O Cobrador, de Rubem Fonseca

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  • O Cobrador é um livro de contos publicado em 1979, que reúne contos de Rubem Fonseca. Constituída por dez contos, a coletânea está centrada no tema da violência: a pedofilia e o aborto em “Pierrô da Caverna”; assassinato por encomenda em “Encontro no Amazonas”; as lutas armadas em “Caminho de Assunção”; tráfico de drogas, extorsão e assassinato em “Mandrake”; violência familiar e no trânsito, além de suicídio em “Livro de Ocorrências”; estupro em “Almoço na Serra no Domingo de Carnaval”; doenças infecto-contagiosas e escravismo em “H. M. S. Cormorant em Paranaguá”; grupos de extermínio em “O Jogo do Morto”. Além da discriminação social em “Onze de Maio” e a violência generalizada em “O Cobrador”.

    O escritor usa uma narrativa agressiva, com forte realismo, para retratar o submundo do crime e da violência urbana no Rio de Janeiro da década de 70.

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    Nos contos o autor passa pela Guerra do Paraguai, pelo Amazonas, passando pelo Rio de Janeiro, sempre focando figuras banais mas, que olhadas com um pouco mais de atenção, de banais não tem nada.

    O Cobrador é um livro de contos bem distintos entre si, mas que têm em comum o fato de manterem sempre o seu foco no homem sofrido. Sofrido não pela guerra ou pelas doenças, mas pelo dia a dia, que às vezes exige muito dele próprio, se alimenta de seu sangue e de sua energia psíquica sem que se dê conta, a não ser quando entra em colapso. E para representar isso, escolher as palavras certas dentro do mundo coloquial é uma arte, uma grande arte, que Rubem Fonseca exerce com maestria.

    No livro Rubem Fonseca continua a dar preferência ao espaço conflitante da cidade grande, retratando aí o universo da clandestinidade social. A linguagem do escritor, como nas obras anteriores, articula-se equilibradamente entre uma arte de texto e de contexto, valendo tanto pelo seu conteúdo semântico quanto pela sua elaboração estético-formal.

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    Passagens de obras de Machado de Assis, Haroldo de Campos, Maiakovski, Velimir Khlébnikov e Isaak Babel percorrem o tecido narrativo dos contos, fazendo parte da urdidura do texto que as engloba para com e sobre elas dialogar, valorizando-as, parodiando-as ou distorcendo-as.

    O trabalho com citações eruditas provenientes de obras da literatura nacional e ocidental se constitui como uma as principais marcas da ficção de Rubem Fonseca. Vejamos alguns contos da obra.

    O COBRADOR

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    O primeiro conto, “O Cobrador”, que dá nome ao livro, é sobre um homem que sai pelas ruas cobrando o que lhe devem. O que lhe devem? Dignidade. Quem lhe deve? A sociedade. Na primeira cena, ele está em um consultório de dentista e se recusa a pagar a conta. Por que ele pagaria alguma coisa se ninguém lhe pagava a dignidade que ele merecia? E naquele momento ele declara que não faz mais parte daqueles que são cobrados, mas dos cobradores. Mesmo que se precise de uma arma para isso porque esse preço custa muita violência e radicalismo.

    Neste conto Rubem Fonseca detalha os pensamentos de um serial killer que comete seus crimes por acreditar que a sociedade lhe deve algo. No ódio às classes mais abastadas, o ‘cobrador’ descobre o sentido de sua vida, passando a, seletivamente, matar seus ‘devedores’.

    O personagem principal de “O Cobrador” não tem nome próprio, embora faça a narração toda na primeira pessoa.

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    O narrador e suas vítimas disputam dentro da narrativa quem será o mais astuto, e assim, ganhar o jogo de dominação existente na obra: no consultório dentário, há uma disputa entre o dentista e o Cobrador, que não quer pagar pelo serviço do outro e, apesar da diferença física, o narrador sobressai-se por estar armado; na rua, com o homem da Mercedes, a luta é pela preferência de passagem, que era para ser do carro, entretanto o Cobrador atira e fere o motorista; na situação em que se defronta com o vendedor de armas, engana-o pedindo para ver outro equipamento e assim, ter condições favoráveis de matá-lo.

    O aspecto da manipulação das pessoas está sempre presente, contudo, o narrador não quer mais ser manipulado e pagar pelas coisas de que precisa. Opõe-se abertamente à sociedade capitalista e nesse sucessivo jogo de apoderação em que está envolvido, deixa transparecer a luta travada entre as classes sociais. O rico domina pelo dinheiro, enquanto o Cobrador, representante dos excluídos sociais, domina pela violência. Um exemplo é a cena do estupro: ele entra no apartamento, apenas amarra a empregada para que não o atrapalhe, porque seu interesse é única e exclusivamente estuprar a dona da casa, numa demonstração de força e poder inconfundíveis, principalmente, pelo fato de o narrador afirmar que a mulher sentiu prazer antes dele, quando normalmente nem prazer sentiria.

