Exercício comentado – Barroco

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  • LIVRO ARTE LITERÁRIA – BARROCO –  CLENIR BELLEZI

     (P. 94 a 96) Sermões do Padre Antônio Vieira:

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    1. Qual é o questionamento do texto (Sermão do Bom Ladrão)?

    A justiça não é igual para todos. Os verdadeiros ladrões são aqueles que detêm o poder, pois estes roubam cidades e reinos… sem temor, nem perigo: os outros (pequenos) se roubam, são enforcados.

    2. Qual é a metáfora no Sermão de Santo Antônio.

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    Peixes por homens.

    3. Quem Vieira ataca no Sermão de Santo Antônio neste sermão?

    Aqueles que detêm o poder

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    4. No Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as da Holanda, Vieira dirige-se a Deus argumentando sobre a necessidade da vitória lusitana sobre os holandeses na disputa das terras brasileiras. Cite alguns de seus argumentos.

    Os holandeses eram protestantes. Havia muitas brigas, disputas pela posse de terras, pela religião. Vieira chama os holandeses de hereges e somente os portugueses poderiam dar manutenção às terras portuguesas, pois eles (os portugueses) levariam os gentios do Novo Mundo à verdadeira fé cristã católica.

     

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    (P. 98 a 99) Cartas Portuguesa (Mariana Alcoforado):

     

    5. Leia a terceira carta, cite as características barrocas que o texto apresenta.

    Os sentimentos contraditórios. Todo o raciocínio é desenvolvido para dar vazão a esse estado do narrador. Destacam-se paradoxos: “matar-me-ia, ou morreria de dor sem me matar”; hipérboles: “encontro-me dilacerada por mil movimentos contrários”.

     

    (P. 100 a 106) Gregório de Matos:

     

    6. (Juízo Anatômico…) Este poema é explicitamente crítico, o poeta adotou uma prática formal chamada disseminação e recolha, qual é a recolha do poema?

    A recolha é última parte do verso, ex.:  verdade, honra, vergonha…

    7. Quais as  características barrocas?

    O título é essencialmente barroco, longo, exagerado…

    8. Quais  setores da sociedade são atingidos neste poema?

     Os pretos, os mulatos e os mestiços são caracterizados como seres ignorantes. O clero, como corrupto e devasso; o povo, louco “néscio e sandeu”, a milícia, corrupta.

    9. (Descreve o que era realmente…)  O que significa exatamente o verso “Que nos quer governar a cabana, e vinha..?”

    “Quer se intrometer em nossa casa e em nosso trabalho”

    10. Cite características barrocas.

    O título é essencialmente barroco, longo, exagerado, há rebuscamento…

    11. (Definição de amor) Quais as características barrocas do poema?

    Estilo rebuscado, uso de antíteses – céu / inferno; paradoxo “fel com mil doçuras” “favo com mil asperezas” e outros;

    12.   (Definição de amor) Como é retratado o amor?

    Como quimera (ilusão),  como algo que faz mal ao homem, apenas prazer carnal “quem diz outra coisa é besta”.

    13. (Rompe o Poeta…) De que forma as expressões “anjo” e “angélica” se opõem no texto?

    A palavra Angélica pode ser substantivo comum (uma espécie de flor, o que denota sensualidade) e adjetivo (qualidade de anjo, puro, imaculado). A partir dessas considerações, é possível afirmar que a figura feminina em Gregório de Matos encerra a dualidade matéria/espírito.

    14. (Rompe o Poeta…) Que tema fundamental do Barroco é desenvolvido no poema?

    Evidencia o relacionamento amoroso marcado por tensão de elementos opostos.

     

    15. (Admirável Expressão de Amor) Cite  características barrocas do poema.

    O poema todo é construído em torno de antíteses e paradoxos, exemplos: “não sei donde te nasce, ou não te nasce…”; metáfora: “fênix de amor”; duelo entre o corpo e alma “arder me viste”,  “minha alma está penando”; vida e morte “não sei se vou vivendo, ou acabando…”; o título é exagerado.

    16. (Lisongeia Outra vez…) Aponte o carpe diem  barroco neste poema.

     Goza, goza, da flor da mocidade / que o tempo trota a toda ligeireza, /  e imprime em toda flor sua pisada.

