigo se desilude com a política. Rodrigo também age com um desprendimento total em relação a dinheiro, presenteando e ajudando muitos, como o jovem Marco a quem ele dá dinheiro para começar uma fábrica, e os vários pobres das favelas de Santa Fé aos quais ele atende gratuitamente, distribuindo comida e alimentos no inverno, apesar da reprovação do anarquista Pepe e de seu positivista amigo, o Tenente Rubim. No plano romântico Rodrigo se enamora de Flora e corteja-a do modo tradicional, muito a contragosto. Sua carne é fraca, no entanto, e ele acaba por se deitar algumas vezes com uma jovem Caré tal qual o pai. Mas ainda assim continua pensando em sua Flora, filha de um arruinado estancieiro, Aderbal Quadros. Também deve se destacar que Santa Fé está toda preocupada com a passagem do cometa Halley, já que diziam que este destruiria a Terra ou envenenaria a todos com sua cauda. O título deste segmento, Chantecler, deve-se ao personagem de uma peça de Rostand que estréia em Paris durante esta época, no qual o personagem principal é um galo imponente que se ilude achando que o sol não nasce sem o seu cantar, tal qual Rodrigo se vê como uma figura capaz de corrigir todos os males de Santa Fé.

    Sombra do Anjo conta a história de Rodrigo já casado e com dois filhos em 1914-15, numa Santa Fé sem Pepe e com adversários inertes. Rodrigo continua fazendo clínica e morando na cidade, enquanto o pai e o irmão passam a maior parte do tempo no Angico, a fazenda da família. O que move a história é, no plano político, a candidatura ao Senado do Marechal Hermes da Fonseca, seu desafeto, e no plano pessoal a paixão que Rodrigo sente por Toni Weber. A família Weber é uma família de músicos austríacos que chegam a Santa Fé, com quem Rodrigo primeiro não simpatiza por serem da pátria aliada a Alemanha a quem odeia em tempos de guerra. Mas após ouví-la passa a simpatizar com ela e se apaixona por Toni. Quando estes são roubados por seu empresário, Rodrigo arranja uma maneira para que possam permanecer na cidade, trabalhando no cinema às custas de Rodrigo. Numa das visitas ao Sobrado ele finalmente conquista Toni, que também o ama. Eles passam a se encontrar, pouco mas intensamente na casa dela. Um dia ela vai ao hospital de Rodrigo (ele clinicava lá e o doutor Carbone operava) e conta a ele que está grávida. Rodrigo pensa em aborto, em casá-la, em tudo. Mas nada adianta, pois quando está para se casar com um colono, ela se mata. Rodrigo confessa ao irmão e ao padre, que cuidam dele. Quando ele vai para o Angico, tenta disfarçar mas acaba contando ao pai, que se desaponta com ele. Rodrigo fica então em sua cama, quase enlouquecido, pensando, delirando, com o mal que fizera àquela que ama.

    Uma Vela Para o Negrinho conta, já em 1945, sobre os filhos de Rodrigo Cambará reagindo a conjuntura político-familiar do momento. Floriano está a visitar o cemitério e vê a tumba de Toni Weber sem conhecer a história por trás da moça, pensando numa história para escrever. Fala com Pepe no bar, que diz que Rodrigo o traiu e traiu o Retrato. Depois começa a inventariar a família e a pensar no irmão mais novo, o comunista Eduardo. Eduardo está, enquanto isto, a fazer um discurso comunista na praça a frente do Sobrado enquanto Rodrigo convalesce. Após o discurso Floriano e Eduardo discutem e Rodrigo chama Eduardo para conversar. Floriano vai até o pátio com Maria Valéria, que acende uma vela para o Negrinho do Pastoreio (reza a tradição que ele acha o que foi perdido) para que os Terra Cambará encontrem o que perderam.

    O Arquipélago

    O Arquipélago continua a história da família Terra Cambará com o Dr. Rodrigo.

    Entrelaçada por Reunião de Família, a história da família se reunindo após a queda de Vargas, com Rodrigo a beira da morte em 1945, continua a história de Rodrigo e Toríbio. Depois de dois infartos e sofrendo de edema pulmonar, Rodrigo passa ao tempo todo acamado, com a amante num hotel da cidade (ela veio do Rio de Janeiro por conta própria), e os filhos desentendidos. Floriano, o intelectual passivo, está apaixonado por Sílvia, mulher de seu irmão Jango, um homem simples. Eduardo milita o comunismo e ataca o pai até em praça pública, enquanto Bibi simplesmente se sente deslocada em Santa Fé, com o segundo marido. Maria Valéria está cega e Flora mantém um casamento apenas de fachada com Rodrigo. A maioria do tempo vêem-se discussões políticas entre Rodrigo, Tio Bicho (amigo da família e confessor de Floriano), Irmão Zeca (filho bastardo de Toríbio que se tornou irmão marista), Terêncio Prates (sociólogo formado pela Sorbonne e estancieiro), acabando sempre na figura de Getúlio Vargas que Rodrigo tanto defende. Rodrigo, enquanto isto, também desobedece às ordens de Dante Camerino, seu médico (ele chegou a ter um encontro com a amante) e Floriano confessa a Tio Bicho o que sente por Rodrigo.