    Outro exemplo, talvez até mais claro, são os assassinatos do executivo e de um casal. Nos dois casos, segue-se um embate discursivo, em que as vítimas tentam convencer o narrador a pegar o dinheiro e deixá-los em paz. Quando percebem que não dá certo apelam para o emocional, o executivo diz que tem mulher e três filhos e o casal de que a mulher está grávida do primeiro filho. Não obstante, o Cobrador está disposto a continuar sua cobrança, ainda mais que, para ele, as vítimas o achavam sem capacidade intelectual por ser um marginal:

    Tirava o facão de dentro da perna quando ele disse, leva o dinheiro e o carro e deixa a gente aqui. Estávamos na frente do Hotel Nacional. Só rindo. Ele já estava sóbrio e queria tomar um último uisquinho enquanto dava a queixa à polícia pelo telefone. Ah, certas pessoas pensam que a vida é uma festa. (FONSECA, 1997, p. 19);

    Ela está grávida, ele disse apontando a mulher, vai ser o nosso primeiro filho. Olhei a barriga da mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina.(FONSECA, 1997, p. 21);

    Vamos para sua casa, eu digo. Eu não moro aqui no Rio, moro em São Paulo, ele diz. Perdeu a coragem, mas não a esperteza. E o carro?, pergunto. Carro, que carro? Este carro, com a chapa do Rio? Tenho mulher e três filhos, ele desconversa. Que é isso? Uma desculpa, senha, habeas-corpus, salvo-conduto? Mando parar o carro. Puf, puf, puf, um tiro para cada filho, no peito. O da mulher na cabeça, puf. (FONSECA, 1997, p. 25)

    Na narrativa há uma tentativa constante de dominar o outro, mas isso não acontece com o Cobrador, que no jogo da dominação vence seus “adversários” através da agressão, força, morte. Faz uso da violência para alcançar seu objetivo e justifica a sua pela do outro, visto que a rejeição social é a motivadora de seus ataques contra a sociedade. Esse sentimento aparece em alguns pontos do texto: “Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de arrancar os dentes dos fodidos”(FONSECA, 1997, p. 13); com isso, insere-se no grupo daqueles que não têm boas condições de vida, principalmente, quando o termo aparece novamente: “Na praia somos todos iguais, nós os fodidos e eles. Até que somos melhores pois não temos aquela barriga grande e a bunda mole dos parasitas” (FONSECA, 1997, p. 22); na frase: “Me irritam esses sujeitos de Mercedes” (FONSECA, 1997, p. 14); a referência é ao comportamento das pessoas que possuem um veículo desses. Na narrativa, o homem que dirige o carro buzina para que o narrador lhe dê passagem, este porém, entende que está sendo menosprezado e reage. Ainda para comprovar sua inserção no grupo de vítimas sociais, têm-se: “A mão dele era branca, lisinha, mas a minha estava cheia de cicatrizes, meu corpo todo tem cicatrizes, até meu pau está cheio de cicatrizes.” (FONSECA, 1997, p. 15) e; “Sou uma pessoa tímida, tenho levado tanta porrada na vida” (FONSECA, 1997, p. 22); ambas as expressões deixam claro que ele se sente diferente dos demais. Na primeira frase, além das cicatrizes, afirma que a mão do outro era branca, fato que volta a aparecer quando vê Ana pela primeira vez: “Eu quero aquela mulher branca!” (FONSECA, 1997, p. 22); em momento algum existe referência à cor da pele do narrador, contudo, nestas frases, fica a suposição de que não é branco. Mais um motivo para sentir-se marginalizado.

    O personagem (o cobrador) a princípio sofre porque se sente em débito consigo mesmo: não tem acesso aos objetos que possam lhe dizer quem ele é; ele não se sente um sujeito, já que se vê privado de tudo aquilo que cobra. Sem acesso aos objetos, torna-se ele mesmo um objeto sem valor, desqualificado, e a única saída é sua busca de qualificação como O Cobrador. Nesse papel, toma para si, simbolicamente, através da violência, o que lhe falta para subjetivar-se, ocupando o lugar do gozo que lhe diga respeito e que lhe é vedado.

    O Cobrador faz também uma tentativa de ascese quando sua violência não é mais a esmo e sem vinculações sociais. Agora ele já tem um motivo para matar: ele se insere, com a ajuda da namorada politizada, num clã imaginário de despossuídos, que deverá conquistar à força, o que lhes falta em confronto com os possuidores.

    O Cobrador não está livre para agir quando quiser, como se tem a impressão. Ele age com planos em mente, por mais que as coisas aconteçam inesperadamente, como acontece com a morte do motorista da Mercedes. Se o olhar estiver voltado para as suas vítimas, há então, uma outra perda da liberdade individual, porque as pessoas estão sujeitas às mais diversas formas de restrições, não só com referência aos ataques do narrador mas também em relação às atividades sociais desenvolvidas. Isso ocorre com os casais que entram na festa onde o Cobrador procura vítimas, todos entram na casa desejando um tratamento diferenciado, no entanto, são recebidos da mesma maneira.

    Esses acontecimentos levam o homem a um sentimento de desencanto da vida e a uma sensação de vazio existencial. Vazio existencial que o Cobrador busca suprir com a tentativa de incitar uma revolução, uma luta para que o ser humano venha a ter um pouco mais de dignidade ou, pelo menos, seja respeitado em sua diferença.