    17. (Ao Mesmo Assunto…) Analise o poema.

     Apesar do estilo de Gregório de Matos ser cultista, neste poema, o poeta utiliza o conceptismo, pois ele utiliza um argumento ardiloso em torno das ideias de pecado e salvação. O eu-lírico utiliza a metáfora da ovelha perdida, assim, ele que passar a ideia que quanto mais peca, mais Deus se preocupa com ele. Por meio do pecado, ele dá ao Criador oportunidade de exercitar sua onipotência e seus poderes de salvação perdoando seus pecados; o pecado é visto como razão da existência do perdão.

    18. (A Cristo S.N. Crucificado…) Parafraseie o poema e cite as características barrocas.

    O poema fala de um pecador aos pés de Deus implorando perdão (apela ao amor divino). Características: uso de antítese “viver/morrer”; amor a Deus x amor ao mundo; argumentação (conceptismo).

     

    19. (Moraliza o Poeta nos Ocidentes…) Cite as características barrocas.

    A fugacidade e efemeridade da vida, a inconstância dos bens do mundo, o confronto de ideias opostas, antíteses e paradoxos.

     

    20. (Desenganos da Vida…) Conforme anuncia o título, o poeta se referiu à vaidade por meio de metáforas. Quais?

    Rosa, planta, nau.

     

    21. O texto é predominantemente cultista ou conceptista? Por quê?

    Cultista. Valorização da forma, adjetivação, emprego de metáforas.

     

    LIVRO  LITERATURA BRASILEIRA: TEMPO, LEITURA E LEITORES – BARROCO –  MARIA LUÍZA ABAURRE   E  MARCELA PONTARA (P. 153 A 179)

     

    22. (Ato de contrição – Gregório de Matos) O texto apresenta um dualismo barroco, explique.

    O eu-lírico confessa que esteve no caminho da perdição, porém, quer lavar-se dos seus pecados. O poeta usa o termo lavar como metáfora para limpar os pecados, ele utiliza de forma hiperbólica, exagerada, bem a gosto barroco.

     

    23. Quais são os agentes do discurso?

    No momento em que as obras barrocas começaram a ser produzidas, a circulação dos textos literários ainda eram bastante restritas à corte, centro de poder, e às universidades, centros de saber. Para criar condições de um diálogo contínuo e produtivo entre os diferentes escritores, surgem as Academias, agremiações culturais em que eles se reúnem para ler e estudar a poesia e os tratados de retórica dos clássicos latinos. Com base nesses textos, realizam competições literárias para avaliar quem melhor reproduz os modelos clássicos da retórica e da composição.

     

    23. Explique qual era o público do barroco.

    Fruto de muito estudo e trabalho, a poesia barroca é escrita por poetas para poetas. As disputas literárias, promovidas nas Academias, estimulam a sofisticação dos  textos, porque o objetivo é demonstrar o melhor domínio da retórica clássica no desenvolvimento de temas consagrados.

     

    24. Explique as características: fusionismo, culto do contraste, pessimismo, feísmo, rebuscamento, dinamismo e teatralidade.

    Fusionismo – o termo se refere à fusão das visões medieval e renascentistas. Culto do contraste – como consequência da dualidade na maneira de ver o mundo e interpretar as coisas, o Barroco tende a aproximar os opostos. Pessimismo – a religiosidade acentuada pelas disputas entre protestantes e católicos emprestou um caráter mais dramático à vida no século XVII. O feísmo – manifestando o pessimismo dos autores, várias obras barrocas exploram a miséria da condição humana, apresentada em alguns aspectos cruéis, dolorosos e, muitas vezes, repugnante.  Rebuscamento – refere-se à ornamentação excessiva, o artista barroco é detalhista ao compor. Dinamismo e teatralidade – o artista barroco deseja criar sensação de movimento, que representa a instabilidade do período. As linhas curvas utilizadas na pintura opõem-se claramente às retas que orientaram a arte renascentista. Os traços hiper-realistas dão um caráter mais exagerado, teatral, destinado a chocar o observador.

    25. Qual o projeto literário do barroco?

    Desencadear reação em um público específico / provocar espanto / produzir textos sofisticados.

