Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado

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  • Análise de Breno Moraiz, acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas e ex-aluno da Fundação Nokia de Ensino.

    Revisão e introdução: Profª.   Marijane Fernandes.

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    Introdução

     A literatura, sem dúvida, é vida, a nossa vida, é possível encontrá-la em todas as áreas da nossa história. Quando Breno, um verdadeiro admirador da literatura, mandou-me esta análise literária de acordo com a perspectiva do Direito, deu-me a oportunidade de confirmar que todo tempo disponibilizado em sala de aula para o estudo da literatura é válido. Algo que eu sempre soube e que sempre compartilhei com os meus alunos, sei que vai além, por isso, um importante conceito de literatura  geral, não a específica, é que ela é acessível a todos, é importante para todos, é a vivência da humanidade. Não importa qual profissão você escolheu, a literatura (essa de Drummond, Fernando Pessoa, Gregório de Matos, Camões, Vitor Hugo e outros,  às vezes, tão maltratados por quem não compreende a verdadeira essência da literatura) sempre acompanhará o desenrolar da nossa história.

    Assim, perceba em Dona Flor e Seus Dois Maridos uma oportunidade de ampliar a sua visão crítica, não se conforme somente com essa análise, vá além, essa também é a função da literatura: despertar o desejo de busca, seja para concordar, discordar ou ampliar conhecimentos, porém, essa busca deve ser sincera, analisada e compartilhada.

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      Análise:

    DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS – JORGE AMADO

     
    O livro Dona Flor e Seus Dois Maridos conta a história de Florípedes Paiva (Dona Flor), que conhece, em seus dois casamentos, a dupla face do amor. Com o primeiro marido, o boêmio Vadinho, ela vive uma paixão avassaladora, erotismo febril, ciúme que corrói. Já com o farmacêutico Teodoro, seu segundo marido, ela encontra a paz doméstica, a segurança material, a tranquilidade, poderia se dizer o amor mais metódico. Um dia, porém, Vadinho retorna em forma de fantasma, mudando a realidade de Dona Flor.

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    *Lênio Streck conta em seu programa Direito & Literatura, que, segundo Jorge Amado, o livro é baseado na história real de uma senhora que teve um boêmio como primeiro marido, este faleceu, depois casou pela segunda vez e, durante este casamento, passou a sonhar com o primeiro marido, –  “Honesta e de uma moral acima de qualquer desvio, dona Flor começa a sofrer sem saber o que fazer, e no final, impressiona o próprio Jorge Amado, ao sucumbir aos encontros do marido morto” –  narra o apresentador.

    Na visão do professor Araújo, o livro é uma continuidade de Gabriela Cravo e Canela, no sentido em que Jorge Amado adota um narrador pitoresco, alegre, que faz comentários meio patifes, chama o leitor para a conversa.

    Na visão do apresentador de Direito e Literatura, embora não haja uma letra, uma frase sobre Direito, talvez este seja o livro mais indicado para fazer a relação entre direito e literatura, por trazer as duas grandes faces do tema, os conservadores e os progressistas.
    O livro de Jorge Amado permite esse relação, “pois já em 84 foi lançado A Ciência Jurídica e Seus Dois Maridos, de Luís Alberto Warat, que faz uma ressalva inaugural. Warat trabalha com a ideia de um texto carnavalizado, tomando emprestada a dualidade dialógica entre Vadinho e Teodoro” –  compara o professor de direito, Bolzan.
    Segundo Lênio Streck, a figura do legislador invoca esse discurso monológico, representado por Teodoro, o segundo marido bem comportado. Já o discurso crítico, de inversão, é representado por Vadinho, o boêmio. A obra questiona justamento se é possível essa convivência no Direito ou se existe uma prevalência do Teodoro jurídico sobre o Vadinho.

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    Numa crítica sobre a publicação feita pelo antropólogo Roberto da Mata, Teodoro é colocado como representante da ordem, enquanto Vadinho seria o progresso, por simbolizar a mudança.

    “Há uma teodorização do Direito, este é vivido como uma forma dogmática, fechada, é preciso Vadinhar o Direito, tentar compreender o direito, produzir um discurso que não seja apaziguador, mas que fomente esse caráter mais desejante. Sem reprimir o amor, o desejo, uma postura mais transgressora” reflete o convidado, o livro mostra a ambivalência entre a segurança de Teodoro e a flexibilidade de Vadinho. Todo tempo vivemos a tentação tranquilizadora, que pode ser a paz dos cemitérios. Dona Flor está tentando puxar para dentro de casa a alegria das ruas, sintetizada na imagem de Vadinho.
    Outra interpretação pode ser a das duas máscaras petrificadas. Uma da dogmática jurídica, com todas as suas mazelas, e outra máscara da carnavalização pela crítica. Dona Flor acaba convivendo com as duas.

    E por fim o programa conclui que é preciso colocar uma porção de Vadinho no Teodoro do Direito.

    Quem é Lênio Streck?

    * Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

    O programa Direito & Literatura é uma atração televisiva apresentado pelo professor e procurador de justiça Lenio Luiz Streck. Produzido pelo Instituto de Hermenêutica Jurídica (IHJ), em parceria com a Fundação Cultural Piratini (TVE/RS), é apresentado semanalmente por este canal e pela TV Justiça.[1]. Patrocinado pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Unisinos, o programa tradicionalmente apresenta debates entre professores do Direito e da Literatura, com o objetivo de difundir, no Brasil, o estudo das interfaces existentes nessas duas áreas do conhecimento: O Direito contado a partir da Literatura, possibilitando, assim, que se desenvolva um novo modo de pensar o direito e, sobretudo, de compreender os fenômenos sociais no interior das culturas jurídica e literária. Traz ao conhecimento do público obras que marcaram gerações, levantando questões e proporcionando debates sobre temas da atualidade que se relacionam com obras da literatura. Através da discussão de obras literárias, o programa oferece uma complexa contextualização no campo da cultura.

     
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