    “O Cobrador” levanta a questão da crise de identidade individual no princípio, para fechar com a crise de identidade coletiva; de um por um passa a matar coletivamente e com um objetivo definido: acabar com a distinção social.

    O narrador é o representante dos marginalizados. Embora criminoso, resolve inverter o jogo e “justiçar” os detentores do dinheiro e do poder, culpando-os pela sua marginalidade. Essa revelação de estratos sociais diferenciados e a divisão em grupos dentro da mesma estratificação gera a “crise de identidade”. O Cobrador não tem um comportamento fixo e unificado. É um homem que, em momentos de ódio e revolta, agride, estupra e mata pessoas, sentindo-se aliviado e de bem consigo, mesmo quando realiza atos cruéis e violentos:

    “Quando satisfaço meu ódio sou possuído por uma sensação de vitória, de euforia que me dá vontade de dançar – dou pequenos uivos, grunhidos, sons inarticulados, mais próximos da música do que da poesia, e meus pés deslizam pelo chão, meu corpo se move num ritmo feito de gingas e saltos, como um selvagem, ou um macaco”. (FONSECA, 1997, p. 23)

    Em outros momentos o narrador é capaz de extrema bondade, pois cuida da mulher inválida, proprietária da casa que mora. E ainda, em situações que se espera uma atitude agressiva, simplesmente releva, por se tratar de alguém sem condições financeiras. Ele possui também uma outra característica que desestrutura qualquer tentativa de estabelecer um padrão de comportamento: sua paixão por Ana, uma mulher integrante do meio social que o Cobrador odeia.

    Tal postura é uma das características da sociedade pós-moderna, que atravessada por diferentes divisões e antagonismos sociais produz uma variedade de “posições do sujeito”. A união do Cobrador e de Ana é, também, a própria característica da desestruturação social, pois não é apenas uma união de amor entre homem e mulher, mas a união de classes sociais totalmente opostas.

    No entanto, a aproximação dos dois não resolve o problema das diferenças, apenas destaca ainda mais a luta entre as classes sociais distintas e até mesmo dentro da mesma estratificação. Ana volta-se contra seu próprio grupo social e ainda ensina ao narrador novas técnicas de destruição, que matam mais pessoas em menos tempo.

    O Cobrador e Ana não possuem uma identidade definida, identificam-se com alguns aspectos de suas classes sociais, e também, com a classe do outro. Ela volta-se contra seu grupo quando o conhece. Ele não deixa de ler o jornal para saber se foram publicadas suas ações criminosas, em atitude semelhante às suas vítimas que aparecem nas páginas sociais do jornal.

    O vínculo entre violência e poder está, em “O Cobrador”, na luta interminável do narrador para se sobrepor à elite dominante, em que a elite seria a causadora da violência de sua exclusão social, porém com poder para extingui-la. Apesar de o Cobrador ser o causador da violência física contra as pessoas da elite, possui um poder destrutivo, mas justificado pela busca do respeito que não lhe é dado.

    Um aspecto interessante a ser abordado neste conto de Rubem Fonseca, é a incorporação em seu texto dos meios de comunicação de massa. Em “O Cobrador”, temos referência a jornais cariocas, revista feminina de moda, rádio, cinema e televisão.

    O narrador entra em contato principalmente com jornal, cinema e televisão; o primeiro ele utiliza como um meio de informação: “Leio os jornais. A morte do muambeiro da Cruzada nem foi noticiada. O bacana do Mercedes com roupa de tenista morreu no Miguel Couto e os jornais dizem que foi assassinado pelo bandido Boca Larga. Só rindo.” (FONSECA, 1997, p. 18); entretanto, põe em dúvida a credibilidade desse meio de informação, ao mostrar, na última frase da citação, que não foi o “Boca Larga” quem matou o homem. No jornal escrito, busca ainda, saber o que a sociedade faz: “Leio os jornais para saber o que eles estão comendo, bebendo e fazendo” (FONSECA, 1997, p. 18); tem-se então, a evidência do objetivo principal do narrador ao ler os jornais: mostrar a diferença social e que fará vingança contra a burguesia que mantém essa distinção. A distinção está na notícia da morte apenas do rico da Mercedes e depois: “Os jornais abriram muito espaço para a morte do casal que eu justicei na Barra. A moça era filha de um desses putos que enriquecem em Sergipe ou Piauí, roubando os paus-de-arara, e depois vêm para o Rio” (FONSECA, 1997, p. 23); já a vingança está explícita quando, logo após afirmar que lê o jornal para tirar informações dos burgueses, o narrador diz: “Quero viver muito para ter tempo de matar todos eles” (FONSECA, 1997, p. 18).

    O cinema é utilizado como um elemento de influência para sua violência:

    Com o facão vou cortar a cabeça de alguém num golpe só. Vi no cinema […] um ritual que consistia em cortar a cabeça de um animal, creio que um búfalo, num golpe único. Os oficiais ingleses presidiam a cerimônia com um ar de enfado, mas os decapitadores eram verdadeiros artistas. Um golpe seco e a cabeça do animal rolava, o sangue esguichando. (FONSECA, 1997, p. 16)

    O narrador, então, tenta decapitar um homem com um facão, não consegue em um só golpe, mas depois de vários golpes seu intento é alcançado. Tem-se ainda, a referência em que uma mulher lhe pergunta se gosta de cinema e ele fica aborrecido, pois está lendo para ela um poema seu. É uma crítica ao meio de comunicação de massa, que está fazendo com que as pessoas deixem de entender a cultura erudita: “Ela corta perguntando se gosto de cinema. E o poema? Ela não entende”(FONSECA, 1997, p. 17).