     

    26. (Aos afetos, e lágrimas derramadas…) Quais são os dois elementos da natureza que se opõem e representam as contradições que o sentimento amoroso desperta no eu lírico? O que cada um simboliza no poema?

    O fogo (ardor) e a água (pranto, contenção). O fogo simboliza a paixão que toma o eu lírico e a água, o pranto pelo sofrimento amoroso, mas também pode ser interpretada como a contenção dessa paixão (a neve, que se derrete diante do sentimento amoroso).

     

    27. O eu lírico afirma que o amor “temperou” sua tirania. De que maneira isso foi feito? Por quê?

     O amor, segundo o eu lírico, utilizou uma estratégia para  “disfarçar” a sua tirania, fazendo com que parecesse menos ameaçadora: o que ele desejava era despertar um sentimento mais arrebatado (“como quis que aqui fosse a neve ardente”) que eliminasse qualquer defesa ou prudência contra a paixão. Para que isso de fato acontecesse, fez com que a paixão parecesse, primeiro, um sentimento contido (“permitiu parecesse chama fria”). Assim, garantiu que o eu lírico não se precavesse contra a paixão que ameaçava dominá-lo.

     

    28. (Aos afetos, e lágrimas derramadas…) Quem é o interlocutor a quem o eu lírico se refere?

    O interlocutor ( a pessoa com quem se fala) é o sentimento amoroso, a paixão).

     

    29. (Aos afetos, e lágrimas derramadas…) Qual é o questionamento feito pelo eu lírico no segundo e terceiro verso?

    O eu lírico questiona a contradição na manifestação do sentimento amoroso: se ele é fogo, não deveria passar brandamente; se é neve, não poderia queimar tanto. Mais uma vez, temos as contradições da paixão, que confundem o eu lírico por sua manifestação conflituosa.

     

    30. Quais são as três condições necessárias para funcionar um sistema literário?

    Ter possibilidade de publicação, circulação e público.

     

    31. Sobre a montagem argumentativa do sermão de Antônio Vieira: O que ele usava para persuadir sua plateia? (combinava trechos marcados pela formalidade com outros dominados pela oralidade e pela descontração). Ele usava paralelismo, o que é isso? (repetição de estruturas sintáticas). O que Vieira utilizava nos sermões que ajudava os fiéis a compreender as passagens mais obscuras da doutrina católica? (metáforas e analogias). O sermão barroco deveria utilizar uma posição moral por meio de quê? (por meio de uma imagem que, associada a um fato ou a uma citação da Bíblia, pudesse ser um símbolo da posição a ser defendida)

     

    32. (Pintura admirável – Gregório) Como o eu lírico caracteriza a amada?

    Como algo superior, fantástico, está acima da natureza. Usa aspectos conceptistas.

     

    33. (Buscando a Cristo – Gregório) Analise  o poema.

    Esse soneto ilustra uma característica típica do estilo barroco: o uso de situações ambivalentes, que possibilitam dupla interpretação. Assim, os braços de Cristo são apresentados como abertos e cravados (presos); seus olhos estão despertos e fechados. Cada um desses estados permite ao poeta fazer uma interpretação sempre positiva do gesto divino. Os braços estão abertos para acolher o fiel que se dirige a Deus e cravados para não castigá-lo pelos pecados que cometeu. O mesmo é verdade para os olhos. Quando abertos, simbolizam o perdão divino; quando fechados, a recusa a condenar o pecador arrependido.

     

    34. (Reprovações – Gregório) Analise o poema.

    O olhar crítico de Gregório de Matos revela aspectos negativos da vida na Bahia e em Pernambuco em fins do século XVII.  Ele denuncia, com irreverência, a corrupção econômica dos políticos e a corrupção moral dos padres e freiras. Como ele mesmo afirmou em um de seus textos: “Eu falo, seja o que for”.

    35. Analise o poema a seguir de Manuel Botelho?


    À ILHA DE MARÉ

    Jaz oblíqua forma e prolongada

     

    a terra de Maré toda cercada

    de Netuno, que tendo o amor constante,

    lhe dá muitos abraços por amante,

    e botando-lhe os braços dentro dela

    a pretende gozar, por ser mui bela.

