O Lustre

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  • ANÁLISE – O LUSTRE  DE CLARICE LISPECTOR

    Por: Rebeca Guerreiro (ex-aluna de Mecatrônica da Fundação Nokia de Ensino)

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    PERSONAGENS:

    Virgínia:

    Antes de tudo, vale lembrar como as personagens de Clarisse são fantásticas. Fantásticas porque fogem completamente do ordinário real, e inclusive do ordinário fictício; fantásticas porque a autora teve clara preocupação em construir caracteres deformados psicologicamente e fazê-lo através de um prisma ambiguamente idealizado. Enquanto Virgínia assumia diversas vezes um perfil aparentemente estável, por muitas outras assumia outro visivelmente frágil e estúpido. Clarisse, inclusive, soubera inserir a questão do sadismo, através de Virgínia, e principalmente de Daniel. Na realidade, todos os seus personagens compartilham um pouco desta característica.

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    Virgínia claramente possuía a alma mais perturbada de todos. Dividida entre uma realidade privada e pública, Virgínia era evidentemente uma mulher simples e meio imbecilizada diante de estranhos, e outra complexamente decidida para si. Ela criava várias ligações entre os objetos que lhe cercavam, e segurava-se a estes de tempos em tempos. Também desenvolvia profunda ligação com o ambiente natural de forma geral, com as paisagens campestres com que convivera durante a infância. Necessitava criar experiências próprias que, no entanto, pouco lhe valiam nos relacionamentos que mantinha com outros personagens. Mas sua fragilidade é sempre explícita; Virgínia parecia incapaz de guiar a si própria de maneira racional, constantemente era levada pelos eventos, impulsos e instintos.

    Uma observação interessantíssima era o apreço que Virgínia nutria por seus desmaios. Era fraca quando criança e, portanto, vivia sofrendo desmaios. Era a tal “sensação de vôo rasante” que tanto lhe aprazia. Era como se fosse sua marca pessoal, algo de íntima relação com seu subconsciente.

    Mas o que mais chama a atenção no livro é o tipo de ligação que Virgínia cria com as pessoas a seu redor. São todas relações doentias, marcadas por uma negatividade evidente. Seu envolvimento com o irmão Daniel, é um fator de mister relevância na obra. Mesmo longe, Daniel está sempre presente na vida da protagonista, pois Virgínia sempre teima em trazer-lhe a lembrança. Mas seu relacionamento passa longe do incestuoso afeto que poderia haver entre irmãos. A submissão e dependência da personagem em relação a Daniel são mal-interpretadas pela crítica geral. Para existir incesto, carece de uma ligação sexual, ainda que não efetivada, mas ao menos existente no plano psicológico. Tal fato nunca perpassa pelas almas destes dois.

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     Virgínia tem pelo irmão uma submissão incondicional, um apreço inimaginavelmente ignóbil; ignóbil sim, uma vez que Daniel lhe dá diversos motivos para odiá-lo. Como afirmado anteriormente, este se constitui de um relacionamento doentio, resumido nos sentimentos de poder e controle por parte de Daniel, e de entrega completa por parte de Virgínia. O mais interessante de tudo é que, apesar do irmão tratá-la infinitamente mal (acredito que nunca lhe dirigiu a palavra sem xingá-la de idiota ou algo do gênero), Virgínia permanece-lhe fiel, ainda que totalmente consciente do desprezo com o qual é cercada. Pois definitivamente o apreço de Virgínia não é ignorante, mas consciente da natureza da opinião e consideração que Daniel nutria sobre si.

    Em segundo plano, temos a relação amorosa de Virgínia com seu amante Vicente. Não é possível achar muitos indícios de um real sentimento da protagonista em relação ao namorado. Sempre confusa, Virgínia entregava-se a uma relação apenas por inércia. Não parecia ter reais sentimentos pelo homem a quem se dava, ou, se os tinha, tudo assomava e submergia-se de forma ligeira. Envolvera-se com Vicente porque lhe fora cômodo, e de certa forma natural. Mas ambos mantinham uma intimidade superficial, se assim é possível afirmar.