    As anotações (Caderno de Pauta Simples) de seu filho mais velho, o escritor Floriano, também intercalam a história. Elas são um preenchimento de lacunas sobre acontecimentos menores da história; reminiscências de infância e adolescência, onde se lembra como se sentia por Rodrigo, o colégio interno onde era um dos amantes da mulher do diretor (eram ambos pederastas); impressões sobre o dia-a-dia daquela reunião; memórias de quando era professor universitário de Literatura Brasileira em São Francisco, onde reencontra Mandy Patterson, a americana que namorara no RJ e o afastou de Sílvia. E aparece também um germe para o romance que pretende escrever, fechando duzentos anos de história, que é na verdade a história da própria família Terra Cambará, dando caráter autobiográfico ao personagem (ele vai afinal, escrever o livro que agora lemos), começando pela história de Pedro Missioneiro, uma personagem que ele não chegou a conhecer já que Ana Terra nunca revelou. Essas duas últimas citações dão caráter autobiográfico a Floriano, já que o autor foi professor de Literatura Brasileira e, bem, escreveu esta história.

    A primeira parte é O Deputado, que conta sobre Rodrigo em 1922, deputado estadual chimango. Mas a desilusão com o partido que ele e seu pai passam a sofrer leva ele a renunciar ao cargo com um discurso inflamado na Assembléia. Passa então mais uma noitada no Rio e volta para Santa Fé e discute política com os amigos e se prepara psicologicamente com o irmão para a revolução que eles temem que virá.

    Lenço Encarnado conta sobre a revolução de 23 e a participação dos Cambarás. Por causa das fraudes nas eleições estaduais, começa uma luta entre os borgistas (chimangos, situação, inimigos dos Cambarás) e assisitas (maragatos, oposição, derrotados pela fraude, ironicamente com a participação dos ex-inimigos jurados dos Cambarás) A revolução começa em janeiro e as tropas dos maragatos se reúnem, mas só partem com o consentimento e sob o comando de Licurgo quando Alvarino Amaral decide lutar separado. É um sinal das cicatrizes que ficaram da revolução de 95, quando a filha de Licurgo, seu sogro e um agregado morreram. A coluna dos Cambará leva Miguel Ruas, o promotor que nem sequer gaúcho era; Liroca, quixotesco; a Cacique Fagundes e Juquinha Macedo, dois chefes tradicionais (o primeiro morre); caboclos pegos no meio do caminho (vários dos quais morrem); Rodrigo, Toríbio e Licurgo. Eles marcham pelo estado, andando mais que lutando. Ruas morre na tomada de Santa Fé e Licurgo numa das últimas batalhas, com Rodrigo ao seu lado gritando por um médico, esquecido que ele mesmo era um. Por todo este tempo as mulheres e crianças ficam no Sobrado, Flora desesperada (este capítulo revela que Flora conhece as escapadas do marido, a de Toni Weber em especial) e Maria Valéria cuidando de tudo. A revolução acaba em outubro, com vários mortos e uma paz que manda que o governador reeleito Borges de Medeiros não o seja mais e outras concessões.

    Um Certo Major Toríbio é a parte que relata sobre os três anos seguintes, as revoltas contra Artur Bernardes, presidente na maioria do tempo em que isto se passa (Washington Luís toma posse mais para o fim). Toríbio se junta, contra a vontade de Rodrigo, a Coluna Prestes. Mas ele só é visto mais ao final da história, que se passa a volta de Rodrigo, chocado pela morte da filha (ele leva um ano para se recuperar, ainda assim nem muito) e ainda perturbado com a do pai. Mostra também a partida do quieto Floriano, já com jeito para letras, para estudar em Porto Alegre. Quando finalmente recebe notícias de seu irmão, vindas do já Tenente-Coronel Rubim, Rodrigo parte para o Rio e Toríbio é liberto da prisão. Chegando ao Sobrado, Toríbio conta de sua experiência com a Coluna Prestes aos mais chegados e como só se salvara de morrer porque um militar cujo a vida Rodrigo salvou era o responsável pela execução. Mas foi preso ainda assim. É importante dizer também que, desiludido com a medicina após a morte de Alicinha, Rodrigo vende a farmácia e a Casa de Saúde aos médicos que o ajudavam, Dante Camerino e Carlo Carbone, fecha o consultório e entrega a administração do Angico ao sogro.