     

    Nesta assistência tanto a senhoreia,

    e tanto a galanteia,

    que, do mar, de Maré tem o apelido,

    como quem preza o amor de seu querido:

     

    e por gosto das prendas amorosas

     

    fica maré de rosas,

    e vivendo nas ânsias sucessivas,

    são do amor marés vivas;

    e se nas mortas menos a conhece,

    maré de saudades lhe parece.

     

    Vista por fora é pouco apetecida,

     

    porque aos olhos por feia é parecida;

    porém dentro habitada

    é muito bela, muito desejada,

    é como a concha tosca e deslustrosa,

    que dentro cria a pérola fermosa.

    Erguem-se nela outeiros

     

    com soberbas de montes altaneiros,

    que os vales por humildes desprezando,

    as presunções do Mundo estão mostrando,

    e querendo ser príncipes subidos,

    ficam os vales a seus pés rendidos.

     

    Por um e outro lado

     

    vários lenhos se vêem no mar salgado;

    uns vão buscando da Cidade a via,

    outros dela se vão com alegria;

    e na desigual ordem

    consiste a fermosura na desordem.

     

    Os pobres pescadores em saveiros,

     

    em canoas ligeiros,

    fazem com tanto abalo

    do trabalho marítimo regalo;

    uns as redes estendem,

    e vários peixes por pequenos prendem;

    que até nos peixes com verdade pura

    ser pequeno no Mundo é desventura:

    outros no anzol fiados têm

    aos míseros peixes enganados,

    que sempre da vil isca cobiçosos

    perdem a própria vida por gulosos.

     

    Aqui se cria o peixe regalado

     

    com tal sustância, e gosto preparado,

    que sem tempero algum para apetite

    faz gostoso convite,

    e se pode dizer em graça rara

    que a mesma natureza os temperara.

     

    Não falta aqui marisco saboroso,

     

    para tirar fastio ao melindroso;

    os polvos radiantes,

    os lagostins flamantes,

    camarões excelentes,

    que são dos lagostins pobres parentes;

    retrógrados cranguejos,

    que formam pés das bocas com festejos,

    ostras, que alimentadas

    estão nas pedras, onde são geradas;

    enfim tanto marisco, em que não falo,

    que é vário perrexil para o regalo.

     

    As plantas sempre nela reverdecem,

     

    e nas folhas parecem,

    desterrando do Inverno os desfavores,

    esmeraldas de Abril em seus verdores,

    e delas por adorno apetecido

    faz a divina Flora seu vestido.

     

    As fruitas se produzem copiosas,

     

    e são tão deleitosas,

    que como junto ao mar o sítio é posto,

    lhes dá salgado o mar o sal do gosto.

    As canas fertilmente se produzem,

    e a tão breve discurso se reduzem,

    que, porque crescem muito,

    em doze meses lhe sazona o fruito,

    e não quer, quando o fruto se deseja,

    que sendo velha a cana, fértil seja.

     

    As laranjas da terra

     

    poucas azedas são, antes se encerra

    tal doce nestes pomos,

    que o tem clarificado nos seus gomos;

    mas as de Portugal entre alamedas

    são primas dos limões, todas azedas.

     

    Nas que chamam da China

     

    grande sabor se afina,

    mais que as da Europa doces, e melhores,

    e têm sempre a ventagem de maiores,

    e nesta maioria,

    como maiores são, têm mais valia.

     

    Os limões não se prezam,

     

    antes por serem muitos se desprezam.

    Ah se Holanda os gozara!

    Por nenhuma província se trocara.

     

    As cidras amarelas

     

    caindo estão de belas,

    e como são inchadas, presumidas,

    é bem que estejam pelo chão caídas.

     

    As uvas moscatéis são tão gostosas,

     

    tão raras, tão mimosas;

    que se Lisboa as vira, imaginara

    que alguém dos seus pomares as furtara;

    delas a produção por copiosa

    parece milagrosa,

    porque dando em um ano duas vezes,

    geram dous partos, sempre, em doze meses.

     

    Os melões celebrados

     

    aqui tão docemente são gerados,

    que cada qual tanto sabor alenta,

    que são feitos de açúcar, e pimenta,

    e como sabem bem com mil agrados,

    bem se pode dizer que são letrados;

    não falo em Valariça, nem Chamusca:

    porque todos ofusca

    o gosto destes, que esta terra abona

    como próprias delícias de Pomona.