    Algo que sempre retornava como clara característica de Virgínia, era o fato de ser vesga, estrábica. Tal fato, aparentemente irrelevante, parece comportar todo o leque comportamental da personagem: Virgínia era vesga, enxergava o mundo de forma torta, uma visão gauche da vida. Ela era por si torta, se o vocabulário permite-me assim defini-la.

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    Com relação a quaisquer dos outros personagens, Virgínia apresentava sempre um comportamento e visão superficiais, como se estes não lhe fossem relevantes. Com a mãe e irmã, por exemplo, Virgínia enxergava-as apenas de forma limitada, via-as isoladamente definidas, uma pela velhice e isolamento, a outra pelo seu insucesso em livrar-se do jugo paterno e casar-se. Nada de mais importante ligava-a a estas personagens.

    Por último, temos a primeira definição de Clarisse por sua personagem, o princípio de toda a história:

     “Ela seria fluida durante toda a vida. Porém o que dominara seus contornos e os atraía a um centro, o que a iluminara contra o mundo e lhe dera íntimo poder fora o segredo.”

    De alguma forma, esta definição marcou-me, e tudo que resta de valioso em Virgínia concentra-se em seu centro, o “segredo”. Tal segredo permanece incubado na protagonista de forma misteriosa, até o fim da narrativa. Ele evidencia-se e resume-se principalmente no acontecimento inicial do livro, o afogamento de um estranho em um rio, na figura do chapéu do falecido (o qual bóia e é levado pela correnteza) e em sua cumplicidade com o irmão em manter aquele evento como elo eterno entre eles. O segredo raramente é retratado durante os outros momentos do enredo, mas percebe-se, sente-se sua presença e influências na vida de Virgínia. É o mistério, o segredo, o clímax de sua personalidade.

    Daniel: Aqui temos o polêmico Daniel, irmão e companheiro de Virgínia. A interação com a irmã data desde os primeiros momentos infantis, e certamente figura como um dos mais relevantes relacionamentos da vida da protagonista, apesar de todo toque singular (antipático) concedido pela autora à personalidade de Daniel. Ele é, desde criança, um ser independente, e como se sabe, controlador. Sua independência, no entanto parece resvalar na incongruência de suas atitudes, pois sempre é levado à interação com a irmã. A impressão maior, é que Daniel necessitava de Virgínia para entretenimento próprio, como um vício, apesar de considerá-la tola e desprezível.

    “Costumava então dizer como se se dirigisse a alguém ausente que pudesse compreendê-lo melhor, enquanto Virgínia atenta e curiosa escutava: – Ela é tão tola que tudo para ela é fácil.”

    Surgem então suas diferentes habilidades de manipulação. Cria a Sociedade das Sombras, sem qualquer propósito racional, apenas por embarcar na situação de viver um segredo obscuro. Tendo o sadismo como ponto de partida, Clarisse vale-se de Daniel como ponto chave do jogo de poder. Pois afinal, Daniel usa Virgínia de todas as formas para seu bel-prazer, tendo sempre em vista o simples objetivo de prejudicar alguém, ou observar as conseqüências danosas de suas ordens. Seu espírito independente segue-o vida afora. Apesar de morar com Virgínia na cidade grande, e até mesmo de casar-se, Daniel não parece criar laços profundos com ninguém, ou ao menos demonstrar qualquer carência afetiva. Vale lembrar que seu matrimônio com Rute não chega a ser detalhadamente abordado.

    Esmeralda:

    Esmeralda foi apresentada como uma moça bonita, de traços regulares e aspecto mais forte, ao contrário de Virgínia. Tinha, no entanto, uma personalidade mais nervosa, mais cáustica. Explodia em diversos momentos. Envolveu-se com um rapaz no tempo de Virgínia-criança, e cuja delação ao pai encadeou o fim do romance. Esmeralda passou o resto dos dias na companhia dos pais, e ao final do enredo, quando se encontra com Virgínia novamente, aparenta um aspecto frustrado de vida, por ter não ter casado e vivido sempre sob jugo paterno. Mas algo interessante é que, ainda assim, não pensaria em fugir, abandonar por esforço próprio a casa dos pais.