    A televisão também é um estímulo à violência do narrador. Porém, não por mostrar cenas de violência, como no cinema, mas por criar uma ilusão de que a vida é maravilhosa e sem problemas, direcionada principalmente para a classe burguesa:

    Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. […] Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar. (FONSECA, 1997, p. 16)

    O rádio e a revista feminina trazem a chamada de atenção para o fato das pessoas acompanharem a vida dos que estão em evidência social: “Eis-me de novo / ouvindo os Beatles / na Rádio Mundial/” (FONSECA, 1997, p. 18) e; “Essa fodida não me deve nada, pensei, mora com sacrifício num quarto e sala, os olhos dela já estão empapuçados de beber porcarias e ler a vida das grã-finas na revista Vogue” (FONSECA, 1997, p. 17).

    O Cobrador é um homem que, ao mesmo tempo que critica o sistema social e os meios de comunicação de massa, quer fazer parte deles. Não como membro da elite, mas reconhecido como defensor da minoria marginalizada, eliminando essa elite e pondo seus atos nas primeiras páginas dos jornais. Tornando-se, assim, não apenas um mero representante da marginalidade, mas o vingador dos marginalizados: “Explodirei as pessoas, adquirirei prestígio, não serei apenas o louco da Magnum. Também não sairei mais pelo parque do Flamengo […] escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter num pedaço de chão de terra batida”(FONSECA, 1997, p. 28).

    Em “O cobrador”, Rubem Fonseca produz curto-circuitos que desnudam personagens de todas as origens e pretensões sociais e põem marginais e figurões em pé de igualdade.

    O conto “O Cobrador” foi construído evidentemente com base nos verso de Maiakovski: “Come ananás, mastiga perdiz / teu dia está prestes, burguês”. O próprio autor nos dá a indicação, pois seu personagem, tão imbuído de ódio aos burgueses, aos bem situados na vida, chega a exclamar antes de suas vinganças: “Come caviar / teu dia vai chegar”.

    Como já vimos, este personagem, o Cobrador, não tem nada de revolucionário, é um revoltado que atua exclusivamente no plano individual, todo o tom é rebaixado, quando se compara o texto com os de Maiakovski. Os poemas capengas do “cobrador” estão aí para reafirmar isto. Sua vingança não vai além do assassínio frio e calculado e, antes de matar, suas palavras insistem numa exigência bem individual: “Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol”. Outras palavras suas antes de uma “ação”: “Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!”

    Fora destes momentos de exaltação, é um rapaz sofrido e sensível, que chega a dizer de si mesmo: “Sou uma pessoa tímida, tenho levado tanta porrada na vida”. Sua relação com a velha dona Clotilde, de quem aluga um quarto, mostra bem o carinho, a ternura de que é capaz. Quando, porém, se assume como “o Cobrador”, seu tom de voz adquire algo maiakovskyano, o maiakovskiano dos momentos grandiosos, hiperbólicos, mas evidentemente com outro timbre. Chega a dizer: “Onde eu passo o asfalto derrete”.

    O amor atinge o rapaz de modo completamente inesperado para o leitor, numa figura de moça da burguesia. E é completamente inesperado, também, o toque de erudição no seu monólogo: “Faço hora para ir na casa da moça branca. Chama-se Ana. Gosto de Ana, palindrômico”. E, no desenrolar de seu romance, refere-se a ela mais uma vez como Ana Palindrômica. Outras alusões maiakovskianas são também evidentes no conto. Numa passagem ele diz: “Estamos no meu quarto, em pé, sobrancelha, / com sobrancelha, como no poema”. Tem-se aí uma referência direta à Carta de Maiakovski a Tatiana Iácovlevla: “Na estatura / só você me ombreia, / fique, pois, / sobrancelha a sobrancelha, ao meu lado.”

    As ações individuais violentas do “cobrador”, no final, transformam-se em algo de maior amplitude, ele parte em companhia de Ana para executar morticínios; todavia, por mais que afirme: “Agora sei. Ana me ajudou a ver”, em nenhum momento se vislumbra um revolucionário.

    Portanto, em “O Cobrador”, Rubem Fonseca descreve os pensamentos de um assassino em série que pratica seus atos por sentir que a sociedade lhe deve algo. Sua cobrança é destinada a qualquer infeliz que porventura cruze seu caminho. Sua forma de aumentar e não esquecer o ódio que sente é assistir pela TV o apelo incessante de uma sociedade cada vez mais consumista. No desfecho da história, o Cobrador encontra um sentido político para sua “missão”. Ele percebe que seu ódio estava sendo desperdiçado e vaticina: “o meu exemplo deve ser seguido por outros, muitos outros, só assim mudaremos o mundo”.

