Modernismo no Brasil – 3ª Fase

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  • Contexto Histórico

    O ano de 1945 é marcado pelo final da Segunda Guerra Mundial. O conflito, que já havia dizimado várias vidas, termina de forma violenta, com a explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, promovida pelos Estados Unidos. Mesmo com o fim da guerra, a tensão existente no mundo continuava, agora através de um confronto ideológico entre os países capitalistas (sob a liderança dos Estados Unidos) e os socialistas (guiados pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS), chamado de Guerra Fria. O medo de que a guerra entre os dois blocos se tornasse armada era muito forte, visto que os dois lados possuíam um grande estoque de armas nucleares que se usadas, poderiam destruir o mundo. Esta divisão definiu os rumos políticos e econômicos no cenário mundial.

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    No Brasil, o ano de 1945 é marcado pela queda de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo. Porém ele volta ao poder através do voto popular, em 1950, onde permaneceu até suicidar-se, em 1954. No plano literário, destaca-se a morte de Mário de Andrade, em 1945  e da publicação de O Engenheiro, livro de João Cabral de Melo Neto que apresenta características inovadoras do fazer poético e indica o futuro surgimento do Concretismo, movimento artístico que promovia, entre outras coisas, a retomada do rigor formal (neoparnasianismo). É também a data do I Congresso Brasileiro de Escritores, que ocorreu em São Paulo e pôs em prova a maturidade do sistema literário brasileiro. Aparecem novas revistas literárias em todo o país, dentre as quais se destacam a paulista Clima, para a qual escrevem os críticos Antônio Cândido e Décio de Almeida Prado, a cearense Clã, a carioca Orfeu, a curitibana Joaquim, a mineira Edifício. Nas revistas e jornais, a crônica vive fase de ouro. Rubem Braga e novos escritores mineiros, como Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino renovam o gênero, exercitado pelos grandes prosadores e poetas do período.

    O país, após o período Vargas, vivia uma época de democratização política e de desenvolvimento econômico, principalmente no governo de Juscelino Kubitschek , que prometia um avanço econômico e social de “cinquenta anos em cinco”. Os Planos de Metas de Juscelino para a modernização do país resultaram em impressionante crescimento industrial, que aumentou os empregos e a renda dos brasileiros. O desenvolvimento, as grandes realizações, como a construção de Brasília, e a estabilidade política contribuíram para criar a atmosfera de otimismo dos chamados “anos dourados”. Em contrapartida, este desenvolvimento foi realizado através de vultuosos empréstimos, aumentando a dívida nacional e contribuindo para a disparada da inflação e do aumento do custo de vida.

    A indústria editorial foi bastante beneficiada pelo desenvolvimentismo de JK. Uma série de medidas, entre elas a isenção de impostos sobre o livro e a criação de subsídios para a indústria de papel nacional, levou a um expressivo crescimento do setor editorial, que em 1962 chegou a produzir 66 milhões de livros. Os principais editores do período, José Olympio e José de Barros Martins, continuaram a editar autores nacionais, alguns dos quais, como Jorge Amado, tiveram obras vendidas em larga escala.

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    Nas cidades, que cresciam em ritmo acelerado, os telefones começavam a ser acessíveis para a população e os televisores começavam a se fazer presentes. Os automóveis, símbolos do governo JK, tomavam as ruas e competiam com os ônibus. Os produtos norte-americanos, importados ou produzidos pelas multinacionais que chegavam ao país, modificavam o cotidiano: Coca-Cola, eletrodomésticos e chicletes passaram a fazer parte da vida das pessoas, assim como o rockn’roll e outros elementos culturais que caracterizavam o “american way of life”, cada vez mais admirado pelos brasileiros.

    Para muitos setores da sociedade, essa “invasão americana” não era nada positiva, e as críticas ao modelo econômico de Juscelino, que procurara atrair capitais estrangeiros, foram se intensificando. Em 1960 Jânio Quadros foi eleito presidente da República, o primeiro a tomar posse em Brasília, recém-inaugurada. Mas seu governo durou menos de sete meses: em agosto de 1961 ele pediu a renúncia, lançando o país em uma grave crise política, que terminaria por levar ao golpe militar de 1964. Durante esses primeiros anos da década de 1960, a insatisfação popular com o modelo econômico aumentou, e intensificaram-se os movimentos reivindicatórios. As Ligas Camponesas, no Nordeste, as organizações operárias e sindicais, no Sudeste, e até mesmo alas da Igreja Católica se mobilizaram por mudanças sociais.

    Os estudantes, principalmente os universitários, se tornaram cada vez mais participantes do jogo político. O ensino superior crescera, com a criação das Universidades Federais, e nas faculdades o ambiente era de questionamento do regime e da ideologia dirigente, de criação de novos projetos econômicos e políticos, de crença num ideal revolucionário que transformasse a realidade nacional. Essa efervescência intelectual e contestadora, aliada à enorme valorização da cultura brasileira, resultou, no campo artístico, na criação do Teatro de Arena e do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes – UNE, entre outros movimentos.

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    O CPC da UNE organizou e publicou, em 1962, a antologia Violão de Rua, que traz novas propostas poéticas e encerra, para a historiografia literária, a terceira fase do Modernismo. Mas apenas para a historiografia, já que poetas da Geração de 45 continuaram produzindo, assim como os concretistas, ambos os grupos convivendo com os novos autores que surgem nos anos de 1960. Para a crítica Luciana Stegagno Picchio, apesar das diferentes correntes literárias a que se filiavam seus integrantes, “a nova geração saída da guerra sente o compromisso para com a sociedade e a sua atitude é mais crítica do que inventiva. O intelectual abre-se para a interdisciplinaridade enquanto conjuga em si, como amiúde ocorre, o poeta e o crítico literário, o ficcionista e o sociólogo; vira-se para o diálogo e o exige. E não só isso; recupera do passado remoto e recente ou ainda seleciona da contemporaneidade aquilo que lhe é realmente contemporâneo. (…) Da justaposição de experiências literárias distintas e contraditórias, emerge o significado que tem, para as novas gerações, o termo “moderno”, ou melhor, “contemporâneo”. Que não está nos conteúdos, mas no modo pelos quais esses conteúdos se enfrentam. Nesse plano, não há mais fratura ideológica entre o poeta concretista que trabalha, aparentemente por puro hedonismo, o seu material linguístico, o artista pós informal, o poeta folk, o cineasta psicólogo de indivíduos e da sociedade, o crítico estruturalista e o escritor comprometido. Porque todos exercem uma atividade crítica, de denúncia, desmitificatória, sobre o material que examinam: seja essa palavra dado histórico, fato social, acontecimento político”.
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