    Mãe e Pai:

    Os pais de Virgínia são bem pouco retratados no romance. O marido figura como aquele chefe de família teimoso e autoritário; a mulher apresenta-se como frustrada, tendo apenas em Esmeralda uma alegria de vida. Tinha-a como o primor de sua existência, e não dava tanta importância nem a Virgínia quanto a Daniel.

    Vicente:

    Não há nada de muito complexo em Vicente. Este se envolve com Virgínia, também por um jogo de comodidades. Por raras vezes chega a estimá-la, mas ao todo, parece entreter com esta uma relação mais superficial do que verdadeira. Na realidade, fazer qualquer afirmação sobre este romance destes dois assume um caráter precipitado, pois ele sempre apresenta controvérsias. Configura-se quase como uma alternância bizarra entre um amar confuso e uma atração apenas física. Certo que isto parte quase que inteiramente de toda a arte narrativa de Clarisse, que sempre insiste em ora opor conceitos, ora em uni-los. Ao total, considero que não me é possível obter uma análise mais completa deste personagem, uma vez que não me recordo tão claramente dos momentos de interação deste com Virgínia.

    Adriano:

    Adriano compõe um papel de elevada importância no romance, apesar de breve. Parece ser ele o único indivíduo que reconhece e sente Virgínia em sua plenitude, parece ser o único a aprofundar sua opinião e parecer sobre a protagonista. Esta, sempre fora vista por Adriano como tola e superficial. Mas por algum motivo ele sentia-a verdadeira, e sua pessoa, todo aquele balanço entre tolice e mistério, despertavam-no uma verdadeira inclinação a si. Tinha por ela uma admiração inquieta, inexplicável. E, portanto, Clarisse opta por encerrar o romance sob a perspectiva singular deste homem, pois afinal, fora ele quem mais tomara interesse na personalidade e cerne de Virgínia – apesar de nunca ter vencido a barreira de orgulho e indiscrição, cuja ausência poderia levá-lo a um relacionamento mais profundo com a protagonista. Esta, por sua vez, via-o com igual inquietação, pois se não sentia à vontade com ele; considerava que Adriano estava sempre a analisá-la e julgá-la (o que era perfeitamente verdadeiro). No fim, temos a impressão de Adriano sobre o enlace final do romance:

    “Prostituta, suspirou ele. A morte inacabara para sempre o que se poderia saber a seu respeito. A impossibilidade e o mistério cansaram com força seu coração. […] E de súbito não saberia se era gelado êxtase ou de sofrimento intolerável – porque neste único instante para sempre ele a ganhara e a perdia – de súbito, numa primeira experiência de vergonha, ele sentiu dentro de si um movimento horrivelmente livre e doloroso […]”

    ENREDO

    O romance pode ser dividido em três partes principais (arbitrárias):

    Parte I:

    A narrativa principia com o episódio do homem afogado (e seu respectivo chapéu). Logo o cotidiano de Virgínia e do casarão de Granja Quieta passam a serem introduzidos, todos no modo Lispector de narração. A personalidade de Virgínia passa a ser moldada: sua repulsa por comida e seu talhe frágil (a protagonista refere-se a si como uma “magrela”), seus consequentes desmaios, sua intimidade com a natureza de Granja Quieta, com sua avó, mãe, irmã, etc. Mas principalmente seu relacionamento com Daniel, o qual é apenas detalhado nesta primeira seção do romance. Logo surge a chamada Sociedade das Sombras, que nada mais é do que um meio inventado por Daniel para fazer experimentos psicológicos com a irmã. Os “encontros” da Sociedade ocorriam na clareira de um bosque perto da Granja, onde os irmãos deveriam encontrar-se durante o crepúsculo, o que daria um ar mais sombrio às reuniões. A Sociedade das Sombras, na realidade, era apenas um contrato simbólico do poderio de Daniel sobre Virgínia, pois afinal a menina faria qualquer coisa que o irmão ordenasse, com ou sem Sociedade. E Daniel, por sua vez, experimentava um novo meio de controle, consoante todas as definições da Sociedade eram dadas por ele somente: Daniel era “sumo sacerdote”, intérprete da vontade da Sociedade. “A Sociedade das Sombras falou”, este era o parecer final, que encerrava quaisquer protestos de Virgínia sobre as ordens do irmão. Mas tudo Virgínia realizava prontamente; para ela a Sociedade das Sombras poderia ser completamente resumida no seguinte trecho: “A Sociedade das Sombras aproximava-a tanto de Daniel! Ele a admitia diariamente. Mesmo ela amava os segredos com ferocidade como se eles fossem da sua espécie.”

    “A sociedade das Sombras tinham objetivos obscuros e indefinidos. Eles mesmos não os conheciam e misturavam seus mandamentos a uma ignorância quase desesperada”

    Logo Virgínia passa a realizar tarefas irracionais, como trancar-se no sótão por um dia inteiro. Em sua última ordem, Virgínia conta ao pai o segredo de sua irmã Esmeralda, o qual consistia no fato dela encontrar-se diariamente com um homem no jardim. Neste andar dos acontecimentos termina a primeira parte da narrativa.

    Parte II:

    Há um salto indefinido de tempo entre a parte I e II do romance. Neste Virgínia já é mulher feita e mora sozinha na cidade grande. Daniel já não esta consigo, e seu namoro com Vicente permanece “firme”. Virgínia não mais se alimenta pouco, no entanto relata comer muita porcaria, doces e etc. Por isso está uma moça mais cheia, contudo, não mais saudável. Seus desmaios, estes sim, tornam-se escassos. Virgínia relata em seus pensamentos como Daniel se casara e voltara para Granja. Logo decorre um jantar a que Virgínia comparece, e toda a ação que se passa neste encontro serve como pano de fundo para a autora expor o perfil social da protagonista. No jantar estão Vicente e seu amigo Adriano, bem como uma moça denominada Maria Clara. Esta, moça bonita e sociável, recebe a devida admiração de Virgínia, mas dentro das limitações características de sua personalidade. Após a narração do jantar, a qual toma uma atenção relativamente grande da autora, a construção do enredo torna-se mais fluida. Acontecimentos do passado passam a ser relembrados por Virgínia. Cronologicamente temos sua chegada à cidade, sua instalação com Daniel, a partida deste. Depois temos a mudança de Virgínia para a casa das primas, figuras antipáticas que, no ato de acolhê-la, sentem-se no direito de explorá-la. Na realidade, uma delas era bem relevante e imparcial à presença da nova hóspede, enquanto outra, a mais mirrada e de frágil saúde, esforça-se por explorá-la. Logo uma inimizade nasce entre as duas, até o ponto em que Virgínia abandona a residência e passa a alugar um apartamento com o dinheiro que o pai lhe envia. A autora nunca é específica quanto a este fato, mas pelo decorrer do enredo, ela dá a entender que Virgínia não possuía trabalho ou atividade alguma, ao passo que seu pai pensava que ela estava a estudar na cidade grande.

    Um episódio em especial recebe destaque na vida de Virgínia, o qual se resumia no relacionamento que ela manteve com o porteiro de seu prédio. Não houve nada no âmbito sexual, apenas uma “amizade” de tom estranho. Ele subia sempre a seu apartamento para tomar café e eles conversavam por longo tempo. Chegaram até mesmo a ler a bíblia, por iniciativa do porteiro. Mas quando ele relatou que sua mulher reclamara de suas relações com Virgínia, quaisquer laços se romperam.