     

    As melancias com igual bondade

     

    são de tal qualidade,

    que quando docemente nos recreia,

    é cada melancia uma colmeia,

    e às que tem Portugal lhe dão de rosto

    por insulsas abóboras no gosto.

     

    Aqui não faltam figos,

     

    e os solicitam pássaros amigos,

    apetitosos de sua doce usura,

    porque cria apetites a doçura;

    e quando acaso os matam

    porque os figos maltratam,

    parecem mariposas, que embebidas

    na chama alegre, vão perdendo as vidas.

     

    As romãs rubicundas quando abertas

     

    à vista agrados são, à língua ofertas,

    são tesouro das fruitas entre afagos,

    pois são rubis suaves os seus bagos.

    As fruitas quase todas nomeadas

    são ao Brasil de Europa trasladadas,

    por que tenha o Brasil por mais façanhas

    além das próprias fruitas, as estranhas.

     

    E tratando das próprias, os coqueiros,

     

    galhardos e frondosos

    criam cocos gostosos;

    e andou tão liberal a natureza

    que lhes deu por grandeza,

    não só para bebida, mas sustento,

     

    o néctar doce, o cândido alimento.

     

    De várias cores são os cajus belos,

    uns são vermelhos, outros amarelos,

    e como vários são nas várias cores,

    também se mostram vários nos sabores;

    e criam a castanha,

    que é melhor que a de França, Itália, Espanha.

     

    As pitangas fecundas

     

    são na cor rubicundas

    e no gosto picante comparadas

    são de América ginjas disfarçadas.

     

    As pitombas douradas, se as desejas,

     

    são no gosto melhor do que as cerejas,

    e para terem o primor inteiro,

    a ventagem lhes levam pelo cheiro.

     

    Os araçazes grandes, ou pequenos,

     

    que na terra se criam mais ou menos

    como as pêras de Europa engrandecidas,

    com elas variamente parecidas,

    de várias castas marmeladas belas.

     

    As bananas no Mundo conhecidas

     

    por fruto e mantimento apetecidas,

     

    que o céu para regalo e passatempo

    liberal as concede em todo o tempo,

    competem com maçãs, ou baonesas

    com peros verdeais ou camoesas.

    Também servem de pão aos moradores,

    se da farinha faltam os favores;

    é conduto também que dá sustento,

    como se fosse próprio mantimento;

    de sorte que por graça, ou por tributo,

    é fruto, é como pão, serve em conduto.

     

    A pimenta elegante

     

    é tanta, tão diversa, e tão picante,

    para todo o tempero acomodada,

    que é muito aventajada

    por fresca e por sadia

    à que na Ásia se gera, Europa cria.

     

    O mamão por frequente

     

    se cria vulgarmente,

    e não o preza o Mundo,

    porque é muito vulgar em ser fecundo.

     

    O maracujá também gostoso e frio

     

    entre as fruitas merece nome e brio;

    tem nas pevides mais gostoso agrado,

    do que açúcar rosado;

    é belo, cordial, e como é mole,

    qual suave manjar todo se engole.

     

    Vereis os ananases,

     

    que para rei das fruitas são capazes;

    vestem-se de escarlata

    com majestade grata,

    que para ter do Império a gravidade

    logram da croa verde a majestade;

    mas quando têm a croa levantada

    de picantes espinhos adornada,

    nos mostram que entre Reis, entre Rainhas

    não há croa no Mundo sem espinhas.

    Este pomo celebra toda a gente,

    é muito mais que o pêssego excelente,

    pois lhe leva aventagem gracioso

    por maior, por mais doce, e mais cheiroso.

     

    Além das fruitas, que esta terra cria,

     

    também não faltam outras na Bahia;

    a mangava mimosa

    salpicada de tintas por fermosa,

    tem o cheiro famoso,

    como se fora almíscar oloroso;

    produze-se no mato

    sem querer da cultura o duro trato,

    que como em si toda a bondade apura,

    não quer dever aos homens a cultura.

    Oh que galharda fruita, e soberana

    sem ter indústria humana,

    e se Jove as tirara dos pomares,

    por ambrósia as pusera entre os manjares!