    PIERRÔ DA CAVERNA

    No conto “Pierrô na caverna”, um escritor monologa com a “maquineta”, isto é, um gravador. Ele busca assim uma liberdade de expressão que a palavra escrita não lhe permitia. Quando escrevia, precisava buscar o estilo requintado que os críticos tanto elogiavam e que era apenas um trabalho paciente de ourivesaria. Por exemplo, ele jamais escreveria inconciliabilidade. Sua vida corriqueira era o oposto da alegoria sobre a ambição, a soberba e a impiedade que seu prestígio de escritor impelia a incluir numa novela. Apesar da correspondência entre o registro oral e o verbal que percebe, o uso do gravador era para ele uma libertação. Mas uma libertação com uso imoderado do literário que acumulara na memória. Surgiu então uma sarabanda de alusões a textos, a tal ponto que ele chega a usar uma frase em grego. Tem-se aí uma inversão curiosa: a oralidade é que permite uma explosão mais livre do literário verdadeiro, freado no cotidiano pelas convenções mesquinhas da “vida literária”.

    “Pierrô na caverna” ironiza a metáfora platônica a fim de enredar o tema da paixão numa corrente de sarcasmos.

    Tudo isso está mesclado com uma história do dia-a-dia, mas, também aí, o literário penetra soberano. A menininha de doze anos que ele, um cinqüentão, acaba possuindo, chama-se Sofia como a heroína de Quincas Borba. Em meio do monólogo aloucado do cinqüentão repontam ecos machadianos. “Após contemplarmos certas coisas, ou uma determinada coisa, há que mudar de vida”. Parece que ele insiste em usar, ao lado de formas bem coloquiais, outras que só o acervo de elementos literários de sua memória poderia sugerir.

    Toda a história lembra algo da Grécia, freqüentemente da Grécia contaminada pela luxúria oriental, a Grécia da decadência. O próprio nome do pai da menina reboa a princípio com a grandiosidade clássica: Milcíades. Mas, ameaçador inicialmente em relação ao “sedutor” de sua filha (parece mais certo: seduzido por ela), amolece e acaba tomando um uísque no apartamento deste (“com voz mais suave e conciliadora: com gelo”). Evidentemente, Grécia e mundo moderno se misturam, os planos do literário e do real acabam embaralhados.

    Mas, apesar de toda essa liberdade que o escritor assume diante do gravador, acaba aparecendo a dificuldade de comunicar: “Não sei, estou muito confuso, sinto que estou escondendo coisas de mim, eu sempre faço isso quando escrevo mas nunca pensei que o fizesse falando em segredo com esta fria maquineta”. E, ao mesmo tempo, toda esta dificuldade de comunicação, tão angustiosa, não o impede de contar de modo excelente uma história construída, com início, meio e fim, entre os episódios soltos e a literatura de seu monólogo oral.

    Em outros contos, igualmente, percebe-se a repercussão de textos dos escritores mais diversos.

    ENCONTRO NO AMAZONAS

    Em “Encontro no Amazonas” há uma descrição minuciosa de uma exótica viagem de balsa pelos rios amazônicos.

    Neste conto o narrador e seu sócio, Carlos Alberto, perseguem uma pessoa durante anos. “Soubemos que ele havia se deslocado de Corumbá a Belém, via Brasília, de ônibus”, começa o conto. O perseguido vinha do Sul, da fronteira com a Argentina, e de repente desaparece não se sabe em que direção: talvez rumo a Macapá ou Manaus, ou quem sabe mais a oeste, para Porto Velho e depois Rio Branco. Nem sequer as feições do homem (deduz-se que é um homem) são claras para os perseguidores. “Sonhei com ele”, diz o narrador. “Não era a primeira vez. Eu nunca o tinha visto mas sonhava com ele. Com a descrição que me haviam feito dele.” É sempre assim. Nunca se sabe quando se pisa em terreno seguro, nunca se sabe por que acontece o que está acontecendo, nem para quê.

    A arte dos contos de Fonseca é retesar a corda das palavras para que expressem o vazio do mundo, a antipatia dos indivíduos pela espécie: neles se mata e se destrói por inércia, se trepa por inércia. O amor pode destruir tudo.

    CAMINHO DE ASSUNÇÃO

    O conto “Caminho de Assunção” parece retomar, como parte de um sistema literário pessoal, certos procedimentos caros a Isaac Bábel (a frase curta e fustigante; os pormenores de cor e de cheiro que se destacam; a guerra em seu horror, dada incisivamente em primeiros planos eisensteinianos, pode-se dizer – uma sucessão de metonímias que se gravam na memória; tudo isso numa verdadeira “montagem” de episódio, em quatro páginas escassas, mas altamente significativas) teríamos assim histórias da Guerra Russo-Polonesa de 1920 repercutindo numa narrativa sobre a Guerra do Paraguai!

    Neste conto um soldado experimenta o sangue durante a Guerra do Paraguai.

    LIVRO DE OCORRÊNCIAS

    Fazendo jus a seu título, “Livro de ocorrências” conta, em detalhes, três ocorrências policiais.

    Narrado em primeira pessoa por um delegado, “Livro de ocorrências” consegue posicionar-se num interessante ínterim entre o frio e seco registro criminal e a narrativa literária.