    Logo depois as naturezas do namoro de Virgínia com Vicente passam a ser retratadas com maiores detalhes. Até o ponto em que esta decide retornar à Granja Quieta, por pretexto da morte de sua avó. Ela não relata nada a respeito da partida ao namorado, levando-a apenas a passar uma última noite de maior profundeza sentimental com seu amante.

    Parte III:

    Nesta parte temos Virgínia realizando sua viagem de retorno à Granja Quieta. Ao chegar, reconhece a casa de modo diferente, e inicialmente sente-se deslocada do meio familiar. Passado algum tempo, sente-se parte da família novamente. Vale lembrar que sua família tinha hábitos tanto individuais como coletivos, simultaneamente. Eles tinham encontros definidos, como nas refeições diárias; estas eram praticamente invioláveis. Mas não mantinham um relacionamento fraterno e amigável entre si. Virgínia passa apenas a ter um contato maior com a irmã mais velha, com quem conversava sobre a cidade grande e os acontecimentos de Brejo Alto. Mas tudo por demasiado superficial. O relacionamento familiar figurava como um círculo vicioso, do qual todos necessitavam por um motivo obscuro, mas que os faziam frios e ranzinzas. Virgínia tem seu contato parcialmente retomado com Daniel. Na realidade ele mostrava-se sempre distante, até um episódio tal, relatado por Clarisse, como um diálogo clímax entre os dois. Acompanhe-o em um tópico mais abaixo.

    Após certo tempo Virgínia decide por fim retornar à cidade grande. Ao pisar os pés nesta, no entanto, a protagonista d’O Lustre encontra seu fim ao ser atropelada por um automóvel. O chouffer que o dirigia foge, e logo uma multidão cerca a finada; a mulher do porteiro acusa-a de prostituta, afirmando que recebia seu marido em seu apartamento. Adriano assiste assombrado ao desfecho daquela mulher que tanto o perturbou e fascinou. É este que recebe a epifania Lispector ao final da narrativa: “alguma coisa mortal abrindo no seu peito uma clareira violenta que talvez fosse um novo nascimento.” O chapéu que Virgínia usava antes de sua morte, no entanto, recebe atenção somente nos instantes predecessores à sua morte, não recebendo o mesmo enfoque que o chapéu do afogado no início do romance. Mas definitivamente deve haver alguma relação com o fato da autora ter dado uma atenção especial e aparentemente “despretensiosa” ao chapéu de Virgínia, momentos antes de sua morte.

    ESPAÇO

    A narrativa passa-se em 3 espaços principais:

    Granja Quieta, Brejo Alto e a “Cidade Grande”. Granja Quieta era a propriedade familiar que comportava o casarão da família de Virgínia. Brejo Alto era a cidadezinha das cercanias de Granja Quieta, onde o pai de Virgínia possuía uma pequena papelaria. A Cidade Grande não é especificada como nenhuma metrópole brasileira. Sabe-se apenas que era litorânea.

    TEMPO

    O tempo na narrativa não é estritamente linear, apesar de haver uma seqüencia quase ininterrupta dos acontecimentos. Por isto mesmo, em vários pontos, este tramita entre uma sucessão cronológica e psicológica dos fatos, onde a narração é contínua, mas que não necessariamente assume a linha real do enredo. Aqui vai uma explicação mais clara:

    O enredo se dá em torno de Virgínia e o princípio do livro narra seus primeiros momentos infantis. Após um salto de tempo, Virgínia aparece-nos mulher feita e já mora sozinha na cidade grande. A partir de então, a prosa intimista de Clarice permite-nos sondar o desenvolver da protagonista neste meio tempo em que ela passa de adolescente à mulher, através dos devaneios e flash-back’s da personagem. Todas estas regressões pessoais, no entanto, também não obedecem a uma ordem cronológica. Por exemplo, a partir de fatos esparsos, Virgínia é levada através de recordações diversas, que, ao total, culminam na formação do quadro completo diante dos nossos olhos. Por último, a narrativa retoma uma forma linear quando Virgínia é levada de volta à casa paterna, e por fim, quando morre no primeiro momento de seu retorno à cidade.