     

    Com a mangava bela a semelhança

     

    do macujé se alcança;

    que também se produz no mato inculto

    por soberano indulto:

    e sem fazer ao mel injusto agravo,

    na boca se desfaz qual doce favo.

     

    Outras fruitas dissera, porém, basta

     

    das que tenho descrito a vária casta;

    e vamos aos legumes, que plantados

    são do Brasil sustentos duplicados:

     

    os mangarás que brancos, ou vermelhos,

     

    são da abundância espelhos;

    os cândidos inhames, se não minto,

    podem tirar a fome ao mais faminto.

     

    As batatas, que assadas, ou cozidas

     

    são muito apetecidas;

    delas se faz a rica batatada

    das Bélgicas nações solicitada.

     

    Os carás, que de roxo estão vestidos,

     

    são loios dos legumes parecidos,

    dentro são alvos, cuja cor honesta

    se quis cobrir de roxo por modesta.

     

    A mandioca, que Tomé sagrado

     

    deu ao gentio amado,

    tem nas raízes a farinha oculta:

    que sempre o que é feliz, se dificulta.

     

    E parece que a terra de amorosa

     

    se abraça com seu fruto deleitosa;

    dela se faz com tanta atividade

    a farinha, que em fácil brevidade

    no mesmo dia sem trabalho muito

    se arranca, se desfaz, se coze o fruito;

     

    dela se faz também com mais cuidado

     

    o beiju regalado,

    que feito tenro por curioso amigo

    grande ventagem leva ao pão de trigo.

     

    Os aipins se aparentam

     

    coa mandioca, e tal favor alentam,

    que tem qualquer, cozido, ou seja assado,

    das castanhas da Europa o mesmo agrado.

     

    O milho, que se planta sem fadigas,

     

    todo o ano nos dá fáceis espigas,

    e é tão fecundo em um e em outro filho,

    que são mãos liberais as mãos de milho.

     

    O arroz semeado

     

    fertilmente se vê multiplicado;

    cale-se de Valença, por estranha

    o que tributa a Espanha,

    cale-se do Oriente

    o que come o gentio, e a lísia gente;

    que o do Brasil quando se vê cozido

    como tem mais substância, é mais crescido.

     

    Tenho explicado as fruitas e legumes,

     

    que dão a Portugal muitos ciúmes;

    tenho recopilado

    o que o Brasil contém para invejado,

    e para preferir a toda a terra,

    em si perfeitos quatro AA encerra.

    Tem o primeiro A, nos arvoredos

    sempre verdes aos olhos, sempre ledos;

    tem o segundo A, nos ares puros

    na tempérie agradáveis e seguros;

    tem o terceiro A, nas águas frias,

    que refrescam o peito, e são sadias;

    o quatro A, no açúcar deleitoso,

    que é do Mundo o regalo mais mimoso.

     

    São pois os quatro AA por singulares

     

    Arvoredos, Açúcar, Águas, Ares.

    Nesta ilha está mui ledo, e mui vistoso

    um Engenho famoso,

    que quando quis o fado antigamente

    era Rei dos engenhos preminente,

    e quando Holanda pérfida e nociva

    o queimou, renasceu qual Fênix viva.

     

    Aqui se fabricaram três capelas

     

    ditosamente belas,

    uma se esmera em fortaleza tanta,

    que de abóbada forte se levanta;

    da Senhora das Neves se apelida,

    renovando a piedade esclarecida,

    quando em devoto sonho se viu posto

    o nevado candor no mês de agosto.

     

    Outra capela vemos fabricada,

    A Xavier ilustre dedicada,

    que o Maldonado Pároco entendido

    este edifício fez agradecido

    a Xavier, que foi em sacro alento

    glória da Igreja, do Japão portento.

     

    Outra capela aqui se reconhece,

     

    cujo nome a engrandece,

    pois se dedica à Conceição sagrada

    da Virgem pura sempre imaculada,

    que foi por singular e mais fermosa

    sem manchas lua, sem espinhos rosa.