    A primeira ocorrência relatada é de uma mulher que vai à delegacia registrar queixa contra seu marido, por agressões físicas. Ainda que a mulher se arrependa de ter ido até a polícia (“Ubiratan é nervoso, mas não é má pessoa. Por favor, não faz nada com ele.”) o delegado (cujo nome não é revelado ao longo do conto) decide ir até a residência do casal: “Eles moravam perto. Decidi ir falar com Ubiratan. Uma vez, em Madureira, eu havia convencido um sujeito a não bater mais na mulher; outros dois, quando trabalhei na Delegacia de Jacarepaguá, também haviam sido persuadidos a tratar a mulher com decência.”

    Ubiratan, um halterofilista rude e arrogante, mostra-se indisposto a acompanhar o delegado. Após algumas frustradas tentativas de persuasão verbal, o policial-narrador saca seu revólver. Mediante a persistência do desacato de Ubiratan, o delegado atira em sua coxa. O término da primeira ocorrência tem seu quê de ironia: Ubiratan, sendo levado de ambulância para o hospital por um frio delegado que em seguida o conduziria, finalmente, para a delegacia.

    A segunda ocorrência trata de um acidente: “Um ônibus atropelou um menino de dez anos. As rodas do veículo passaram sobre a sua cabeça deixando um rastro de massa encefálica de alguns metros. Ao lado do corpo uma bicicleta nova, sem um arranhão.” O motorista foi preso em flagrante por um guarda de trânsito. Uma pequena multidão contempla o cadáver em torno do cordão de isolamento.

    Duas pequenas passagens marcam essa segunda ocorrência. Na primeira, uma senhora idosa e mal-vestida tenta ultrapassar o cordão de isolamento com uma vela na mão, “para salvar a alma do anjinho”. Na segunda, uma mulher em crise histérica rompe o cordão de isolamento e toma o corpo em seus braços. Depois de muita luta os policiais conseguiram tirar o morto dos braços da mulher e recolocá-lo no chão. A ocorrência termina com o motorista-assassino em frente ao delegado. Registra o narrador: “Era um homem magro, aparentando uns sessenta anos, e parecia cansado, doente e com medo. Um medo, uma doença e um cansaço antigos, que não eram apenas daquele dia.”

    A terceira e mais breve das ocorrências trata de um suicídio. Um morador do subúrbio, casado e com um filho, estava morto em seu banheiro: “A casa cheirava a mofo, como se os encanamentos estivessem vazando no interior das paredes. De algum lugar vinha um odor de cebola e alho fritos”. Após todas as perguntas terem sido devidamente feitas à viúva, ao remexerem no corpo, este solta um gemido. “Ar preso, esquisito não é?”, diz o ajudante do delegado. Ambos riem, sem vontade. O morto, “um homem franzino, a barba por fazer, parecia um boneco de cera” não havia deixado bilhete nem nota alguma sobre seu suicídio. “Eu conheço esse tipo, quando não agüentam mais eles se matam depressa, tem que ser depressa senão se arrependem”, diz Azevedo. Por fim, Azevedo, o ajudante do delegado, urina no vaso sanitário, lava as mãos na pia e as enxuga na camisa. Fim da ocorrência.

    Observar a narrativa fonsequiana sob a lente naturalista é bastante possível em diversos momentos e em diversos aspectos. Em “Livro de ocorrências” tal pensamento não é diferente. Todas as ocorrências narradas são em subúrbios do Rio de Janeiro, envolvendo personagens quase sempre pertencentes a uma classe menos abastada. Tal ambiência também é pertinente ao Naturalismo, que, por muitas vezes, teve suas narrativas “científico-literárias” caracterizadas por personagens pobres. Se no universo Naturalista o comportamento humano é destrinchado em seus aspectos mais baixos, o mesmo ocorre no conto de Rubem Fonseca.

    Na primeira ocorrência se tem uma situação de violência doméstica, que o narrador enfatiza ser comum tendo em vista a quantidade de casos semelhantes já resolvidos por ele. Na segunda ocorrência, é narrado em detalhes um acidente automobilístico que vitimou um menino. A caracterização extremamente fria, sangrenta e detalhada da morte da criança remete diretamente a momentos clássicos da narrativa naturalista.

    Detalhes como a pequena multidão de curiosos que assistem, com certo deleite, o corpo, bem como a compaixão da idosa pobre e o desespero da mulher que abraça o defunto são cenas de concentração de massas populares onde alguns personagens tomam atitudes que tramitam entre o exagero, o absurdo e o ridículo. Por fim, na terceira e última ocorrência, tem-se o relato de um suicídio. Novamente o ambiente é pobre, e a naturalidade com que os personagens (o delegado e seu auxiliar, Azevedo) lidam com a situação chega a ponto de ambos rirem quando o morto solta um gemido devido a um pouco de ar ainda preso em seus pulmões. A narrativa é concluída com Azevedo urinando no mesmo banheiro onde estava o corpo do suicida.

    Ao término da leitura destas ocorrências, fica a sensação de que poderiam ser dez, vinte, inúmeras ocorrências. O realismo bruto contido nestas pequenas histórias remetem o leitor diretamente a um verdadeiro livro de ocorrências de uma mesa de uma delegacia, onde a cada novo dia algo surge em suas páginas.