    SOBRE A NARRATIVA

    A um primeiro momento, há sempre de se concordar na profundidade da literatura Lispector. Ler O Lustre torna-se uma tarefa praticamente impossível se tomada a rápido fôlego, isso por que a densidade da leitura cansa qualquer um. No entanto, tal característica não indica uma falta de habilidade da escritora em tornar sua narrativa clara, mas evidencia o principal fato de nós, leitores humildes, não conseguirmos seguir a áurea linha intimista da autora. A habilidade narrativa de Clarisse é especial, e excede qualquer outra que já tenha visto anteriormente. É, por conseguinte que, com muita paciência, pode-se ler a obra, e absorvê-la de todo, como um sopro de fluido de leitura. A definição do professor Roberto Corrêa vem melhor resumir e centralizar o estilo do livro em questão: “Não se trata de um livro ou de uma estória a ser contada. Trata-se de valiosa e impressionante operação de arte. Por isso não é possível reter na memória, senão naquela que se encontra distribuída por todo o corpo, envolvendo especialmente a respiração e o sangue.”

    FOCO NARRATIVO

    O foco narrativo dá-se principalmente em 3ª pessoa, com um narrador observador. Contudo, constantemente a narração impessoal mistura-se às impressões dos personagens, e a narração ganha outras formas de expressão com a ocorrência dos discursos indiretos livres. O texto, de forma geral, é muito parcamente provido de diálogos, um dos principais motivos para tornar a narrativa um tanto cansativa. Os diálogos e os personagens inclusive, todos eles, estão em sintonia com o processo lógico da autora. O que torna a literatura Lispector um tanto surreal, pois é ignóbil pensar que todos os seres humanos tenham uma linha de raciocínio e uma sensibilidade tão singular como as de sua criadora.

    O foco está todo voltado para Virgínia, mas eventualmente ele toma outras perspectivas. Como quando, ligeiramente, algumas frações do enredo são tomadas através do prisma de outros personagens (Vicente, Adriano, Daniel, etc).

    O LUSTRE

    O lustre do casarão de Granja Quieta, objeto que dá nome à obra, é citado apenas duas vezes durante a narrativa: uma no início e outra no fim. Nestas duas citações, o Lustre é rapidamente retratado, e não obtém uma atenção toda especial da autora. Constatar, portanto, o motivo que levou Clarisse a escolher este nome para a história de Virgínia torna-se obscuro, ao menos com as impressões de uma primeira leitura. Talvez esteja calcado na idéia da iluminação do objeto, pois de toda a obra, a impressão que nos sobra é a de que Virgínia não era “iluminada”, que passara sua vida na obscuridade de sua fragilidade psicológica. O Lustre poderia representar a luz, cuja carência se fazia tão presente na vida da protagonista.

    “A sala. A sala cheia de pontos neutros. O cheiro de casa vazia. Mas o lustre! Havia o lustre. A grande aranha escandescia. Olhava-o imóvel. Inquieta, parecia pressentir uma vida terrível. Aquela existência de gelo. Uma vez! Uma vez a um relance – o lustre se espargia em crisântemos e alegria. Outra vez – enquanto ela corria atravessando a sala – ele era uma casta semente. O lustre. Saía pulando sem olhar para trás.”

    Ah, o lustre. Ela esquecera de olhar o lustre. Pareceu-lhe que o haviam guardado ou então que não tivera tempo de procurá-lo com os olhos. Sobretudo também não vira muitas outras coisas. Pensou que o perdera para sempre. E sem se entender, sentindo um certo vazio no coração, pareceu-lhe ainda que na verdade perdera uma de suas coisas. Que pena, disse surpreendida. Que pena, repetiu-se com arrependimento. O lustre… Olhava pela janela e no vidro descido e escuro via em mistura com o reflexo dos bancos e das pessoas o lustre. Sorriu contrita e tímida. O lustre implume. Como um grande e trêmulo cálice d’água. Prendendo em si a luminosa transparência alucinada o lustre pela primeira vez todo aceso na sua pálida e frígida orgia — imóvel na noite que corria com o trem atrás do vidro. O lustre. O lustre.