     

    Esta Ilha de Maré, ou de alegria,

     

    que é termo da Bahia,

    tem quase tudo quanto o Brasil todo,

    que de todo o Brasil é breve apodo;

    e se algum-tempo Citeréia a achara,

    por esta sua Chipre desprezara,

    porém tem com Maria verdadeira

    outra Vênus melhor por padroeira.

     

     

     

    Metáfora da Bahia como a Ilha de Maré, destaca o que há na terra, diz que geograficamente é melhor que a Europa, os limões são melhores que os da Holanda, as uvas melhores dos que as de Lisboa etc…

    O poema é ufanista, praticamente não aparecem características barrocas, salvo algum foco de religiosidade e o rebuscamento no texto.

     

    36. Analise o trecho do poema Prosopopeia de Bento Teixeira

     

    1

    Cantem Poetas o Poder Romano,

    Sobmetendo Nações ao jugo duro;

    O Mantuano pinte o Rei Troiano,

    Descendo à confusão do Reino     escuro;

    Que eu canto um Albuquerque     soberano,

    Da Fé, da cara Pátria firme muro,

    Cujo valor e ser, que o Ceo lhe     inspira,

    Pode estancar a Lácia e Grega lira.

    2

    As Délficas irmãs chamar não quero,

    que tal invocação é vão estudo;

    Aquele chamo só, de quem espero

    A vida que se espera em fim de     tudo.

    Ele fará meu Verso tão sincero,

    Quanto fora sem ele tosco e rudo,

    Que per rezão negar não deve o     menos

    Quem deu o mais a míseros terrenos.

    3

    E vós, sublime Jorge, em quem se     esmalta

    A Estirpe d’Albuquerques excelente,

    E cujo eco da fama corre e salta

    Do Cauro Glacial à Zona ardente,

    Suspendei por agora a mente alta

    Dos casos vários da Olindesa gente,

    E vereis vosso irmão e vós supremo

    No valor abater Querino e Remo.

    4

    Vereis um sinil ânimo arriscado

    A trances e conflictos temerosos,

    E seu raro valor executado

    Em corpos Luteranos vigurosos.

    Vereis seu Estandarte derribado

    Aos Católicos pés victoriosos,

    Vereis em fim o garbo e alto brio

    Do famoso Albuquerque vosso Tio.

     

    5

    Mas em quanto Talia no se atreve,

    No Mar do valor vosso, abrir     entrada,

    Aspirai com favor a Barca leve

    De minha Musa inculta e mal limada.

    Invocar vossa graça mais se deve

    Que toda a dos antigos celebrada,

    Porque ela me fará que participe

    Doutro licor milhor que o de     Aganipe.

    6

    O marchetado Carro do seu Febo

    Celebre o Sulmonês, com falsa     pompa,

    E a ruína cantando do mancebo,

    Com importuna voz, os ares rompa.

    Que, posto que do seu licor não     bebo,

    À fama espero dar tão viva trompa,

    Que a grandeza de vossos feitos     cante,

    Com som que Ar, Fogo, Mar e Terra     espante

     

    NARRAÇÃO

    7

    A Lâmpada do Sol tinha encuberto,

    Ao Mundo, sua luz serena e pura,

    E a irmã dos três nomes descuberto

    A sua tersa e circular figura.

    Lá do portal de Dite, sempre     aberto,

    Tinha chegado, com a noite escura,

    Morfeu, que com subtis e lentos     passos

    Atar vem dos mortais os membros     lassos.

    8

    Tudo estava quieto e sossegado,

    Só com as flores Zéfiro brincava,

    E da vária fineza namorado,

    De quando em quando o respirar     firmava

    Até que sua dor, d’amor tocado,

    Per antre folha e folha declarava.

    As doces Aves nos pendentes ninhos

    Cubriam com as asas seus filhinhos.

     

    Embora     esta obra seja o marco do Barroco no Brasil (fato que ocorre pelo fato de     ser a primeira produção de tentativa brasileira), não há características     barrocas. O poema apresenta estilo de epopéia, a divisão é feita por:     prólogo, narração, descrição do Recife de Pernambuco e epílogo. O poema é     encomiástico, foi feito em homenagem ao Capitão e Governador da Capitania     de  Pernambuco Jorge de Albuquerque     Coelho. No prólogo, o poeta se coloca como vassalo do senhor Jorge de     Albuquerque.

     

     

     
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