    ALMOÇO NA SERRA NO DOMINGO DE CARNAVAL

    Neste conto de Rubem Fonseca, o narrador brinca com o diálogo e se angustia com um estupro amoroso.

    Zeca odeia sua ex-namorada e a família dela. Quando ele os vê numa festa em sua antiga casa, adquirida pela família da moça depois da pressuposta ruína econômica da família do rapaz, ele executa um plano de vingança contra a moça.

    O JOGO MORTO

    Neste conto temos a impressão de que o escritor está apresentando um tipo de história com que já nos acostumou e na qual adquiriu um domínio invejável: o conto de violência e banditismo, descritos freqüentemente com simplicidade, num tom cotidiano e isento de patético, como se a morte nestas circunstâncias fosse algo normal e aceitável.

    No caso, esta impressão se reforça pelo fato de a ação se passar na Baixada Fluminense, numa das zonas de domínio do Esquadrão da Morte. Eventualmente, alguém pode especular sobre a figura misteriosa de Falso Perpétua atribuir a tudo um tom metafísico. Tem-se, pelo menos, esta possibilidade em suspenso.

    “O jogo do morto”, é narrado em terceira pessoa e os protagonistas quase sempre são homens perturbados que se relacionam sexualmente com pelo menos uma mulher, mas dentro dessas aparentes restricões, Fonseca experimenta vários estilos e temáticas.

    H. M. S. CORMORANT EM PARANAGUÁ

    Neste conto, através de um episódio da vida de Álvares de Azevedo, o autor trata de questões como dependência econômica e cultural, escravidão, posição incômoda do intelectual etc.

    “H.M.S. Cormorant em Paranaguá” trata do período, no nosso Segundo Império, em que a hostilidade aos ingleses explodiu violentamente, culminando na Questão Christie. Aparecem aí, em profusão, clichês do romantismo, episódios que repetem a biografia de Byron, o próprio Byron também surge no texto, alusões shakespeareanas transmudam-se no kitsch romântico tão comum nos nossos poetas da época, e o personagem, em meio do seu delírio, chega a falar em versos tão pífios que se tornam tocantes.

    ONZE DE MAIO

    “Onze de Maio” é o título de um dos contos de O cobrador. Passa-se numa espécie de casa de repouso para velhos e todos vivem em cubículos. O autor põe em ação um personagem-narrador que, internado num asilo, relata os sofrimentos e humilhações dentro daquele estabelecimento. Asilo este, que mais parece uma das prisões descritas por Foucault.

    Narrado em primeira pessoa, este conto está fortemente ligados com a realidade social da época.

    Em “Onze de Maio”, o jogo de apoderação é, em princípio, apenas intelectual. O narrador, José, um professor de história aposentado, está internado em um asilo e passa a relatar o seu dia-a-dia.

    Ele sente imperar naquele lugar o abandono, a degradação, o desrespeito , a humilhação e a privação. José, num primeiro momento, parece conformado com a situação em que se encontra: “um velho inerte, preguiçoso e entediado só pode abrir a boca para bocejar” (FONSECA, 1997, p. 118); entretanto, ele percebe as coisas à sua volta, vê que estão completamente isolados da sociedade, presos em um ambiente que mais parece presídio do que lar de idosos.

    Acrescentando-se que nem mesmo entre os idosos é permitido o diálogo, devem ficar o tempo todo em seus cubículos esperando pela morte. Os idosos são condicionados a aceitar o tratamento humilhante que lhes é dado, ficam cada vez mais débeis e assim, não oferecem resistência.

    José, vítima do sistema: “Aquele ser velho me foi imposto por uma sociedade corrupta e feroz, por um sistema iníquo que força milhões de seres humanos a uma vida parasitária, marginal e miserável” (FONSECA, 1997, p. 134), percebe que seus pensamentos não podem ser vigiados e que continua sendo o mesmo homem inteligente e astuto que sempre fora. Une-se, então, aos seus companheiros, Pharoux e Cortines, para realizar um motim em busca da liberdade. A luta passa a ser não só intelectual mas também física, pois invadem a casa do diretor do asilo e tomam o poder pela força: “A idéia me agrada. A história ensina que todos os direitos foram conquistados pela força. A fraqueza gera opressão” (FONSECA, 1997, p. 135); ou seja, a afirmação é de que os oprimidos devem fortalecer-se e usar a força contra os opressores. Para o narrador, a única forma de ganhar o complexo jogo da sobrevivência.

    Neste conto, a perda da liberdade individual está em cada idoso internado, pois são vigiados diuturnamente pelos funcionários. Não parecendo um cerceamento da liberdade, mas sim um excesso de cuidados. O narrador, todavia, revela que não está sendo bem cuidado, ao contrário, a alimentação é péssima, não tem atendimento médico, não tem boas condições de higiene, os internos não podem conversar entre si e devem apenas assistir televisão e dormir. Esses acontecimentos levam o homem a um sentimento de desencanto da vida e a uma sensação de vazio existencial que José busca suprir com a tentativa de incitar uma revolução, uma luta para que o ser humano venha a ter um pouco mais de dignidade ou, pelo menos, seja respeitado em sua diferença.