    FRATERNIDADE EM FOCO

    Por fim, o mistério, o segredo que une e envolve os irmãos Virgínia e Daniel, reúnem-se em um ápice, um momento todo especial, criado por Clarisse, que parece contradizer tudo o que fora demonstrado anteriormente a respeito destes dois. Pela primeira vez Virgínia parece repudiar Daniel, ainda que muito brevemente. Pela primeira vez Daniel parece sustentar uma fragilidade. Ao todo o leitor é pego de surpresa com este diálogo, cujas raízes não podem ser por força compreendidas no todo, ao não ser por extensiva e cuidado análise do livro e de todo o conjunto de obra Lispector. Observe a seguir o mágico trecho o qual encerra este episódio de interação fraternal:

    Olhou para Daniel, a sombra flutuante do galho obscurecia e clareava seu rosto, ela adivinhou  em surpresa que ele se apaixonara por Rute. Amor não é tudo o que resulta em filhos! A frase voltou-lhe de novo  sem sentido, importuna e cansativa. E então não só a frase como o próprio mover-se, os próprios sentimentos, o silêncio sorridente de Rute, a dificuldade, a paz, tudo   misturando-se na mesma matéria lenta e grossa e ela respirou o ar, a existência pura, com um suspiro vencido, quase colérico.

    — Por que você não me interrompeu? disse ele.

    Mas… Como?… o que dizia ele?! Nada perguntara… De súbito entendeu, não olhou, contendo o rosto duro e tenso.

     — Por que você não me interrompeu… você devia saber que era por uma espécie de desespero. Eu estou tão perdido— ele apertava os olhos, o rosto calmo, as mãos sob a nuca; os dentes opacos engastados em gengivas quase brancas, porque ele parecia sorrir — eu estou tão perdido.

    Porque você me deixou errar… A falta de pudor, essa brutalidade em confessar-se. Achou-o truculento e voluptuoso, esse homem a quem só sucedia o que ele podia compreender. Para isso é que eu vim, para defrontar um animal, ela quase o odiou, oh aquela gente de Irene tinha razão em rir dele, olhou-o com crueza sentindo o próprio rosto vermelho de perturbação. Como ele estava velho, a face queimada, as rugas… olhou-o desesperada, apertou os dentes: mas não, se ele envelhecer que é que eu faço? ele não pode envelhecer, não pode, não pode.

    — Por que você me deixou errar? repetiu ele de repente, sua voz monótona assustou-a. Desespero? não, ela não o sabia. Juro, Daniel, juro, como é que essa tola e egoísta que eu sou adivinharia — reviu-se no apartamento nada fazendo, olhando pela janela, desejando vilmente alguns homens, esperando, odiou-se profundamente surpreendida de ter esquecido que Daniel era o mais importante. Mas ao mesmo tempo como esquecer que desde pequenos… ela querendo chamá-lo e não podendo, ele não ouvindo… o chapéu… Ele nunca saberia como fora difícil dar-lhe uma palavra para pedir socorro ou ajudá-lo, como ele era sozinho desde sempre. O coração doendo, ela disse:

    — Você erra com uma força que não se pode deter… Acho mesmo que errar com essa violência é mais bonito do que acertar, Daniel, é como ser um herói… — Sim, ela dissera afinal. Como se ouvisse a si própria, repetiu com doçura e tranqüilidade:— Você é um herói.