    O Cavalo e o Obelisco é a história da Revolução de 1930, mostrada desde poucos meses antes até poucos dias depois. A medida que a tensão cresce vai mostrando-se a confusão de sentimentos sobre o Getúlio Vargas que Rodrigo desgosta e vem a admirar mais tarde. Como o pai, Rodrigo é obrigado a se aliar com os antigos inimigos (Laco Madruga dessa vez) relutantemente. Floriano, já mais velho, parasitando de modo ainda mais relutante em Rodrigo e sentindo-se mal por isso é obrigado pelo pai. Homem de paz, quando durante a tomada da guarnição federal de Santa Fé o pai é ameaçado de morte por um homem que era amigo, Floriano não o mata em defesa do pai, mesmo depois que este já havia sido alvejado pelo Tenente no ombro. Floriano foge então sendo chamado de covarde pelo pai. O homem, Tenente Bernardo Quaresma, estava acuado no escritório, não tendo sentido a explosão das granadas por estar acompanhado de um cachorro, que depois assombrou Santa Fé. Rodrigo acaba por dar o primeiro dos tiros que mata este Tenente, que era apaixonado pela mulher com quem Rodrigo estava traindo Flora na época, uma poetisa. Rodrigo passa a se atormentar pela morte de Quaresma a partir daquele dia. Depois ele se encontra com Getúlio Vargas na estação, faz um discurso dramático e parte para o Rio de Janeiro.

    Noite de Ano-Bom mostra um único dia: 31/12/1937. Começando com o enterro da mãe de Arão Stein, que se encontra na Guerra Civil na Espanha, financiado por Rodrigo. Eduardo, influenciado por Stein, já principia a militar o comunismo. Floriano se sente um covarde por não ter revelado à Sílvia seus sentimentos, que agora percebe o quanto eram profundos ao vê-la, no dia de seu noivado com Jango. Então se lembra do relacionamento com a americana no RJ que o afastou de Sílvia. Já aqui a história se foca mais em Floriano que Rodrigo e mostra o quão corrompida foi a família desde 1930. O noivado realiza-se sob um clima pesado com Rodrigo defendendo, apesar de ainda não ter digerido, o Estado Novo, de todos inclusive de seu irmão Toríbio. Escala também o nazi-fascismo em Santa Fé. Corre tudo relativamente bem, exceto pelo desentendimento entre Toríbio e Rodrigo, até que alguém propõem um brinde à Getúlio Vargas e ao Estado Novo. Toríbio se revolta, faz um pequeno escândalo e sai com Floriano para um baile numa das favelas de Santa Fé. Tentando seduzir uma jovem mulata, mete-se numa briga com o outro pretendente. Floriano ainda ataca um de seus inimigos com uma garrafada (gesto que não pode realizar em prol do pai), mas era muito tarde. Toríbio é ferido na virilha e se esvai em sangue, chegando morto ao hospital, suas últimas palavras sendo “Um piazinho de merda… “.

    De O Diário de Sílvia vem o preenchimento dos anos seguintes à tragédia, com impressões sobre seus sentimentos em relação a Floriano, quase idênticos aos que este sentia; o casamento infeliz e sem amor com Jango; as dúvidas quanto a sua religiosidade; a correspondência com Floriano; as confidências com e de Arão Stein (de volta da Espanha. Mais tarde expulso do PC, começa a enlouquecer) e Zeca (já usando o nome de Irmão Toríbio). Lembra-se também da infância infeliz e como idolatrava a “gente do Sobrado”, sentindo-se em incesto quando dorme com Jango. E registra as reações em relação à guerra, a volta de Don Pepe Garcia e o que Floriano lhe escreve dos EUA.

    Encruzilhada, a última parte, tem um título que define a situação em que a família e o país se encontram naquele final de 1945: estão numa encruzilhada da vida. Começa a história com Arão Stein, enlouquecido pela expulsão do PC se matando, enforcado na figueira na praça central de Santa Fé. Em seguida passa-se seu funeral e enterro (Rodrigo não fica sabendo), onde Floriano, Zeca e Roque Bandeira discutem mais uma vez. Stein é enterrado sem ter a alma encomendada, como todo suicida. No Sobrado, Floriano se cruza com Sílvia, abraça-a e beija-a, mas ambos se separam e ela foge. Depois ele e Sílvia tem uma conversa séria e ela lhe entrega para ler seu diário. Antes de lê-lo, Floriano tem a conversa definitiva no qual desabafa tudo o que pensava e sentia sobre sua relação com o pai, cortando definitivamente o cordão umbilical que os prendia, reconciliando-se com ele e consigo mesmo. Rodrigo, já liberado por Dante para voltar ao Rio, manda Sônia, sua amante de volta antes e planeja romper com ela. Floriano sobe até seu refúgio no sótão e lê o diário de Sílvia, sente-se afinado, inveja Zeca por ter com ela uma intimidade que ele nunca terá e finalmente lê a última frase onde ela revela estar grávida. Rodrigo e Flora ouvem isto e ficam felizes. Rodrigo prepara-se então para voltar ao RJ, mas morre antes. Seu funeral se processa como era de se esperar. Na noite de Ano-Bom acontece a festa tradicional, morre Laco Madruga, vê-se todos os personagens por uma última vez e muito é revelado. Floriano planeja construir as pontes que ligarão sua ilha a este Arquipélago de pessoas. E ao final, enquanto o neto de Alvarino Amaral, admirador do escritor e conterrâneo Floriano Cambará, compõem seu primeiro poema e pensa em se aconselhar com ele, Floriano escreve as primeiras linhas de seu romance catártico que contará a história de sua família: as primeiras palavras de O Tempo e O Vento.
    null