    Em “Onze de Maio”, a narrativa passa-se em ambiente restrito e fechado, um asilo de idosos. Porém, a distinção social se dá em três níveis. A classe média-alta, com seus privilégios, está na figura do diretor do Lar Onze de Maio, que tem o escritório e a casa em uma torre, símbolo da altivez e superioridade, vista também em sua postura. O Proletariado são os funcionários do asilo, chamados de “Irmãos”, lembram uma instituição religiosa; são apresentados como pessoas que se deixam manipular pelo sistema e obedecem às ordens como máquinas programadas. O marginalizado é representado pelos internos, que, ao se rebelarem, desencadeiam a luta entre os estratos sociais. Nesse conto, a pressão exercida de cima para baixo, eclode com a reação violenta do narrador e seus amigos, que invadem a casa do diretor na tentativa de se sobrepor àquele que os dominava.

    O que ocorre com maior frequência na narrativa de “Onze de Maio”, é o “descentramento”. Segundo ele, Foucault fala em “poder disciplinar”, Em “Onze de Maio” o asilo é uma instituição de controle criada pelo governo da espécie humana. A vigilância e o controle são exercidos no sentido de transformar os internos em seres apáticos e de fácil manipulação. Os funcionários são controlados pela disciplina que aprenderam a ter para manutenção de seus empregos. O diretor é o representante, junto com os funcionários, desse controle das massas no sentido de evitar uma reação ao poder constituído. O narrador e seus amigos, ao reagirem, formam um grupo com o mesmo interesse, buscar a liberdade ou melhores condições, para assim, viver com mais dignidade o resto de suas vidas. Contudo, ao conquistarem a primeira etapa: fazer de reféns o diretor e sua mulher, os interesses se diversificam quando o narrador pensa na seqüência da ação, os outros dois vão satisfazer a fome com alimentos que há muito não comiam. Enquanto no narrador afloram instintos sexuais, quando deseja passar a mão no corpo nu da mulher, em Pharoux são os instintos destrutivos que afloram, quando faz pequenas perfurações no pescoço do diretor.

    Este conto, na realidade, também é baseado na diferença e na exclusão de pessoas da convivência social. Os excluídos então desafiam e questionam a autoridade constituída e as instituições em geral e, mesmo não apresentando soluções para os problemas, são valores positivos pelo simples fato de exporem o conhecimento de tal exclusão. Por estarem calcados na diferença, onde o narrador sente-se vítima do sistema social elitista e preconceituoso, o conto apresenta as “alteridades da violência”, que estão em torno de um “eu” que se sente totalmente atacado, vitimado.

    Esse “eu” de estrutura violenta está em José, narrador de “Onze de Maio”, que o possui com força permanente no ser. Ele se sente humilhado e excluído da vida social por ser velho, mas consegue transpor obstáculos aparentemente intransponíveis para um homem de sua idade. O narrador justifica sua violência, pela sofrida diante da sociedade que o excluiu e pelo tratamento recebido do diretor e funcionários do asilo, que supostamente, estariam tentando matá-lo.

    Em “Onze de Maio”, a instituição é representante do poder constituído enquanto os internos são a força que enfrenta este poder, ambos com um fim superior. A primeira, justifica a violência contra os velhos pela crise financeira do país e por eles não estarem mais produzindo; os internos justificam a sua reação violenta pela busca da liberdade e da dignidade humana. Neste conto o veículo de comunicação de massa que aparece com mais evidência é a televisão. Ela está presente em toda a narrativa, é utilizada como meio de alienação dos internos do asilo: “Vamos, vamos, veja a televisão, divirta-se, não fique aí imaginando coisas tristes, preocupando-se à toa” (FONSECA, 1997, p. 125); mas esta alienação se dá, preponderantemente, pelo fato de ser um circuito interno de televisão, que passa a mesma programação o tempo todo: “A TV fica ligada o dia inteiro. Deve haver, também, alguma razão para isso. Os programas são transmitidos em circuito fechado de algum lugar do Lar. Velhas novelas, transmitidas sem interrupção.” (FONSECA, 1997, p. 117); o narrador abre a possibilidade da televisão ser algo bom, porém, ela deve ser assistida sempre com um olhar crítico:

    Os Irmãos […] também têm televisão no quarto e assistem a outros programas que não são transmitidos para nós. Sei, por perguntas que faço inocentemente, que eles também dormem em frente ao vídeo. Televisão é muito interessante, descontando o sono e o esquecimento. (FONSECA, 1997, p. 126)

    Este conto, bem como o conto “O Cobrador”, levanta várias questões sobre a sociedade pós-moderna, mas neste trabalho o objetivo foi buscar um entendimento da crise existencial vivida pelas personagens e o porquê de suas ações violentas.

    “Onze de Maio” começa com a questão da crise de identidade coletiva e termina com a crise de identidade individual; as três personagens descobrem que estão sendo dopados e têm em comum o objetivo de libertar-se da situação humilhante, mas quando vencida a primeira etapa, perdem completamente o sentido da revolução e cada um passa a resolver o seu desejo imediato.
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