    Ele nada disse, ele sabia, fechava os olhos suportando a própria vida. Ela se lembrou de quando ele dizia: não quero ser um rapaz. Olhou-o com delicadeza. Ele era um homem. Os meninos e as meninas deveriam tanto mudar de nome quando cresciam. Se alguém se chamava Daniel, agora, deveria ter sido Círil um dia. Virgínia — ela inclinou-se para o próprio interior pensativa, enquanto Daniel parecia adormecer sob a árvore — Virgínia era um apelido cheio de paz atenta como de um recato atrás do muro, lá onde cresciam finas ervas como cabelos e onde ninguém existia para ouvir o vento. Mas depois de perder aquela figura perfeita, magra, tão pequena e delicada como o maquinismo de um relógio, depois de perder a transparência e ganhar uma cor, ela poderia se chamar Maria Madalena ou Hermínia ou mesmo qualquer outro nome menos Virgínia, de tão fresca e sombria antigüidade. Sim, e também poderia ter sido em pequena tranqüilidade Sibila, Sibila. Virgínia… Suspirou com um movimento de cabeça. Como que não suportava o passado de Virgínia e de Daniel. Sentada sobre as pernas, olhou-o — houvera um tempo em que ela parecera essencial possuir um ímã. Certas pessoas às quais parecia ter sido dado o destino de viver de novo a vida. Ele moveu-se, adivinhou a presença da irmã, ela agitou as mãos, os dois se pareciam tanto naquele momento, eles sempre haviam sido iguais. Um longo caminho levara-os até aquele instante. Eles se sentiram tão sinceros que se olharam rapidamente com apreensão. Ele cerrou os olhos; ela fixou o ar distante, tão dolorosa era a respiração tensa, tão irmãos eles se sentiam, tão dispostos a olhar o mundo juntos, com interesse e zombaria como numa viagem enfim, com pequenas notícias e silêncios absortos, sim, fazendo de tudo uma brincadeira, de tudo, tão impossível era a viagem, tão cheios de amor para sempre, para sempre… E que seria sepulto em segundos sob o decorrer dos instantes maior que a eternidade. Oh, dai-lhe um instante de verdadeira vida, o belo rosto alargado em cor e esperança! Ela encostou-se à árvore com os olhos esgazeados. Urgia dizer alguma coisa com cólera, com alegria, que a violência rebentasse o ar em fulgor, revoltar-se, compreender- se!, que surgisse um cavalo correndo pela campina, que um pássaro gritasse, Como se uma pedra começasse a falar, ele disse e ela o ouviu de coração surpreso — fora um pressentimento? — batendo oco já um começo de tranqüilidade, ele disse calmo, sempre de olhos fechados, num tom tão vulgar: — Que demônio faz com que eu queira me parecer comigo mesmo.

    Nunca ele diria “nós”. Ela ficou olhando para o chão, a vara dura e quebradiça deixava-lhe nas mãos cinzentas pedaços de madeira podre. O sol abria-se esbranquiçado sobre o jardim, as formigas corriam sem ruído, quase sem tocar com as finas pernas o chão resistente. Um vento baixo e insinuante soprava as folhas secas ao redor da árvore. Ela disse, a vara arranhando de leve o chão:

    — Se você soubesse como a vida pode ser delicada.

    Ambos permaneceram de rosto inexpressivo e suspenso numa tranqüilidade indecisa e atenta. As leves patas de um passarinho pisaram alguma folha que se mexeu, as sombras amansavam e aprofundavam o velho jardim. Ele penetrou num bom silêncio até que Daniel perguntou, encostando-lhe de súbito uma ponta gelada no coração:

    — E você?

    — Eu sou amante de Vicente, ouviu-se responder.

    — Feliz?

    — Você sabe, sempre o mesmo, eu não poderia ser mais feliz do que sou, eu não poderia ser mais infeliz do que sou.

    Ele balançou a cabeça assentindo. E como ela não pudesse suportar nem um instante mais, ergueu-se com um pequeno grito lancinante:

    — Vamos andar!?

     Ele disse:

    — Não, eu vou entrar — levantou-se e caminhou para longe dela e como no dia do afogado, de novo ela não saberia como chamá-lo, como gritar que não a deixasse nesse momento sozinha— sentou-se no pequeno espaço de relva sob a árvore com os olhos abertos, o coração batendo calmo, seco, sem sangue. Sim, talvez fosse melhor assim.

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